Categoria: #crônicasdeacidentada

Crônicas relacionadas ao período de recuperação de um acidente sofrido pela autora.

Um certo tipo de solidão

Existe uma solidão que não é de falta de gente, mas de experenciar uma situação que ninguém pode compartilhar com você ou imaginar como é. É como olhar as pessoas em torno de si – mesmo as mais próximas – através de um vidro que nos separa do restante da humanidade.

Eu me senti assim durante uma crise de depressão, mas então existia uma grande dor a me desconectar até de mim mesma – não me reconhecia…  passei a desgostar de tudo o que costumava me dar prazer (música, leitura, cinema, parentes, amigos…).

Mas descobri que não existem só as solidões ruins.

Durante vários períodos de recuperação do acidente senti novamente este vidro me isolando de todos – até de quem eu dependia para as mais elementares necessidades, meus cuidadores. Mas então não havia “a grande dor”, só uma grande percepção, como um estado de alerta constante.

Acho que precisamos de vez em quando dessa solidão. Com ela passei a olhar com mais atenção para as coisas do cotidiano que fazia automaticamente antes e também para as pessoas.

Re-hierarquizei o valor de tudo.

Desenvolvi uma gratidão retardatária por tudo o que podia fazer antes – e fazia no piloto automático, sem dar grande importância -, como andar rápido, correr (não fazia muito, mas deveria), dançar (adoooooro), ir ao banheiro e tomar banhos sozinha, dirigir um carro para onde quisesse… olhar – mas olhar meeesmo! – os caminhos.


“Desenvolvi uma gratidão retardatária por tudo o que podia fazer
antes – e fazia no piloto automático, sem dar grande importância”


E me fazia feliz saber que aquela imobilidade não era definitiva, que, com tempo e esforço, eu voltaria a fazer tudo.

Havia, sim, dias em que acordava triste, com um sentimento de urgência de voltar ao mundo. Eu não os evitava. Vivenciava as tristezinhas pacientemente… esperava passar. Sabia que passariam.

Passavam!

Era fácil enquanto só tinha minha recuperação para me preocupar.

Mas será que conseguirei manter isso? É a questão que tem me vindo muito ultimamente, conforme se aproxima a data da volta ao trabalho e, com ela, todos os gatilhos das antigas ansiedades.

Procuro me abastecer de leituras para a alma… tudo o que me cai nas mãos para lembrar-me que podemos escolher como viver e que teremos sempre ajuda (se a pedirmos).

Por indicação da querida Solange Bataglion, comecei a ler “Todo Mundo Tem um Anjo da Guarda”, do médium católico (sim, católico!) Pedro Siqueira.

Desde então tenho reservado o último momento de minhas orações de antes de dormir para tentar estabelecer contato com o meu. Por ora, tenho lhe endereçado pedidos de ajuda para manter os “ganhos” e administrar as perdas do último ano, mas tenho fé de que chegará o momento de só agradecer.

Que assim seja.

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‘Melhor a cada dia’

Silvia Pereira

Sempre invejei as respostas de meu colega José Manuel Lourenço àquelas protocolares perguntas “Como vai?” ou “Tudo bem?” (para a qual ninguém quer uma resposta de verdade):

“Eu estou sempre bem, estou sempre bem!”, responde nosso Mané. E está mesmo. Por escolha, vontade, chamamento, que o universo entende e obedece.

Fiz yoga, cresci no espiritismo e sou uma curiosa das filosofias que o livro “O Segredo” compilou, por isso acredito que a palavra é uma forma-pensamento com o poder de transformar a nós e nosso entorno.

Na prática, porém, eu nunca conseguia responder aos cumprimentos como o Mané. Se tentasse, tinha certeza de que me sentiria ridícula e falsa aos olhos de todos, porque não basta dizer qualquer coisa da boca pra fora. Apesar de toda teoria que eu engolia, nunca fui, assim, uma otimista – pense numa espírita sem muita fé.

Saber não é acreditar.

Daí que, concentrada na recuperação de minhas fraturas, desenvolvi uma percepção de como a melhora física respondia a meu esforço fisioterápico devagar e muito sutilmente… cada dia um movimentinho novo, uma dor um pouco menor, um músculo começando a acordar.

Tudo a conta-gotas, mas acontecendo… e eu vendo/sentindo.

Passei a acreditar que toda e qualquer melhora continuaria vindo assim, um pouquinho por dia, contanto que eu continuasse fazendo minha parte.

E veio.

De repente – e sem perceber, juro – já estava respondendo àquelas perguntas-cumprimento das pessoas com um: “Melhor a cada dia”. E sempre me lembrava rapidamente do Mané ao responder.

Eu, que sempre temia o pior, aprendia assim a acreditar no melhor.

Quase posso sentir os machucados de dentro começarem a melhorar também.

O universo encontrou seu jeito de me ensinar.

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As lições que a dor oferece

Silvia Pereira

Dia desses minha terapeuta perguntou, à queima-roupa, o que aprendi com as experiências do último ano de recuperação de fraturas nas pernas.

Emudeci. Não tinha a menor ideia.

Desde então fico esquadrinhando memórias recentes pra tentar entender o que ficou para além dos fatos.

Ontem, na volta do médico, enquanto revivia o esforço de obrigar braços e perna boa a impulsionar meu corpo escada acima, trombei com a consciência de uma das lições que as dores físicas me ofereceram (nem sempre a gente aceita o que é ofertado, que fique claro): a de conseguir manter foco no momento presente – objetivo de toda meditação.

Antes do acidente havia tantos “e se” nublando minha consciência enquanto o cérebro tocava as ações do presente no automático: e se a renda do mês ficar aquém das contas a pagar? E se o mês que vem eu não tiver mais emprego? E se eu não for suficientemente capaz? E se nada der certo… etc e etc?

Foi assim que acabei por não enxergar um sinal vermelho.

Mas lembro-me agora de que, no período pós-acidente, às voltas com dores frequentes, imobilidade forçada e dependência total de outros, meu pensamento era completamente desligado das preocupações comezinhas do cotidiano.


“Se o corpo estava fisicamente preso, a mente funcionava
liberada do peso dos “SEs” fabricadores de ansiedade e medo”


Assim, do acordar até o adormecer, eu focava única e exclusivamente nos desafios do dia: conseguir fazer todos os exercícios da fisioterapia, lidar com o trabalhoso processo de usar a comadre, suportar os medicamentos abrirem um caminho de fogo nas minhas veias, vencer os esforços e dores do banho, exercitar a paciência esperando pela ajuda necessária para fazer tudo isso.

De certa forma, era libertador acordar e sentir-me comprometida apenas com o “agora” de cada dia. Se o corpo estava fisicamente preso, a mente funcionava liberada do peso dos “SEs” fabricadores de ansiedade e medo. E como o sono era melhor!

Talvez por isso tenha sido relativamente leve meu fardo, o que faz eu me sentir uma impostora sempre que alguém elogia minha força. Não foi consciente e nem por esforço meu. Simplesmente não havia escolha. Foi como se o cérebro tivesse ligado um botão de “funcionamento de emergência” à minha própria revelia.

Ainda assim, houve momentos de rendição à melancolia e às lágrimas. Mas até esses tinham prazo de validade, pois sempre chegava a hora de ligar o foco no desafio seguinte.

Se aprendi a lição para todo sempre? Eis a questão… Hoje já me flagrei cedendo a ansiedades antigas, conjecturas de futuro… novos “e se”.

Já não sei se conseguirei reproduzir este “funcionar mais leve” quando voltar à minha rotina de antes – Deus sabe que somos convidados a nos sabotar o tempo todo -, mas é certo que não tenho mais desculpas.

Se voltar ao “sonambulismo” não será por falta de escolha, mas total incompetência.

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Uma nova dor, ferros e um desabafo

Não é só a dor.
Devem ter me avisado, em algum momento – embora não me lembre -, de que doeria ter ferros acoplados ao meu fêmur. Pensei, toda me achando: “eu aguento”.
Mas não é só a dor, que, aliás, está muito pior do que eu me lembrava.
Sim, amigos, estou enfrentando as dores de uma nova fratura, desta vez propositalmente provocada pelo cirurgião, para que meu fêmur possa crescer sob estímulo de ferros instalados nas suas extremidades.
A cada dia farei esses ferros movimentarem-se para separar o osso e estimulá-lo a crescer a partir da nova fratura.
Mas não é só a dor.
Tem a tontura e o escurecimento de vista cada vez que me levanto para me alimentar ou ir ao banheiro (por passar muito tempo deitada); a fraqueza e o cansaço extremo que me fazem puxar o ar sofregamente, como uma cardíaca (o sangramento nas entradas dos ferros ainda não parou); a falta de apetite e às vezes até enjoo provocado pelo cheiro da comida (talvez pelo humor deprimido, talvez também por ficar muito deitada, mal acostumando o labirinto), que tenho de enfrentar pra colocar algum nutriente e energia pra dentro do meu corpo; e o que mais me incomoda desde o início: precisar de ajuda para absolutamente tudo, o que faz meu marido novamente perder dias de trabalho.
Talvez Deus me queira menos independente, mais humilde (mais?), sei lá.
O que quer que eu deva aprender com mais isso tudo – já me sentia bastante grata -, ainda não consigo enxergar.
Só o que sei é que será um looooongo mês.

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Saudades de mim

“Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; (…) mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.”

Este trecho de “Dom Casmurro” teima em soar em minha cabeça desde que o Facebook me apresentou como lembrança esta foto de quatro anos atrás, feita pela querida Mariana Martins. Sorrio leve sobre minha moto seminova – a mesma que acabo de “internar” na oficina mecânica para ser consertada e vendida.

A “Laranjinha” sofreu muito menos que eu no acidente de seis meses atrás. “Quem vê a moto não fala do estrago que fez em você, né?”, brincou meu vizinho Júlio apontando pra ela, aparentemente intacta, na garagem de nosso prédio.

Ver a foto de nós duas inteirinhas me trouxe um sentimento incômodo, acompanhado de um desconforto no estômago que demorei a interpretar. Por isso escrevo (minha auto-terapia).

Não me entendam mal. Sou grata desde o primeiro dia de acidentada – por estar viva, por minha família, por meu marido-enfermeiro-secretário-anjo, por meus amigos -, mas este sentimento não anula o outro que me assalta agora: uma saudade doída de mim… a que dirigia a moto, que precisava de uma coisa e ia sozinha comprar, que podia jogar vôlei se alguém chamasse, andar de bicicleta, fazer yoga, cozinhar em pé…

Eu sei… é uma situação passageira, mas, como dizem, a gente só tem o hoje. E HOJE, andando pior do que uma senhorinha de 70 anos, sinto-me tão tão tão tão longe daquela motociclista sorridente de rosa-choque!

E eu sei que, por melhor que me recupere, aquela “eu” nunca mais vai voltar.

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Notas de acidentada

12/8/2016
Podia escrever um script de humor só com gags descrevendo as vezes em que um profissional de branco (há 37 dias eles se multiplicam em torno de mim) avisou-me de que estou condenada a comprovar, para sempre, a verdade sobre a capacidade de nossos avós de predizerem o tempo pelas dores em seus ossos.
Neste momento, sou toda (ossos e hastes de titânio) um verdadeiro mapa meteorológico.

15/8/2016
Saudades de cuidar da minha hortinha, dos cheiros de agradecimento que os temperinhos exalavam quando os aguava, de jogar um manjericão fresquinho em um molho ainda fumegante, de polvilhar com ele e um galhinho de orégano desidratado no varal o tempero com azeite e alho das minhas bruschettas – eu as decorava com tomates italianos descascados e sem sementes picados bem pequenininhos…

20/8/2016
Minha irmã ouve música alta enquanto limpa a casa e faz comida. Márcio reconhece a batida inicial de “Kiss”, do Prince. “Esta você gosta de dançar”, avisa, com o indicador levantado ao lado do ouvido. Ouço a Liz cantar da sala e lembro das três irmãs na casa de nossa infância parando a faxina ao mesmo tempo pra dançarem juntas na sala… Minha mãe continuava na lida como se nada acontecesse, indiferente ao som alto, conformada com a faxina negligenciada.
Sinto saudades de dançar, do som alto no meu apartamento.
Sinto falta de andar.
Vou dançar mais.

17/10/2017
Hoje dei quatro passos sem andador antes de meu joelho esquerdo falsear.
Primeiro fiquei feliz por mais um progresso. Depois fiquei triste.
Não me reconheci com este andar cambaleante e manquitola (minha perna esquerda está 3 cm mais curta que a direita) de velhinha com artrite.
Acho que terei de negociar com minha autoestima esta readaptação à realidade.

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