X-Men Origens: Wolverine fica abaixo da franquia

Fã que sou da série “X-Men”, estava ansiosa para assistir ao último produto da franquia, “X-Men Origens: Wolverine”, com a história pregressa do herói da série. Assisti, mas o filme não me ganhou como os antecessores, apesar de reunir os principais requisitos de um eficiente filme de ação e ficção científica – um galã lindo, viril e carismático; efeitos especiais de última geração e uma história bem amarrada (apesar de improvável como a maioria das ficções científicas).

Para mim, faltou o ingrediente que mais me entusiasmou na trilogia que o antecedeu: uma ou mais questões filosóficas propostas -ou provocadas- por cada trama.

“X-Men – O Filme” nos apresentou pela primeira vez os vários lados de um impasse social. Em um futuro próximo, pessoas cuja carga genética pularam um degrau à frente na escada evolucionária humana são dotadas de algum dom ou poder especial. Chamadas mutantes, elas são temidas pela sua diferença e, por isso mesmo, segregadas, discriminadas, como todas as minorias antes delas na história da humanidade.

Os três filmes da série mostram como diferentes mutantes lidam de diferentes formas com o preconceito de que são vítimas. Na escola para superdotados do Professor Xavier, jovens mutantes são estimulados a compreender o medo que causam e a lidar com a discriminação pelo caminho da tolerância. Fora dali, o temível Magneto, mutante com a capacidade de manipular qualquer metal interpretado pelo excelente Ian McKellen (o Gandalf de “O Senhor dos Anéis”), lidera revoltosos na criação de planos para arrasar com a humanidade que os humilha.

Entre essas duas vertentes, aparece a figura do herói solitário Logan-Wolverine, mutante indestrutível graças ao seu poder de regeneração e a um esqueleto forjado de um metal não encontrado na natureza terrestre, o adamantium. Um mistério ronda sua história, que ele mesmo é incapaz de lembrar.

Enquanto os humanos “normais” votam leis que violam os direitos individuais dos mutantes (qualquer semelhança com a neurose “pós-11desetembro” que acometeu os EUA não é mera coincidência), nos bastidores as duas facções de “enjeitados” travam uma batalha atrás de outra, às vezes em lados opostos -quando a turma de Xavier defende os humanos da turma de Magneto, que quer o extermínio deles-, outras vezes lado a lado, quando têm que defender toda a Terra de uma ameaça em comum. No meio disso tudo, Wolverine encontra tempo para flertar com a professora com poderes telecinéticos interpretada por Famke Janssen.

Cada sequencia com mais imaginação, os três filmes sustentam discussões ricas sobre como lidar com “o diferente que ameaça”. O segundo acrescenta vários pontos de interrogação à história de Wolverine com o aparecimento do vilão Strikker. O terceiro, além de apresentar uma escolha difícil aos mutantes, com a descoberta de uma vacina que faz regredir seus dons, ganha toques de tragédia com a liberação do lado obscuro da personalidade da telecinética de Famke Janssen – a esta altura o grande amor de Wolverine.

Nenhuma das questões filosóficas levantadas – como proceder diante do diferente? (atacando para se defender? Tentando a convivência pacífica? Ficando longe?”); “Como se posicionar sendo diferente?” (vingando-se da segregação? tentando compreender o medo? tentando mostrar que não oferece perigo?); “aceitar ou negar a própria diferença?” – tem uma só resposta e nenhuma das respostas possíveis é simples ou fácil. Reside nisso toda a riqueza da série, que desperta a reflexão, nos incita a nos imaginar nos papéis dos personagens, nos faz pensar e encontrar analogias dessas situações em nossa vida real.

Lembro-me de uma cena de “X-Men 2” em que um jovem aluno da escola de Xavier decide contar aos pais que tem dons mutantes. “Pode ser consertado?”, “É algo que você pode escolher não ser?”, perguntam os pais após o filho “sair do armário”. Acredito que isso tenha lembrado a muitos gays a ocasião em que revelaram sua opção sexual aos familiares.

“X-Men Origens…” (veja trailer abaixo) não propõe muito em que pensar. Sugere fracamente um dilema interior de Wolverine entre ser humano e deixar sua natureza animal aflorar. Nada que encontre similares na realidade ou suscite mais de uma resposta. Em relação aos outros filmes da série, é superficial.

No lugar de uma inteligente e profunda saga de ficção científica, restringe-se a “mais um” filme de ação como as centenas de outros que Hollywood lança todos os meses. Uma pena, já que alguns de nós não quer só “diversão e arte”… quer também pensar enquanto se diverte.

Link permanente para este artigo: https://palavreira.com.br/x-men-origens-wolverine-esta-abaixo-da-franquia/

Deixe uma resposta

Seu e-mail não será publicado.