Categoria: PALAVREIRA

Crônicas para compartilhar a escrita como expressão da alma e do olhar.

Inconsciente, mas ainda racismo

Sobre a repercussão do episódio de racismo estrutural ocorrido no reality show Big Brother Brasil (BBB), acho que, em vez de jogar pedras, devíamos ajudar as pessoas a enxergarem o próprio preconceito, pois só a partir disso elas vão se conscientizar de que devem mudar. Dito isso, segue minha contribuição neste caso específico:

Quando o participante Rodolfo disse que o cabelo de sua fantasia de “Homem das cavernas” parecia o do colega de confinamento João, foi como este se sentiu – e como entendeu que pessoas como o sertanejo o veem devido a seu cabelo crespo.

Como beleza é um conceito socialmente construído, o episódio mostra que o de Rodolfo está contaminado pela crença (racista sim!) de que cabelo de negro é sinônimo de feiura.

Até acredito que Rodolfo não tenha tido intenção de ofender, mas é esta (a inconsciência) a principal característica do racismo estrutural: está tão arraigado em nosso comportamento e em nossas crenças que não o enxergamos.

Pra enxergar, é preciso, como a outra BBB Camila muito propriamente pontuou, APRENDER, e só se faz isso colocando-se no lugar das vítimas. No caso do Rodolfo, significaria sair do ponto de vista do próprio umbigo (de onde ele só enxerga que não houve intenção de ofender) pra perguntar por que o João se sentiu ofendido.

O João já deu uma pista quando disse que não é porque tem esse cabelo que é um homem das cavernas (uma figura pejorativamente associada à feiura e à brutalidade).

Quando  Rodolfo finalmente enxergar que a comparação fez João sentir-se feio e brutal, deve ir mais fundo na reflexão e SE PERGUNTAR por que uma fantasia de monstro o fez, impulsivamente, compará-la ao João. A resposta sincera a este auto questionamento é que levará ao aprendizado de Rodolfo sobre seu racismo inconsciente.

Espero ter contribuído.

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Já refletiu sobre seu racismo estrutural hoje?

Segundo a pedagoga brasileira Nilma Lino Gomes, os penteados trançados nasceram como indicativos de status nas sociedades africanas. Primeira mulher negra a comandar uma universidade pública federal brasileira (foi eleita reitora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira em 2013), Nilma lembrou, em artigo seu de 2003, que “no início do século 15, o cabelo funcionava como um condutor de mensagens na maioria das sociedades africanas ocidentais”, sendo “parte integrante de um complexo sistema de linguagem”. O estilo do penteado podia indicar, por exemplo, o estado civil, a origem, a idade, a religião, a etnia, a riqueza e até a posição social da pessoa. “O significado social do cabelo era uma riqueza para o africano”, escreveu a pedagoga, cujas pesquisas apontaram que, entre alguns povos, uma mulher deixar o cabelo despenteado sinalizava que alguma coisa estava errada, que ela estava de luto ou deprimida, por exemplo.

Considerado este contexto histórico, poderíamos atribuir apenas a desinformação o fato de, recentemente, uma clínica médica na Grande Belo Horizonte ter demitido uma recepcionista que se recusou a desfazer as tranças afro de seu cabelo. Só que não! Acionada na Justiça, a empregadora disse, no processo, que “o penteado não se enquadrava no padrão estético que a boa imagem institucional exigia”. Acabou condenada, em primeira instância, a indenizar a ex-funcionária em R$ 30 mil por danos morais.

Justiça feita, já que, quando você diz que um penteado afro está em desacordo com a “boa” imagem que quer passar, está afirmando, nas entrelinhas, que a cultura negra (da qual este penteado é uma expressão) passa uma imagem ruim. E quando você diz que a cultura ou a raça à qual uma pessoa pertence é menor, você está dizendo que esta pessoa é menor. Isso provoca o que, em Direito, configura dano moral (abalo psíquico, intelectual ou moral sofrido em decorrência de um ataque à imagem, honra, etc).

Esse tipo de comportamento – que seus praticantes nem percebem que é preconceituoso porque não se dão ao trabalho de refletir sobre – é considerado “racismo estrutural”. É chamado assim porque está amalgamado na estrutura social de tal forma que, de tanto ser praticado sem reflexão, as pessoas consideram “normal”, inofensivo, até certo. Mas pra quem o sofre não é!

Reflita: o que leva alguém a considerar a cultura afro ruim? Quem se der ao trabalho de responder a esta pergunta pra si mesmo, com sinceridade, correrá o risco de descobrir que também é racista.

Vejamos:

Se para respondê-la você lembrou que a população preta é maioria nos bolsões de pobreza e presídios brasileiros (o que é verdade) está sendo preconceituoso, porque nem todo negro é pobre ou criminoso. Pensar nisso ao visualizar um penteado afro denuncia, nas palavras do dicionário Oxford, uma “generalização apressada”, ou seja, que você está julgando toda uma população pelos erros de uma parcela dela.

Além de preconceituoso, está sendo injusto (por admitir a possibilidade de negros serem mais propensos ao crime) e, na melhor das hipóteses, mal informado, por ignorar as razões históricas dessa estatística.

Vamos a elas: quando foi abolida a escravidão no Brasil, os ex-escravos foram abandonados à própria sorte numa sociedade hostil. Analfabetos e sem recursos para se manterem dignamente (logo seriam substituídos por imigrantes assalariados nas lavouras), passaram a sobreviver abaixo da linha da pobreza, dando início a uma longa linhagem de marginalizados – esse histórico, aliás, é que justifica leis como a do sistema de cotas nas universidades, que visam dar oportunidade para que cada vez mais pretos e pretas furem a bolha de exclusão à qual foram relegados por gerações. Exclusão social (quando os direitos universais assegurados por lei a todos não incluem você) gera revolta, que gera desprezo pelas leis (“se os direitos não me incluem, também não cumprirei os deveres”) e desemboca na criminalidade, que alimenta o preconceito, criando um círculo vicioso sem fim.

Nem essa triste realidade, porém, justifica considerar uma manifestação cultural menor que outra, mas foi exatamente o que fez a empregadora mineira ao tentar forçar a recepcionista a desfazer o penteado que manifesta suas raízes afro.

Exemplos como esse provam que não basta só não praticarmos o racismo. É preciso aprender a enxergá-lo, em nós e no outro, e ter coragem de denunciá-lo para que, punido, as pessoas parem de replicá-lo e copiá-lo. Assim, num futuro próximo – ou distante, quem sabe? -, talvez aprendamos a educar nossos filhos livres desse viés.

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Um bode já foi…

A parábola do “Bode na Sala” me foi contada pela primeira vez por um amigo querido e desde então a recordo sempre que uma situação remete a sua distorcida “moral da estória”. Resumo de memória, não sei se corretamente: conta que um homem pediu conselho a um sábio sobre como melhorar sua vida em família, desestabilizada por queixas da mulher estressada, dos filhos sempre querendo atenção e dele mesmo, desejoso de mais tranquilidade. O sábio o orientou a comprar um pequeno bode e colocá-lo para viver na sala de sua casa. Uma semana depois, o homem voltou dizendo que o clima em família só piorou, porque o bode quebrava as coisas e deixava a sala constantemente suja e fétida, fazendo todos infelizes. O sábio então mandou sumir com o animal e limpar a sala. Na semana seguinte, quando questionado sobre a vida em família, o homem disse que nunca esteve tão boa, agora que os familiares haviam aprendido a valorizar seu lar, que sem o bode tornou-se “o paraíso na Terra”.

Tenho certeza de que quem contou a parábola pela primeira vez não tinha nada contra bodes – que são animaizinhos adoráveis e até bonitinhos, embora incompatíveis com ambientes domésticos – e tinha como única intenção oferecer uma lição de resignação. Ocorre que, desde então, empresas e governos têm aproveitado a ideia como estratégia para livrarem-se de reclamações e cobranças por problemas que têm o dever de resolver – descobriram que fabricar um problema maior e depois eliminá-lo, além de fazer as pessoas esquecerem o anterior, as deixam extremamente agradecidas a eles.

O que me fez recordar a parábola hoje foram vários comentários de redes sociais pontuando que os estadunidenses não votaram para colocar o democrata Joe Biden na presidência, mas para tirar o republicano Donald de Trump de lá. Desse ponto de vista, a grande comemoração que se segue é mais pelo alívio de terem conseguido tirar o “bode da sala” (sendo Trump o próprio), o que faz todos esquecerem que Biden já plagiou discurso, votou pela invasão do Iraque e foi acusado, por ninguém menos que sua hoje vice, Kamala Harris, de ter apoiado congressistas com bandeiras racistas.

Quem me conhece ou me lê sempre sabe que não sou a pessoa mais otimista do mundo, mas desta vez sinto-me na obrigação de assumir, nesta novela, o papel de Pollyanna (a personagem de Eleanor H. Porter que consegue ver o lado bom de tudo com seu “jogo do contente”). Tudo bem que Biden não seja, assim, “um Obama”, mas permitam-me ficar feliz por testemunhar que uma parte majoritária da população do país mais poderoso do mundo decidiu que não quer mais ser governada pela cartilha direitista-armamentista-negacionista praticada por Trump. Mais: os números recordes de votação demonstram que a população se mobilizou para materializar esta escolha e deixar bem clara a rejeição ao bode da vez (nos EUA, além do voto não ser obrigatório, é um processo burocrático difícil, que desanima muitíssimos eleitores a exercê-lo).

Ok, a votação foi apertada… o país seguirá dividido, com pouco menos da metade ainda a defender a cartilha de Trump… podem advir conflitos internos… Biden pode decepcionar… E, SIM, posso estar sob o efeito “bode na sala”, mas (pro diabo com a racionalidade!) neste momento quero mais celebrar o fato de que nem todos enlouqueceram no mundo, que muitos ainda rejeitam líderes que colocam o próprio projeto de poder à frente do bem-estar coletivo e cultivam valores contrários aos Direitos Humanos e à coexistência pacífica entre diversos.

Um bode se foi! É um começo!!! Quem sabe mais pessoas consigam, finalmente, enxergar os que estão vivendo nas “nossas salas”?

Ainda há esperança! E ter esperança sempre vale a pena. Que Deus nos ajude a aproveitá-la.

Amém!

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Chorando e cantando

Tenho chorado à toa, feito manteiga derretida, ultimamente.

Hoje foi assistindo a este videoclipe do Michael Jackson que já havia visto umas 37 vezes antes sem me abalar – “é fabricado pra emocionar”, pensei na primeira vez que o vi, acho que com 26 anos de idade e me achando “A-cinéfila-crítica-fodona-de-cinema-e-vídeos”.

Mas pra entender “por que diabos” acabei passando a manhã de domingo de um feriado prolongado enterrada numa página de Youtube, a escavar videoclipes da década de 1990, é preciso explicar que toda minha vida sempre foi embalada por trilhas sonoras… que música, pra mim, é tão vital quanto duas refeições ao dia e ao menos seis horas de sono bem ou mal dormidas (conforme demandar a intensidade de meu ciclotímico bruxismo) entre um dia e outro. Então é super normal eu acordar já com uma canção qualquer tocando na cabeça, que preciso expurgar ouvindo outra – ou a própria – em algum dispositivos de som, antes que eu enlouqueça ou passe a odiá-la pra todo o sempre.

Daí que a música que brotou de dentro do meu sono esta manhã foi “Lady Picture Show”, do Stone Temple Pilots (que quem nasceu depois de 1996 provavelmente não conhece). Esperei dar 9h da manhã pra por tocar no meu som em um volume não muito decente pra uma moradora de condomínio de apartamentos (mas é domingo e feriado, né?). Daí que, já que ela faz parte de uma playlist do grupo no meu Apple Music, deixei tocar… e porque é dançante, deu vontade de continuar na vibe, o que me fez apelar logo pra outra playlist do Michael Jackson, que montei pra caminhar ao ar livre, em alta frequência cardíaca… E porque as baladas românticas do artista estavam na sequência, deixei rolar e fui entrando no clima que a voz dele foi instalando dentro dessa nova “eu”, que acorda cada dia mais à flor da pele com dores próprias e do mundo todo.

Foi quando me toquei de que nunca tinha notado antes como MJ usava a voz não só como um instrumento musical (isso todo bom cantor é capaz de fazer), mas como um recurso dramático, sabe… fazendo só com a voz o que um excelente ator faz com o corpo todo… ? Já pararam pra prestar atenção em como a voz do cara volita como se encantada por fadas naquelas canções água-com-açúcar como “Heal The World”? E como “chora” quando canta uma balada com letra dolorida tipo “Stranger in Moscow”?

Comentei isso com o marido, que confessou nunca ter visto o videoclipe dessa música… e lá fui eu acessar o Youtube pela nossa SmarTV pra mostrá-lo em HD legendado, só pra me dar conta de que também nunca tinha prestado atenção na letra dela (acho que ainda não entendia inglês na época em que a cultuava). É sobre ele estar se sentindo sozinho com a própria fama, sob um tiroteio de notícias negativas sobre si veiculadas pela mídia… Pensei comigo (meio tentando não me atrever a acreditar ou não em tudo o que já foi dito sobre suas tendências sexuais): “como pode um artista com tanto sentimento na voz ser capaz de tudo de ruim que lhe atribuíram?”.

Daí que tive vontade de rever outros videoclipes dele com coreografias de dança – que na adolescência me fizeram sonhar em ter uma carreira como bailarina – e fui revendo, revendo, revendo… até cair neste de “Earth Song”… que foi onde desmontei!

Cara, se você também está entre os inconformados com a onda direitista-hiperindividualista-antiambientalista que tem varrido o planeta nesta era, eu lhe desafio a também revisitar este videoclipe, com imagens de índios muito parecidos com os nossos do Brasil… de refugiados de guerra entre ruínas do que teriam sido suas casas… flashes de um bebê africano tentando mamar a canela esquelética da própria mãe (ah… Deus me ajude a esquecer esta imagem!!!)… uma família africana velando o cadáver de um elefante… um desmatador em ação… e MJ berrando aquela voz dolorida-indignada-chorosa em um cenário de árvores cortadas… e o arranjo grandiloquente mandando a gente prestar atenção…

Eu sei, provavelmente MJ cantava uma letra escrita por outros, em um cenário construído para chocar e em um videoclipe produzido pra emocionar, SIM, mas… de novo: como é possível cantar assim, com tanta dor e lágrima na voz, sem ter tudo isso dentro de si?

Posso estar exagerando (provavelmente estou e nem terminei a taça de vinho que o Ma me serviu junto com nosso marmitex de churrascaria), mas fato é que chorei e cantei junto, arrepiando muito e pensando que este clipe de 1996 nunca foi tão atual… E me deu tristeza pensar que não evoluímos nada em 30 anos… nem em 1990 anos, desde que um certo nazareno apareceu na antiga Galileia pregando um jeito de viver baseado em “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Tudo o que fizemos (eu inclusive!), desde então, foi colocar nossos interesses na frente de tudo e todos, o que nos trouxe a um mundo super aquecido por El Niños e La Niñas, aterrorizado por religiosos fundamentalistas que matam em nome de Deus e com governantes que defendem armamento civil, destruição de conquistas sociais, combate às diversidades e priorizam a própria agenda política em detrimento de populações ameaçadas por uma pandemia mundial.

Pensando bem, acho até que demorei pra começar a chorar… porque cantar, eu já cantava.

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Escritaterapia

Já há três domingos não escrevia.

Tenho esses períodos de silêncio auto infligido que nunca são por falta do que dizer (ao menos não na forma escrita), mas por medo (sou PHD nisso!). É que às vezes são tantos e tão difíceis de identificar os sentimentos que preciso descarregar na escrita – minha eterna terapia – e tão poucas as palavras para descrevê-los corretamente… E tem a exposição, o julgamento alheio (confesso! me apavora), as más interpretações, os egos feridos que reagem instintiva e, portanto, violentamente (não é certo que criticamos no outro o que não queremos enxergar dentro de nós?)…

Sempre digo à querida Marcinha Intrabartollo (um talento em processo de auto descoberta como escritora) que escrever para ser lido é, antes e mais do que tudo, um ato de extrema coragem! Porque quando escrevemos algo que toca o interior do outro – mesmo quando banalidades construídas para entreter o tempo – ficamos nus. E toda nudez é vulnerável, no literal e em todos os mais simbólicos e intangíveis sentidos.

Como sei disso? Porque, como toda leitora apaixonada, quantas vezes não me quedei perplexa, ao final de um texto ou livro que me alcançou a alma (não é, Luciana Gerbovic?), imaginando como era possível outro ser humano alcançar tão dentro de mim sem me conhecer? E quando caço a biografia desses autores quase sempre desacredito das imagens de divulgação que os mostram tão normais, quando já acho que não, tão gigantes me parecem em sua valentia!

Mas estou tergiversando. Ocorre que estou aqui sentada, vomitando esta escrita, obrigada por mim mesma a ter coragem!

Porque há dias sinto como se todos os sentimentos que venho, há tempos, toureando, na tentativa de manter algum equilíbrio, tivessem se rebelado e me feito refém. Não aceitaram, durante toda a última semana, ficarem quietinhos dentro de mim enquanto eu tocava a vida normalmente. Assumiram o controle, saindo pela minha boca em forma de gritos ante qualquer contrariedade, em espasmos de raiva que já não consigo dissimular ou aliviar com tentativas risíveis de meditação… em lágrimas de desesperança que há tempos não seguro mais ao assistir ou ler notícias que provam nosso fracasso como humanidade.

Pode ser coincidência ou auto sugestão, mas calhou desse descontrole ter começado no mesmo dia em que visitei uma terapeuta nova, que me espetou agulhas enquanto explicava o que cada ponto em minha orelha dizia sobre mim. Saí da sessão com um vidrinho de elixir (não sei se floral, homeopático ou coisa que o valha) que prometi tomar a conta-gotas, três vezes ao dia (estou tomando), mesmo convencida de que não me curaria e que minha orelha não havia entregue nenhuma novidade.

A novidade, hoje, é que acordei decidida a encarar o medo da minha terapia escrita e dizer, a mim mesma e a quem interessar possa, que: sim, estou triste! Sim, tenho medo. E tenho raiva. Muita raiva! E não é de hoje…

E escrevendo, como sempre, vou alcançando alguma compreensão de mim. Como a de que não estou triste só por mim. Que meu medo por mim mesma é, sim, gigantesco, mas também é por muitos – os pobres, os paupérrimos, os negros, os índios (ah! Os índios…), os enlutados… E a raiva – meu Deus… nem consigo dizer de que ou de quem – não é exclusividade minha e as redes sociais estão aí para provar.

Tanta dor vendo imagens de animais incinerados – alguns ainda abraçados às suas crias – porque não conseguiram fugir do fogo em nossas florestas. Fogo cada vez mais descontrolado desde que o atual governo começou a desmontar o aparelhamento e a legislação ambientais que as protegia em algum nível.  Tanto medo de chegar àquele temido momento de não ter mais como saldar as contas em uma economia em crise e com a legislação trabalhista flexibilizada! E tanta, mas TANTA RAIVA por constatar que os egoístas de plantão nos cargos públicos seguem aproveitando-se de calamidades para roubar… que defensores da violência e detratores dos direitos humanos têm coragem de evocar o nome de Deus em suas causas desumanas!

Tenho raiva, sim! E tenho muito medo… e tristeza – mansa, mas está lá. E lamento que, por mais que esta escrita tenha intenção terapêutica, não venha compartilhar alguma mensagem positiva, ou trazer alívio e nem respostas para as questões que levanta. Traz, sim (como toda terapia) mais questões. Por exemplo: por que nos sentimos tão solitários mesmo acompanhados? E tão desconectados mesmo nos comunicando tanto? Sou a única a interpretar como sendo só meus tantos sentimentos que têm convulsionado o mundo todo, engolfando todos numa nuvem quântica? E se assim não é, por que continuamos procurando soluções individuais para problemas coletivos?

Alguma hipótese?…

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Chuva de presente

Sabe o que é acordar às 6h da manhã, abrir uma janela do seu apê e receber em cheio, no rosto, um bafo quente fedendo a queimada? Aí você olha pra um horizonte embaçado, como se envolto em neblina, e percebe que é fumaça mesmo. Olha as lindas árvores plantadas no estacionamento do vizinho e não vê uma folha sequer se movendo.

Ontem foi assim: ar quente, parado e impregnado de fumaça! Igual tivemos anteontem… e antes de anteontem  – aqui na minha cidade do interior paulista e no país todo.

Há semanas meu nariz segue ressecado e machucado por dentro, coçando o tempo todo, a fabricar espirros na tentativa de expulsar o que quer que esteja entrando organismo adentro junto com o ar respirado. Previ mais um dia inteiro como refém do único cômodo do apartamento abençoado com ar-condicionado – nosso quarto de dormir, onde já deixamos, a noite toda, um umidificador ligado pra tentar reequilibrar a umidade do ar (condicionado ou não).

Em dias assim penso, compadecida, nas pessoas que não contam sequer com ventiladores pra minimizar, um pouquinho que seja, a asfixia destes tempos. Rezo a Deus por eles. Por todos nós também. Jogo baixo, pedindo chuva de aniversário – não garoa ou “pancada” de verão, mas chuvão mesmo, ainda que escurecido por carvõezinhos – pra lavar tudo, até nossa alma ressentida.

E eu que sempre condenei barganhas com Deus, prometo não querer mais nada de presente se Ele nos enviar as águas de setembro. Prometo sequer abrir aquele espumante que guardamos, há semanas, no baldinho do carrinho de bebidas em imbuia herdado da minha sogra.

Se acreditasse em adorar imagens, eu estaria agora ajoelhada em frente a uma linda, em gesso, de Francisco de Assis na posição de lótus, com pássaros ao ombro, braço e perna (quase comprei uma pra mim quando adquiri esta para presentear um Amigo Secreto ). Pediria chuva e proteção dos animais.

Amo Francisco de Assis, que sei ter sido enviado pela espiritualidade pra nos lembrar de viver conforme o Evangelho de Jesus. E porque ele sabia conversar com os animais e os elementos, rogo-lhe que receba em seu céu os que estão morrendo nos incêndios florestais. E pra que também  interceda por nós junto à natureza ressentida.

Peço, por fim, ao Pai, que perdoe-nos, pois, 2020 anos após ter enviado seu filho mais velho, ainda não sabemos o que fazemos.

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Perdidos setembros

Sempre gostei de setembro. Não só por ser o mês de meu aniversário, mas porque costumava ser o da despedida do frio e de chegada de um calor agradável, apaziguado por chuvas temporãs de verão – já disse em mais de uma crônica como adoro frio, chuva e seus cheiros todos… Ah, o de terra molhada e o das plantas agradecendo o alimento!

Mas os setembros não são mais os mesmos. Ficam cada vez mais secos e sufocantes desde que os fenômenos climáticos El Niño e La Niña começaram a mudar o comportamento das estações. E nesta Ribeirão Preto encravada numa depressão (assim me disseram sobre seu relevo) sequer os dias de inverno trazem frios adequados e nem meu mês preferido chega mais com águas esporádicas a prenunciarem o verão quente e úmido dos trópicos.

Azar meu! Talvez porque os genes lituanos de meu avô materno prevaleçam sobre os africanos de meu bisavô paterno, o frio e as águas me vitalizam corpo e mente, mas o calor me adoenta. As altas temperaturas me põem cansada, mau humorada e em um “estado de constante deselegância” – parafraseando minha vitoriana preferida, Jane Austen.

Os suores (estes sim, culpa de meus genes afro) me deixam testa, colo e axilas respingados em qualquer ambiente sem ar condicionado. E receber a primeira golfada de ar quente logo ao sair de um carro me faz cambalear de vertigem – a cabeça ferve, a vista escurece e a noção espacial desaparece por uns cinco segundos e meio.

E não adiantam duchas frias – que de frias têm pouco quando a água da caixa de seu prédio desce fervendo pelo chuveiro – nem ventiladores, que, a depender de como o sol bate no cômodo, só fazem movimentar ar quente, sem refrescar nada. Só quilowatts gastos em ar-condicionado na causa!

E quem disse que toalha molhada na janela ajuda a minorar a secura ambiente não conhece as taxas de umidade de deserto da minha cidade. O jeito é apelar pra muita hidratação oral… e olhe lá!

Enfim, este texto é só pra dizer que, se vontade firme ajudar, tô dentro de qualquer esforço quântico, macumba ou dança da chuva que ajudarem a convencer o universo a apaziguar as fúrias de Niños e Niñas neste hemisfério sul.

Quero meus perdidos setembros de volta!

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Gratidão: um legado

Ontem me emocionei assistindo na TV a depoimentos de pessoas que se recuperam da covid-19. Só quem passou por convalescenças extremas entende o sentimento genuíno de gratidão que vem a cada pequena reconquista de saúde.

Eu sei porque, antes da quarentena do novo coronavírus, eu tive a minha própria entre os julhos de 2016 e 2017. Um acidente de moto, que me quebrou ossos nas duas pernas, provocou imobilidade física e isolamento social forçados. Assistir ao mundo seguir seu curso normal pela TV enquanto mergulhava numa rotina de dores, medicamentos e exercícios fisioterápicos diários não pesou tanto quanto a dependência física total de terceiros – para tudo… banho, alimentação, evacuações e até uma simples troca de posição na cama. Lembro-me de refrear minha sede no período da noite para tentar limitar as idas ao banheiro na madrugada. Assim, com sorte, não sacrificava tanto o sono de meu marido, mesmo ele acordando sempre tão pronto a me ajudar a passar da cama para a cadeira de banho, na qual me empurrava até o banheiro social da casa de minha irmã – ficamos hospedados lá durante meu período de imobilidade total porque o condomínio de nosso apartamento não tem elevador. Como a cadeira de banho não deixava a porta do banheiro ser fechada, Márcio tinha que ficar de guarda no corredor de acesso aos quartos para proteger minha privacidade do direito de ir e vir de nossos anfitriões.

Ainda lembro do quão grata fiquei no dia em que a fisioterapeuta domiciliar me ensinou a técnica de me virar sozinha na cama, com manipulação metódica de travesseiros; de como me emocionei às lágrimas na primeira vez em que consegui, amparada no andador, me encerrar sozinha dentro do banheiro – as pessoas subestimam o valioso privilégio da completa solidão em um sanitário! Também me lembro do amor que senti pelos raios de sol me atingindo inteira – não só um pedaço da perna deixado à luz da janela aberta – em minha primeira saída para o médico em 40 dias de reclusão.

Cada pequena reconquista de mobilidade individual inundava de hormônios de felicidade minha química cerebral, àquela altura calejada pela consciência do quão hostil pode ser o mundo para usuários de cadeiras de rodas, andadores e muletas.

Por tudo isso sei exatamente o que devem sentir os infectados por covid a cada segundo que conseguem respirar sem ajuda. Imagino a alegria deles ao sentirem o primeiro aroma ou sabor após um período prolongado sem olfato e paladar,  mas, principalmente, saber que sobreviveram para mais natais e aniversários em família.

Só não sei o que deve ter sido passar pela convalescença longe de seus entes queridos, pois conheço o valor de ver a pessoa amada chegando em um sorriso quando você está numa cama de hospital; a mão de seu companheiro segurando a sua no momento de maior dor; uma conversa normal, cheia daquelas senhas femininas de praxe, com as amigas que não via há semanas!

Ah se soubessem o valor que tem tudo isso as pessoas que teimam em se aglomerar nas praias e bares a desdenhar a importância da emergência de saúde pelo qual passa o mundo!

Penso que a gratidão por tudo o que tivemos sem a consciência exata de seu valor será o maior legado dos sobreviventes desta pandemia. Espero que ela floresça para além dos corações afetados pela doença física, pois nosso mundo nunca esteve tão necessitado dela!

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A Mulher do Verdureiro

Sinto falta da informalidade nas relações de minha infância.

Lembro de uma época de portas sempre abertas, de vizinhos que entravam e saíam das casas uns dos outros sem bater palmas – no máximo, avisavam em voz alta que entravam. Campainhas eram raras, mais por serem desnecessárias do que consideradas um luxo naquela rua de casas modestas. Havia casas sem muros ou com eles baixos, fáceis de pular para pegar uma bola que caísse dentro, escapulida dos jogos da criançada na rua. Como os telefones fossem privilégio de poucos, os parentes se visitavam sem aviso prévio. Chegavam a bordo de sorrisos confiantes, certos de que seriam recebidos como a melhor das surpresas. E eram!

Mamãe fazia um dinheiro extra para as despesas da casa fazendo manicure e pedicure das mulheres da vizinhança. Nem agenda tinha para marcá-las. As freguesas eram naturalmente esperadas todas as tardes de sábado, quando nosso corredor de acesso ao quintal ficava cheio delas a tagarelarem sobre tudo quanto era assunto. Apareciam na hora em que seus afazeres domésticos permitiam e esperavam pacientemente sua vez de serem atendidas, definida por ordem de chegada.

Na falta de espaço melhor, mamãe improvisava seu mini spa na cozinha mesmo, entre a mesa de refeições e a pia. Colocava a freguesa sentada numa cadeira ao lado da mesa, de costas para a parede, e sentava ela própria em um banquinho baixo, de frente para a mesma, e passava a tarde a aparar cutículas e esmaltar unhas – com o tempo, sua coluna se ressentiu muito daquela posição mantida por horas.

Às vezes acontecia de uma ou outra vizinha aparecer de surpresa, durante a semana, pra ver se não acontecia de mamãe conseguir atendê-la sem aviso, em nome de  alguma emergência cosmética. Não sei explicar porque ficou em minha memória, de uma forma muito nítida, o dia em que o verdureiro trouxe sua esposa pra mamãe atender sem aviso. Chegaram ambos em sua carroça de madeira – a mesma em que ele passava vendendo as verduras que cultivava em sua horta doméstica – puxada por uma mula.

A mulher desceu muito arrumada em sua simplicidade, cheirando a banho fresco e com o cabelo curto e negro ainda úmido – o rosto branco enrugado de sol iluminado por um sorriso de dentes grandes e amarelos. Lembro o misto de carinho e compaixão que me inundou a visão daquele riso tão aberto, a apelar amizade, simpatia e aprovação, como a se desculpar pela timidez. Ainda enxergo em minha memória suas unhas deformadas por sulcos desde as raízes, que só mais tarde entendi serem resultado de afastamentos brutais de cutículas. Mamãe, sempre gentil, fingiu nem perceber e tratou de esculpi-las e esmaltá-las como as mais lindas, como sempre. Mal ouvimos sua voz durante o processo, mas percebi que deixou a cadeira de mamãe sentindo-se mais feminina do que entrou. O marido já a aguardava com a carroça em nossa rua de terra, em cuja sarjeta sua mula deliciava-se a comer uma moita de capim. Achei lindo ele estender a mão para ela se apoiar na subida e  sentar-se na tábua encardida que fazia as vezes de banco, numa alegria fácil.

Nunca mais voltei a ver a mulher do verdureiro. Pode ser que mamãe tenha voltado a atendê-la em horários da minha escola – nunca me ocorreu de perguntar -, mas nunca me esqueci de sua presença adorável e seu sorriso franco de dentes grandes e amarelos. Lembro de ter desejado, então, ser tão feliz quanto ela. Hoje, quando a recordo, só desejo que ela tenha sido tão feliz quanto me pareceu então.

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Gemada no frio

E hoje aquele braço de vento frio, velho conhecido de minhas lembranças, evocou noites de julho em férias, em nossa casa humilde daquela rua de terra à beira do rio. Papí só estava em casa aos finais de semana e, em alguns, conseguíamos convencê-lo a fazer sua famosa gemada, que espalhava cheiros de canela através dos cômodos sem portas.

Eu acompanhava quieta todo o processo, que começava com a separação das claras das gemas – não me lembro de quantos ovos, mas deviam ser dois. Ainda enxergo em minha mente a imagem dele em frente ao fogão, em um agasalho esportivo que o deixava ainda mais parecido com o jogador atlético que foi e o pai mais lindo do mundo!

As mãos morenas e grandes de goleiro batiam as claras em um prato fundo, usando dois garfos juntos – naquela época ter batedeira, para nós, era um luxo tão distante quanto uma viagem à lua – até elas ganharem um aspecto de espuma perolada. Papí virava o prato pra baixo provocando a espuma a cair e ela não caía. Era o sinal de que estava pronta para receber o açúcar. Batia mais um tanto, perseguindo a consistência de suspiro, que eu salivava de vontade de comer daquele jeito mesmo, mas papí, bravo, não deixava!

Àquela época nosso leite vinha em saquinhos fechados a vácuo e liberava um cheiro doce e atraente quando fervido. Pra fazer a gemada, papí colocava dois a três paus de canela pra ferver junto. Apagava o fogo quando o leite começava a subir no canecão, milímetros antes de derramar e se espalhar pelo fogão, formando uma crosta grudenta.

Na última fase do processo, acrescentava ao prato do suspiro as gemas e pitadas de canela em pó. Batia mais um pouco e ia despejar aquele creme amarelado e pintassilgado de laranja dentro do leite quente, mexendo sempre pra misturar bem direitinho.

O resultado era uma bebida cremosa, quase uma espuma aerada, super quente, que rendia um copão para cada um de nós cinco – também não tínhamos canecas de louça. O vidro quente queimando nossos dedos e a gemada abrindo um caminho de fogo pelo nosso esôfago, após inundar de prazer nossas papilas.

Até hoje faço esta receita de gemada nos dias de frio, só pra mim mesmo – não temos filhos e o marido não é muito amigo de ovos. O gosto nunca resultou o mesmo de minha infância. Talvez porque a qualidade dos leites, hoje vendidos em garrafas plásticas ou caixinhas, já é outra. Ou porque adquiri uma predileção por acrescentar uma colher de Ovomaltine sabor Chocolate à mistura. Mas tenho pra mim que, mesmo que assim não fosse, o prazer nunca haveria de se repetir como naquela época. Faltariam a inocência e felicidade com que sorvíamos aquele mimo, acreditando-nos sortudas por sermos filhas daquele pai que sabia fazer gemada finalizada com claras em neve.

Acreditávamos, então, em pais sem defeitos, em finais felizes, em nós como centros do mundo. Eu não sabia ainda como é ter saudade de mim mesma numa versão mais pura e simples.

Leia também a crônica que deu origem a esta: ‘Um braço de vento frio cutucador de memórias’

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