Categoria: Portfólio

ARTIGO: Força, Ana!

Não gosto de lembrar as pessoas sobre o acidente grave que sofri em 2016, que me quebrou ossos das duas pernas. Parece vitimismo e não sou uma vítima. Mas tenho um bom motivo para lembrar aqui que precisei usar cadeira de rodas por três meses (além de andador e muletas por mais uns oito): legitimar minha solidariedade às pessoas portadoras de deficiências físicas.

Hoje, particularmente, minha solidariedade está com a funcionária pública mineira Ana Tereza Baêta Camponizzi, 59, que teve de conquistar na Justiça o direito de ser ajudada pelo porteiro de seu prédio a transpor uma rampa fora dos padrões em sua garagem. Seus vizinhos votaram, em assembleia do condomínio, que sua necessidade era privada e não pública. Traduzindo: “não era da conta deles” se ela precisava de ajuda para chegar a sua própria casa porque construíram em seu prédio um acesso em desconformidade com os parâmetros definidos em lei.

Acontece que, segundo a Constituição, é sim da conta de todos, mas não vou entrar neste mérito para não me desviar do objetivo deste texto, que é dar meu testemunho sobre como foi ser cadeirante em um mundo de andantes, ainda que por pouco tempo.

Precisei sair pouco de casa durante minha recuperação – para ir ao médico, ao INSS e ao banco sacar meu primeiro benefício (por questões que não explicarei aqui, ninguém podia fazer essas coisas por mim), mas foram vezes suficientes para me fazer desejar nunca mais ter de fazê-lo naquelas condições.

O pior não foi toda a operação física, que demandou sempre muita ajuda de outros.


E ao tentar se locomover de cadeira de rodas por calçadas de uma cidade como a
nossa, 
com obstáculos e desníveis de toda sorte, você sente como se não existisse…


O difícil é a demonstração (mesmo que velada) do quanto você atrapalha o mundo: um motorista que faz cara de mau humor quando tem de esperar você atravessar a rua devagar; pessoas que se dão ares de injustiçadas ao terem que deixá-la “furar” uma fila; jovens sem problema físico aparente que estacionam na vaga de deficiente (bem na sua cara!); sem falar nas pessoas que correm para pegar o elevador na sua frente acreditando que a pressa delas é mais importante que o seu direito.

E ao tentar se locomover de cadeira de rodas por calçadas de uma cidade como a nossa, com obstáculos e desníveis de toda sorte, você sente como se não existisse. Pior… que não deveria existir. Porque o mundo não foi feito para você . Os veículos não foram projetados pensando que existem pessoas como você no mundo, e as vagas destinadas a pessoas na sua condição nos estacionamentos não são respeitadas.

Cheguei ao fim de minha dependência de cadeira, muletas e andador sem resolver o sentimento de pequenez que me despertaram, mas muito certa de que, para viverem neste mundo, os portadores de deficiência não têm escolha senão serem – como diria Euclides da Cunha -, “antes de tudo, uns fortes”.

Então, força, Ana Camponizzi! Porque o mundo também é seu.

 

* Publicado, em versão reduzida, no jornal A Cidade do dia 12/4/2018

 

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ARTIGOS: série ‘Pílulas de memória’

Série de artigos publicados no jornal A Cidade, de Ribeirão Preto.


Artigo publicado em 30/12/2016

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Marciana na farmácia

Diálogo presenciado numa farmácia.
Após cumprimentar um cliente conhecido na fila, uma das caixas lhe pergunta:
– Verdade que você é polícia?
– Já fui. Não sou mais.
– Mas você consegue tirar umas multas de trânsito do nome da gente?
– Já tirei muito. Hoje em dia só do meu.
Ela entrega o troco, agradece, chama o próximo, volta à carga:
– Nem tirar pontos da minha carteira? Ainda deve ter amigos lá.
O cliente pensa um pouco… responde:
– Passa os pontos para a minha [CNH]. Aí eu vejo o que eu faço. Acho que dá sim.
A caixa do lado felicita a colega:
– Tá vendo? Pra tudo na vida tem jeito.
Devido à distância entre os interlocutores, o pequeno ato de corrupção foi combinado em voz alta, à vista de todos.
Procuro identificar um olhar de indignação entre os outros cinco clientes que aguardam. Nada!
Provoco:
– E ainda reclamamos dos políticos corruptos – digo para ninguém e para todos.
Silêncio sepulcral.
Dois clientes me endereçam olhares indiferentes e logo voltam aos seus próprios pensamentos. Os outros, nem isso – “não devem ter ido a nenhuma passeata contra a corrupção”, penso.
Só o cliente ex-policial fecha a cara.
E é a caixa-multada quem passa minha compra. Pelo sorriso sem culpa que acompanha seu “bom dia e volte sempre”, tenho a certeza de que não entendeu minha provocação.
Quase tenho pena. É óbvio que não se acha uma corruptora e jamais vai entender a relação entre o seu pequeno ato e os mensalões da vida.
Saio da farmácia me sentindo uma marciana.

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ARTIGO: Este gigante não me representa

Publicado no jornal A Cidade, de Ribeirão Preto.

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Ele pode comer essa banana

Ficamos combinados assim: foi sensacional a atitude do lateral direito Daniel Alves, brasileiro que atua como lateral direito do Barcelona, durante partida de deu time no último fim de semana.

Comer a banana que a torcida adversária lhe jogou, com o objetivo de desestabilizar seu emocional na cobrança de um escanteio, passou recados claros, eficientes, “matadores”: “vocês não me preocupam, não me desestruturam, não me despertam NADA…” Resumindo: “não sou vítima de vocês”.

Vamos combinar também que, ao contrário dos alvos de racismo pelo Brasil e mundo afora, ele “pode comer essa banana”. Bem-sucedido, rico e no auge da carreira aos 30 anos, Daniel sabe que não chegou de favor ao grupo de elite de um esporte competitivo, cheio de pressões e desafios. Sua trajetória vitoriosa o municiou com a autoconfiança necessária para não sentir-se vítima de racistas.

E daí que lhe jogam anonimamente uma banana para fazê-lo sentir-se xingado de “macaco”? No mundo real, sua fama e dinheiro atuam como um eficientes “igualadores sociais” – ficamos combinados, mais uma vez, que nossa sociedade é hipócrita assim.

Mas como esperar que outros afrodescendentes de origem humilde mantenham sua autoestima quando o racismo lhes extrai oportunidades de trabalho, educação, aperfeiçoamento, e quando o simples fato de ser negro o habilita a ser confundido e preso como ladrão? Nem todos têm a sorte do ator Vinícius Romão, de receber o apoio maciço da mídia para corrigir-se tal confusão.

Daniel Alves pode comer essa banana, mas quantos mais podem?

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Como ‘Peggy Sue’

“Peggy Sue – Seu Passado a Espera” (Peggy Sue Got Married, 1986), de Francis Ford Coppola, foi um de meus primeiros cultos cinematográficos. Seu roteiro foi o primeiro que vi utilizar como argumento – copiado à exaustão muitos filmes depois – a volta da protagonista (Kathleen Turner – foto acima) a seu passado, com a memória de todo um futuro vivido e com o poder de reeditá-lo. Até então acreditava que eu e todos os adultos do mundo considerariam dar um braço ou perna por tal oportunidade.

Ainda tenho todos os meus membros no lugar, mas de uma forma torta, poética, mas não menos real, ganhei de presente minha própria oportunidade de reeditar 27 anos passados em minha cidade natal, após 14 de outros “sonhos felizes de cidades” – e nem precisei entrar em coma como Peggy Sue.

Foi acordada que confrontei, recentemente, as esquinas que me assistiram carregar dilemas adolescentes e duras lidas de início de carreira. Atrás delas reencontrei antigos e valiosos afetos, personagens caras não apenas por terem passado por minha vida, mas por terem me escolhido e aceito junto com toda a parafernália emocional confusa que vinha junto com minha amizade.

De uma dessas pessoas especiais ouvi, ao reencontrar: “Acho que amizade é isso, né? Parece que não passou tanto tempo… que te vi ontem”.

Descobri assim que gratidão é um sentimento tão bom de sentir quanto o amor e fiz as pazes com este passado que acreditei ruim por tantos anos. Cheguei à mesma conclusão de Peggy Sue: o passado não precisa ser reeditado e a vida segue exatamente o rumo que escolhemos – não há melhor!

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