‘Coringa’ e nossa embaraçosa catarse

Que atire a primeira pipoca o espectador de “Coringa” (Joker, 2019) que não empatizou com seu protagonista a ponto de, lá no fundinho, achar “bem feito” os crimes que ele acaba por cometer.

Um palhaço infeliz, que não controla o riso em situações de estresse

Esta é a grande armadilha do filme dirigido e co-roteirizado por Todd Phillips (pausa pra me chocar com o fato deste produtor, diretor e roteirista ter se especializado, antes, mais em besteiróis do nível de ‘Se Beber, Não Case’). Ele e o co-roteirista Scott Silver (“O Vencedor”) nos levam de tal forma a nos compadecer do dócil e maltratado Arthur Fleck – palhaço de rua triste que não controla o riso compulsivo em situações de estresse – que, sem nos darmos conta, continuamos a torcer por ele quando passa a assumir sua natureza psicopata.

Fez eu me lembrar do filme “A Onda” (The Wave, EUA, 1981; e Die Welle, Alemanha, 2008), que retrata a história verídica de um experimento realizado por um professor de História com seus alunos, a fim de provar, na prática, como uma sociedade inteira é levada a apoiar um regime racista, capaz de genocídio em massa – caso do Nazismo na Segunda Guerra Mundial. Mal comparando, é mais ou menos como milhões de pessoas acabam elegendo um líder que prega o machismo, a misoginia e a violência: fazendo nos identificar com histórias que busquem, lá em nosso subconsciente, nossos maiores medos e fraquezas e nos convençam de que “tudo bem” aniquilarmos quem este líder nos aponta como responsáveis por fazerem vibrar essas cordas. Dá uma sensação acolhedora de pertencimento nos ver representados por alguém que prometa se vingar por nós, né?

Está aí a armadilha!

E catarse é o nome dado pela psicanálise a este sentimento de “evacuação” de emoções internas (represadas em prol da civilidade) por meio de uma experiência fora de nós. É o que nos faz vibrar quando assistimos ao palhaço alquebrado finalmente defender-se de uma agressão gratuita, ainda que desproporcionalmente.

Se você não cedeu a esta embaraçosa catarse, parabéns! Pode se considerar um primor de civilidade, além de uma “pedra de gelo”, à prova de obras de arte que cumpram, para além do entretenimento, seu papel original: nos colocar um espelho nas fuças, para que nos reconheçamos nele e possamos extravasar nossos instintos primitivos apenas no terreno da ficção.

Por alcançar este intento de forma magistral é que “Coringa” entra para o rol das grandes obras-primas do cinema contemporâneo, ao lado de outras produções do gênero que bebem na fonte das histórias em quadrinhos – todos os “Batman” de Christopher Nolan entre eles.

Os Coringas de Heath Ledger e Joaquim Phoenix: interpretações de grandezas distintas

Aliás, não por acaso está na trilogia de Nolan a outra interpretação impecável do mesmo personagem, que elevou a atuação do saudoso Heath Ledger ao altar das mais memoráveis do cinema. Não há comparação possível entre seu Coringa e o de Joaquin Phoenix, porém. São duas grandezas distintas, nenhuma maior ou menor que a outra, até porque o mesmo personagem ganha tintas diferentes em uma e outra produção.

O Coringa de Ledger carrega o mesmo signo do caos do de Phoenix, herdado de seu original da HQ, mas nos arrebata mais pelo talento de sua interpretação. Não chegamos a torcer por ele, por mais que nos dê prazer cada uma de suas aparições magnetizantes na tela. Já o de Phoenix nos mantém o tempo todo suspensos pelo anzol da empatia. Por exemplo [alerta de spoiler!], desminta-me se você também não ficou sem saber se sentia repulsa ou compaixão por ele na cena em que, com o rosto branco ainda respingado de sangue, despede-se do amigo anão com um beijo na testa e palavras de gratidão e amizade ditas em um inconfundível tom de ternura (que interpretação, senhoras e senhores!).

Demorei alguns quartos de hora pra me tocar do absurdo de simpatizar com um assassino e enxergar o que diz sobre nós a cena em que ele dança em cima de uma viatura, aplaudido pela multidão: que todos temos dentro as mesmas sombras que a condição psiquiátrica de Coringa faz aflorarem à superfície de seu consciente; e que, devidamente incentivados, também somos capazes de aplaudir a barbárie. Ou não seriam tantos os que, entre nós, aprovam jargões como “bandido bom é bandido morto”.

Lamentável é que alguns de nós levem esta necessidade de catarse para a vida, aplaudindo e incentivando o ódio contra o diferente, que sempre vai nos ameaçar (culpa de nossos vieses inconscientes).

Phoenix arrasando como Coringa na cena de dança que viralizou nas redes, ao som de ‘Rock’n Roll’, de Gary Glitter

Seria bom se todos nos lembrássemos que as periferias pobres do mundo estão cheias de “coringas em potencial”, a sofrerem humilhações, violências e injustiças sociais, às vezes cometidas por quem deveria lhes proteger – governo e polícia. Mas nossa percepção vai só até o ódio primitivo que nos aflora quando somos assaltados por eles, por exemplo. Porque pra nós, ditos “civilizados”, sentir empatia por excluídos que ameaçam a segurança e a ordem sociais… só no cinema mesmo, né?

 

P.S. O QUE É AQUELE ROCKÃO DO CREAM – “White Room”,1968 – EMBALANDO UMA DAS CENAS DE DANÇA DO CORINGA?!?! (a que viralizou nas redes, ao som de “Rock’in Roll” de Gary Glitter, também empolga… mas sou mais Clapton!).

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3 comentários

    • Mateus Moura em 20 de dezembro de 2019 às 18:28
    • Responder

    Resenha excepcional.

    Esse filme é a síntese pura, do proposito da arte, o questionamento do que em nós parece concreto. Não para modificar tudo, mas para reavaliarmos as coias concretas em nós, troca-las de lugar, tirar aquilo que não faz mais sentido, acrescentar a nova mudança e etc.
    O filme é de um roteiro muito impecável, o roteiro é tão bem amarrado que o possíveis defeitos nele, se tornar totalmente de gosto pessoal. A fotografia é absurda, do logo vintage da Warner a cenas apoteóticas que enchem a tela de identidade e personalidade cinematográfica. A atuação do Joaquin Phoenix, é um espetáculo aparte. Um ator que vem dos novos filmes, considerados “Underground”, com aquela essência visceral de um verdadeiro ator, capaz de tornar material o irreal, fazendo do Arthur Fleck, a indigestão mais gostosa que poderíamos ter.
    Fora os outros espetáculos, como trilha sonora, montagem e etc.

    Na parte social, dos efeitos causados pelo filme, que adentra a realidade e nos coloca descaradamente, nesse conflito de estar ”Validando”e “Gostando” de um “bandido”. Me lembrou a realidade, esse ano alguns fatos, me fizeram perceber em carne viva o conflito e a estranheza de me compadecer de “bandidos”, como por exemplo, o caso do jovem, morto sufocado no supermercado, por um segurança.
    E depois de alguns dias nesse conflito, me lembrei das palavras de Clarice Lispector na maravilhosa cronica “Mineirinho”. Me vi com os mesmo conflitos da personagem da cronica, e no final como a personagem eu defini o que eu queria :”Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
    O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.”

    Manifestações artísticas como Joker, são ferramentas de extrema importância, no objetivo de que consigamos o Terreno, para vermos alem do obvio.

    • Carol em 24 de outubro de 2019 às 01:17
    • Responder

    Eu sai do filme querendo dançar como o Coringa. Puta filme, puta interpretação. Sim, sim, torci por ele, ri em algumas cenas de loucura, achei top a descida dele da escada, dançando. Mas é como disse, é assim que um louco como Bolsonaro ganha adeptos. Incrível a gente se ver no lugar de quem a gente tanto odeia.

    • Márcia em 22 de outubro de 2019 às 01:05
    • Responder

    Eu vi o Máscara na cena da escada aí da foto.

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