Piedade

Quando ouvi a chamada da notícia, imediatamente elaborei um juízo de valor: uma tia que esfaqueia o sobrinho de 1 ano só pode ser um monstro, um ser sem coração, que não merece perdão.

Mas veio a reportagem… a imagem de uma jovem assustada na TV… e desde então esta angústia sufocante que me forma volumes na garganta.

Vinte anos, dois filhos e um sobrinho para olhar, mas o rosto, moreno e redondo, é de menina. O cabelo rebelde foi domesticado à força em um coque improvisado no alto da cabeça. A voz é cansada. O olhar – triste de doer! – desenha uma expressão entregue, conformada, de quem conhece o destino que lhe aguarda… e o aceita, como se não pudesse ser pior que aquele que conhece.

“Eu fiquei nervosa”, disse ao microfone da reportagem. “Eles começaram a brigar… aí eu peguei e fiz isso”, admitiu.

Haverá quem veja frieza em sua confissão desarmada. Eu enxerguei um cansaço profundo, desses que se costuma sentir no fundo do poço escuro de uma depressão, quando já não nos importamos com o que virá, pois nada pode ser pior do que já é.

“Eu peguei a sacolinha em cima da mesa, coloquei na boquinha dele e comecei a dar facada nele”, continuou com a voz cansada que julgarão fria, por ser a de alguém que se assiste de fora, perdida que está de si mesma. Poderia estar falando de uma boneca da qual desgostou e decidiu arrancar olhos e cabelos (quem nunca maltratou a boneca em um arroubo de rebeldia infantil?!).


Haverá quem veja frieza em sua confissão desarmada. Eu enxerguei um cansaço profundo,
desses que se costuma sentir no fundo do poço escuro de uma depressão


Franciele ainda procurou ajuda na vizinhança. Chamaram a ambulância… e a polícia.

“Descontei nele”, não parava de confessar, como se pudesse explicar o inexplicável.

E agora… Quem terá piedade dessa mãe com rosto de menina e a adolescência abortada por uma gravidez aos 16?

Não a irmã, mãe do sobrinho vítima de seis perfurações de faca.

Algum familiar? Improvável!

O que será agora dessas quatro vidas – do sobrinho grave no hospital, dos dois filhos de Franciele… da própria – neste país com tradição de abandono da infância, de descaso com a pobreza e falta de atenção às mães-meninas?

Só me resta rezar, Franciele… por você, por seu filhos, por seu sobrinho que não teve culpa de nada – muito menos de nascer, de ser criança e chorar sob seus cuidados tão despreparados.

Que Deus tenha piedade de vocês!

Que tenha piedade de todos nós neste mundo desarrazoado.


"Sim! Que não ter um coração profundo
É os olhos fechar à dor do mundo,
ficar inútil nos amargos trilhos.

É como se o meu ser compadecido
não tivesse um soluço comovido
para sentir e para amar meus filhos!"
     Cruz e Souza, em seu poema 'Piedade'

Um comentário

  • Márcio

    Quanta tristeza! E ainda consegue ser mais avassaladoramente triste porque não se trata de um roteiro de ficção, é a realidade que pulsa nas artérias desse mundo doente.

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