Intrigas de Estado presta tributo à velha escola de jornalismo

intrigas de estado

“- Estou aqui há 15 anos e escrevo em um computador de 16 anos atrás. Ela está aqui há 15 minutos e poderia lançar um satélite russo com o equipamento que tem”

“- Sim. Sou muito caro, sou passado e demoro demais”.

Ambas as falas são do jornalista Cal McAffrey, brilhantemente interpretado por Russel Crowe no filme “Intrigas de Estado”, um dos poucos ambientados nos bastidores do jornalismo a retratar com alguma fidelidade o ambiente e questões atuais da profissão.

Na primeira fala Cal compara suas condições de trabalho com as da blogueira da versão online do jornal em que trabalha – perfil que, ao que parece, começa a tornar-se o queridinho das redações americanas, graças ao aumento da importância da internet no jornalismo. Na segunda, ele deixa claro que sabe como é visto pelos donos de jornais o perfil de profissional que representa: o da velha escola, que tem fontes em todas as esferas, faz seu trabalho na rua, em vez de intocado dentro de uma redação, e prioriza uma profunda investigação (portanto mais demorada que as demandadas pelas “pílulas” de notícias da era dos twitters e blogs).

Mas Cal parece representar um perfil ultrapassado de jornalista só até a trama de “Intrigas de Estado” colocá-lo ao lado da tal blogueira na investigação de um escândalo político. Por mais que a jornalista iniciante mostre-se esperta o suficiente para acompanhá-lo na apuração da história, o tempo todo o roteiro faz questão de deixar claro que a experiência de Cal é que conduz a dupla pelas pistas certas.

Desta forma o filme faz uma homenagem ao jornalismo das antigas. Não chega a desdenhar as novas tecnologias, mas deixa claro que o compromisso com a apuração aprofundada de uma grande história sempre vai ter espaço na imprensa, mesmo em meio ao arsenal de informações rápidas e superficiais que pipocam pela internet (tomara!).

Esta intenção fica clara em um pequeno discurso que o personagem profere quando um antagonista faz chacota do seu senso de dever:

“Por que isto? Por que ninguém mais lê jornais? É por isto? É apenas outra história,

uns dias de tempestade de merda e vira papel de embrulho? Sabe, no meio de todo este boato e especulação que impregna a vida das pessoas, eu ainda penso que elas sabem a diferença entre notícias de verdade e mentiras. E ficam felizes que alguém se importe o bastante para registrar os fatos e publicar a verdade” (Alguma dúvida do que ele alfineta aqui?)

Gostei de ver questões tão atuais para minha profissão levantadas em um filme, ainda que indiretamente, já que a imprensa não é o foco principal de “Intrigas de estado”. O filme apenas ambienta sua trama de suspense nos bastidores do jornalismo. E ao contrário de muitas produções que usaram este mesmo artifício, não idealiza a profissão nem o profissional de imprensa.

Pude até estabelecer alguma familiaridade com as imagens da redação cheia de gente falando ao telefone ao mesmo tempo, sentadas em mesas apinhadas de papéis, como se não existissem gavetas, e com o clima de fim de festa evocado pela redação quase vazia após o fechamento. É mesmo um mundo à parte, mas nada glamouroso.

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