Categoria: CINÉLIDE

Blog de cinema e séries da jornalista Silvia Pereira.

‘Bela Vingança’ não poupa ninguém ao abordar a cultura do estupro

Já disse neste espaço que minha torcida para o Oscar 2021 de Melhores Filme e Diretor estava com a chinesa Chloe Zhao, que assina roteiro e direção do sensível “Nomadland” (EUA, 2020). Pois, aos 45 segundos do segundo tempo, minha torcida mudou para Emerald Fennell, de “Bela Vingança” (Young Promising Woman, EUA, 2020), e por motivos justificadíssimos.

Estreante nos papeis de roteirista e diretora, a também atriz Emerald fez um filme absolutamente necessário nestes tempos em que movimentos como o #MeeToo jogam no ventilador a impunidade dos crimes sexuais praticados contra a mulher.

Carey Mulligan está excepcional no papel da protagonista, Cassie

“Bela Vingança” vai além ao narrar a história de Cassie (Carey Mulligan excepcional!), a jovem promissora do título original – uma alusão ao fato dela já ter sido uma brilhante estudante de Medicina. Mostra que esse tipo de abuso ocorre muito mais do que nós, como sociedade, conseguimos enxergar – ou admitir – e não é cometido só pelo sociopata violento, que age em becos escuros ou domicílios invadidos.

Ao passar suas noites em bares a fingir-se de bêbada para flagrar homens prestes a se aproveitarem sexualmente de sua vulnerabilidade, Cassie demonstra que o abuso pode ser praticado pelo “cara legal” ao lado. Ou seja, basta que a oportunidade se apresente, que o vizinho respeitador, o crush de faculdade ou o “date” sedutor pode deixar emergir o estuprador em potencial, construído dentro de si por séculos de machismo estrutural.

Quando Cassie reencontra um colega de faculdade, antevê a possibilidade de vingar-se do que a fez abandonar a promissora carreira universitária: o abuso cometido contra a amiga de infância, Nina, que acaba morrendo (supostamente por suicídio) após não conseguir acolhimento nem dos amigos, nem da faculdade e ainda ser culpabilizada pelo ocorrido – como se embriaguez constituísse uma licença para o estupro.

A genialidade de Fennell revela-se na forma didática e inacreditavelmente leve e bem-humorada com que narra essa história de vingança. Ela consegue construir uma justiceira que foge ao estereótipo da psicopata, que acaba sendo moralmente reprovada mesmo tendo se tornado uma devido a um trauma sofrido. Sua Cassie é uma vingadora “do bem”, pois não usa de violência e se faz algum mal é só a si mesma.

Uma amostra genial de seu didatismo (e aqui entra um alerta de semi-spoiler) é a cena em que Cassie prepara o cenário de sua vingança final. Repare em algumas respostas que ela dá à presa da vez ante seus protestos contra avanços aparentemente sexuais… Há frases que as mulheres estão cansadas de ouvir em rituais de assédio, como a clássica “não farei nada que você não queira”.

Porque, SIM, TODAS NÓS já sofremos assédio alguma vez (ou muitas) na vida, em diferentes níveis, ambientes e condições de vulnerabilidade. Ou seja, é sistêmico mesmo, e tão naturalmente praticado que chegamos a legitimá-lo, como a reitora de faculdade (mais um alerta de spoiler) ao dizer que não podia estragar a vida de um jovem promissor porque uma garota decidiu se colocar numa posição “vulnerável”. Em outras palavras, entre a palavra do menino e da menina, e entre estragar a vida do jovem agressor e da jovem vítima, a mulher que lute!

Assim, “Bela Vingança” não poupa ninguém – nem as próprias mulheres – ao retratar como todos contribuímos para a cultura do estupro, não só quem o pratica, mas  também quem se omite em denunciá-lo ou puni-lo e até quem nem consegue enxergá-lo, tão entranhado em nossos usos e costumes.

Por fim, destaco a ótima interpretação entregue pela jovem Carey Mulligan: econômica, mas exata, calcada mais na modulação de voz e no olhar. Mesmo concorrendo ao Oscar com veteranas já laureadas, como Viola Davis e  Frances MdDomand, não será nenhuma injustiça se ela vencer.

 

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‘Nomadland’ é sobre liberdade e desapego

Eu nunca havia ouvido falar de Chloé Zhao até ela faturar o Globo de Ouro 2021 de Melhor Direção, mas esta chinesa de 38 anos acaba de se tornar minha mais nova diretora de cinema favorita. É que acabo de assistir a “Nomadland”, que Zhao roteirizou, dirigiu e editou, inspirada no livro homônimo da jornalista norte-americana Jessica Bruder, e ainda estou sob o enlevo de sua atmosfera cool e delicada.

Frances McDormand com a diretora Chloé Zhao no set de ‘Nomadland’

Não é um filme para todos, porém, já aviso. Muito menos para o espectador desacostumado a um andamento mais lento (não confundir com arrastado) da narrativa, que neste filme resulta mais visual do que textual – sim, os diálogos são econômicos e só aparentemente banais.

Porque banal é tudo o que “Nomadland” não é, com sua forma muito feminina e emblemática de contar a história de Fern, viúva que após perder emprego e casa devido à falência da maior empregadora de sua cidade, passa a morar numa Van e a viver de empregos temporários. Instigada por uma amiga, Fern experimenta a vida nômade a que muitos norte-americanos são levados pela crise econômica.

A sinopse pode soar algo depressiva para nós, comuns mortais a levarem vidas quadradinhas, mas este seria outro engano. Apesar de ter a crise financeira de 2008 nos EUA como pano de fundo, “Nomadland” não é sobre pobreza; seus personagens estão sempre se despedindo, mas não é sobre perdas; e sua protagonista vive sozinha, mas não é solitária.

“Nomadland” é, sobretudo, sobre liberdade, desapego e estar desperto no momento presente, enxergando as belezas do mundo que nos passam despercebidas quando estamos ocupados demais com nossas ansiedades cotidianas.

Pra provar isso, destaco dois emocionantes mini-monólogos em que as personagens Swankie (idosa que decide passar o tempo que lhe resta de vida viajando em meio à natureza) e Bob (militante que cria uma rede de apoio para os trabalhadores nômades) dão a Fern verdadeiros testemunhos desse olhar livre e desperto. – vocês vão ter que assistir ao filme para conferi-los.

No mais, tenho a dizer que a veterana Frances McDormand segue uma atriz espetacular, que prescinde de caras e bocas para entregar uma interpretação brilhante. Sua Fern equilibra firmeza e doçura, altivez e vulnerabilidade. O resultado é adorável e muito humano.

Grande atriz! Belo filme! Puta diretora!

I’ll see you down the road, Zhao”.

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‘Bridgerton’: siga direto para a série da telinha!

Bridgerton”, série de época que estreou em dezembro na plataforma de streaming Netflix, é um caso raro de adaptação dramatúrgica que resulta melhor que a obra literária na qual foi inspirada. Tão raro que em minha experiência como cinéfila só conheci outro similar: o da trilogia cinematográfica “O Senhor dos Anéis”, assinada pelo diretor Peter Jackson – não me entendam mal: a obra literária de J. R. R. Tolkien é um clássico de valor, mas seu texto não conquista muito além de seu público-alvo (o infantil), ao contrário, por exemplo, da série “Harry Potter”, que alveja o infanto-juvenil, mas acerta em todas as faixas etárias, graças à escrita espirituosa e à trama engenhosa e repleta de referências filosóficas da autora J. K. Rowling.

A família Bridgerton, que dá nome à série

Mas, voltando à produção original da Netflix, “Bridgerton” empresta dos melhores clássicos da autora inglesa Jane Austen os cenários (Inglaterra do século 19) e os argumentos (intrigas na alta sociedade) para narrar um romance entre uma jovem aristocrata em idade de casar e um solteirão convicto. Ele nasce de uma farsa que a virginal Daphne e o amargo duque de Hastings combinam de interpretar – consiste em fingirem-se apaixonados um pelo outro, ele para livrar-se do assédio de mães casamenteiras, ela para atrair o interesse de melhores partidos como potenciais maridos.

Obra literária

Ter maratonado a série durante os feriados do final de ano me deu coragem para finalmente ler Julia Quinn, autora contemporânea que escreve romances de época – eu vinha evitando a experiência com receio de macular minha já antiga devoção à literatura inglesa da era vitoriana, iniciada com a leitura de Jane Austen (sobre cuja obra já me derramei em mais de um texto neste blog) e alimentada com as de outras contemporâneas dela, como Elisabeth Gaskell (“Norte e Sul”, “Cranford”, “Esposas e Filhas”), Flora Thompson (“Lark Rise e Candleford”) e as irmãs Brontë – Anne (“A Inquilina de Wildfell Hall”), Emily (“O Morro dos Ventos Uivantes”) e Charlotte (“Jane Eyre”).

Capa da edição brasileira do livro ‘O Duque e Eu’

Infelizmente, meu receio resultou totalmente fundamentado, motivo pelo qual dou este conselho gratuito a fãs de literatura de época como eu: “sigam direto para a série da telinha”, pois foi uma tortura ler até o fim ao livro “O Duque e Eu” – primeiro da série literária – mesmo tendo pulado inúmeras partes enfadonhas e rezado o tempo todo pra trama melhorar em algum ponto.

Passei a considerar um elogio imerecido uma crítica rotular a obra de Quinn como “romances de Jane Austen com sexo”, pois seus textos teriam que melhorar muito (mas muito meeesmo!!!) para chegarem só aos pés da rica, inteligente e espirituosa prosa austeniana. São tão pobres quanto suas tramas, lembrando muito os daqueles romancinhos eróticos das séries “Júlia” e “Sabrina”, que as adolescentes da década de 1980 compravam em bancas de jornal (e foram, para minha geração, o equivalente feminino às revistas pornô dos meninos).

Talvez por isso a obra de Julia Quinn tenha se tornado best-seller (“Julia” e “Sabrina” também vendiam como água): é literatura de massa, de fácil consumo e rápido esquecimento.

Estratégia genial!

Certamente com a intenção de aproveitar o apelo popular da série literária, a Netflix confiou à produtora Shondaland – da premiada autora Shonda Rhimes (criadora de “Grey’s Anatomy” e “Scandal, por exemplo) – a tarefa de adaptar “Bridgerton” para as telas. Para enriquecer a narrativa, porém, foi preciso misturar na mesma trama vários livros de Quinn, enxugar as “gordurinhas” dos textos e enriquecer – em muito! – a qualidade dos diálogos.

A reengenharia dramatúrgica não torna a série, assim, uma obra-prima, mas entrega um produto decente dentro da proposta a que se destina: escapismo pela via da comédia romântica (vamos combinar que todos precisamos de uma dose desse gênero de vez em quando).

Meu aplauso especial vai para a bandeira da diversidade que a produção levanta, e não só através do roteiro, que, ao contrário do original literário, mostra relação homossexual sem julgamentos e joga luzes favoráveis sobre personagens femininas que na sociedade da época seriam consideradas “párias sociais” – a modista que não se envergonha da própria liberdade sexual; a cantora de ópera que recusa a oferta do amante de ser introduzida na alta sociedade; e uma filha de família aristocrática que fuma escondido e sonha fazer muito mais de sua vida do que só se casar e ter filhos.

A estratégia mais ousada de todas, porém, está na escalação do elenco, multirracial, no qual se destacam atores negros em papeis de importância similar aos dos brancos (não só como serviçais), o que até contraria as descrições físicas feitas de alguns personagens nos livros de Quinn. Por exemplo, o personagem Simon Basset é descrito em “O Duque e Eu” como branco, de cabelos negros e olhos azuis claríssimos, mas é vivido na série pelo ator negro Regé-Jean Page, de cabelo afro e olhos castanhos escuríssimos. Ele forma, aliás, um lindo par romântico com a alvíssima atriz britânica Phoebe Dynevo, que interpreta Daphne.

Sobra diversidade até para a realeza britânica: o próprio rei George III é casado com uma rainha Carlota negra, que tem damas de companhia até asiáticas.

O melhor é que a trama não fornece explicações (nem desculpas) para esta recriação da realidade, o que considero uma estratégia genial de combate ao racismo estrutural – provavelmente elaborada por Shonda Rhimes, ela mesma uma autora negra vencendo em uma indústria cultural formada majoritariamente por brancos. Afinal, os produtos dramatúrgicos contribuem com uma significativa parcela de estereótipos na formação das crenças em uma sociedade. Então, o que pode ser mais eficiente para combater as racistas do que uma obra que retrate uma alta sociedade multirracial e equânime como algo perfeitamente natural?

De quebra, essa estratégia ainda cumpre um dos nobres objetivos de toda obra artística, que é provocar o espectador, “acordá-lo” – neste caso para seu próprio racismo inconsciente (todos temos em algum grau, com ou sem intenção). Por exemplo, se você se sentiu incomodado com a liberdade que a série se deu de colocar personagens negros em pé de igualdade com os brancos em plena sociedade inglesa vitoriana, saiba que é um sintoma inequívoco de racismo estrutural. E argumentar que o incômodo se deveu só a desconexão com a realidade ou à imprecisão histórica, não vale, porque você também teria que se sentir incomodado por assistir a atores norte-americanos interpretando, em inglês, quaisquer outras histórias de países e povos diferentes. Ou seja, se precisão histórica ou conexão com a realidade fossem tão importantes para você em uma obra dramatúrgica, lhe incomodaria na mesma proporção assistir a adaptações de histórias bíblicas faladas em quaisquer outros idiomas que não o hebraico, o aramaico e o latim, por exemplo.

Enfim, só por essa (genial) estratégia, mesmo que a série “Bridgerton” não fosse muito melhor que seu original literário, eu já a aplaudiria de pé.

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‘O Céu da Meia-Noite’: ficção científica intimista

Desde que me sentei em frente ao computador, há cerca de 20 minutos (e contando…), tento encontrar uma forma de escrever sobre o filme “O Céu da Meia-Noite” (The Midnight Sky, EUA, 2020) sem cometer spoiler. Minha escrita só destravou com a auto promessa de entregar o mínimo indispensável das surpresas do roteiro em favor de compartilhar minhas impressões sobre esta “ficção científica intimista” (já o disse a crítica especializada), dirigida e protagonizada por George Clooney.

Como o cientista Augustine Lofthouse, Clooney encara seus espelhos ao inventariar lembranças no isolamento do Ártico

Começo reafirmando minha já antiga admiração por este ator e diretor, que segue demonstrando, com suas escolhas profissionais, extrema sensibilidade, inteligência e humanidade. Exceção feita a “Caçadores de Obras Primas”, de 2014 (que considero chatíssimo!), todas as suas demais incursões pela direção de longas resultaram em filmes de roteiros bem amarrados – a maioria dos quais ele também assinou – e com mensagens de importância política, humana ou histórica.

Neste “O Céu da Meia-Noite”, ao contrário de “Suburbicon: Bem-vindos ao Paraíso” (2017), “Tudo pelo Poder” (2011) e “Boa noite e Boa Sorte” (2005) e a exemplo de “Confissões de uma Mente Perigosa” (2002), Clooney assina apenas a direção – entregou o trabalho de roteirizar a história do livro “Good Morning, Midnight”, de Lily Brooks-Dalton, a Mark L. Smith, de “O Regresso” (Oscar de atuação a Leonardo DiCaprio).

A história se passa no ano de 2049. O cenário inicial é uma estação da Nasa no polo Ártico, que está sendo evacuada. O motivo nós começamos a entender no primeiro dos escassos diálogos do filme, em que seu personagem, Augustine Lofthouse, diz a um interlocutor preocupado com sua saúde que, se quisesse morrer rapidamente, embarcaria com os evacuados. É a primeira de várias indicações não explícitas (já disse que adoro roteiros que não subestimam a atenção do espectador?) de que uma catástrofe mundial está para ocorrer, que ele está doente e decide, de livre e espontânea vontade, ficar para trás.

Felicity Jones contempla Saturno do satélite K-23 em ‘O Céu da Meia-Noite’

Augustine aproveita o isolamento para, por meio de flashbacks de memória, inventariar seu passado e suas escolhas de vida – cientista aclamado, priorizou o trabalho em detrimento dos afetos pessoais. Seu principal projeto profissional, monitorado pela estação, é a missão espacial Aether ao fictício planeta K-23, que teve como objetivo confirmar se este satélite de Saturno reúne condições de ser habitado pela raça humana, que já esgotava os últimos recursos da Terra – motivo presumido da hecatombe. Sua tripulação, formada por cinco astronautas, ignora estar voltando para uma Terra já inabitável na superfície.

Augustine decide fazer o possível para avisá-los, até deixar a segurança da estação super equipada em busca de outra meteorológica, com uma antena mais potente, capaz de estabelecer comunicação com a Aether. Antes, porém, ele descobre que não foi o único deixado para trás na estação. Esta segunda presença catalisará as lembranças que o cientista parece querer purgar em sua jornada pelo Ártico hostil. É o que confere o verdadeiro clima do filme, que resulta mais em um drama intimista do que numa ficção científica típica, embora também conte com cenas espaciais de tirar o fôlego – de susto e de enlevo.

Sobre o desfecho, para evitar spoilers, direi apenas que entendi ser sobre redenção e segundas chances, em nível individual e coletivo. No individual, para Augustine, que alcança ambas de uma forma linda! No coletivo, para a raça humana, que sempre encontra uma “terra prometida” na qual se refugiar mesmo quando provoca sua própria expulsão do “paraíso”.

Gosto de pensar que a escolha por contar mais esta história é uma forma de Clooney demonstrar sua crença no que nós, cristãos, entendemos como misericórdia divina, mas que também pode ser chamada de justiça poética.

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‘Que a Força esteja com você’!

Acabo de assistir, emocionada, ao último episódio da série “O Mandaloriano” (disponível no streaming da Disney Plus), mais recente produto da franquia “Star Wars“. Como boa nerd, senti necessidade de rever trechos de todos os principais filmes da saga. Como sempre, tive renovado o prazer de revisitar os conceitos que me conquistaram ainda menina.

Mas, calma, este não é mais um texto crítico sobre cinema e séries. Está mais para um inventário pessoal sobre as razões para esta saga em específico ter conquistado minha idolatria. E elas estão todas nos subtextos da história criada por George Lucas e agora tocada pelos roteiristas da Disney com total fidelidade aos seus princípios.

Já escrevi neste blog o porquê de a personagem princesa Leia ter sido a primeira heroína do cinema que eu quis ser (leia aqui). Hoje quero falar sobre os conceitos filosóficos que Lucas foi buscar em diferentes religiões e culturas – taoísmo, budismo, espiritismo – e foram determinantes na construção de algumas de minhas crenças.

Eu era uma criança com menos de 10 anos quando assisti pela primeira vez à trilogia que deu origem às demais. Claro que a alegoria das viagens espaciais aguçou minha imaginação de menina, mas foi a filosofia contida no conceito da Força (um campo magnético que envolve todas as coisas do universo) que primeiro me conquistou!

A frase “A Força esteja com você” fez todo o sentido para mim. E veja, nesta idade eu nem havia começado a estudar as teorias do espiritismo kardecista (religião em que nasci) e sequer sonhava existirem as filosofias nas quais Lucas “bebeu” para criar seu universo fantástico. Mas hoje reconheço ter sido a saga determinante para que, mais velha, eu sentisse curiosidade de ler sobre tais filosofias e, conscientemente, abraçar o espiritismo, independente da influência familiar.

Como algumas religiões orientais, também o espiritismo entende haver uma energia sutil que não só envolve a tudo e todos, mas também está dentro de nós – bem lá no núcleo de nosso espírito, sufocada pelas camadas de energias pesadas tecidas pelos sentimentos mundanos que fabricamos com nosso ego (ódio, mágoa, orgulho, entre outros derivados do egoísmo). Essa matéria é parte da força criadora à qual chamamos Deus, mas só conseguiremos acessá-la dentro de nós quando nos livrarmos das tais camadas negativas – para aprender isso vivemos neste mundo de provas e expiações.

Na saga “Star Wars”, alguns indivíduos nascem com maior facilidade para acessar a Força (o que em espiritismo chamamos mediunidade). Mas, tal como o médium, que sem treinamento pode ser usado por espíritos mal intencionados, os detentores dessa faculdade precisam ser ensinados a dominá-la. Treinados para usá-la para o bem comum, tornam-se jedis [pronuncia-se jedais], espécies de guerreiros da Luz, que pregam a paz, o conhecimento e lutam apenas em nome de defender esses conceitos.

Mas existem na saga os jedis que escolhem atuar no lado sombrio da Força, que é todo sobre poder, ganância e dominação. São os sith.

A Luz e as Sombras

Lucas foi buscar na filosofia chinesa do Taoismo este conceito dual: o lado escuro e o da luz (o Yin-Yang), que devem ser mantidos em equilíbrio para que haja harmonia no universo. Do budismo, usou o conceito de desapego e de tentativa de superação do medo para evitar o lado sombrio. Ele  ainda flerta com um mito do filósofo Platão ao colocar sempre uma caverna no treinamento dos jedis, onde eles encaram verdades sobre si mesmos.

Luke e Rey encaram suas sombras

Em um dos episódios da primeira trilogia, por exemplo, Luke Skywalker está sendo treinado pelo mestre Yoda, no planeta Dagoba, quando entra numa caverna e se depara com o vilão Darth Vader. Seu impulso é golpeá-lo com seu sabre, mas quando a cabeça do oponente rola ao chão, seu capacete danificado revela o rosto do próprio Luke. Uma metáfora de sua derrota para si mesmo, por ter cedido automaticamente a seu medo. “O medo é um caminho para o lado Sombrio. Medo leva à raiva; raiva leva ao ódio; ódio leva ao sofrimento”, explica o mestre Yoda em “A Ameaça Fantasma” (1999).

Foi o ódio suscitado por uma perda (falhou no desapego) que levou o jovem Darth Vader para o lado escuro da Força. E será o amor que o redimirá no último episódio da primeira trilogia.

Em suma, segundo a filosofia jedi, só se alcança a Luz através do amor – conceito base do cristianismo – e do desapego (budismo).

Mas este não é um caminho fácil. Enquanto o caminho para o lado sombrio é sedutor e orgânico, por ir ao encontro das aspirações de nosso ego (afinal, ele existe para nos defender e nos manter vivos em territórios hostis), o da Luz demanda disciplina, renúncias e vigilância constantes, além de esforço para amarmos até nossos inimigos (já leu isso em algum lugar, né?).

Não por acaso os jedis protagonistas da saga (Anakin/Darth Vader, Luke, Rey, Ben Solo/Kylo Ren) estão sempre encarando suas sombras em simulacros de cavernas. Uma alusão ao fato de que todos temos dentro de nós o bem e o mal. “Prevalece o lado em que escolhemos atuar”, já disse o personagem Sirius Black para o amedrontado afilhado Harry Potter, em um dos filmes da saga de J. K. Rowling – também cheia de subtextos edificantes (adoroooo!).

Dito tudo isso, se você ainda acha que “Star Wars” é só sobre batalhas no espaço, está perdendo o melhor da experiência: as reflexões. Mas sempre é tempo de rever a mesma história com outros olhos.

Que a Força esteja com você!

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‘This Is Us’ e as marcas da infância em nós

Um casal apaixonado é obrigado a interromper a comemoração de aniversário do marido porque a mulher entra em trabalho de parto dos trigêmeos que esperam. O parto transcorre difícil. Um dos bebês morre e, em meio ao luto, o marido decide adotar, no lugar do filho perdido, um recém-nascido abandonado que chorava no berçário do hospital ao lado dos filhos sobreviventes. O grande e essencial detalhe é que aquela família branca leva para casa um casal de filhos biológicos de sua cor e um adotivo negro.

Assim começa a história da família Pearson, protagonista da série norte-americana “This Is Us”, da NBC, exibida no Brasil pelo canal Fox Premium e disponibilizada (com uma temporada de atraso) na plataforma de streaming da Amazon, Prime Vídeo.

Nem sei explicar por que demorei quatro temporadas inteiras para escrever sobre esta produção, que acompanho desde o episódio piloto, sofregamente, tendo chegado a me emocionar até as lágrimas em vários deles – talvez porque eu demore mesmo pra conseguir colocar em palavras as emoções que certas obras dramatúrgicas acordam dentro de mim, especialmente quando abordam relações familiares (meu ponto fraco). E “This Is Us” as aborda  com uma sensibilidade e profundidade surpreendentes, sob a batuta do seu criador, o norte-americano Dan Fogelman – mesmo roteirista de “A Vida em Si” (Live Itself, EUA/ESP, 2018). Seu grupo de roteiristas sabe usar com maestria o microcosmo daquela família peculiar para mostrar como, mesmo naquelas repletas de amor, surgem conflitos e tragédias que deixam marcas por toda a vida de seus integrantes, principalmente aqueles ocorridos durante a infância.

Mandy Moore surpreende pela versatilidade

A narrativa é cheia de flashbacks, que exigem do casal de atores protagonista muita versatilidade dramática, já que precisam atuar aparentando várias idades diferentes em cada cena. No papel da mãe, Rebecca, a também cantora Mandy Moore – quem diria? – se sai melhor que Milo Ventimiglia (o pai, Jack) neste desafio. Juro por Deus que esqueço completamente que ela não é uma idosa de 60 e tantos anos nas cenas contemporâneas da série, e não é por causa da maquiagem, mas pelo gestual, pela gradação da voz e principalmente pelo olhar, que a atriz dosa diferente para cada idade da personagem.

A primeira e segunda temporadas exploram mais os impactos que uma tragédia ocorrida na adolescência dos trigêmeos tem nos adultos que eles se tornaram, mesmo eles tendo sido criados por pais exemplares. Da terceira à quarta , o vai-e-vem do tempo torna-se mais ousado, com flashbacks retroagindo ainda mais, até a juventude dos pais, mas com acréscimo, também, de cenas de futuro – um artifício que acabou se mostrando perigoso de manejar com a pandemia chegando no hiato das quarta e quinta temporadas para mostrar que a realidade consegue ser ainda mais surpreendente que a ficção, podendo ameaçar a continuidade da história.

Mas, ao menos nos primeiros episódios da quinta temporada, Dan Fogelman conseguiu se sair muito bem

Chrissy Metz, Sterling K. Brown e Justin Hartley são os “Big Three”, como os trigêmeos se chamam desde a infância

no alinhavo das cenas de futuro próximo jogadas no final da quarta – não sei se será tão bem sucedido com o alinhavo das cenas de um futuro distante mostrando os trigêmeos mais velhos e com filhos crescidos, que vêm sendo repetidas desde a terceira temporada… mas cada coisa a seu tempo!

Por ora, esta fã está satisfeita em constatar que a narrativa segue bem amarrada e linkada à realidade atual. Os personagens iniciam esta temporada imersos na realidade da pandemia, motivo pelo qual foram escalados menos personagens por cena e algumas tiveram de recorrer a efeitos especiais de montagem para colocar os atores no mesmo cenário após filmarem em separado. Mas a coisa toda é tão bem feita que o espectador sequer percebe – mais uma prova de que uma (boa) história bem contada pode tudo contra imprevistos na produção!

O quarto episódio dá pistas de que a onda de protestos do movimento “Black Lives Matter”, desencadeada nos Estados Unidos pelo assassinato do segurança George Floyd por um policial, será usada como gancho para mais um conflito não resolvido na infância de Randall, o filho negro que cresceu na família de brancos. Mas também tem mais flashbacks espinhosos da infância dos outros irmãos vindo por aí, para comprovar uma reflexão que o trigêmeo Kevin – o astro de Hollywood – resume em voz alta ao final do terceiro episódio:

“Eu tive os melhores e mais conectados pais que se possa imaginar e mesmo eles deixaram passar tanta coisa…”.

Ou seja, mesmo nas melhores famílias, nada é perfeito!

Por isso recomendo esta série para todos, seja lá o tipo de família que você tiver, até para todos aprendermos com seus personagens a nos perdoarmos, tanto como filhos quanto como pais. Vale o tempo!

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‘Rebecca’, ou a arte de contar histórias

por Carmen Cagno

Joan Fontaine e Dame Judith Anderson no original de 1940 e Kristin Scott Thomas com Lily James na de 2020

Produzir remakes de grandes clássicos é um perigo. No caso da nova versão de “Rebecca”, lançada em outubro deste ano, trata-se de um verdadeiro desastre. Na modesta opinião de quem sempre se curvou diante do altar do grande Alfred Hitchcock, o diretor da nova versão, Ben Wheatley (“Free Fire”, “No Topo do Poder”), deveria, a partir de agora, subir a escadaria da Lapa de joelhos diariamente e bater no peito três vezes ao dia, pedindo perdão ao grande mestre do suspense pelo pecado cometido.     Sem contar a dívida eterna para com os verdadeiros amantes do cinema que tiveram que engolir essa bobagem que mais se assemelha a uma comédia romântica de quinta (afinal, existem comédias românticas boas).

Quem teve o prazer de assistir à versão de 1940 sabe do que estou falando. Além da história de Daphne du Maurier (1938), na qual o filme se baseia, “Rebecca, a mulher inesquecível” original é uma obra prima, com indicação aos Oscars de melhor filme, melhor diretor (Alfred Hitchcok), melhor ator (Lawrence Olivier), melhor atriz (Joan Fontaine), melhor atriz coadjuvante (Judith Anderson), melhor roteiro, efeitos especiais, edição, trilha sonora e fotografia. Levou os prêmios de melhor filme e fotografia em PB. Poderia ter levado todos.

Primeiro projeto norte-americano de Hitchcock, produzido por outra fera, David O. Selznick, trata-se de um suspense com tintas góticas, ambientado na Inglaterra e gira em torno da relação entre um riquíssimo herdeiro e uma garota simples e ingênua, atormentada pelo fantasma da antiga esposa do protagonista, morta em condições misteriosas. O filme se passa dentro dos limites da mansão Manderley – que a genialidade do diretor transformou em mais um personagem. É esse lugar imenso, ostensivo, sombrio um dos elementos fundamentais como cenário da história.

Com roteiro impecável de Michael Hogan e Joan Harrison assentado sobre a belíssima fotografia em branco e preto de George Barnes, com luz e enquadramentos que intensificam o clima de suspense, e trilha de Franz Waxman, o filme conta com algumas vigas de sustentação que constroem seu preciosismo. A principal delas, lógico, é a direção do mestre do suspense, que transforma Rebecca, a personagem fantasma, na verdadeira protagonista, através da qual cresce aos poucos o clima de tensão e mistério. Hitchcock constrói essa heroína invisível, idealizada e aparentemente indestrutível através de efeitos contundentes: os closes em seus monogramas espalhados por todos os objetos da casa, a câmera passeando obsessiva por suas roupas, seu quarto, seu perfume, suas lembranças e até seu cachorro, e os relatos dos personagens sobre a beleza e a personalidade da morta.

A frágil personagem de Fontaine, assim como nós, pobres espectadores, vamos sendo aos poucos conduzidos às dúvidas e ao temor em relação a essa mulher que dá nome ao filme, embora não apareça em nenhuma cena. O fantasma, o espectro, o intangível, portanto, o perfeito.

A grande alavanca para essa idealização, sem dúvida, é a governanta, magistralmente interpretada por Anderson – cruel, doentia, assustadora, ela mantém vivo e soberano o espectro da antiga patroa em cada cômodo da casa, aterrorizando crescentemente a frágil e insegura protagonista vivida por Fontaine.

A aparente indiferença e arrogância de Max de Winter, o viúvo de Rebecca, interpretado pelo grande Olivier, que vaga pela propriedade num silêncio atormentado, corrobora o clima de incerteza e tensão da jovem e ingênua personagem de Joan Fontaine, que não por acaso, não tem nome na história – falta-lhe identidade, personalidade, força, diante do turbilhão de Rebecca.

A atuação de Fontaine empresta a sua personagem uma sensação de enorme fragilidade. Seu corpo se curva, encolhe-se, seu rosto em primeiríssimo plano estampa o medo e a orfandade diante do poder da outra. Dizem as más línguas, inclusive, que a interpretação de Joan Fontaine foi “auxiliada” por Olivier, que queria para o papel sua então mulher, Vivien Leigh. Contrariado, teria fustigado a protagonista o tempo todo – para gáudio do diretor, que nunca se importou muito com o bem estar dos seus atores.

Além disso, o filme conta com a excelente performance do amante de Rebecca, interpretado pelo impagável George Sanders e seu cinismo sedutor e cafajeste que vai semeando dúvidas crescentes ao longo da história.

Muito bem. Encantados com as lembranças dessa obra prima, 80 anos depois somos apresentados à nova versão da história. Inteiramente apoiado no roteiro original, o filme ainda assim é um grande desastre, a começar pela direção, que não imprime em nenhuma cena a tensão e o suspense necessários. Não explora as dúvidas, a dramaticidade, a intensidade gótica da versão original.

Lawrence Olivier e Fontaine na versão de Hitchcock, e Armie Hammer com Lily James na de 2020: quanta diferença!

Wheatley limita-se a narrar o roteiro original, esquecendo-se de que, mais importante que a história, é a forma de contá-la. O resultado é um filme boboca, sem envergadura, pobre e mal feito. Com certeza, poucos diretores de cinema se igualam ao mestre inglês na arte da direção. Mas a impressão que se tem é que o atual diretor nem tentou fazer um bom trabalho. Além de aparentemente não ter exigido nada dos atores, não teve o cuidado de escolher um bom diretor de fotografia, ignorando iluminação e enquadramentos e desprezou até a direção de arte (vide o horrendo figurino da protagonista, que parece ter sido arrematado numa banca de liquidação).

A atuação de Lily James é fraca e inexpressiva. A atriz está longe de envergar o “aplomb” e a elegância discreta de Fontaine, além de não transmitir em nenhum momento a angústia indispensável à construção da personagem. Parece mais uma garota perdidinha e insatisfeita num filme de Sessão da Tarde. Armie Hammer jamais chegará aos pés de Olivier. Bonitinho, mas inexpressivo, não consegue emprestar a seu Max, em nenhum momento, a personalidade angustiada e misteriosa do protagonista lutando contra seus demônios e imprimindo à história a carga de mistério necessária.

E mesmo a excelente Kristin Scott Thomas não dá conta da perturbadora Mrs. Danver – é bonita e doce demais pra carregar personagem tão sombrio. Ou seja, tudo indica que o projeto de Wheatley foi muito mais comercial do que artístico. Poderia ter lançado mão de atores muito mais talentosos e competentes para interpretar os papéis principais e, sem dúvida, utilizado os infinitos recursos técnicos de que o cinema dispõe atualmente em favor de um resultado, no mínimo, mais sério. E mesmo nas raras tentativas de emprestar alguma dramaticidade à determinada cena, como no baile acontecido na mansão, o resultado é banal e forçado.

As grandes histórias, no cinema ou não, são aquelas que nos encantam, afligem, assustam, redimem e ajudam a reinventar o frio cotidiano da vida. Atrás delas estão os grandes contadores de histórias, que com talento, dedicação e afinco extrapolam os limites da realidade e nos permitem experimentar a dimensão da fantasia, justificando a vida através da arte.

Rebecca contada por Hitchcok é pura arte.

Rebecca contada por Wheatley não é nada.

 

 

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‘Os 13 Porquês’: vai encarar este espelho?

Com sua quarta temporada recém-lançada na plataforma de streaming Netflix, “Os 13 Porquês” segue carreira como uma das séries mais polêmicas dos últimos tempos. Parte por abordar o tema espinhoso do suicídio, motivo de críticas de profissionais de saúde mental, que a acusam de fornecer vasto material para o chamado Efeito Werther – em Psicologia, o ato de emular (copiar ou igualar) um suicídio do qual se tem conhecimento localmente ou por meios de comunicação.

Pessoalmente, respeito a ressalva dos profissionais, que justifica uma criteriosa avaliação por parte de pais e responsáveis antes de darem acesso à série pelos jovens. Mas considero “Os 13 Porquês” igualmente necessária, porque didática. Mostra de forma clara e séria as piores consequências que podem advir de atos que adolescentes costumam praticar irresponsavelmente – principalmente o bullying, porta de entrada para outros comportamentos mais graves e até criminosos, como homofobia e estupro.

Na primeira temporada, a adolescente Hannah Baker se suicida sem deixar bilhete ou carta para os pais. Sigilosamente, porém, deixa um depositário de sua confiança incumbido de passar, a 13 pessoas específicas, fitas cassetes com áudios gravados por ela. O que todas têm em comum é o fato de cada uma ter contribuído com uma razão para Hannah ter tomado sua decisão extrema – os 13 porquês. A escolha da mídia obsoleta é proposital, já que vamos descobrindo que os bullying sofridos pela jovem são amplificados pelo uso das ferramentas tecnológicas desta geração imagética: celulares com câmeras, redes sociais, aplicativos de comunicação instantânea, etc.  Acompanhamos tudo do ponto de vista do tímido Clay Jensen, que nutriu uma paixonite por Hannah e parece ser o último dos destinatários a ouvir as fitas. À medida que ele avança nas audições, uma teia de novos mistérios vai sendo tecida.


A série é nos obriga a pensar se aquele espelho incômodo que Hannah Baker esfrega na cara de seus bullyers não reflete também a todos nós


A segunda temporada mostra os pais de Hannah lutando por justiça pela filha, e alguns dos envolvidos nos 13 porquês tendo de lidar com as próprias sequelas emocionais. Também leva o espectador a conhecer detalhes da vida pregressa dos ex-bullyers, que, se não justificam, ao menos explicam como e porque certos jovens agem de determinada forma – sobre o que também é valioso refletir.

Na terceira, as investigações sobre um assassinato revelam novos segredos insuspeitos, inclusive sobre Hannah, que fazem Clay questionar se a conhecia realmente e até duvidar da própria sanidade. Ao mesmo tempo, sugerem que ninguém é inocente e nem todo o vilão é irrecuperável.

A quarta temporada vem encontrar os alunos da Liberty High no ano de suas formaturas. O grupo de amigos que ajudou Clay a se livrar de uma acusação de assassinato tem que lidar agora com culpa, questões de saúde mental e vício em drogas.

Em todas as temporadas, o que mais me chamou a atenção foi a surpresa com que muitos dos personagens bullyiers encaravam as consequências de seus atos quando confrontados. Isso diz muito sobre um “sonambulismo” endêmico que percebemos nas atuais gerações, que postam o que querem nas redes sociais, sem pesar as consequências – ou sem se importarem mesmo, como se a possibilidade de vidas serem destruídas não fosse real.

A série toda acaba sendo muito perturbadora, porque nos obriga a pensar se aquele espelho incômodo que Hannah Baker esfrega na cara de seus bullyers não reflete também a nós todos, como sociedade. Ninguém é poupado, nem os omissos (saca o ditado “para o mal vencer basta os bons não fazerem nada”?).

Quem tiver coragem de encarar este espelho corre o risco de não se arrepender.

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Bravas vozes femininas

Quando se trata de filmes com temática racial, os meus preferidos entre todos no mundo são “Uma História Americana” (The Long Walk Home, 1990) e “Histórias Cruzadas” (The Help, 2011). Não por acaso filmes protagonizados por personagens femininas vivendo nos reprimidos (principalmente para elas) anos 1950, no sul dos Estados Unidos, onde leis racistas mantinham o apartheid social.

A preferência por dois filmes tão similares não foi consciente, mas faz muito sentido agora que penso nisso. São sobre sororidade. É a única”arma” com que contam as mulheres nesses filmes, que, com tão pouca liberdade, numa época em que suas vozes eram relegadas às copas e cozinhas das casas e deviam total obediência a pais e maridos, ousaram agir conforme suas consciências, contra toda a ordem estabelecida.

Em “Uma História Americana”, Sissy Spacek (que 20 anos depois também faria uma ponta em “Histórias Cruzadas”) é Miriam, uma dona de casa de classe média alta alienada que vive em comunidade do estado sulista do Alabama. Quando sua empregada, Odessa (Woopi Goldberg sempre perfeita!), passa a chegar atrasada e cansada, por não usar condução até o trabalho, ela decide buscá-la com seu próprio carro, todos os dias. Na época, o boicote aos meios de transporte foi uma forma de protesto pacífico dos negros contra a lei que os impedia de se sentarem em qualquer lugar dos ônibus coletivos – tinham que usar os bancos de trás, para não se misturarem aos brancos nos da frente.

No começo, Miriam decide dar a carona mais para agilizar a rotina planejadíssima de sua casa. Mas conhecer a realidade e o modo de vida dos negros em suas comunidades lhe desperta reflexões. É sutil a forma como o filme mostra, por meio de pequenos detalhes, Miriam tomar consciência e, aos poucos, começar a desafiar o status quo – em seu microcosmo representados por seu próprio marido e a sociedade abastada onde sua família gravita.

Histórias Cruzadas” foi o filme que me fez enxergar Emma Stone – que até então eu só via subaproveitada em comédias adolescentes– como uma atriz na qual valia a pena prestar atenção. Aqui ela interpreta Skeeter, filha de uma família branca e rica de uma cidadezinha no estado do Mississipi. Quando volta da faculdade, decidida a tornar-se escritora, Skeeter não encontra em casa a babá negra que a criou e que tem na conta de uma segunda mãe. Pra exorcizar as saudades, tem a ideia de contar histórias de outras mulheres negras que, nos papeis de empregadas e babás, criam de fato os filhos das mulheres brancas das classes abastadas.

Muitos empecilhos vão se opor a seu projeto, mas a força das histórias se impõe e ensina mais de uma lição, a ela mesma e à sua mãe branca.

Vale a pena ver e rever!

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Não perca ‘Littles Fires Everywhere’!

Uma silhueta loira observa uma mansão em estilo colonial ser consumida pelo incêndio. Pouco depois é a dona da silhueta em questão (Reese Whiterspoon de arrasar!) quem sequestra a total atenção do espectador com apenas uma expressão, em close. Perplexidade, dor e impotência misturam-se naquele rosto de olhos esgazeados, que parecem perdidos em outro tempo e lugar enquanto um oficial de polícia questiona sua dona sobre “quem teria interesse em atear fogo em sua casa com sua família dentro?”.

Ali! É como somos fisgados já nas primeiras cenas de “Little Fires Everywhere”, série que acaba de entrar para o catálogo de streaming da plataforma Prime Vídeo, da Amazon. Passamos os oito episódios seguintes conjeturando que fato devastador pode ter levado àquele incêndio e, principalmente, àquela expressão digna de Globo de Ouro de Reese Whiterspoon (ela já ganhou um por seu papel em “Johnny & June”).

Em mais este acerto de sua Hello Sunshine Produtora – que está se especializando em produções protagonizadas por mulheres marcantes -, Reese interpreta a personagem Helena Richardson, mãe, esposa, jornalista e cidadã exemplar de Shaker Heighs, localidade-modelo de Ohio (EUA), onde até o tamanho da grama nas casas é definido por lei municipal. Ali, Helena leva uma “vida de comercial de margarina”, regida por um planejamento rígido, que ela controla com ajuda de um kanban (quadro/agenda) gigante afixado em sua cozinha americana – para desespero de sua caçula, a rebelde Izzy.

Seu equilíbrio começa a ser quebrado quando chegam à cidade Mia e Pearl Warren, uma artista conceitual e sua filha adolescente, que levam uma vida libertária, cada temporada em uma cidade, às vezes chegando a dormir dentro do chevette azul usado com o qual percorrem o país. Seguindo um impulso, Helena aceita alugar a casa que recebeu como herança dos pais para aquela família, convencendo-se de que o faz por compaixão, pois só pode concluir que tenham uma vida tão diferente da sua por falta de opção melhor (primeiro preconceito estruturado… check!),

Helena e Mia não poderiam ser mais diferentes: uma branca e orgulhosa de seu pertencimento social; outra negra e ciosa de sua liberdade. Uma amizade forçada se insinua entre elas quando, percebendo o interesse da filha pelos novos amigos da família abastada, Mia acaba por aceitar uma oferta de Helena que encobre outro preconceito: de que funcionária doméstica é um trabalho óbvio para qualquer mulher negra (racismo estruturado… check!).

A interação que se desenvolve a partir daí suscitará conflitos para além das famílias de Helena e Mia, colocando em pauta debates sobre preconceitos racial, de gênero e, principalmente, tabus sobre a maternidade.

O roteiro é tão bem amarrado e os finais de cada episódio sempre tão intrigantes que não consegui parar de assistir até chegar ao final da temporada. Mais importante do que  um ótimo entretenimento,  “Little Fires Everywhere” é um convite à reflexão sobre preconceitos tão arraigados em nosso modo de agir em sociedade que, às vezes, sequer os percebemos.

Não perca!

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