Categoria: CINÉLIDE

Blog de cinema e séries da jornalista Silvia Pereira

X-Men Origens: Wolverine fica abaixo da franquia

Fã que sou da série “X-Men”, estava ansiosa para assistir ao último produto da franquia, “X-Men Origens: Wolverine”, com a história pregressa do herói da série. Assisti, mas o filme não me ganhou como os antecessores, apesar de reunir os principais requisitos de um eficiente filme de ação e ficção científica – um galã lindo, viril e carismático; efeitos especiais de última geração e uma história bem amarrada (apesar de improvável como a maioria das ficções científicas).

Para mim, faltou o ingrediente que mais me entusiasmou na trilogia que o antecedeu: uma ou mais questões filosóficas propostas -ou provocadas- por cada trama.

“X-Men – O Filme” nos apresentou pela primeira vez os vários lados de um impasse social. Em um futuro próximo, pessoas cuja carga genética pularam um degrau à frente na escada evolucionária humana são dotadas de algum dom ou poder especial. Chamadas mutantes, elas são temidas pela sua diferença e, por isso mesmo, segregadas, discriminadas, como todas as minorias antes delas na história da humanidade.

Os três filmes da série mostram como diferentes mutantes lidam de diferentes formas com o preconceito de que são vítimas. Na escola para superdotados do Professor Xavier, jovens mutantes são estimulados a compreender o medo que causam e a lidar com a discriminação pelo caminho da tolerância. Fora dali, o temível Magneto, mutante com a capacidade de manipular qualquer metal interpretado pelo excelente Ian McKellen (o Gandalf de “O Senhor dos Anéis”), lidera revoltosos na criação de planos para arrasar com a humanidade que os humilha.

Entre essas duas vertentes, aparece a figura do herói solitário Logan-Wolverine, mutante indestrutível graças ao seu poder de regeneração e a um esqueleto forjado de um metal não encontrado na natureza terrestre, o adamantium. Um mistério ronda sua história, que ele mesmo é incapaz de lembrar.

Enquanto os humanos “normais” votam leis que violam os direitos individuais dos mutantes (qualquer semelhança com a neurose “pós-11desetembro” que acometeu os EUA não é mera coincidência), nos bastidores as duas facções de “enjeitados” travam uma batalha atrás de outra, às vezes em lados opostos -quando a turma de Xavier defende os humanos da turma de Magneto, que quer o extermínio deles-, outras vezes lado a lado, quando têm que defender toda a Terra de uma ameaça em comum. No meio disso tudo, Wolverine encontra tempo para flertar com a professora com poderes telecinéticos interpretada por Famke Janssen.

Cada sequencia com mais imaginação, os três filmes sustentam discussões ricas sobre como lidar com “o diferente que ameaça”. O segundo acrescenta vários pontos de interrogação à história de Wolverine com o aparecimento do vilão Strikker. O terceiro, além de apresentar uma escolha difícil aos mutantes, com a descoberta de uma vacina que faz regredir seus dons, ganha toques de tragédia com a liberação do lado obscuro da personalidade da telecinética de Famke Janssen – a esta altura o grande amor de Wolverine.

Nenhuma das questões filosóficas levantadas – como proceder diante do diferente? (atacando para se defender? Tentando a convivência pacífica? Ficando longe?”); “Como se posicionar sendo diferente?” (vingando-se da segregação? tentando compreender o medo? tentando mostrar que não oferece perigo?); “aceitar ou negar a própria diferença?” – tem uma só resposta e nenhuma das respostas possíveis é simples ou fácil. Reside nisso toda a riqueza da série, que desperta a reflexão, nos incita a nos imaginar nos papéis dos personagens, nos faz pensar e encontrar analogias dessas situações em nossa vida real.

Lembro-me de uma cena de “X-Men 2” em que um jovem aluno da escola de Xavier decide contar aos pais que tem dons mutantes. “Pode ser consertado?”, “É algo que você pode escolher não ser?”, perguntam os pais após o filho “sair do armário”. Acredito que isso tenha lembrado a muitos gays a ocasião em que revelaram sua opção sexual aos familiares.

“X-Men Origens…” (veja trailer abaixo) não propõe muito em que pensar. Sugere fracamente um dilema interior de Wolverine entre ser humano e deixar sua natureza animal aflorar. Nada que encontre similares na realidade ou suscite mais de uma resposta. Em relação aos outros filmes da série, é superficial.

No lugar de uma inteligente e profunda saga de ficção científica, restringe-se a “mais um” filme de ação como as centenas de outros que Hollywood lança todos os meses. Uma pena, já que alguns de nós não quer só “diversão e arte”… quer também pensar enquanto se diverte.

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Richard Armitage

Richard Armitage

Se você considerar separadamente cada traço do inglês Richard Armitage – os lábios muito finos para o tamanho da arcada (levemente recuada em relação ao queixo meio pontudo), o nariz grande e mal desenhado e os olhos fundos – concordará que ele também não se encaixa no padrão masculino de beleza do cinema.

Mas assista-o utilizando este conjunto na interpretação de uma cena de grande emoção (como a que postei ao final deste texto, por exemplo). O olhos azuis claros adquirem uma intensidade de agulha, os músculos da face se contraem à mercê da expressão e a boca articula com ferocidade e determinação. E a voz…

Ahhhh, a voz de Richard Armitage…! Como no caso de Matthew MacFadyen, é seu grande trunfo, com a diferença de que Armitage é muuuuito melhor ator. A ira de seus personagens dá medo, bem como sua tristeza desperta vontade de niná-lo ou sua expressão amorosa faz derreter. Por este motivo não entendo o porquê de sua carreira continuar restrita à TV inglesa, onde até recentemente ele arrancava suspiros no papel de Guy of Gisborne, do seriado “Robin Hood”.

No “The Internet Movie Database” – o banco de dados mais completo sobre o mundo do entretenimento na rede – consta que ele emenda um trabalho em outro na TV desde 1999, sempre em episódios de minisséries ou seriados. Não encontrei nenhum longa metragem em sua cinematografia, mas o registro de experiências anteriores em teatro e musicais explicam a voz forte e sempre bem colocada, o talento interpretativo, a boa linguagem corporal e a grande presença em cena.

Eu o conheci na pele de John Thornton, protagonista de “Norte e Sul”, adaptação em quatro capítulos feita pela BBC de romance homônimo da inglesa Elisabeth Gaskell, cuja obra se assemelha em muitos pontos à de outra inglesa muito filmada pelo cinema ocidental: Jane Austen.

Assisti à série e A-DO-REI! Principalmente, claro, devido à atuação de Armitage. Entendi porque os fãs de Jane Austen estavam defendendo a sua escolha para o papel de Mr. Knightley na adaptação de “Emma” que a BBC rodou em 2009 (volta-e-meia a emissora inglesa programa uma nova adaptação de uma obra da escritora). Mas o escolhido foi mesmo Johnny Lee Miller, o protagonista da série “Eli Stone”, da Sony, que já viveu antes um personagem de Austen: foi Edmund na versão para o cinema de “Mansfield Park” (que no Brasil passou com o título de “Palácio das Ilusões”). A Emma de 2009 tem a atuação de Romola Garai, a boazinha Amélia de “Feira de Vaidades” e a Briony adulta de “Desejo e Reparação”.

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Dúvida: todas as certezas são frágeis

“Sempre tive medo de pessoas que têm certeza de tudo”. Esta frase, que li há muitos anos, não sei em qual livro ou filme, me marcou para sempre. Hoje sei porque: as pessoas que mais temi na vida exerceram algum tipo de autoridade opressora sobre mim. Não o tipo de autoridade moral que nasce do respeito conquistado ou do reconhecimento – como a de que gozam os (bons) pais, por exemplo. Mas aquela de pessoas que se fazem obedecer pelo medo, que parecem não ter dúvidas sobre nada, que não admitem questionamentos e acham que não devem explicações a ninguém. Acreditam estar invariavelmente certas sobre tudo, sempre.

Este é o tipo de autoridade exercida pela personagem que deu o Oscar de Melhor Atriz deste ano a Meryl Streep no filme “Dúvida”, com ótimos roteiro e direção de John Patrick Shanley (vou procurar mais trabalhos desse cara para ver).

A história é muito simples, mas faz a gente pensar. Meryl interpreta (divinamente, como sempre) uma freira assustadora, que dirige com mãos de ferro um colégio religioso. Quando um padre faz um sermão sobre o tema “Dúvida”, ela passa a desconfiar de que há algo errado com ele. É o bastante para que o acredite capaz de molestar o único garoto negro da escola, que, isolado, recebe deste padre apoio e atenção especiais.

A suspeita parte de fatos vagos relatados pela freira mais jovem da ordem, também muito bem interpretada por Amy Adams, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante – o filme, aliás, rendeu quatro indicações aos Oscars de atuações: para a vencedora Meryl, para Amy e para Viola Davis (também como coadjuvantes) e Phillip Seymour Hoffman (ator), que faz o padre sob suspeita.

A freira passa a perseguir o padre e, no ponto alto da história, trava com ele um duelo fantástico de idéias (e de interpretações). Mesmo sem provas, ela tem certeza de que ele é culpado. Não teme, não vacila, acua-o com suas certezas. Assustadora esta freira que olha nos olhos e diz exatamente o que deve ser feito, que não admite que possa haver outras versões para o que é certo. Você sabe que esta pessoa é capaz de tudo para provar que o seu certo é “O CERTO” e nada vai pará-la.

O desfecho do filme reserva destinos surpreendentes a estes dois antagonistas. Como na vida real, nada é o que parece ser. Concluímos que há algo de frágil na autoridade de quem não admite questionamentos. Se as certezas são sua sustentação, o que acontecerá a essas pessoas quando a mínima dúvida começar a corroer este pilar?

No caso da freira de Meryl Streep, seus próprios medos e não a suspeita de um crime a municiaram contra aquele padre de idéias progressistas, que a ameaçou com a mudança, inimiga da ordem estabelecida… inimiga, portanto, das certezas pelas quais ela se guiou por toda a vida.

Com o tempo, também deixei de temer as pessoas que têm certeza de tudo. Porque, no fundo, todas as certezas são frágeis.

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Terapia de grupo para ‘luluzinhas’

No último final de semana tive o prazer -cada vez mais raro- de me divertir com uma comédia romântica que não me fez sentir-me uma descerebrada. É tênue a linha que separa as comédias de fórmulas batidas daquelas que conseguem, de uma forma inteligente, reinventá-las (porque é impossível o gênero desvencilhar-se delas ou não seria um gênero), nos fazendo simplesmente curtir a história leve sem aquela “vergonha alheia” das cenas piegas ou dos desfechos forçados.

Dei boas risadas com as histórias de “Ele não está tão a fim de você”, que faz piadas da tendência feminina em encontrar desculpas e significados ocultos para a covardia masculina em assumir um fora ou um relacionamento, com toda a franqueza que o sexo oposto merece…

Acredito que todas as mulheres no cinema encontraram pelo menos uma situação reproduzida no filme que já tenham vivido. Descobri que pode ser bem catártico permitir-se dar boas gargalhadas ao se ver neste espelho de celulóide que o cinema às vezes propicia. Para mim foi e espero que tenha sido também para minha amiga Karen, que assistiu ao filme na mesma sessão, duas filas acima, cercada por umas cinco colegas. “Terapia de grupo”, brincou ela, dona que é de um humor espirituosíssimo!

Eu admito que FUI (observem o tempo do verbo) a personagem de Ginnifer Goodwin, um imã de homens que querem simplesmente “pegar” o máximo de mulheres que puderem, enquanto ela só “fica” com os que elege como potenciais namorados. E quando esses candidatos não ligam de volta… quantas desculpas e hipóteses absurdas ela levanta para não enxergar que, enquanto ficava fantasiando um relacionamento, para o cara era apenas mais um “amasso”.

Quem faz Ginnifer acordar para estas evidências é o personagem de Justin Long – uma gracinha, de voz linda e muita expressividade facial, que descobri adolescente em um filme independente chamado “Dreamland” (assistam!).

Para a sorte dela, Justin interpreta a encarnação de uma “raríssima” franqueza masculina, por isso passa a ajudá-la a identificar os caras nos quais não vale a pena apostar. E como não dá para renunciar a todas as obviedades das comédias românticas – vá lá, dá para engolir esta -: claaaaaro que vai surgir uma química entre os dois.

Só cito o perfil da personagem de Ginnifer porque é aquele com o qual me identifiquei, mas a partir das experiências das amigas dela, outras situações se ramificam em um mosaico das dúvidas que assombram os relacionamentos modernos. Tenho certeza que todas encontram similares na realidade. Mas desconfio que a coisa toda só terá graça para quem estas situações já ficaram no passado…

Rir de tudo é muito mais fácil quando a doença não está mais instalada.

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Harry Potter: lições que podem salvar uma geração

Tenho uma inveja boa da geração que cresceu assistindo/lendo à série Harry Potter. A minha não contou com um produto dramatúrgico que lhe alcançasse tão certeiramente neste período crucial de passagem da infância para a adolescência. Nada que acompanhasse e espelhasse tão eficientemente as várias fases e transformações – físicas e psicológicas – pelas quais se passa neste período da vida. E ainda conseguindo, para além do espelho, uma simbiose perfeita com a fantasia e todas as suas possibilidades de metaforização, referenciamento e simbolismo.

A série “Harry Potter” é a obra (bem sucedida) de uma geração. E esta é uma ótima notícia!
Quem cresceu com ela pode ter apreendido, com os conflitos enfrentados pelo bruxinho órfão, importantes valores morais por assimilação inconsciente – alguns dos quais vêm se perdendo dentro de famílias em que pais atarefados (ou desinteressados) demais deixam à escola um tipo de formação que deveria vir de casa.

O padrinho Sirius explica a Harry que todos temos o mal e bem dentro de nós e o que define quem somos são nossas escolhas

É grande a carga de lições passadas pela obra da inglesa J.K. Rowling e elas podem salvar uma geração – da tendência atual ao ódio e à intolerância, por exemplo. Entre elas, a de que são as escolhas pessoais e não uma pré-determinação genética ou cármica que definem o tipo de pessoas que somos/seremos. Outra: de que a intolerância está na raiz dos regimes autoritários e de toda guerra. E a mais importante: a empatia, que inspira abnegação e até sacrifícios (qualidades consideradas cafonas no modelo de conduta individualista desta era da informação e de relações fluídas) pode salvar o mundo.

Harry não será o único a dar exemplos dessas qualidades. Como pontua muito bem o crítico de cinema Luiz Carlos Merten, no Caderno 2 do Estadão, a última parte da saga descortina um herói insuspeito, “o verdadeiro herói, que tem que trair para servir o objeto de sua devoção” e que carrega bravamente o ônus da antipatia e do julgamento injusto em nome de uma causa maior que ele mesmo. A motivação não poderia ser outra: o amor.

E correndo o risco de assumir de vez a pecha de cafona, atrevo-me a dizer que ainda não inventaram nenhuma motivação mais legítima para escolher o que é certo (pautando como certo o que é bom para a coletividade) do que “gostar do outro como de si mesmo”. Isso lembra alguma coisa?

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‘O Casamento de Rachel’: de perto nenhuma família é normal

“Todas as famílias felizes se parecem, mas as famílias infelizes o são cada uma a seu modo “, escreveu Leon Tolstói no clássico “Anna Karenina”. O cinema explora constantemente esta premissa em filmes que adentram a intimidade de famílias exemplares na aparência, mas desfuncionais nos bastidores. Esta modalidade de enredo acaba de ganhar um representante original em “O Casamento de Rachel”, que rendeu a primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz na carreira de Anne Hathaway (“O Diário da Princesa” e “O Diabo Veste Prada”).

Ela faz Kimmy, a caçula de duas irmãs que recebe autorização da clínica de reabilitação onde trata – não pela primeira vez – sua dependência química e de álcool para comparecer ao casamento da mais velha, Rachel. A condição é que se submeta a testes de urina antes e depois do evento e freqüente reuniões diárias do Narcóticos Anônimos pelo tempo que precisar se ausentar.

Logo que é recebida, pelo pai, a madrasta e a irmã noiva, na casa toda preparada para um casamento com tema indiano, percebe-se que o afeto a unir aquela família é genuíno. Mas isso não impede que todos ainda tenham que lidar com as feridas abertas por episódios traumáticos causados pelos vícios de Kimmy. Um pedido de desculpas público em pleno jantar de ensaio do casamento faz emergir em Rachel antigos ressentimentos com os quais todos evitavam lidar, e em Kimmy uma culpa antiga pela qual ela recusa-se a se perdoar.

A câmera de Jonathan Demme (de “O Silêncio dos Inocentes”) acompanha as ações e reações de cada personagem como se o seguisse muito de perto, como em um documentário ou mesmo em um filme caseiro de evento familiar. Isso faz com que tenhamos a impressão de estarmos olhando o que não deveríamos pelo buraco da fechadura.

Talvez a intenção de Demme tenha sido mesmo fazer com que no sentíssemos intrusos, para intensificar a idéia de que estamos assistindo a cenas de profunda intimidade e da conta apenas daquela família.

Ao final, nem todos os ressentimentos são resolvidos e nem todas as culpas perdoadas, mas a mensagem que fica é a de que, mais forte que os dissabores e decepções, o amor tem o poder de manter unidos entes que nem sempre conseguem conviver juntos sem se machucarem. Não é exatamente um final feliz, mas rescinde a esperança, o que não deixa de ser, ao mesmo tempo, realista e auspicioso.

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O holocausto pelos olhos de uma criança

Chamem de inconsciente coletivo do cinema ou simplesmente oportunismo a atual onda de filmes que busca rever o nazismo de pontos de vistas de protagonistas incautos, inocentes, como “Um homem bom”, por exemplo – que mostra a perspectiva de um cidadão de bem seduzido pelo regime do fuher -, e “O menino do pijama listrado”, que assisti semana passada.

Neste último, a perspectiva é a de um garoto de oito anos de idade, que curte feliz a alienação da infância em um bairro nobre de Berlim. Quando seu pai – um militar do qual ele muito se orgulha – é promovido, a família toda se muda para uma região rural. Ali está instalado nada menos que um dos campos de concentração do nazismo, que será gerenciado pelo pai.

Seu contato com uma realidade até então impensável para sua família perfeita se dará através de uma cerca, à margem da qual ele passa a encontrar, todos os dias, um menino mais ou menos de sua idade que, a exemplo dos demais habitantes daquela estranha “fazenda”, só veste pijamas.

Aos poucos ele descobre que os “fazendeiros” não estão ali por escolha, mas como punição por serem judeus, delito cuja gravidade ele jamais entenderá a extensão.

Como em “A Culpa é do Fidel”, o tempo todo o ponto de vista que prevalece é o da criança. Nós, espectadores, sabemos o que cada pista que o menino pesca da realidade à sua volta significa, mas somos forçados a acompanhar pacientemente suas descobertas, o que acaba sendo instrutivo (qualquer novo ângulo de um mesmo problema é revelador).

O desfecho é dramático, como é de se esperar em qualquer filme que toque, ainda que superficialmente, o tema do holocausto.

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Cinema ocidental e cultura indiana: paquera antiga

Já havia citado em minha postagem sobre o ótimo “Quem quer ser um milionário” que o encontro entre Bollywood (o cinema de entretenimento indiano) e o cinema ocidental, tão festejado pela imprensa por ocasião desta produção, não é tão novidade assim. Para provar, relaciono abaixo quatro filmes que assisti nos quais a “paquera” entre a cultura indiana e o cinema ocidental resultaram em bom entretenimento (em minha opinião, claro).

“Driblando o destino”, de 2003, tem produção e atores ingleses, mas o roteiro e a direção são assinados por indianos – ou descendentes deles. Sua maior curiosidade é trazer três atores à época ainda pouco festejados, mas que se tornariam, em poucos anos, verdadeiros “queridinhos da indústria”: Keyra Knightley, ainda na puberdade, aparece aqui de aparelhos nos dentes e ainda em um papel secundário; Pasminder Nagra, que em seguida viria a interpretar a médica Neela Rasgotra do seriado E.R. (“Plantão Médico” no Brasil) ainda era uma ilustre desconhecida e Jonathan Rhys Meyers (de “Ponto Final – Match Point” e “O Som do Coração”) nem sonhava em ser escalado para um papel de protagonista em um filme de Woody Allen.

No filme, a personagem principal é a adolescente Jesminder, filha de uma família indiana radicada em Londres que faz questão de seguir, em seu pequeno e fechado círculo social, os mesmos costumes tradicionais do país natal. Isso tem um custo alto para as filhas, divididas entre a obediência aos pais e a atração exercida pelos costumes mais liberais do país em que cresceram.

Jane Austen na Índia

No ano seguinte, a mesma diretora de “Driblando o destino”, Gurinder Chadha, assinaria uma adaptação “bollywoodiana” do clássico de Jane Austen “Orgulho e Preconceito”. Sob o título de “A Noiva e o Preconceito”, a co-produção anglo-americana resultou em um misto DIVERTIDÍSSIMO de comédia romântica e musical.

A história, quem curte Jane Austen -ou todas as adaptações cinematográficas já feitas de seus livros- já conhece bem: dois amigos ricos chegam à cidade e viram alvo de uma mãe ávida para casar algumas das suas quatro filhas solteiras. No caso de “A Noiva e o Preconceito”, a cidade é Nova Delhi, capital da Índia, os amigos são dois advogados -um americano e o outro indiano em férias no país natal- e a mãe a matriarca de uma tradicional família indiana.

A atriz indiana Aishwarya Raí foi descoberta pelo cinema ocidental neste filme e voltou a protagonizar outra produção anglo-americana com um pé na Índia no ano seguinte. Em “O Sabor da Magia” (título brasileiro para “The Mistress of Spieces”, este sim homônimo ao livro indiano que inspirou o filme), Gurinder Chadha era apenas um dos produtores, e a direção ficou a cargo do desconhecido Paul Mayeda Berges.

Aishwarya interpreta Tilo, dona de uma loja de especiarias em São Francisco (EUA) que possui o dom mágico de transformar seus ingredientes em poções para curar as pessoas. Porém, ela só mantém o dom se mantiver-se fiel às regras sagradas de nunca provar alguma de suas receitas ou se apaixonar, o que -claro- eventualmente acaba ocorrendo.

A força das raízes

“Nome de família”, da indiana Mira Nair, é o único drama desta lista. Sensível, mostra a adaptação de um casal indiano aos Estados Unidos, embora sem abrir mão de sua identidade indiana. Em sua segunda parte, o filme enfoca a segunda geração pelos olhos do filho mais velho, Gogol, que passa a buscar sua própria identidade, tendo que lidar com as tradições de sua família e seu direito de nascença americano, em um primeiro momento rejeitando seu próprio nome e as tradições de família. Uma tragédia familiar o fará aceitar e conciliar sua herança cultural com seu histórico de vida.

O que todos esses filmes têm em comum, além de uma pequena amostra dos costumes e cultura indianos, é um modo de filmar bem diferente do modelo hollywoodiano. As histórias são leves, mas nada superficiais e o ritmo mais lento, porém nem um pouco enfadonho. Convidam à contemplação e à reflexão em cada cena.

Para mim, foram ótimo entretenimento.

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Palavras como lâminas: a dramaturgia de Tennessee Williams

Tennessee Williams ESCREVE (leg)Logo nos primeiros 10 minutos do filme “Gata em Teto de Zinco Quente” o espectador já recebe, com um primor de concisão e densidade dramatúrgica, as principais informações sobre os personagens: que o principal é um alcoólatra, seu irmão um tolo, a cunhada uma parideira interesseira, a esposa linda e perspicaz, mas desprezada … e todos -menos ele- estão de olho na herança do patriarca doente.

Não se irrite pensando que já contei o filme todo, porque os melhores e mais importantes momentos ainda estão por vir nos 97 minutos seguintes (atenção especial aos diálogos de “acerto de contas” entre o protagonista e o patriarca em questão).

Só quis dar uma amostra do grande talento com que o dramaturgo norte-americano Tennessee Williams -que assina a peça roteirizada para este filme de Richard Brooks- tece histórias fortes com muito poucos recursos cênicos, em tomadas alicerçadas principalmente em diálogos robustos, inteligentes e carregados de significados – traços de sua verve de bem-sucedido autor teatral (escreveu mais de 30 peças ao longo da carreira).

A dramaturgia de Williams é tão forte que não me importa se suas peças adaptadas para o cinema tiveram assinatura de outras pessoas no roteiro e na direção. Todas têm a SUA ASSINATURA impressa na forma de palavras que parecem lâminas jorrando em diálogos cortantes, que despem os personagens de suas roupagens de normalidade para mostrar suas angústias, medos, desejos, culpas e pecados. Diálogos estes que também revelam o contorno psicológico que o autor desenha meticulosamente para cada personagem.

É verdade que só “feras” pegaram a direção de filmes com histórias de Williams, como os mestres John Huston (“Noite do Iguana”), Elia Kazan (“Boneca de Carne” e “Um Bonde Chamado Desejo”, que no Brasil recebeu o ridículo título de “Uma Rua Chamada Pecado”) e Joseph L. Mankiewicz (“De Repente, no Último Verão”), além dos ótimos Sidney Pollack (“Esta Mulher é Proibida”), George Hoy Hill (“Contramarcha Nupcial”) e Brooks (além de “Gata em teto…”, “Doce Pássaro da Juventude”), entre outros menores, mas não menos talentosos (para acessar a ficha de todos estes títulos na página do e-pipoca dedicada ao autor, clique aqui). Mesmo assim, para mim, também não deixam de ser todos “filmes de Tennessee Williams”.

O dramaturgo também roteirizou muitas de suas peças para a tela grande, a maioria em parceria com outros roteiristas mais afeitos à linguagem cinematográfica. As mais famosas são a já citada “Gata em Teto de Zinco Quente” (1958) e “Um Bonde Chamado Desejo” (recuso-me a usar o título do Brasil), que imortalizou as atuações memoráveis de Vivien Leight (a Scarlett O’Hara de “E o Vento Levou”) e Marlon Brando (dispensa comentários). Aliás, que show de interpretação eles dão!!!

Uma curiosidade sobre “Em Roma na Primavera”, cuja primeira versão, de 1961, também teve Vivien Leigh e um jovem Warren Beatty nos papéis principais, é que o roteiro foi refilmado em 2003, com Helen Mirren (Oscar de Melhor Atriz por “A Rainha”) e Olivier Martinez (o amante de “Infidelidade”) nos mesmos papéis, e ainda a participação do brasileiro Rodrigo Santoro no elenco. Como foi feito para a TV, porém, o Brasil não o viu -nem vai ver- na tela grande (não sei se saiu em DVD).

Um jeito de dizer claramente, sem dizer de fato

Outra característica que considero genial na obra deste escritor conhecidamente homossexual, é sua habilidade em abordar tabus sexuais de uma forma suave e subliminar. Isto numa época em que a sociedade que consumia teatro e cinema ainda era muito pudica e a censura rígida quanto à chamada “moral e os bons costumes”.

Era preciso prestar muita atenção a certas metáforas inseridas nos diálogos e também nas construções sugestivas de algumas cenas para “enxergar” as situações que envolviam sexo. Graças a este modo de dizer claramente, sem dizer de fato, os mais ingênuos simplesmente não entendiam a totalidade do que era exposto, mas o pouco que entendiam era o bastante para não perderem o impacto da história.

Um Bonde chamado desejo 1 (leg)EXEMPLO 1: na primeira vez que assisti a “Um Bonde Chamado Desejo”, muito jovem ainda, na cena mais forte do filme só entendi que Leigh e Brando se enfrentaram e ela saiu subjugada. Só na segunda vez que o vi, mais velha e amadurecida, compreendi o modo como ela foi subjugada: houve um estupro ali (nada é mostrado claramente, mas tudo na cena sugere esta violência).

Também só entendi da segunda vez que Blanche era ninfomaníaca (uns pedaços de diálogos dela aqui, uma tentativa de sedução de um jovem acolá são as evidências claras do fato não declarado). O filme, aliás, é todo sobre desejo e suas implicações, como o nome “ORIGINAL” sugere (ainda faço um post só sobre os nomes absurdos que os filmes estrangeiros ganham no Brasil).

Consideradas as minhas perspectivas em cada ocasião, a importância da cena mais forte foi assimilada por mim em ambas as vezes, e saber ou não sobre a compulsão sexual de Blanche não diminuiu a força da história para mim em nenhuma delas.

de repente, no último verão 2EXEMPLO 2: Em “De Repente, no Último Verão”, Katherine Hepburn (divina, como sempre) acaba de perder o filho adulto – Sebastian (de quem se fala o filme todo, mas nunca se vê) – e entrega a sobrinha com tendências suicidas (Elisabeth Taylor em um dos muitos papéis de Williams que desempenhou) aos cuidados do psiquiatra Montgomery Clift, confiando que ele a tratará com lobotomia (separação cirúrgica dos lóbulos frontais do cérebro, que se faz em doentes mentais violentos, tornando-os mansos, numa espécie de “anestesia permanente”).

Quando o psiquiatra inicia uma terapia com a paciente, porém, médico e espectador vão descobrindo juntos que, de todos os segredos escondidos na história daquela família, os da instável sobrinha não são os mais escandalosos.

Crítico do establishment

Outro traço da dramaturgia de Williams é a crítica ácida e impiedosa à ordem estabelecida na sociedade norte-americana, com sua ideologia dominante impregnada de alienação e individualismo. É verdade que o conjunto de sua obra descreve mais a cultura sulista dos EUA, filho que era daquela região do país (nascido no Mississipi, viveu também no Missouri), mas ele coloca todo o pensamento estadunidense naquele microscosmo (leia mais sobre este traço de sua obra na tese “Memória Histórica na Dramaturgia de Tennessee Williams”, disponibilizada na internet em formato pdf).

Eu teria muito ainda a dizer sobre as dezenas de outros filmes baseados em textos de Tennessee Williams, pois todos, sem exceção, valem a pena ser vistos, mas este post ia ficar insuportavelmente mais longo do que já está. Encerro, então, em grande estilo, com uma cena de “De Repente, no Último Verão”, que dá uma boa amostra dos tais diálogos cortantes e da habilidade do autor em abordar subliminarmente tabus sexuais. Apreciem…

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CINÉLIDE: porque gosto de boas histórias

O CINÉLIDE nasceu como um blog de cinema, em 2008. Ficou hospedado no portal do jornal em que eu trabalhava, em Araraquara, até 2012, quando migrou junto comigo para o ACidade ON, de Ribeirão Preto. Em setembro de 2018, passa a ser uma seção no Palavreira.

As mudanças de endereço não mudaram o perfil do CINÉLIDE e nem sua razão de existir: compartilhar meus pontos de vista sobre filmes e séries.

O motivo é simples: adoro histórias bem contadas! Se vêm com suporte audiovisual, melhor ainda.

Mas não esperem textos herméticos, pois não me encaixo numa elite cinéfila que assiste à tudo com a lente do crítico de arte. Realizo-me completamente como público e é como tal que escrevo, porque minha relação com as obras dramatúrgicas é mais emocional do que racional.

É verdade que, por assistir muita coisa, o nível de exigência sobe. Passa-se a reconhecer as mesmas fórmulas em diferentes filmes, enjoa-se delas e começa-se a buscar incessantemente por uma história que nos surpreenda…

Se você pensou em um viciado eternamente à procura da sensação da primeira dose da droga, passou bem perto. A diferença é que  acabo encontrando – a cada 30, 40, 50 histórias que devoro – aquela que arrebata. Aí… a excitação é tanta que quero dividir com o mundo.

CINÉLIDE registra minhas melhores descobertas.

Mas quero companhia nesta busca. Por isso, sinta-se super à vontade para dar dicas, comentar e criticar toda e qualquer postagem.

Sem sua participação, esta jornada não tem razão de ser.

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