‘Pequenas epifanias’ de (mais) uma ‘inglesa romântica’

Lark Rise to Candleford 2“Vivemos os últimos anos cercados por todos estes monumentos ‘ao que poderia ter sido’”.

Eu sei, perdida assim em um blog de cinema, desgarrada da cena de onde a pincei, esta fala não tem grande impacto. Mas no contexto de um episódio da minissérie “Lark Rise to Candleford” (minha última “mais nova paixão produzida pela BBC”) conectou-me instantaneamente com mil sentimentos não-ditos no diálogo deste romance tipicamente inglês.
Digo “tipicamente” no melhor sentido, pois minhas experiências com autoras inglesas da era vitoriana têm provado, a cada nova obra descoberta, que nada há de trivial ou superficial nos diálogos cheios de duplos sentidos e subtextos de seus livros, por mais que pareçam frios, formais e frívolos.
Depois de Jane Austen – a mais filmada de “minhas inglesas românticas” (vide “Orgulho e Preconceito”, “Emma”, “Razão e Sensibilidade”, etc) e Elisabeth Gaskell (“Norte e Sul”), descubro agora Flora Thompson, autora da trilogia semi-biográfica que inspirou “Lark Rise to Candleford”. A obra original conta suas memórias de infância e juventude passadas numa zona rural ao nordeste da Inglaterra, no século 19.

Os três livros -“Lark Rise”, “Candleford” e “Candleford Green”, segundo a Wikipédia, pois ainda não os li – viraram a série da BBC, dividida em quatro temporadas.
Foi do penúltimo episódio da primeira temporada que pincei a fala que abre este post. Não adiantarei nada sobre a cena ou seu contexto para não estragar o prazer de quem se interessar em assistir à série. Mas preciso dizer que fez-me lembrar um LINDÍSSIMO texto de Caio Fernando Abreu que cultuo há pelo menos 15 anos – por indicação de uma grandicíssima amiga -, por sua beleza, sensibilidade e pela carga de sentimentos que consegue transmitir por meio de palavras simples magicamente combinadas.
O mesmo texto referencia outro lindamente escrito por Clarice Lispector relatando o encontro de uma menina ruiva e um cachorro basset, que se olham e “cintilam, prometidos” (que linda combinação de palavras simples, não?), mas nada acontece, como na possibilidade de amor descrita por Caio em seu texto. Em ambos os casos, porém, fica a sensação de que se testemunhou em pequeno milagre – “Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia”, na descrição de Caio para as “Pequenas Epifanias” de que trata seu texto (não por acaso este é o título dele).
A esta altura, o leitor que teve paciência de ler o post até aqui já sabe que o episódio que contém a fala de abertura tem a ver com uma possibilidade de amor perdida. O que não sabe é de que forma os gestos estudados, as expressões camufladas e os diálogos aparentemente formais do romance deixam entrever, por entrelinhas, esta “pequena epifania” incrustada no cotidiano daqueles contidos ingleses.
Isto é o que mais gosto na leitura de “minhas inglesas românticas”: o ato de escarafunchar entre sua prosa e os episódios aparentemente triviais de seus romances toda a gama de paixões sugeridas. É como se compartilhássemos, só eu e a autora, de um segredo valioso… às vezes doloroso… mas sempre apaixonante!

A SEGUIR, O TEXTO DE CAIO FERNANDO ABREU, A QUEM SE INTERESSAR:

PEQUENAS EPIFANIAS

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector “Tentação” na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso – aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.”

(Publicado no jornal “O Estado de S. Paulo”, 22/04/1986)

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