Categoria: Séries

‘O Conto da Aia’: Distopia factível

Não me lembro de uma obra de ficção ter me amedrontado tão seriamente quanto “The Handmaids Tale” (“O Conto da Aia”). Seu potencial de realidade é cada dia maior nestes tempos, em que assistimos à escalada da intolerância e de discursos autoritários.

Inspirada no livro homônimo da escritora canadense Margareth Atwood, a obra se passa em um futuro próximo distópico, em que os antigos Estados Unidos – renomeado Gilead – são governados por uma teocracia cristã militarizada e autoritária.

Neste regime, as mulheres são subjugadas. Por lei, não têm permissão para trabalhar, possuir propriedades, controlar dinheiro ou até mesmo aprender a ler. Se não são esposas obedientes, tornam-se empregadas – as chamadas Marthas – ou pior: se pertencem à minoria que resta fecunda, em um mundo dominado pela infertilidade, tornam-se aias.

Cruamente falando, as aias são escravas sexuais mantidas pelas famílias da casta superior exclusivamente para gerarem seus filhos. Elas são fecundadas pelo marido em uma espécie de estupro consentido travestido de ritual religioso. Engravidadas, permanecem com a criança que geram até o desmame, antes de serem enviadas para outra família.

A história toda é narrada pelos olhos da aia June Osborn (Elisabeth Moss, de “Mad Men”), renomeada OfFred. Aliás, começa aí, pelo novo nome, a objetificação da figura da aia, que perde seu nome e passa a ser chamada, em cada casa que “serve”, pelo pronome Of (“de”, indicando posse de alguém) acrescido do primeiro nome do senhor que a fecundará. Assim, temos OfJoseph, OfBryan, OfJohn…

June inicia a história na casa do comandante Waterford, que tem um alto posto no regime. Sua mulher, Serena, é uma intelectual que participou da elaboração da nova ordem. Sem saber, no início, em quem confiar, mesmo entre os de sua casta, June tenta sobreviver ao processo de desidentificação, sem saber onde está a filha, que lhe foi tirada de ser escravizada.

Os horrores vão crescendo a cada episódio, mas, ao contrário de quando assistimos um filme de terror, o medo não passa duas horas depois. Fica com você, volta e se intensifica ante os noticiários, que mostram um Donald Trump eleito presidente com discurso xenófobo e ultranacionalista da nação mais potente do mundo e um Bolsonaro preconceituoso e autoritário eleito presidente do Brasil.

Você acredita cada vez mais que, sim, essa distopia é perigosamente possível.

 


Originalmente pelo serviço norte-americano de streaming Hulu, “O Conto da Aia” começou a ser exibida no Brasil em março de 2018, pelo canal pago Paramount Brasil.

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‘Os 13 Porquês’: vai encarar este espelho?

Uma adolescente se suicida sem deixar bilhete ou carta para os pais. Sigilosamente, porém, deixa um depositário de sua confiança incumbido de passar a 13 pessoas específicas fitas cassetes com explicações gravadas para elas. O que todas têm em comum é o fato de a jovem Hannah Baker considerar, cada uma, uma razão para ela ter tomado sua decisão extrema – os 13 porquês.

A escolha da mídia obsoleta é proposital, já que vamos descobrindo que Hannah sofreu bullying facilitado por estes tempos de internet e redes sociais. No contexto da série, porém, eles são apenas instrumentos para a prática de bullyings praticados desde sempre, como a objetificação do corpo feminino (por machistas de todos os gêneros), homofobia e outros tipos de violência bem mais graves, mas que podem amplificar exponencialmente seus raios de devastação.

Acompanhamos tudo do ponto de vista do tímido Clay Jensen, que nutriu uma paixonite por Hannah e parece ser o último dos destinatários a ouvir as fitas.


“A série é perturbadora na medida que nos obriga a também encarar esse espelho incômodo que Hannah Baker esfrega na cara de seus bullyers”


À medida que ele avança nas audições, uma teia de novos mistérios vai sendo tecida, já que nem o garoto parece saber direito qual foi sua parcela de culpa nessa história e todos os demais envolvidos mostram-se apavorados com certos acontecimentos que ele está prestes a descobrir.

Mais do que didática, a série é perturbadora na medida que nos obriga a também encarar esse espelho incômodo que Hannah Baker esfrega na cara de seus bullyers, sem poupar os omissos (saca o ditado “para o mal vencer basta os bons não fazerem nada”?).

A surpresa com que muitos deles encaram o mal que causaram diz muito sobre um “sonambulismo” endêmico que tem acometido quem posta o que quer nas redes, sem pesar – ou simplesmente ignorando mesmo – as consequências. Entre elas a de que a possibilidade de vidas serem destruídas é bem real.

E aí, vai encarar este espelho?

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Nossos idosos não são mais aqueles

Quando escrevi pela primeira vez sobre a série cômica “Grace & Frankie”, em 2015, achei que não houvesse mais o que explorar na história de dois casais idosos que se reconfiguram da forma mais inusitada (ou não nestes tempos “gay friendly”): os dois maridos “saem do armário” ao mesmo tempo para assumirem sua relação homo-extraconjugal, que já dura 20 anos – dos 40 que os dois casais mantinham amizade e vidas entrelaçadas.

Mas a série da Netflix chega à sua terceira temporada em grande forma, obrigada!

Embalada por um timing cômico sofisticado e, de certa forma, codificado – significa que nem todos vão entender as piadas, principalmente quem está na faixa abaixo dos 40 anos -, a série aborda com extrema verdade e inteligência os conflitos que o novo perfil de idosos têm tido de enfrentar atualmente.

Nossos idosos de hoje não são mais sombras das pessoas que foram apenas esperando para morrerem em cadeiras de balanço, camas de hospital ou quartos de asilo. Principalmente os das classes média acima, mantêm-se funcionais e lúcidos, o que, de certa forma, até os torna mais sensíveis aos tratamentos preconceituosos das novas gerações, pois eles não se sentem como os seus jovens o tratam: seres ultrapassados.


“Nossos idosos de hoje não são mais sombras das pessoas que foram apenas esperando para morrer em cadeiras de balanço”


Na segunda temporada, exibida em 2016, Grace e Frankie tiveram de lidar com o processo de despedida de uma amiga com câncer que manteve uma vida “solar”, positiva e generosa até o melancólico fim, enquanto Robert e Sal tentavam se entender após o primeiro descobrir que o segundo teve um “sexo de despedida” com a ex-mulher.

Grace e Frankie chegam ao último episódio enfrentando a triste conclusão de que são tratadas como peças inúteis no xadrez familiar, mas prometendo que darão a volta por cima iniciando um negócio próprio juntas.

A terceira temporada as encontra enfrentando as dificuldades de praxe para conseguir levantar capital para o novo negócio: fabricação de vibradores específicos para idosas, que respeitem as limitações físicas típicas da fase (artrite, por exemplo), tecido vaginal ultra-delicado e com baixa lubrificação (se você pensar bem, é um baita nicho… rs).

O problema é que nenhum banco se arrisca a conceder empréstimo com amortização de longo prazo para duas mulheres na casa dos 70 anos, a despeito delas gozarem de boa saúde, energia e de Grace ter um bem-sucedido currículo de empreendedora – afinal, ela montou do nada a empresa de produtos femininos que a filha mais velha agora administra e na qual ela não é mais bem-vinda.

Parece uma história triste – e no fundo é -, mas você não consegue chorar nesta série. Se tiver o repertório certo, vai é rir muito, mesmo que no fundo se entristeça por reconhecer que aquelas verdades temperadas com o humor inteligente da roteirista Martha Kauffman (de “Friends”) são é de chorar.

 

P.S. By the way, quero envelhecer como a Jane Fonda!

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‘A Nossa Luta’: e você… está acordado?

Em um dos últimos episódios da série “When We Rise” – que no Brasil será exibida pelo canal Sony sob o título “A Nossa Luta” -, o ativista gay pelos direitos humanos Cleve Jones descreve a um jovem que o entrevista uma ameaça que sua geração não previu: “vocês”, dispara ele – “Sua geração está dormindo (…) como é fazer parte de uma geração sem objetivos?”.

Cleve tem moral para fazer a provocação. Àquela altura, já acumulava, ao lado de outros biografados na série, como Roma Guy, Diane Jones, Ivory Aquino e Ken Jones, 40 anos de militância política pelos direitos humanos e civis da comunidade LGBT, responsável por conquistas como tratamento médico gratuito e irrestrito a doentes de Aids e a derrubada de leis que marginalizavam social e economicamente esta e outras minorias.

Tudo isso enfrentando obstáculos tão gigantescos quanto a epidemia de Aids, que começou sendo chamada de câncer gay e considerada por conservadores “uma resposta de Deus ao pecado da homossexualidade”.

Não pude evitar uma reflexão sobre se este questionamento não serve também para nossas últimas gerações brasileiras – a minha inclusa -, que gozam a liberdade civil pós-regime militar pela qual milhares morreram, mas, por outro lado, assistem quase passivamente a pessoas padecerem por falta de atendimento digno e eficiente de saúde e outros direitos essenciais, só preocupando-se com o seu quintal.


Dá inveja assistir o quão corajosos esses
militantes se mostravam, mesmo assistindo a
amigos morrerem de aids abandonados pelo sistema


Dá inveja assistir o quão corajosos esses militantes se mostravam, mesmo assistindo a amigos morrerem de aids abandonados pelo sistema ou perderem bens e direitos construídos numa vida inteira de relação para usurpadores protegidos pela lei americana, que não estendia os direitos civis a uniões homoafetivas.

Só a história de Cleve, que aos 18 anos deixou um lar rico, cujo pai psiquiatra queria “tratar” sua homossexualidade como doença mental (se preciso com eletrochoques), já emociona. Ele inicia sua militância como assessor do primeiro político assumidamente gay a ser eleito para um mandato político em São Francisco (Califórnia/EUA) – Harvey Milk, o biografado em “Milk – A Voz da Igualdade”, que rendeu um Oscar de Melhor Ator a Sean Penn, com direito a (merecidos) aplausos em pé.

A militância de Cleve e dos outros biografados não para quando Milk é assassinado. Ao contrário, cresce na adversidade.

O diretor Gus Van Sant faz um belíssimo trabalho entrelaçando as histórias pessoais cheias de episódios de discriminação, violência e discursos de ódio desses ativistas com a dos movimentos, sem esquecer o pano de fundo político de cada época.

“When We Rise” está no patamar de produções como “The Normal Heart” e “Stonewall”, que contextualizam as lutas da comunidade LGBT, mas que se parecem com todas as histórias de coragem de quem luta por seus direitos em meio à injustiça. Mais do que recomendáveis, elas deveriam ser obrigatórias para – quem sabe? – todos aprendermos a acordar também.

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‘Grace and Frankie’

Era uma vez dois casais amigos. Uma noite, em um jantar que prometia ser parecido com todos os outros que compartilharam ao longo de 40 anos de amizade, Robert e Sol pedem o divórcio de Gracie e Frankie. A razão para terem feito o pedido juntos e ao mesmo tempo é que, aos 70 anos, eles resolveram “sair do armário”. Isso mesmo: enquanto seus filhos cresciam misturados e as duas famílias tiravam até férias juntas, os dois maridos mantinham um caso de amor secreto, cheio de idas e vindas temperadas por culpa e vergonha.

Assim começa a mais nova série original da Netflix, “Grace and Frankie”, protagonizada por quatro veteranos de respeito: Martin Sheen (The West Wing), Sam Waterston (The Newsroom), Jane Fonda (no papel de Grace, linda aos 70 e com uma bunda torneada por jeans que me fez inveja) e Lili Tomlin (ainda feia, mas igualmente engraçada no papel de Frankie).

O humor brota principalmente das confusões surgidas em situações sociais a que a nova configuração das duas famílias é exposta. Mas é um humor de classe, nada apelativo, que não precisa de interpretações caricaturais para provocar o riso.

Nos momentos tragicômicos surgem as melhores pérolas do roteiro, não por acaso co-assinado por Marta Kauffman, de “Friends”. Eles convidam à reflexão sobre a vida, o amor e a sexualidade na terceira idade.

Os personagens são críveis, claramente inspirados em um novo perfil de idosos que permanecem pró-ativos social e profissionalmente. Os de Robert e Sal representam pessoas que passaram a vida escondendo sua homossexualidade dentro de casamentos hetero – nem sempre  infelizes (o de Sol e Frankie, por exemplo, era feliz em todos os aspectos que não envolviam sexualidade).

O grande trunfo da série é mostrar os desafios que surgem a partir de uma pretensa “libertação” favorecida por estes tempos “gay friendly”. Eles são muitos, imprevisíveis e legítimos.

Suuuuper recomendo!

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Depois de ‘Orgulho e Preconceito’

Matthew Rhys e Anna Maxwell Martin em 'Death Comes to Pemberley'

Sempre lamento a finitude da obra da escritora Jane Austen. Sou uma “caçadora” de produtos dramatúrgicos ou literários com características semelhantes às de sua obra – romances de época, de preferência ambientados na Inglaterra e, com alguma sorte, com aquela agudeza de análise social embutida nos subtextos – seja em que formato for: séries de TV, filmes, livros…

Sempre posso contar para isso com a BBC, que a cada ano inventa uma forma nova de adaptar alguma obra da escritora e a cada temporada lança outros produtos de épocas de origens e autores diversos.

Sua última investida foi “Death Comes to Pemberley” (A Morte Chegou a Pemberley). Sim, coleguinhas austenmaníacos, trata-se da Pemberley de “Orgulho Preconceito”, propriedade onde nossa heroína predileta, Elisabeth (ex-Bennet, agora mrs. Darcy), foi morar com seu amado após se casarem.

A nova série, dividida em apenas três capítulos, encontra nosso casal em feliz idílio doméstico na mansão inglesa, como pais do pequeno Fitzwilliam Darcy 3º. Georgiana, irmã de Darcy – que era uma adolescente à época de “Orgulho e Preconceito” – é uma jovem casadoira na casa dos 20 anos.

A atual Mrs. Darcy está às voltas com a organização do baile anual realizado para a comunidade, mas um incidente sinistro muda todos os planos.

Matthew Goode em Death Comes to Pemberley

Matthew Goode é Wickham

Um crime ocorre na floresta de Pemberley, do qual o único suspeito passa a ser George Wickham – aquele mesmo que casou-se em circunstâncias escandalosas com a irmã de Elisabeth, a louquinha Lydia, que continua tão fútil e chiliquenta quanto sua mãe.

A chegada do casal indesejável – que vinha para o baile mesmo sem convite – detona uma crise na relação de Elisabeth e Darcy, ao mesmo tempo que a investigação de assassinato envolve todos em uma aura de deconfiança e medo.

O elenco é de respeito. A habitué das séries de época da BBC Anna Maxwell Martin é Elisabeth; Matthew Rhys, que conhecemos primeiro como o filho gay de “Brothers and Sisters”, convence como um legítimo (e viril sim) Mr. Darcy, e o ótimo Matthew Goode (“Match Point”e Ïmagine Eu e Você”) é Wickham.

A história é tão envolvente que dá para perdoar não ter sido escrito por Jane.

Adorei, BBC… de novo!

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