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Homeoffice

por Luciana Gerbovic

Hoje amanheci (já que não dormi) decidida a encerrar umas pendências do trabalho. Tudo ajeitado na minha mesa do “homeoffice”, que é a mesa de jantar mesmo, mas antes o café da manhã das crianças. Suco de laranja espremida na hora, ovo mexido, fruta, entuchando o que posso de bom e saudável nesses meninos.

Depois é colocá-los pra tirarem o pijama (por que, mãe, se ninguém sai de casa?), escovarem os dentes (por que, mãe,…), o cabelo (faz o que tô mandando e não pergunta) e finalmente ajeitar o material para as lições que a escola ia começar a mandar hoje. Mas tem que entrar no Googleclassroom e colocar os códigos. Tem que criar um e-mail pro mais velho e explicar pro mais novo que ele não terá esse esquema porque ele está no Fundamental I. Tem que se inteirar do esquema do Fundamental I. E tem que descobrir que o filho mais velho não acha mesmo o livro de Matemática e descobrir que o livro ficou na escola, e dar um jeito do livro voltar pra casa, mas aí já é hora do almoço e tem que ter legumes e verduras e peixe e comida fresca e depois do almoço pronto e da louça lavada tem o livro de Matemática que chegou e aí o filho pode começar a lição, mas ele está quase tão perdido quanto o Você Sabe Quem na presidência e resolvo sentar com ele, com todo o trauma que tenho das lições de Matemática, com toda a falta de paciência que tenho pra menino cheio de privilégio que não entendeu como deve se portar na escola e cuidar das coisas, mas sento e me encho do amor que sinto por ele e supervisiono a lição de expressões numéricas e acolho os erros e as dúvidas e o desleixo para transformá-los em desafios superados. E a lição fica tão caprichada que ele acha que o professor vai desconfiar que nem foi ele que fez.

E eu choro porque hoje à tarde eu deveria estar com meus alunos da Escrevedeira falando de literatura. E meus filhos me abraçam dizendo que logo estarei com eles. Enxugo as lágrimas e já é hora da janta. E tudo fresco de novo. Faço arroz e fica bom! E sirvo o jantar e enquanto o marido lava a louça e comenta que pelo WhatsApp os amigos acham que devia ter aplausos nas janelas para os maridos que estão em casa, eu berro em nome da luta feminista e digo que não vou jogar biscrok pra macho que tá fazendo o mínimo do mínimo do que poderia fazer e guardo a louça e coloco as crianças no banho e rezo pra virar lésbica depois que esse isolamento acabar porque de homem hétero já estou pelas tampas das panelas que eles não sabem onde ficam.

E faço um bate-papo virtual com as manas inteligentes da porra antes de regar as plantas. E tomo um banho e penso nas mulheres que não têm os meus privilégios, nos alunos que não têm os privilégios dos meus filhos, no trabalho doméstico que deveria ser remunerado e muito bem remunerado. E choro. E saio do banho e acho que mereço esticar as pernas no sofá.

Quase 23:00. E porra!, os trabalhos pendentes que assim continuaram, lá no meu “homeoffice”…

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Cinco centímetros

Meu mundo encolheu.

Ficou pequeno de repente ou será que está assim faz tempo e só me dei conta agora? Neste exato momento em que escrevo ele tem o tamanho do primeiro salto fino de 5 centímetros que coloco em quase dois anos.

Sei que ele tomou esta dimensão porque, pelos cerca de 200 metros caminhados entre o estacionamento de veículos e minha mesa de trabalho, equilibrar-me sobre aqueles finos 5 cm tornou-se o propósito da minha vida.

Não tinha me dado conta disso até chegar arfando ao destino.

“Correu Silvia?” – perguntou minha colega de trabalho ante meu descontrole respiratório.

“Quem me dera”. Andei foi bem devagarinho, cuidando de cada passo, esquadrinhando cada centímetro quadrado de piso antes de depositar sobre ele meu equilíbrio vacilante de acidentada.

Arfava era de algum tipo de emoção que não sei se consigo explicar… uma melancolia de finitude, como uma nostalgia de um sonho que, realizado, não parecia mais tão… sonho.

Talvez porque foi ali que me dei conta do tamaninho do meu mundo.

Lembrei-me do Du e da Clara, que acabaram de vender tudo o que tinham no Brasil para mudar-se de vez para a Espanha (isto sim de tirar o fôlego)… do querido Marcelo, vivendo há 20 anos em Londres a administrar saudades que mata por 30 dias ao ano… de minhas amigas, que já trilharam o Caminho de Santiago de Compostela e a Via Francígena, na Europa, e agora fazem planos de uma viagem ao Chile.

E eu limitando os meus a conseguir equilibrar-me sobre um salto fino de mulher.

Agora entendo o frio na barriga sentido quando me convidaram pra tal viagem: estava tão quentinho ali, encolhidinha que estava dentro de meus “não-planos” (aqueles que se faz quando não se tem plano algum) de voltar a usar salto ou decidir se poupo para trocar de carro ou faço reserva para um hipotético futuro desemprego!

Quando foi que fiquei tão pequenininha?

Será que consigo crescer de novo?

Barriguinha, prepare-se! Acho que vou levá-la (com frio e tudo) ao Chile.

 

* Publicada no jornal A Cidade em 15/2/2018

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Vício inerente

REGIS MARTINS

Chet Baker was a gifted trumpeter and jazz icon.

Estava eu pensando sobre o que escrever para os leitores do Palavreira, quando dia desses assisti a um filme baseado na vida do trumpetista Chet Baker (1929-1988), com o Ethan Hawke no papel principal. O título é muito bom – “Born to Be Blue” – nome de uma das canções mais famosas do jazzista, mas o longa em si não tem nada de excepcional. Apenas correto.

O fato é que Chet era um talento raro e, galã, foi considerado o James Dean do jazz. Tinha o mundo aos seus pés, porém, era um junkie inveterado e deixou um rastro de destruição por causa do vício.

Todo mundo tenta ajudar o cara, mas é um caso perdido. Na verdade, o que me chama a atenção nisso tudo, e até me assusta, é o tipo de autoconsciência de certos viciados.

São pessoas carismáticas e inteligentes que, conhecendo bem sua natureza, sabem que não vão sobreviver sem a droga. E vão se autodestruindo lentamente, numa grande valsa do adeus.

No começo do filme, sua namorada quer saber o motivo de um cara como ele se tornar um viciado. “Problema com os pais?”, ela pergunta.

“Não, nada disso”, responde Chet/Hawke e emenda: “É porque eu gosto de ficar doidão”.

Bom, essa é basicamente a resposta para um grande enigma do universo. As pessoas se drogam/fumam/bebem/comem/apostam em excessos porque gostam. A compulsão é uma velha amiga nossa.

A questão é: qual o limite?

Nos filmes “Ninfomaníaca 1 e 2” do dinamarquês Lars Von Trier, o diretor usa o sexo para tratar desse tema espinhoso que é o vício. Em dado momento, a personagem principal, Joe, vai participar de uma terapia em grupo e, de repente, se dá conta de que aquilo tudo não vai ajudá-la em nada. Simplesmente porque o vício faz parte de sua natureza. A busca pela cura era como uma negação de si própria. No final das contas, Joe aceita sua situação, a “fratura” que compõe sua alma, consciente de suas consequências.

Chet tinha consciência também, e pagou caro por isso. Devastado pelas drogas, morreu sozinho em Amsterdã, aos 58 anos, depois de “despencar” da janela de seu apartamento.

Reconhecer nossos demônios é um grande passo. Sobreviver a eles são outros quinhentos. E segue o barco!

 

(*) Regis Martins
Jornalista, músico, pai da Marina, avô da Helena e ‘palavreiro’
cultural de mão cheia


 

Toda semana, às quartas, o blog traz a crônica de um(a) ‘palavreiro(a)’ convidado(a). O convite é extensivo a todos que gostam de palavrear a vida em forma de crônicas.

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solidão

THIAGO ROQUE *

os vizinhos não sabem dizer quando começou.
gostam da solidão. velhinha quieta, na dela, faz mal pra ninguém.
anda pra cima e pra baixo com uma dessas ecobags.
o que encontra, coloca na sacola. e leva pra casa.
garrafa pet, lata de alumínio, cafuné na cabeça.
sapato velho, risada vencida, papelão.
alegria rasgada, bola furada, pente quebrado.
cabe na sacola? entra sem pedir licença – na sacola, na casa, na vida da solidão.
não demorou para o sobradinho virar um amontoado de objetos.
objetos que você olha. que você sente.
tudo sujo, sem brilho, com validade vencida.
tudo dado por vencido.
no começo, solidão até tinha um espacinho pra cada item.
na caixa vermelha, por exemplo, guarda os cumprimentos.
muitos deles gritados, sinceros, motivo de orgulho.
abria aquela caixa todos os dias, num ritual quase cristão – com direito a sinal-da-cruz.
vieram mais objetos. mais caixas.
mais.
ah, as caixas da solidão…
cores, tamanhos, conteúdos. guardam tudo – até um pouco de vida.
afinal, o que ia pra caixa era o que se perdia na cabeça e já não cabia mais no coração.
com o tempo, tudo foi desbotando.
caixa, cumprimentos, sinal-da-cruz.
ganharam aquele tom borrado da paleta esquecimento.
tão fora de moda…
quando solidão se dá conta, está tudo junto, dividindo caixas e angústias.
parece tudo um desespero organizado.
um desespero só.
de cartão de visita a memórias.
de disco antigo a desprezo.
de bem-querer a revistinha de horóscopo.
aliás, solidão é de libra.
do signo a velhinha corpulenta lembra.
quer dizer, lembra, esquece, lembra, torna a esquecer.
por isso, guardava tudo.
para lembrar. para tentar lembrar.
para que fossem lembrados.
o primeiro beijo, a primeira camiseta dos stones, o primeiro amor, o primeiro filho.
muitos primeiros. vagas lembranças.
ora, devem estar pela casa. onde? nas caixas – onde mais?
não podem morrer. não podem subir na boleia do tempo e partir sem olhar pra trás.
não podem. não.
mas, com frequência, acontece.
então, solidão vai para as ruas encontrá-los de novos.
de sentimentos a sachê de mostarda.
amarelos feito as caixas dos documentos.
ou ficam na caixa marrom?
lembra, esquece, lembra, torna a esquecer.
mas não reconhece nada. ninguém.
tudo parece estranho. tudo parece diferente. tudo parece frio demais.
mas sabe que tem algo ali. é questão de lembrar. é questão de viver.
e, assim, a sacola se enche.
muitas vezes, solidão precisa das duas mãos para dar conta do peso de seu destino.
sim, o fardo é pesado. ela não liga.
evita pedir ajuda. as pessoas não entendem porque precisa de tudo aquilo.
não entendem o que é segurar nas mãos algo que perdeu lá atrás – e continuar incompleta.
procurar, em cada lápis, cada latinha, cada fagulha de sofrer, uma peça do quebra-cabeça.
em casa, parte da sacola vai para as caixas da solidão.
parte se esconde pelo chão, aos olhos de quem prefere não ver.
parte se recusa a deixar a sacola.
sabe que será outro no dia seguinte.
sabe que será essencial. que solidão vai precisar.
e ela sempre precisa.
e sempre sorri quando enconta algo.
revira lixo. pega algo. sorri. põe na sacola.
ajoelha. limpa algo. sorri. põe na sacola.
folheia o jornal. vê algo. sorri. põe na sacola.
solidão também acumula sorrisos.
por isso que todo mundo gosta da solidão.
velhinha sorridente…
parece sempre estar de bom humor.
talvez esteja.

 

(*) Thiago Roque
Jornalista e palavreiro sofisticado, tenta escrever um livro há mais de 15
anos – quem sabe agora…


 

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Que número sou eu?

Sou várias pessoas, pois muitos números me identificam. Tenho pensado nisso. Se vou ao médico, sou aquela de cartão número tal, que está com ar desanimado por causa da dor. Assim sou vista pela recepcionista e pelo médico que, aliás, só vai tomar conhecimento mesmo do meu joelho ou do meu estômago.

Já, no banco – aí são muitos números – sou a mulher que retira dinheiro para fazer compras, um pouco mais animada que a anterior. Aí chego ao posto de vacinação, carteira número tal, sou aquela mulher que ama a vida e, por isso, quer prevenir doenças. Então, o guarda de trânsito me para na rua e pede vários números: carteira de habilitação, documento do carro. Sou a mulher ágil e independente que não depende de ninguém para levá-la para lá e para cá.

Então, assisto a um filme no on demand e sei que meus números estão quase todos lá na provedora: celular, CPF, endereço, telefone fixo, Rg, sou a mulher ligada em cultura, documentários, arte.. Chegam as eleições. Outros números no título de eleitor: sou a mulher que cumpre seus deveres cívicos na esperança de um país melhor

Ah, o meu passaporte! Bem vestida, fazendo o check in, mulher que ama viagens e sempre aberta a conhecer outras culturas. E têm as senhas: do banco, do Face, do e-mail, do site de notícias e de qualquer outro lugar em que me cadastrei. É isso: sou uma pessoa cadastrada também na pizzaria, na lanchonete, na livraria, na farmácia, no supermercado, na lojinha de roupa, no posto de gasolina, na lista telefônica e em todas as páginas que eu abro para procurar um simples perfume, um aspirador de pó ou um liquidificador. E tem a placa do carro.

É a matemática comandando a vida. Todos sabem tudo a meu respeito através dos números. Quando foi que isso aconteceu?

Se tudo é número, eu também devo ser um. Procurei a numerologia e descobri: sou número três.

Isso é bom? Bem, alguns pontos muito positivos, interessantes, e outros nem tanto e prefiro pular essa parte. Mas, um dia fui número cinco. E isso ficou gravado em mim. E é isso que quero contar.

Eu estava na escola ( ginásio na época) e pode parecer estranho, mas eu era número cinco, quando deveria ser um número maior por uma questão de ordem alfabética, Acho que era pelo lugar que ocupava. Havia cinco fileiras de carteiras e eu sentava na primeira carteira da quinta. Daí, número cinco. Ficou marcado porque o professor de matemática – vejam só, matemática outra vez- me odiava. Era nítido. Todas as perguntas que ele fazia eram para mim.

– Número cinco, responda.

Resolver exercício na lousa?

– Número cinco, lousa!

Eu ia mal em matemática apesar de me interessar pelo mistério dos números. Ia mal por causa da implicância do professor.

Bem, o tempo passou e muitos, mas muitos anos depois, um belo dia, entrei em uma mercearia e, pouco depois, percebi que um homem me olhava como se tentasse me reconhecer. De repente, em meio a várias pessoas, ele perguntou – em voz alta e apontando o dedo para mim:

– Você não é o número cinco? Foi o mesmo que dizer:

– Você não é aquela que ia mal em matemática?

 


A jornalista e escritora Matilde Leone publica sua crônica na seção “Delírios de Matilde” sempre às sextas-feiras.

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Efêmera

ELY VIEITEZ LISBOA *

O Criador chega perto de suas criaturas no pátio do Limbo. Estão sonolentas, enoveladas, em latência, à espera do vir-a-ser. Toca com indicador em Efêmera. Ela se abre em flor, espreguiça-se, bela, nua, pura. Os olhos azuis veem o Criador.

– Que quereis de mim?

– Tu vais ao mundo lá embaixo, em missão especial. Tens um dia para te tornares adulta, sábia, encontrares um parceiro, ficares grávida, deixar lá teu filho e voltar.

– Um dia?!

– Não te preocupes; é no meu calendário. Lá, os homens marcam o tempo de maneira complicada e não muito eficiente, com minutos, horas, dias, semanas, meses, anos.

Efêmera cobre os pequenos seios claros, firmes, os mamilos róseos. Depois as mãos longas descansam no colo, como folhas justapostas. Vira-se para o Criador. Os cabelos muito claros reluzem, trespassados de sol.

– Quando devo partir?

O Criador nada responde; com um simples aceno de mão dá a silenciosa ordem.

Efêmera, aureolada por uma energia azul, vai desaparecendo. Surge lá embaixo, na terra dos Homens, em um trigal, pintalgado de papoulas. Ama a cor do trigo, que se mistura com o dourado de seus cabelos. Acaricia as pétalas das papoulas magriças, equilibrando-se sobre os caules frágeis. Efêmera caminha entre os trigais, passa por um regato límpido. Para, encantada: a água é prata líquida, escorrendo sobre as pedras limosas. É belo o mundo dos Homens! Pouco adiante, a macieira pejada de frutos mata-lhe a fome, o caldo doce, de gosto bom, descendo-lhe pela garganta. Efêmera procura as grandes estradas que a levarão aos Homens, onde está o seu destino, a missão. À noitinha, cansada, repousa perto de um caramanchão de buganvílias coloridas, que se esparramam sobre um grande muro de pedra. Do outro lado estão os Homens.


“Efêmera, aureolada por uma energia azul, vai desaparecendo. Surge lá embaixo,
na terra dos Homens, em um trigal, pintalgado de papoulas. Ama a cor do trigo”


Quando entra na Vila, todos se espantam com o insólito de sua nudez, o exagero da beleza, o translúcido de pela alva. Ela caminha vagarosamente e vai sentar-se sob uma figueira centenária. A vida na pequena aldeia muda. Todos vão lá para vê-la, os homens a desejam, as mulheres a odeiam. Só as crianças e os cães a recebem normalmente, com carinho, e estão sempre aos seus pés. O chefe da Comunidade presenteia Efêmera com um manto azulado, quase tão belo quanto seus olhos, manda-lhe joias, manjares finos. Ela aceita o manto. Para se alimentar, prefere figos e amoras sumarentas que as crianças lhe trazem.

Como tudo na vida, o povo acostuma-se à presença de Efêmera. Ela espera, calma, porque sabe. A hora certa de realizar sua missão está próxima.

É ao entardecer do sétimo dia, no calendário dos Homens, que Sore chega. Vem das montanhas. Entra na aldeia, belo, alto, o largo peito nu, os ombros cobertos de peles. Os cabelos vão até os ombros e são escuros como seus olhos grandes. As mãos enormes seguram o bastão real; ele é o sucessor, o príncipe. Seus pés o levam até a figueira. Olha para Efêmera com o deslumbramento das surpresas únicas, o coração batendo acelerado. Ela, ereta, sorri, atraindo-o como um ímã. Deixa cair aos pés o manto. Estende-lhe a mão. Sore encontra sua companheira, ele, o guerreiro mais cobiçado por todas as mulheres.

Envolve-a com os braços, misturam-se os cabelos, os dois corpos se juntam. Deitam-se. Sore cobre-a com a doçura das brisas e rega seu ventre com o néctar da vida. Efêmera sabe. Uma criatura dorme no seu útero, túrgido de futuro: Ele, o Salvador. Será um guerreiro belo e forte como o pai e terá o céu nos olhos, como Efêmera. No dia certo ela se deita e espera. O filho sai-lhe do ventre. Ela o envolve com o manto real. Beija-o e parte.

Muitos anos depois, ainda contam que no dia em que encontraram a criança, uma luz azulada envolvia a figueira. Sore viera, tomara o filho nos braços e o levara para cumprir o seu destino.

Lá no alto, no calendário eterno, havia se passado mais um dia. E tudo se cumprira como se deve, nas sábias leis do Criador.

 

* Ely Vieitez Lisboa
escritora com 14 livros publicados, autora do romance epistolar “Cartas a Cassandra”, tem uma coluna dominical nos jornais A Cidade e Metrópolis, de Ribeirão Preto, no jornal Sudoeste, de São Sebastião do Paraíso, e escreve eventualmente no Linguagem viva, de São Paulo.

 


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