True Blood: amor, sexo, tensão social e humor de HQ

True Blood 2“- Não repare se, por acaso, eu parecer um pouco… morta”. Esta frase é dita por uma vampira adolescente ao namorado humano, com quem pretende perder a virgindade – mas não antes de render-se ao seu reparador sono diurno. “Fico meio doente de dia”, explica docemente, ainda de presas à mostra.

Em um outro capítulo da segunda temporada do seriado “True Blood” – que no Brasil vai ao ar pela HBO -, um vampiro milenar trucida um humano após ser “atacado” por ele com uma corrente de prata (metal que, nesta série, queima a pele dos sugadores de sangue). Após o massacre, ele se vira para o outro prisioneiro humano, que assiste a tudo apavorado, e pergunta:

“- Tem sangue no meu cabelo?” Só então percebemos que o vampirão alto e atlético veste uma capa de cabeleireiro e traz algumas das madeixas aloirada embaladas em papel alumínio.

– Tem um pouco sim”, responde o humano em voz trêmula.

-Droga! Pat [a cabeleireira] vai me matar”.

Este tipo de humor prevalece em quase todas as cenas de “True Blood” – SIM, mais uma série sobre vampiros, estes personagens fantásticos que escritores e roteiristas das mais variadas épocas e mídias adoram explorar dramaturgicamente. Da literatura aos quadrinhos, da TV ao cinema, a lista de produtos envolvendo estes mortos-vivos é grande. Tanto que dei de ombros quando ouvi falar sobre mais uma série sobre vampiros, por achar que não havia mais ângulos a explorar.

O argumento de “True Blood”, porém, me surpreendeu. Aqui os vampiros “saem do armário” (digo, do caixão) e passam a conviver entre humanos após terem seus direitos civis assegurados por lei, mas sob a condição de deixarem de matar para se alimentar. Isto se torna possível com a produção, em escala industrial, da bebida Tru-Blood (trocadilho com o nome da série, que significa “sangue genuíno”), espécie de sangue artificial que supre as necessidades alimentares dos vampiros.

Mas como estamos falando da sociedade humana, na qual nenhuma transição social se dá sem guerra civil, declarada ou não, assim como ocorreu quando os negros foram libertados e os gays conquistaram direitos civis específicos, algumas parcelas da população discordam da integração e vão à luta. Não por acaso, aliás, o seriado se passa no sul dos EUA, berço da Klu Klux Klan (é impagável assistir a vampiros falarem inglês com sotaque sulista).

Do lado dos vampiros também há os que desprezam a nova política, tornando necessária uma organização social paralela, que pune quem fere os estatutos da espécie. Assim é que a comunidade vampira também tem seus xerifes de área, magistrados, governadores e até uma rainha, que volta e meia vai à TV participar de debates com políticos contrários à integração.

E esta prossegue mesmo aos trancos e barrancos, trazendo em seu bojo, como qualquer mudança, muito preconceito, conseqüências boas (como a abertura de um novo nicho de mercado para os vampiros, com criação até de quartos de hotéis à prova de sol, por exemplo) e ruins (no mercado negro, comercializa-se sangue de vampiro, que tem nos humanos mais ou menos os mesmos efeitos que a cocaína).

True Blood (cena sexo) LEG corteNeste quadro, o amor entre diferentes não podia ficar de fora. A protagonista Sookie, uma humana com poderes telepáticos interpretada por Ana Paquin (Oscar por “O Piano”), vive um caso de amor com o vampiro Bil Compton (interpretado charmosamente pelo inglês Stephen Moyer), com quem, inclusive, perde a virgindade. Aliás, cenas de sexo são o que não faltam na série -no mínimo uma com nudez explícita por episódio-, mas pelo menos todas estão inseridas dentro de um contexto na história. Não chegam a ser gratuitas, mas obrigam a série a ostentar classificação indicativa para maiores de 18 anos.

Mas não é o erotismo e sim o humor, nada convencional, o melhor trunfo de True Blood, depois das questões sociais. O humor aqui não tem nada de besteirol. É irônico, surreal, muito parecido com o das histórias em quadrinhos. Tanto que desconfio que nem todos os espectadores saberão apreciá-lo. Eu recomendo.

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