Categoria: Palavreiros

Seção com crônicas de convidados do blog

Baile de máscaras planetário

Agora, COVID-isolada, com todo o tempo do mundo liberado, escuto em mim um eco fundo, ‘Clariciano’

Évanes Pache*

Antes do convite para o baile de máscaras planetário eu pensava que o bem mais precioso que o ser humano podia ter se chamava Tempo. A vida se dava em aceleração constante.

Fiquei maravilhada com as reflexões que um filme de ficção científica, estrelado por Justin Timberlake, me provocou. Num futuro próximo, as personagens trabalham em fábricas e, todos os dias, ao final do expediente, passam num guichê para receber seu pagamento. O seu salário é pago em tempo. Sim, tempo. Naquela fatia de realidade, as pessoas trabalham por tempo de vida. Essa é a moeda de troca em “O Preço do Amanhã” (In Time, 2011). É com o tempo que se paga comida, transporte público e todo o necessário para viver.

O filme é muito interessante e não quero dar (mais) spoiler, mas dá pra imaginar o que acontece se a pessoa para de trabalhar, não?

“O Preço do Amanhã” é, pra mim, uma releitura do mundo pré-baile de máscaras. Até fevereiro de 2020, vivíamos e trabalhávamos numa velocidade cada vez maior e, por outro lado, no subtexto, estava a angústia de atingir o tempo livre, sonhando com o final de semana, com o próximo feriado, com as próximas férias.

Hoje, com a COVID-Fest a pleno vapor e mascarados disputando pela versão mais mask fashion no baile planetário (um comportamento resquício do mundo pré COVID), o tal do tempo deu um cavalo de pau e se atravessou na avenida. Tudo virou de cabeça pra baixo no LP “Terra Plana”. Podia apenas ser a maravilhosa “Terra”, de Caetano (já que estão querendo voltar no tempo), mas não. Agora, estamos ouvindo o Lado B do mundo e de cada um de nós também. No Brasil, o Lado B roda em 78 rotações e em algumas bocas canta “todo mundo, vamos, pra frente Brasil…” (né Regina?).

Tenho pensado nas projeções de cientistas e informações de profissionais da saúde, nas notícias que chegam diariamente e no comportamento inexplicável de tantas pessoas que tenho visto – estupefata – todos os dias. Olhando em perspectiva, o quadro pintado não é bonito. ‘#EleNão’ tem 50 tons de cinza. “#Elenão” e seus seguidores gozam com a pulsão de morte descrita por Freud.

Ahhhhh, mas eu vou colorir com o Azul que é a cor mais quente. Pra começar, vou jogar aquele azul bem Frida misturado a um rosa bem Liniker. Depois eu penso no resto.

Nos primeiros dias ficamos meio perdidos com tanto tempo, à deriva. Pensei muito em Clarice ao refletir sobre tempo e liberdade. Apliquei Clarice em minhas inquietações. Antes das máscaras era um tal de “liberdade é pouco. O que eu quero ainda não tem nome”. Eu tinha fome (tenho) de mundo e queria (quero) tempo pra explorar inúmeros lugares. Agora, COVID-isolada, com todo o tempo do mundo liberado, escuto em mim um eco fundo, ‘Clariciano’, que diz: “eu e minha liberdade que não sei usar“.

Das reflexões, um pensamento urgente incomoda/mente. “É preciso amar como se não houvesse amanhã”. Tô pensando aqui que, sem poder frequentar a academia que cuida do físico, talvez seja interessante inventar em nós a academia da alma e exercitar todos os dias os músculos da compaixão, solidariedade e empatia. Na minha perspectiva, esses são os nossos maiores ativos.

Quem sabe, ao desfilar essas atitudes nas redes, nas videochamadas, lives, textos, mais gente perceba que o discurso bélico/presidente da Ustra direita, está mais que demodé. Está ultrapassado, brega, oldfashion nas velhas prateleiras ditatoriais do Brasil do século passado.

Então, meu caro amigo, me perdoe, por favor”, se agora eu deixo essa pergunta:

“O que você faria se só te restasse esse dia?”

 

P.S.: hoje, eu apenas gostaria de fazer poesia e declarações de amor. Enquanto isso, no meu baile pessoal, me prometo fazer tudo o que mais gosto. #Ficaremcasa, falar, me declarar a amigos queridos, cozinhar coisas que me dão prazer ouvindo jazz e tomando um bom vinho. Vou continuar a sonhar, amar, me renovar, revelar. Quero dizer do meu amor e me despir do que ainda pode restar em mim de ustra-passado. Sim, porque todos nós temos sombras de estimação a dar conta. Eu tenho esse figurino mas escolho deixá-lo no armário enquanto vivo livre.

Em tempo…all we need is love” and respect for all sort of life.

 

Évanes Pache é jornalista e especialista em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz

Crônica da seção Palavreiros, do blog, que traz colaborações de convidados com temas livres. O convite é extensivo a todos que gostam de “palavrear” a vida na forma escrita.

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Shhhhhhh

Eu tinha quatorze anos, disso me lembro bem, quando cheguei faminta da escola e fui direto para a cozinha. O almoço ainda não estava pronto, nem a mesa posta. No fogão, aquele pininho da panela de pressão girava e soltava um chiadinho. Tive dificuldade para soltar a trava de segurança e enxergar, afinal, o que minha mãe preparava. Foi quando ela, como se enviada pelos anjos, entrou na cozinha e soltou um berro de horror. Larguei o cabo da panela na hora e respondi: só queria ver o que tem para o almoço. E você não sabe que não pode abrir panela de pressão???, ela continuou berrando entre incrédula e aliviada. Não, eu não sabia. Está certo que ela não tinha me ensinado, mas eu era, mesmo, essa adolescente sem noção nenhuma de cozinha (ou seja, de química, de física e da realidade). Tenho uma tia que, com quase trinta anos e recém casada lá nos anos 1970, resolveu fazer uma feijoada para o marido, prato que ele adorava. Era um sábado e ela comprou feijoada enlatada para o grande dia. Não cozinhava nada. Absolutamente nada. Leu as instruções e pronto: colocou a lata, fechada, dentro da panela de pressão. Perdeu o almoço e quase perdeu também a inteireza do rosto quando a lata voou da panela e abriu um rombo no teto. Desconfio que, no lugar dessa tia, eu teria aberto a lata e despejado o conteúdo na panela, mas é essa a minha linhagem. Ao menos parte dela.

Cresci sabendo fazer só duas coisas, e olhe lá: ler e escrever. Escolhi profissões que dependem dessas habilidades. Enquanto morei sozinha gastei muito dinheiro em restaurantes, e depois de casada também. Até que vieram as crianças. E eu fiz as piores papinhas do mundo. Os bebês cuspiam e eu lhes dava razão. E mais dinheiro com comida pronta e cozinheiras. E minha mãe, a melhor mãe e avó do mundo, que sempre nos salvou. Quando não tínhamos alternativa, era macarrão com molho de tomate, macarrão com molho branco e macarrão na manteiga. E ovo mexido. Porque o frito não dá certo de jeito nenhum. E o macarrão podia variar: com ovo mexido e sem ovo mexido. E os meninos foram crescendo e dizendo que meu macarrão era o melhor do mundo. E eu só pensava: ah, quando o mundo deles se ampliar… Até que veio a pandemia do Covid-19 e o mundo de todo mundo se encolheu. Consegui, aos quarenta e cinco do segundo tempo antes de nos isolarmos em casa, um estoque de congelados. Mas o mundo ia se encolher ainda mais e por mais tempo. E eu, era o quê, afinal? Mãe de dois meninos famintos, como são todos os meninos em transição para a adolescência. Acordei um dia cheia de coragem e não deixei que ela sumisse entre o quarto e a cozinha, como acontece quase todas as manhãs. Estava obcecada: dessa vez o arroz ia ficar bom. E, sorte de principiante ou não, até meu marido se espantou: como você fez esse arroz tão soltinho? Encolhi os ombros discretamente, mas soltei fogos de artifício por dentro. E peguei todos os legumes que tinha na casa e fiz uma bela fornada regada a azeite. E teve peixe. E depois frango. E até a carne vermelha, meu maior pavor, já deu certo. Macia e bem temperada. Arrisquei feijão, que ficou comestível, mas a lentilha ficou boa mesmo. E fiz um purê de batatas, o prato preferido das crianças, que parecia uma nuvem. E teve até tortinha de maçã, que começaram feias, mas terminaram douradinhas e gostosas. Bolo de beterraba com chocolate. Pedi receitas pelas redes sociais. Ganhei várias e fiz algumas. As outras estão guardadas. Quero fazer todas, já gosto da minha comida. E tive até a ousadia de não seguir estritamente uma receita.

E deu certo. Deu certo! Pensei em pedir silêncio, como o poeta: nesse meu mundo encolhido e doído, nasceu uma flor. “Vejam!, pode ser feia, mas é uma flor”(*). E, em meio às panelas, à louça suja, à faxina, ao trabalho agora menos remunerado e às lições de casa das crianças, saíram também os textos jogados nas redes, uma tentativa de respiro e aproximação, porque sim, eu gosto tanto de gente, e chegou o convite para escrever nesse blog. Puxa, mais uma flor, ainda que feia. E talvez, mesmo nesse momento tão triste e duro para o mundo, a gente consiga cultivar um pequeno jardim.

Obrigada, Silvia!

 

(*) referência ao poema “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade

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Mais perto da lua

Noite dessas fui abduzida para outro planeta. Justo eu, que nunca gostei de histórias de viagens interplanetárias, realidade paralela, catástrofes e coisas assim. Só via o céu quando passava noites no mato e, sem mais o que fazer, me deitava olhando a lua, a via Láctea, o Cruzeiro do Sul, a estrela Dalva e milhares de estrelas… Aí pensava em como seria morar em uma delas ou no planeta vermelho.

Agora isso: abro os olhos, ando pelo apartamento. Tudo parece igual, mas está diferente. Os extraterrestres reproduziram meu habitat como fazemos nos zoológicos, mas foram além, porque todo o meu entorno é o mesmo e minha mãe continua morando no mesmo lugar.

Só que estou enjaulada. Daqui não posso sair. Segundo me informaram por uma tela onde os ETs surgem cheios de cena, posso quebrar a regra da quarentena que me impuseram por causa de um invasor, mas arcarei com as consequências. E porque não posso sair, não vejo outras pessoas a não ser meu marido, que foi abduzido junto.

Temo e aprendo. Faço ginástica, cozinho com os suprimentos que me deixaram e há uma ordem de que tenho que manter 1 metro distância de quem quer que eu eventualmente cruze, se me rebelar.

Aprendo e temo. Não sei como viverei igual a antes disso se tenho aprendido a viver de outro jeito. Também não sei quando me devolverão para a Terra, se ela ainda será a mesma e nem mesmo se existirá. O mais grave: não sei se quero ser devolvida.

Estou gostando de ficar aqui, tirando as ameaças e os perigos do lugar. Consigo manter contato virtual com as pessoas que amo, rezo, mas não preciso trabalhar fora, cumprir compromissos sociais, encontrar os conhecidos sem afinidade comigo, experimentar a comida do restaurante novo, ser medida dos pés à cabeça. Vivo. Não preciso ir a cabeleireiro, terapeuta, shopping, massagista, cardiologista, contador. Não preciso ir ao banco.

E tudo se adapta. Cortam-se os excessos, tiram-se as influências. Neste planeta eu ouço menos barulho. Sempre gostei de silêncio.

Restringiram-me. Não posso mais bater perna. Viajar não pode. Nem abraçar, o que é ruim, mas por outro lado é bom porque dá mais vontade e encontram-se outros caminhos. A rigor, nem falar sozinha é permitido, pois gotículas de minha saliva ficarão no ar e isso é ruim para quem vem depois.

Tudo isso tem me deixado calma. Posso estudar uma porção de coisas que sempre quis sem ter pressa e faço isso pelo celular, que mantiveram e tem ótima conexão interestelar.

Devo fazer tudo devagar para que o tempo passe. E o tempo passa.

Durmo bem, rio, ouço músicas. Parece que estou voltando a ser criança.

Aliás, quando eu era menina, cismei de descobrir qual era a distância entre a Terra e a Lua. Passava tardes sentada no jardim tentando resolver esse problema.

Um dia, olhando uma figura da Terra e da Lua, tive a ideia: medi o diâmetro da Lua com a régua da escola. Digamos que tenha dado 1 centímetro. Medi a distância entre ela e a Terra. Digamos que tenha dado 5 centímetros.  E concluí que eu estava a 5 luas de distância da Lua.

Agora eu poderia calcular quanto tempo levaria para ir de caminhão até lá. E depois teria de descobrir por qual estrada.

Só porque estou abduzida nessa réplica do meu território, e com tempo, pude lembrar do meu sonho infantil de querer morar na Lua. Lá eu estaria mais perto daquilo que me faltava e eu nem sabia o que era. Nem sei ainda, mas estou com mais esperança do que nunca.

Márcia Intrabartollo é jornalista, peregrina e aprendiz de escritora

Márcia Intrabartollo é jornalista, peregrina e
aprendiz de escritora

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Homeoffice

por Luciana Gerbovic

Hoje amanheci (já que não dormi) decidida a encerrar umas pendências do trabalho. Tudo ajeitado na minha mesa do “homeoffice”, que é a mesa de jantar mesmo, mas antes o café da manhã das crianças. Suco de laranja espremida na hora, ovo mexido, fruta, entuchando o que posso de bom e saudável nesses meninos.

Depois é colocá-los pra tirarem o pijama (por que, mãe, se ninguém sai de casa?), escovarem os dentes (por que, mãe,…), o cabelo (faz o que tô mandando e não pergunta) e finalmente ajeitar o material para as lições que a escola ia começar a mandar hoje. Mas tem que entrar no Googleclassroom e colocar os códigos. Tem que criar um e-mail pro mais velho e explicar pro mais novo que ele não terá esse esquema porque ele está no Fundamental I. Tem que se inteirar do esquema do Fundamental I. E tem que descobrir que o filho mais velho não acha mesmo o livro de Matemática e descobrir que o livro ficou na escola, e dar um jeito do livro voltar pra casa, mas aí já é hora do almoço e tem que ter legumes e verduras e peixe e comida fresca e depois do almoço pronto e da louça lavada tem o livro de Matemática que chegou e aí o filho pode começar a lição, mas ele está quase tão perdido quanto o Você Sabe Quem na presidência e resolvo sentar com ele, com todo o trauma que tenho das lições de Matemática, com toda a falta de paciência que tenho pra menino cheio de privilégio que não entendeu como deve se portar na escola e cuidar das coisas, mas sento e me encho do amor que sinto por ele e supervisiono a lição de expressões numéricas e acolho os erros e as dúvidas e o desleixo para transformá-los em desafios superados. E a lição fica tão caprichada que ele acha que o professor vai desconfiar que nem foi ele que fez.

E eu choro porque hoje à tarde eu deveria estar com meus alunos da Escrevedeira falando de literatura. E meus filhos me abraçam dizendo que logo estarei com eles. Enxugo as lágrimas e já é hora da janta. E tudo fresco de novo. Faço arroz e fica bom! E sirvo o jantar e enquanto o marido lava a louça e comenta que pelo WhatsApp os amigos acham que devia ter aplausos nas janelas para os maridos que estão em casa, eu berro em nome da luta feminista e digo que não vou jogar biscrok pra macho que tá fazendo o mínimo do mínimo do que poderia fazer e guardo a louça e coloco as crianças no banho e rezo pra virar lésbica depois que esse isolamento acabar porque de homem hétero já estou pelas tampas das panelas que eles não sabem onde ficam.

E faço um bate-papo virtual com as manas inteligentes da porra antes de regar as plantas. E tomo um banho e penso nas mulheres que não têm os meus privilégios, nos alunos que não têm os privilégios dos meus filhos, no trabalho doméstico que deveria ser remunerado e muito bem remunerado. E choro. E saio do banho e acho que mereço esticar as pernas no sofá.

Quase 23:00. E porra!, os trabalhos pendentes que assim continuaram, lá no meu “homeoffice”…

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‘Todos os dias é um vai e vem…’

por Márcia Intrabartollo   

O casalzinho se foi carregando quatro malas enormes e chegou na outra parte da América só com isso, os longos cabelos lisos dele e os olhos de rolinha dela. Ela começará a dizer “I love you”, como ele faz há tempos. Seus pés dançantes logo acharão um lugar para ensinar seu tango, fato que me atrevo a contestar de leve: brasileiros ensinando tango reforçará a ideia de que Buenos Aires é a capital do Brasil.

‘Brasileiros ensinando tango reforçará a idéia de que Buenos Aires é a capital do Brasil’

Podia ser frevo, mas quem sou eu para dar palpites? A vida é que vai ensinar aos dois o novo ritmo e passo, e a nós também, que ficamos aqui com parte da vida que eles deixam para trás.

Diz o Chico Buarque que “chega a roda viva e carrega o destino para lá”, mas retifico sua composição: carrega o destino para lá e para cá. Nós, aqui, teremos a sensação de sermos um pouco eles, aguando suas plantas, temperando a comida com seus condimentos, como se de repente tivéssemos entrado em uma casa habitada da qual pudéssemos dispor como quiséssemos, desde que mantendo a salvo os discos.

Herdamos orquídeas, rosa do deserto e um pé de erva-doce com botões. Veio um saquinho plástico com um pouco de cúrcuma fresca e uma caixa de temperos que levei no colo. O carro se perfumou de mercadões. A pimenta preta. A canela em pó. A páprica, o orégano, o chimichurri.

No Carnaval, fritamos o anis-estrelado antes de pôr o cogumelo na panela. Ficou bom. Coloquei cravo em pó no leite quente para aproveitar o frescor das chuvas. Nem sei se estou fazendo certo. Estou cintilando nossas comidas de Cintia, a de cabelos escorridos. As flores do pé de erva-doce nasceram loiras como o Paulo. Ponho água nas plantas torcendo para que fiquem saudáveis e floresçam, e eu possa mandar fotos para San Diego e alegrá-los. Está tudo bem.

Ontem tiramos o pó dos discos, acomodamos a coleção de Chico Buarque, Belchior, Milton, Clube da Esquina e tantos outros em um armário. Vimos que alguns devem ter sido anteriormente de outras pessoas, desconhecidos que agora compõem nosso mosaico musical. Encontros e despedidas, não é Milton? “E assim, chegar e partir são só dois lados da mesma viagem”.

Meu bem vai comprar na José Bonifácio o cabo para a caixa de som que ficou sobre uma antiga mesa de costura, que, por sua vez, também herdamos de quem precisou abrir mão para se mudar. Quando a vitrola funcionar, porei, de vez em quando, os discos de tango para que as plantas matem a saudade do casalzinho. Tocarei um disco diferente por dia e pensarei que as vibrações daquelas músicas chegarão a todos aqueles a quem pertenceram.

“A plataforma dessa estação é a vida”, tocará. A vida que voa, circula, muda de mãos, se embrica, se esfrega nas outras e faz intersecções.

Enquanto eu escrevia, eles cruzavam, aventureiros, o Atlântico.

 

Márcia Intrabartollo é jornalista, peregrina mundo afora e aprendiz de escritora

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O meu amor…

por Dani Ramos   

Meu amor chegou na minha vida assim como uma brincadeira, um acorde, uma música. Mal sabia eu que era Deus brincando comigo e deixando minha vida mais feliz.

Um encontro casual, uma sexta-feira 13 de agosto, uma afinidade imediata, uma banda cover. E o desejo de um reencontro.

Meu amor despertou em mim o desejo de ficar colada pele com pele e trouxe a ternura pelo seu toque suave.

Nos despedimos várias vezes ao longo da nossa jornada.

A primeira foi doída, sentida a cada dia como se fosse uma eternidade.

O reencontro nos deu a certeza de um amor pra vida toda.

Vieram outras separações e todas nos fizeram crescer e afirmaram o quanto nos queríamos.

Sua última partida, essa sem possibilidade de retorno, me deixou perdida no espaço, fazendo força para acreditar que poderemos nos ver novamente.

E Deus, o cara que brincou comigo e me deu a felicidade em forma de luz?

Será que conseguirá me trazer de volta a paz?

Quando meu amor adoeceu senti raiva. Raiva da sua falta de cuidado, da mensagem incompreendida e da condenação divina.

Basta! Era tudo o que eu queria gritar.

Ofereci meu colo e seguramos nossas mãos unidas, como uma rede que pudesse nos proteger daquele feitiço sem volta.

Meu amor não entendeu minha ira, mas aceitou meu colo e juntos fomos em busca de socorro.

A viagem foi longa, entrei e saí do barco, o enjoo veio, mas ele se manteve no comando, sem deixar que a água invadisse e transformasse terra fértil em lama.

Meu amor tinha uma estranha mania de se calar e deixar que sua voz riscasse o papel. Eu gostava de admirá-lo enquanto deslizava o lápis sobre a folha branca ou enchia uma tela de cores.

Brincávamos de ser gente grande, de viajar, de ganhar o mundo com a arte, com nossos sonhos.

Sonhamos juntos e sonhamos separados.

Nos falamos com palavras e com olhares.

Meu amor me acordava com cheiro de café coado, pão na chapa quentinho e frutas picadas. Ganhava um beijo, um abraço desajeitado enquanto escovava os dentes.

Me enchia de cuidados, vigiava minha postura, fazia questão de me ver sorrindo, insistia para que eu me alimentasse bem.

As vezes saía e me deixava dormindo só para eu poder acordar com sua mensagem, um desenho e o pedido de contato.

Outras tantas me acordou com muita insistência, quase me arrastando para a vida.

A noite era plena para ele, seu corpo era embalado pelo próprio ronco. A minha era de luta com o meu próprio corpo, com os sons internos e externos.

Não se queixava do meu peso em seus braços. Mal se movia para não me acordar. Repousava sua mão no meu seio, colava seu corpo ao meu e me fazia sua.

Seu olhar sempre pedia mais de mim.

Gostava do riso fácil e da minha vontade de viver, detestava brigas e cobranças.

Meu amor me olhava com admiração enquanto eu contava histórias ou defendia pontos de vista.

Seu silêncio era minha calma e meu desespero.

Quando meu amor morreu, achei que tudo seria mais leve, que meu coração estaria aliviado por ver seu sofrimento acabar.

Pouco antes de partir, meu amor chamou pelo meu nome. Não disse o que queria, mas nós dois sabíamos o que era.

Então, disse em seu ouvido o que gostaria que ele sentisse em seu coração.

Soprei de leve as palavras de amor que costumávamos trocar.

Depois disso, ficou apenas um rasgo em meu peito, uma cicatriz eterna na alma.

Nosso tempo unidos eternizou o laço que construímos.

Vivo hoje uma viuvez sem papel, sem título, sem documentos.

Marcou tanto minha existência que todo o resto se fez pequeno.

Carrego comigo o mesmo anel que ele mantinha no bolso.

Arrumei suas coisas, me preocupei em embalar tudo como ele mesmo faria.

Guardei comigo sua camiseta mais amada, uma roupa íntima, seus desenhos e livros, um pouco do que marcou a nossa bela história.

Preocupei-me em dar asas e voz ao que ele sempre amou.

Procurei seus amigos e pedi colo, compreensão, troca. Encontrei mais que isso… me deram amizade. Na dor compreendi sua escolha por pessoas que o alimentaram tanto.

Mais que isso, aceitei o presente que meu amor me deixou.

Suas mãos sempre foram quentes, me encheram de amor e aqueceram meu coração. Repousava sua mão na minha coxa como se nos mantivéssemos de mãos dadas enquanto eu dirigia.

Quando nos despedimos, suas mãos estavam perdendo a quentura e levemente fomos nos desconectando.

Meu amor era assim, se preocupava tanto comigo que me deu tempo para que me acostumasse a andar com as mãos vazias.

 

Dani Ramos é jornalista e a pessoa mais afetuosa e sensível que conheço.

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Para onde as mulheres podem fugir?

por Márcia Intrabartollo.    

Para onde  as  mulheres que sofrem violência doméstica podem fugir?

Para onde as mulheres que sofrem violência doméstica podem fugir levando pelas mãos seus filhos e sem formação que lhes permita ganhar o sustento?

Quando me imagino no lugar de uma delas, me vejo sonhando com um condomínio de casas em que as mulheres pudessem viver por um tempo e que fossem recebidas por assistentes sociais, advogadas e psicólogas capazes de lhes orientar sobre os aspectos legais de uma separação, lhes dessem cursos de capacitação profissional, intermediassem empregos. Para ficar tudo ótimo, o condomínio teria uma estrutura de creche junto. Ah, e tinha que ter interfone com porteiro para evitar que os maridos as tirassem da paz. Já inventaram isso?

Quando eu era criança, fui vizinha de uma família por muito tempo. Pai, mãe e três filhas. O marido sofria de alcoolismo e era o provedor da casa. Ele era ótimo em matemática, apesar de ter frequentado pouco a escola.  A mulher era doce e sensível, ótima mãe, católica e cuidava da casa e das crianças com os parcos recursos que ele lhe dava, apesar de ter os bolsos cheios de notas.

Morávamos em um loteamento, desses em que cada um constrói sua própria casa. A deles era um primor de bom gosto e capricho e tinha uma especificidade: de lá saiam sons o tempo todo. Saíam berros, xingamentos, barulhos de coisas se quebrando. Saíam “Ais”, saiam “Para”! Eu sentia a vibração daquela vida opressiva chegando até meu quarto. Tínhamos que aumentar o volume da televisão para não ouvir as brigas diárias.

Eu vi o dia em que a polícia chegou depois da mulher ter usado o telefone da minha casa para chamá-la. O marido tinha batido nela e dado uma surra na menina maior. Ela até suportaria se fosse só com ela, mas com a menina ele não podia ter mexido. Vi os policiais perguntarem o que ela tinha feito para que ele perdesse o controle daquele jeito e fiquei intrigada com esse outro jeito de ver quem era culpado.

Só muito mais tarde eu entendi que ela suportava todo aquele sofrimento porque não tinha para onde correr. Mesmo achando que era pecado, ela se separaria dele se tivesse para onde ir. Mas nenhum dos seus muitos irmãos e irmãs achavam que em briga de marido e mulher se deve meter a colher. Os irmãos dele achavam que estava tudo certo. E nós e os outros vizinhos percebíamos como tínhamos uma vida harmoniosa em comparação com a vida dos outros.

 

“Só muito mais tarde eu entendi que ela suportava todo
aquele sofrimento porque não tinha para onde correr”

 

Teria sido tão fácil se a família tivesse se unido para alugar uma casa para elas (ou acolhê-las) e por uns  meses tivessem passado um aperto a mais para lhes dar comida – só até que ela engrenasse como costureira, crocheteira, passadeira, já que era boa de trabalho…

Teria sido tão fácil se algum advogado vizinho tivesse se disposto a  orientá-la sobre o processo de separação, que lhe renderia pensão alimentícia…

Mas ninguém se envolveu. Nem mesmo nas duas vezes em que elas fugiram para a casa dos parentes e depois de uns dias foram mandadas embora porque eles não tinham como sustentar quatro bocas. Ninguém, tampouco, se interessou por ele.

Estou falando de um caso fácil: família de classe média, em um bairro de classe média, com marido que tinha como dar pensão, crianças saudáveis e educadas, mulher com condição de trabalhar. Um caso fácil em que nem assim houve solidariedade. Bastaria apoio. Uma mão forte para amparar aquela fragilizada mãe, que achava que sem o marido não conseguiria alimentar as crianças.

Dirão alguns que ela podia ter se separado assim mesmo. Falar com base em sua própria formação, personalidade e condição é fácil! O fato é que o medo e a opressão paralisam, e o fato maior é que ninguém é solidário a ponto de se envolver realmente, de cuidar da vítima.

Ela só conseguiu se separar do marido quando as filhas começaram a ganhar uns troquinhos como vendedoras.

Por que não vejo casas de apoio para receber mães acuadas, aquelas do meu sonho? Por que não vejo mulheres de sucesso e muita grana capitanear um projeto que propicie esse apoio, assim como jogadores de futebol apoiam escolinhas de jogadores, assim como os cantores sertanejos apoiam o Hospital do Câncer?

Eu, você, os parentes, os vizinhos, iniciativas privadas, o poder público… por que ninguém dá a essas mulheres a condição de fuga?

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Fui ali ser feliz…

Saiu.

Foi assim, sem aviso ou despedida, que ela não mais voltou.

Antes, havia revelado para poucos que estava muito doente. Sofria de ódio. Disse que era uma dor infame que lhe aplacava todos os dias e que não sabia se começava nela ou se era algo que vinha no ar.

Na memória vinham cenas de momentos em que havia se sentido depreciada e diminuída, excluída e desamparada. Disse que essa dor foi, e é, terrível e que gerava nela algumas reações (não era bonito).

Contou ainda outros episódios em que suspeita onde pode ter ocorrido a contaminação. Mensagens. Foram muitas mensagens e posts.

Às vezes, contou ela, “podia perceber algo diferente em meu corpo ao ler. Meus olhos abriam mais do que o necessário, sentia um aperto no peito e o estômago ardendo. Travava os dentes e notava as narinas com abas mais abertas.”

Mas achou que não era nada. Com o tempo foi perdendo alguns movimentos. Ir e vir já não era tão fácil. Se sentia um tanto acuada. A voz começou a se tornar mais fraca. A garganta doía, a cabeça pesava e seu grito ficou mudo.

Perdeu coisas, como pessoas que chamava de amigos. Outras que chamava, parentes. Gente que não se importou com as dores que lhe causavam.

Confusa, não sabia se o que sentia vinha de fora ou de dentro. No primeiro momento, estava certa de que a contaminação havia lhe tomado inadvertidamente. Ela se sabia saudável e tinha todos os exames em dia.

Ingênua, não havia notado que o vírus do ódio é algo que vem programado em todos e que é sistêmico. Atinge fortemente, nesse momento, todo o país, quiçá o planeta, e faz parte de uma faceta humana.

Depois de algum tempo, ela se deu conta de que a doença que tomava como sua já era uma epidemia e os jornais falavam sobre vários casos de morte. Todos os dias as notícias traziam situações de ataques e contaminações.

A dor foi se ampliando e, aos poucos, se tornando insuportável.

Num domingo de sol, já torpe e surda, veio a decisão inadiável. Rompeu com os grilhões do medo de não fazer parte do sistema e saiu.

Determinada, decretou: Vou ser feliz!

P.S. 1: Pensou em si mesma. No entanto, a decisão agravou os sintomas de alguns. Episódios de inveja aguda foram relatados ao ouvirem-na cantar suas raízes: “Quem é que sobe a ladeira, do curuzu? […] Não me pegue não, não, não / Me deixe à vontade / Não me pegue não, não, não / Me deixe à vontade / Deixe eu curtir o Ilê / O charme da liberdade / Como é que é? / Deixe eu curtir o Ilê / O charme da liberdade.”

P.S. 2: Terminou dizendo: “Fui. Beijo, me liga”.

 

 

Évanes Pache é jornalista e especialista em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz


 

Crônica da seção Palavreiros, do blog, que traz colaborações de convidados com temas livres. O convite é extensivo a todos que gostam de “palavrear” a vida na forma escrita.

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Quem são eles?

Em algum momento, lá onde as tribos nômades começaram as batalhas por territórios, aprendemos um conceito equivocado que até hoje guia a humanidade. Nós OU eles. E nós somos sempre os bons, nós somos sempre os certos, nós somos os melhores e mais bem intencionados. Nós somos os escolhidos que sabem o caminho melhor do que os outros.

Bad news!

Assim como não existe jogar o lixo fora porque não existe fora desse planeta, não existem eles.

Eles todos somos nós. E todos nós temos as mesmas necessidades de pertencimento, de amor, de compreensão, carinho, de conexão.

Todos nós temos necessidade de nos sentirmos respeitados.

O mundo está em convulsão. Terremotos, manifestações de indignação e revolta, tempestades, inundações, vulcões acordando… e um clima extremamente tenso no ar.

Isso acontece no panorama externo para que tenhamos atenção ao interno. A violência interna (e tudo o mais que estiver guardado em nós) gera a violência externa. Quando nos alimentamos de cenas, palavras e pensamentos violentos criamos essa atmosfera. Isso é lei, uma lei hermética chamada ressonância.

Não importa se acreditamos ou não. Lei é lei. Como a lei da gravidade, não vemos e, para que ela aconteça, não precisa acreditar. O que está em cima está embaixo, assim como o que está dentro está fora.

Como disse uma amiga (Andrea Honaiser) hoje em seu post, “tem horas que, se não existe nada de bom a acrescentar, melhor calar”.

Nesses tempos acirrados entre o bem e o mal, entre bandidos e mocinhos, vejo a exaltação da violência feita sem a menor responsabilidade nas redes sociais. Conhecidos, amigos, parentes, que antes não verbalizavam suas posições extremas se regozijam ao rivalizar com outras pessoas, muitas vezes, apenas para destilar ódio e vingança. Têm um prazer em inferiorizar o outro, em apontar as falhas, diminuir, em se colocarem como os certos da história seja ela qual for.

Bad news! Não existem “eles”.

“Eles” todos somos nós.

 

Évanes Pache é jornalista e especialista em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz


 

Crônica da seção Palavreiros, do blog, que traz colaborações de convidados com temas livres. O convite é extensivo a todos que gostam de “palavrear” a vida na forma escrita.

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Tão simples que parece complicado

José Eduardo Gomes de Carvalho*

A ansiedade digital do século 21 fez da gente comum que sonha em ser feliz um alvo fácil para processos estressantes de sobrevivência, que geram pessoas crispadas e agressivas – e, portanto, infelizes. Daí que é automático concluir que a busca pela felicidade mais parece uma lenda. E o próximo passo é virar mito.

A desenfreada procura do ser humano pelo prazer e pela satisfação, ou pela felicidade, enfim, é tão antiga quanto a descoberta do fogo. É verdade que, em certos momentos de nossa vida, falar de felicidade parece um delírio diante dessa necessidade de terminar cada dia, cada mês, mas retomar essa busca sistematicamente pode ser uma saída para os males imediatos, nem que seja por míseros instantes.

Sábios pré-socráticos, filósofos de todas as correntes, acadêmicos e religiosos de vários matizes tentaram ao longo dos séculos dimensionar e tornar palpáveis fórmulas de felicidade, segredos da busca pela realização pessoal e pela convivência feliz. Foram esforços, na maioria, em vão, incluindo as peripécias dos milhares de picaretas da autoajuda, praga típica do mundo contemporâneo, instantâneo e fugaz.

Pois um psicólogo norte-americano, Daniel Gilbert, desconstrói alguns dogmas e derruba barreiras seculares para elaborar um plano de felicidade que não requer habilidades especiais nem grandes posses materiais. Gilbert, além de tudo um exímio argumentador, não se baseia em suposições, mas em minuciosos estudos de comportamento que tornaram as conclusões de suas pesquisas um conjunto de observações com alicerces na Ciência e não em pirotecnias impalpáveis.

PhD em Princeton e professor de Harvard, 60 anos, este pesquisador que abomina os manuais de autoajuda transformou-se num concorridíssimo consultor internacional de vários segmentos, em especial depois do mais lido de seus inúmeros livros publicados, que no Brasil, aliás, recebeu um título empapado de autoajuda, “O que nos faz felizes” (Editora Campus-Elsevier). No original se chama “Tropeçando na Felicidade” (Stumbling on Happiness).

Gilbert não faz suposições nem análises subjetivas. Seus levantamentos são diretos, atingem os alvos sem muito trololó, como a pesquisa com cinco mil pessoas de todas as idades e classes sociais que respondiam coisas como “o que faria você feliz neste exato momento?”, após um telefonema de surpresa – no trabalho, de madrugada, durante as férias. Para o cientista, não se trata de desprezar o que já foi feito por grandes cérebros da história. Ele preza demais, por exemplo, as distintas correntes hedonistas, que basicamente defendem a “felicidade que é simples”, a realização do indivíduo com as coisas básicas a seu alcance e sem nenhum malabarismo financeiro. Mas pondera que os estudos acadêmicos do mundo moderno, individualista e tecnológico, foram revelando, nem sempre para o bem, as atitudes de pessoas de todas as idades, crenças e situações sociais.

Do ponto de vista científico, que é o que interessa a Gilbert, é possível detectar perfeitamente, com os instrumentos à disposição dos estudiosos, o que é o conceito de bem-estar que mais se aproxima do mundo real. E as conclusões apontam para um panorama de surpreendente simplicidade para que a maioria das pessoas se sintam de fato felizes.

Nos resultados da equipe do especialista, quatro pontos são levantados como fundamentais para se atingir um estado seguro de felicidade: exercício físico, conversas/reuniões com amigos, música e sexo. São atividades que elevam corpo e espírito a um patamar de satisfação suficiente para compensar, com lucro, as mazelas da vida e abrir caminho para o equilíbrio pessoal.

Todos os outros itens eram de alguma forma ligados aos temas principais, tais como viajar, passear e conversar com os filhos, curtir os animais de estimação, consumir a comida preferida.

Do escopo da pesquisa não constavam questões nem respostas de alta especificidade, mas coisas como dinheiro, poder/prestígio, uma casa na praia, consumo exagerado ou um carrão da moda pouco apareceram quando as pessoas se referiam à felicidade duradoura.

Nas conclusões do grupo de Daniel Gilbert, o que ficou de mais representativo foi que todos os quatro requisitos para ser feliz podem ser atingidos a custo zero. Ao contrário, ficaram em segundo plano grande parte dos prazeres efêmeros/materiais, estes, sim, que podem custar o olho da cara.

Trata-se da velha diferença entre ter e ser. Tão escandalosamente simples que até parece complicado. É ou não para se pensar?

 

* José Eduardo Gomes de Carvalho é jornalista, “explorador do mundo”, mentor e amigo para toda a vida


 

Toda semana, às quartas, o blog traz a crônica de um(a) ‘palavreiro(a)’ convidado(a). O convite é extensivo a todos que gostam de palavrear a vida em forma de crônicas.

VEM PALAVREAR COM A GENTE!’

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