Categoria: CINÉLIDE

Blog de cinema e séries da jornalista Silvia Pereira

Uma Certa Inglesa Romântica

É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro,
possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa
.”

Você não precisa concordar com o trecho acima para adorar a obra que ele abre.

O que… não reconheceu? Não sabe o que está perdendo! Ele pertence a “Orgulho e Preconceito”, a obra mais famosa de Jane Austen, autora inglesa do século 19 que escreveu alguns dos romances mais cultuados e adaptados para teatro, cinema e TV do mundo.

Em sua curta vida – morreu em 1817, aos 42 anos, de um mal desconhecido – Austen escreveu apenas seis obras completas: “Razão e Sensibilidade”(1811), “Orgulho e Preconceito” (1813), “Mansfield Park” (1814), “Emma” (1815), “A Abadia de Northanger” e “Persuasão” – estas duas últimas publicadas após sua morte, em 1818 – mas deixou algumas inacabadas, como “Lady Susan”, “Os Watson” e “Sanditon”, que também não escaparam de ganharem versões para TV e cinema com finais escritos por roteiristas contemporâneos.

Todas têm em comum uma história de amor ambientada na alta sociedade inglesa do século 19, narrada em texto elegante, mas temperado com uma fina ironia e uma sagaz crítica social.

Atribuo o fato de sua obra continuar a conquistar novos admiradores até hoje à sua originalidade. Hoje em dia, a história de antipatia transformando-se em amor de “Orgulho e Preconceito”, por exemplo, pode não parecer nova porque foi copiada à exaustão. Mas na época em que foi escrita, era uma subversão à receitinha batida das histórias do gênero, sempre açucaradas, com heroínas ingênuas, virtuosas e indefesas, à espera de serem salvas por variações do arquétipo do príncipe encantado.

As heroínas de Austen não são absolutamente indefesas ou “burrinhas”- bem ao contrário – e, mesmo tendo que seguir as convenções sociais da época, sabiam destacar-se acima delas.

E as personagens fugiam à armadilha do maniqueísmo. Nem as heroínas e seus amados eram apenas poços de virtudes, nem os vilões eram só maldades. A protagonista de “Emma”, por exemplo, é uma esnobe – de bom coração, é verdade, mas ainda uma egocêntrica. E mr. Darcy, de “Orgulho e Preconceito”, é o mau-humorado (e também esnobe) mais amado da história da literatura. Até então os heróis eram só lindos e virtuosos… não tinham sombras, defeitos.

Como as peças de Shakespeare, os personagens de Austen seguem atuais, universais, como a alma humana.

 

Adaptações

Você sabia que  “O Diário de Bridget Jones” (livro e filme) foi inspirado em “Orgulho e Preconceito” e “As Patricinhas de Beverly Hills” em “Emma“? Estes são apenas dois exemplos de como as obras da escritora britânica do século 18, Jane Austen, seguem atuais, mas não os únicos – sequer os melhores.

Desde 1938, os romances da escritora vêm sendo adaptados para televisão e cinema insistentemente. Só “Orgulho e Preconceito” tinham (até a redação deste post) três versões feitas pela TV britânica BBC e cinco para a tela grande, sendo a última de 2005, com Keyra Knightey e Matthew MacFadyen nos papeis principais.

“Razão e Sensibilidade” foi adaptada três vezes para a televisão, também pela BBC, e sua única versão para cinema foi dirigida pelo aclamado diretor taiwanês Ang Lee (“O Segredo de Brokeback Mountain” e “As Aventuras de Pi”). Ainda que o roteiro tenha a assinatura de uma inglesa – a também atriz do filme Emma Thompson -, o fato de um asiático ter traduzido tão bem a essência do romance dessa inglesa é mais uma prova da universalidade de sua obra.

“Emma” tem cinco versões para a TV – não só da BBC – e uma de suas adaptações para o cinema, de 1996, rendeu uma indicação ao Oscar à atriz Gwineth Paltrow.

“Persuasão” – o meu preferido – teve três versões para a TV e só uma para cinema, mas já foi citado em mais de um filme (“A Casa do Lago” entre eles) como símbolo de um amor maduro, que levanta questões sobre a capacidade do sentimento em resistir ao tempo, à distância e às mudanças interiores que esses fatores causam nos amamtes. Talvez por ter sido escrito nos últimos anos de vida de Austen é o de narrativa mais densa e interiorizada. Explora os aspectos psicológicos de sua protagonista, Anne Price, que já não é uma heroína jovem e casadoira, mas uma solteirona.

“Mansfield Park” e “A Abadia de Northanger” são os romances menos populares da escritora, tendo sido, por isso, pouco adaptados: o primeiro duas vezes para a TV e uma para o cinema. No Brasil, o filme de “Mansfield Park” – que permite-se muitas liberdades com a obra original – recebeu o título de “Palácio das Ilusões”. Já “A Abadia…” foi adaptado três vezes só para TV e nenhuma para o cinema, talvez por ser o romance de Austen que mais destoa do perfil do restante de sua obra, com seus toques de suspense e narrativa ainda sem muita identidade. Afinal, apesar de ter sido publicado só após sua morte, foi o primeiro romance escrito pela inglesa. Como comentou um personagem do filme “Clube de Leitura de Jane Austen” – comédia romântica de 2007 em que seis personagens debatem as obras de Austen em reuniões mensais -, a autora ainda devia estar tateando por referências de suas escritoras preferidas à procura do próprio estilo.

Encontrou.

 

* Publicado em boletim da Cultura Inglesa em junho de 2014

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‘Os 13 Porquês’: vai encarar este espelho?

Uma adolescente se suicida sem deixar bilhete ou carta para os pais. Sigilosamente, porém, deixa um depositário de sua confiança incumbido de passar a 13 pessoas específicas fitas cassetes com explicações gravadas para elas. O que todas têm em comum é o fato de a jovem Hannah Baker considerar, cada uma, uma razão para ela ter tomado sua decisão extrema – os 13 porquês.

A escolha da mídia obsoleta é proposital, já que vamos descobrindo que Hannah sofreu bullying facilitado por estes tempos de internet e redes sociais. No contexto da série, porém, eles são apenas instrumentos para a prática de bullyings praticados desde sempre, como a objetificação do corpo feminino (por machistas de todos os gêneros), homofobia e outros tipos de violência bem mais graves, mas que podem amplificar exponencialmente seus raios de devastação.

Acompanhamos tudo do ponto de vista do tímido Clay Jensen, que nutriu uma paixonite por Hannah e parece ser o último dos destinatários a ouvir as fitas.


“A série é perturbadora na medida que nos obriga a também encarar esse espelho incômodo que Hannah Baker esfrega na cara de seus bullyers”


À medida que ele avança nas audições, uma teia de novos mistérios vai sendo tecida, já que nem o garoto parece saber direito qual foi sua parcela de culpa nessa história e todos os demais envolvidos mostram-se apavorados com certos acontecimentos que ele está prestes a descobrir.

Mais do que didática, a série é perturbadora na medida que nos obriga a também encarar esse espelho incômodo que Hannah Baker esfrega na cara de seus bullyers, sem poupar os omissos (saca o ditado “para o mal vencer basta os bons não fazerem nada”?).

A surpresa com que muitos deles encaram o mal que causaram diz muito sobre um “sonambulismo” endêmico que tem acometido quem posta o que quer nas redes, sem pesar – ou simplesmente ignorando mesmo – as consequências. Entre elas a de que a possibilidade de vidas serem destruídas é bem real.

E aí, vai encarar este espelho?

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Nossos idosos não são mais aqueles

Quando escrevi pela primeira vez sobre a série cômica “Grace & Frankie”, em 2015, achei que não houvesse mais o que explorar na história de dois casais idosos que se reconfiguram da forma mais inusitada (ou não nestes tempos “gay friendly”): os dois maridos “saem do armário” ao mesmo tempo para assumirem sua relação homo-extraconjugal, que já dura 20 anos – dos 40 que os dois casais mantinham amizade e vidas entrelaçadas.

Mas a série da Netflix chega à sua terceira temporada em grande forma, obrigada!

Embalada por um timing cômico sofisticado e, de certa forma, codificado – significa que nem todos vão entender as piadas, principalmente quem está na faixa abaixo dos 40 anos -, a série aborda com extrema verdade e inteligência os conflitos que o novo perfil de idosos têm tido de enfrentar atualmente.

Nossos idosos de hoje não são mais sombras das pessoas que foram apenas esperando para morrerem em cadeiras de balanço, camas de hospital ou quartos de asilo. Principalmente os das classes média acima, mantêm-se funcionais e lúcidos, o que, de certa forma, até os torna mais sensíveis aos tratamentos preconceituosos das novas gerações, pois eles não se sentem como os seus jovens o tratam: seres ultrapassados.


“Nossos idosos de hoje não são mais sombras das pessoas que foram apenas esperando para morrer em cadeiras de balanço”


Na segunda temporada, exibida em 2016, Grace e Frankie tiveram de lidar com o processo de despedida de uma amiga com câncer que manteve uma vida “solar”, positiva e generosa até o melancólico fim, enquanto Robert e Sal tentavam se entender após o primeiro descobrir que o segundo teve um “sexo de despedida” com a ex-mulher.

Grace e Frankie chegam ao último episódio enfrentando a triste conclusão de que são tratadas como peças inúteis no xadrez familiar, mas prometendo que darão a volta por cima iniciando um negócio próprio juntas.

A terceira temporada as encontra enfrentando as dificuldades de praxe para conseguir levantar capital para o novo negócio: fabricação de vibradores específicos para idosas, que respeitem as limitações físicas típicas da fase (artrite, por exemplo), tecido vaginal ultra-delicado e com baixa lubrificação (se você pensar bem, é um baita nicho… rs).

O problema é que nenhum banco se arrisca a conceder empréstimo com amortização de longo prazo para duas mulheres na casa dos 70 anos, a despeito delas gozarem de boa saúde, energia e de Grace ter um bem-sucedido currículo de empreendedora – afinal, ela montou do nada a empresa de produtos femininos que a filha mais velha agora administra e na qual ela não é mais bem-vinda.

Parece uma história triste – e no fundo é -, mas você não consegue chorar nesta série. Se tiver o repertório certo, vai é rir muito, mesmo que no fundo se entristeça por reconhecer que aquelas verdades temperadas com o humor inteligente da roteirista Martha Kauffman (de “Friends”) são é de chorar.

 

P.S. By the way, quero envelhecer como a Jane Fonda!

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‘A Nossa Luta’: e você… está acordado?

Em um dos últimos episódios da série “When We Rise” – que no Brasil será exibida pelo canal Sony sob o título “A Nossa Luta” -, o ativista gay pelos direitos humanos Cleve Jones descreve a um jovem que o entrevista uma ameaça que sua geração não previu: “vocês”, dispara ele – “Sua geração está dormindo (…) como é fazer parte de uma geração sem objetivos?”.

Cleve tem moral para fazer a provocação. Àquela altura, já acumulava, ao lado de outros biografados na série, como Roma Guy, Diane Jones, Ivory Aquino e Ken Jones, 40 anos de militância política pelos direitos humanos e civis da comunidade LGBT, responsável por conquistas como tratamento médico gratuito e irrestrito a doentes de Aids e a derrubada de leis que marginalizavam social e economicamente esta e outras minorias.

Tudo isso enfrentando obstáculos tão gigantescos quanto a epidemia de Aids, que começou sendo chamada de câncer gay e considerada por conservadores “uma resposta de Deus ao pecado da homossexualidade”.

Não pude evitar uma reflexão sobre se este questionamento não serve também para nossas últimas gerações brasileiras – a minha inclusa -, que gozam a liberdade civil pós-regime militar pela qual milhares morreram, mas, por outro lado, assistem quase passivamente a pessoas padecerem por falta de atendimento digno e eficiente de saúde e outros direitos essenciais, só preocupando-se com o seu quintal.


Dá inveja assistir o quão corajosos esses
militantes se mostravam, mesmo assistindo a
amigos morrerem de aids abandonados pelo sistema


Dá inveja assistir o quão corajosos esses militantes se mostravam, mesmo assistindo a amigos morrerem de aids abandonados pelo sistema ou perderem bens e direitos construídos numa vida inteira de relação para usurpadores protegidos pela lei americana, que não estendia os direitos civis a uniões homoafetivas.

Só a história de Cleve, que aos 18 anos deixou um lar rico, cujo pai psiquiatra queria “tratar” sua homossexualidade como doença mental (se preciso com eletrochoques), já emociona. Ele inicia sua militância como assessor do primeiro político assumidamente gay a ser eleito para um mandato político em São Francisco (Califórnia/EUA) – Harvey Milk, o biografado em “Milk – A Voz da Igualdade”, que rendeu um Oscar de Melhor Ator a Sean Penn, com direito a (merecidos) aplausos em pé.

A militância de Cleve e dos outros biografados não para quando Milk é assassinado. Ao contrário, cresce na adversidade.

O diretor Gus Van Sant faz um belíssimo trabalho entrelaçando as histórias pessoais cheias de episódios de discriminação, violência e discursos de ódio desses ativistas com a dos movimentos, sem esquecer o pano de fundo político de cada época.

“When We Rise” está no patamar de produções como “The Normal Heart” e “Stonewall”, que contextualizam as lutas da comunidade LGBT, mas que se parecem com todas as histórias de coragem de quem luta por seus direitos em meio à injustiça. Mais do que recomendáveis, elas deveriam ser obrigatórias para – quem sabe? – todos aprendermos a acordar também.

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‘Sonata de Outono’: bergman eterno

Liberei uma grande lufada de ar dos pulmões ao terminar de rever “Sonata de Outono” (Suécia, 1978), no Cine Arte 1, como se não respirasse há horas.

Havia esquecido como o diretor Ingmar Bergman consegue ser impiedosamente denso abordando relações delicadas.

Eva (Liv Ullmann, atriz preferida e esposa de Bergman) recebe em casa a mãe, Charlotte (Ingrid Bergman sessentona e lindíssima), pianista famosa, que não via há sete anos.

Parece um feliz reencontro, mas, aos poucos, quase sem percebermos como e quando, os diálogos vão evoluindo de pequenas demonstrações afetivas para um implacável acerto de contas entre filha oprimida e mãe ausente.

Não há vozes alteradas ou gestos dramáticos. Fiéis ao jeito frio de ser dos suecos, Liv e Ingrid são presenças cálidas, quase frágeis na tela. A violência está nos sentimentos que seus diálogos liberam e nas expressões que a câmera de Ingmar capta em closes fechadíssimos – uma de suas marcas.

Há uma cena em que Charlotte confessa a seu agente, com evidente auto-piedade, seu choque ao encontrar a filha mais nova e doente, Helena (Lena Nyman), muito pior que da última vez que a vira anos antes, quando a internou numa instituição – de onde Eva a tirou depois.

“Por que ela não morre?”, diz Charlotte com um ar blasè, como se comentasse o clima.

Assim é Bergman.

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Einar não mora mais aqui…

Vamos lá tentar encontrar as palavras certas para exprimir a delicadeza e a toda a curva emocional de “A Garota Dinamarquesa” (The Danish Girl), de Tom Hooper – mesmo diretor de “Os Miseráveis” e “O Discurso do Rei”.

Esperava de “A Garota Dinamarquesa” uma história linear e documental sobre o primeiro transgênero a realizar uma operação de mudança de sexo na longínqua década de 1920, mas é mais – muito mais – que isso.

É um filme sobre amor – puro, genuíno, incondicional, para além de tudo… de gêneros, estereótipos, sexo.

Esqueça a indicação de Melhor Ator para Eddie Redmayne – ele é quase só um pretexto aqui para a interpretação arrebatadora da sueca Alicia Vikander. Testemunhar as milimétricas nuances de emoções que ela consegue expressar em cada cena me faz considerar aviltante, incompreensível e injusta sua premiação como atriz coadjuvante.

Merecia o Oscar, sim, mas na categoria de atriz principal. O filme é todo dela! (que entrega! que inteligência emocional!).

A história é sobre Einar Weneger, mas o tempo todo é com o sofrimento resignado de Gerda que nos identificamos. É ela quem faz Lili emergir de dentro de Einar, movida por uma intuição primal.

No começo, Einar e Gerda são pintores e se amam. Eles se dão perfeitamente bem na cama e em todo o resto. Um dia, ela pede que ele sobreponha um traje de bailarina sobre as vestes masculinas e pose para que ela possa terminar um quadro encomendado.

Lili começa a emergir.

Numa noite posterior, Gerda descobre sua camisola por baixo das vestes masculinas de Einar. Surge a ideia de um jogo de casal. Gerda traveste Einar. Eles vão juntos a uma festa. Um homem rouba um beijo de Lili/Einar, que “menstrua” pelo nariz – o fluxo nasal passa a ser mensal.

Gerda sente e expressa, através de sua arte – que, ironia!, finalmente desabrocha – a chegada de Lili.

Einar desaparece, mas o amor de Gerda permanece. Transfere-se para Lili. Não sem dor, não sem luto (por Einar)… mas constante.

Muitas dúvidas, muitos médicos e diagnósticos equivocados interpõem-se à busca por entendimento e identidade, mas o amor de Gerda e Einar está lá o tempo todo.

Embalando toda essa barafunda emocional uma fotografia primorosa – cada cena um quadro com toques renascentistas -, mas a história é tão forte que o visual fica em segundo plano.

Tocante!

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