Categoria: PALAVREIRA

Crônicas para compartilhar a escrita como expressão da alma e do olhar.

Impiedade!

O celerado na presidência está alcançando seu intento de autorizar a desumanidade nas pessoas. Na farmácia de manipulação onde fui buscar medicamentos para meus pais, pra que não rompam o confinamento doméstico, ouço um cliente comentando com o proprietário que o primeiro ribeirão-pretano morto com coronavírus já tinha câncer “e outra doença aí…” – ou seja, já ia morrer mesmo, né? E que uma parente já perdeu clientes, e que um empresário conhecido já demitiu 50… e o restante do discurso, podem adivinhar.

Contei até 10 e saí da farmácia pra não bater-boca de novo com gente desumana (não adianta).

Mas quero dizer aqui que meus pais também tratam câncer há anos. Minha mãe teve dois infartos, quatro AVC e ainda tem hipertensão. Meu pai vive com bolsa de ileostomia por não ter mais a maior parte do intestino delgado. Sou grata pelos anos que eles têm vivido para além de todos os seus problemas de saúde e tenho certeza de que os parentes do primeiro morto com coronavírus da cidade também teriam ficado gratos se ele pudesse ter vivido mais.

Este país passou por recessões e desempregos antes em inúmeras crises econômicas e vai passar de novo, mas é a primeira vez que vejo seres humanos admitirem sem vergonha nenhuma darem mais valor a seus negócios e empregos do que ao próximo. Sem falar que caem direitinho na cilada do presidente, que, jogando a culpa nas medidas preconizadas pela classe médica mundial, desvia atenção do fato de que é ele quem não está tomando as medidas que deve para minimizar a crise.

O cliente que conversava com o proprietário da farmácia estava bem vestido, mas com traje informal. Ou seja, deve estar confinado em sua casa e duvido que, se suspenderem a quarentena, ele mesmo e sua preciosa família voltem ao trabalho junto com a massa mais pobre.

A propósito, pela primeira vez em mais de um ano trabalhando como jornalista free lancer também estou completamente sem trabalho (perdi os poucos que tinha por causa da quarentena). Não tenho ideia de quanto tempo consigo aguentar sem renda, mas nem por isso quero que a economia se reaqueça à custa de mortes em massa.

De verdade, estou arrasada é por testemunhar a impiedade das pessoas!

 

P.S.: já avisei ao dono da farmácia (da qual era cliente há anos) que não piso mais lá.

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Os ‘sabe-tudo’ contra o coronavírus

Olha, eu já vinha mais ou menos conformada em ignorar a intransigência e agressividade dos haters e a acolher com bom humor a inconsistência dos terraplanistas, mas não estava preparada para me confrontar com o mesmo modus operandi deles na negação da ameaça mundial representada pela pandemia de coronavírus.

Foram dois episódios na mesma quarta-feira: o primeiro na casa de meus pais, para quem estou servindo de leva-e-traz de farmácia-mercado-e-afins para mantê-los abastecidos sem que precisem deixar o confinamento doméstico. Minha tia chega da rua para visitar e vai direto dar um beijo no rosto de minha mãe, sem que eu tivesse tempo de impedir.

“Que é isso, tia? Não sabe que tem que cumprimentar de longe agora?” – questiono.

Ela dá de ombros: “bobagem, filha. Se tiver que pegar a doença, pega, e se tiver que morrer, morre. Deus é quem decide”.

Respeito minha tia e sua religiosidade. Sei que duvida mais por ingenuidade do que por arrogância, influenciada por outros, por isso não me alonguei muito na ladainha ensaiada. Mas recusei seu beijo e, quando estava sozinha com meus pais, decretei: “Se a tia aparecer de novo,  vocês recusem beijo e abraço, hein!?”.

E fui para a Farmácia Especializada do Hospital das Clínicas, onde me aguardava uma longa fila na calçada só para pegar a senha de outra fila: a de retirada de medicamentos – no caso, para tratamento de um câncer em meu pai. Eu já padecia de desconforto sob um sol de 38 graus há uns 15 minutos quando ouvi esta pérola do homem atrás de mim:

“Uma bobagem esse pânico todo disseminado pela imprensa por causa do coronavírus. Aonde já se viu fechar tudo, mandar as pessoas pararem de fazer suas coisas? Querem ferrar com a economia de vez? Eu não paro mesmo. Se pegar, peguei. E aí? É uma gripe, gente!”.

Não me contive.

“Desculpe, meu senhor, mas não é só uma gripe, e esta doença pode matar a parcela mais frágil da população…” – ele nem me deixou continuar.

“Mata nada! Quem morreu até agora já estava doente, podia ter morrido de dengue ou qualquer outra coisa”, retrucou, já elevando o tom de voz e dando-se ares arrogantes.

“Não é possível. O senhor não lê jornais? Não assiste TV? Não deve ter pais idosos…”

“Assisto sim, mas acho tudo uma mentirada, um exagero dessa imprensa vendida. E meus pais vão muito bem, obrigada” – respondeu, me interrompendo de novo.

“E qual é a fonte de informações do senhor? Porque eu sou jornalista e posso garantir que não tem como a imprensa mentir nesta escala…”.

A esta altura ele já está falando sem parar, por cima da minha fala, para não me deixar ser ouvida: “Não preciso de fonte pra saber que isso tudo é uma palhaçada…”.

“E que interesse qualquer um teria em mentir sobre isso? Não faz sentido…” – eu já falo alto também.

“É tudo uma palhaçada! Quero que me mostrem o obituário do coronavírus…” – e eleva o dedo no ar, aponta pra minha cara… o que me enfurece!

“Então o senhor está me dizendo que, irresponsavelmente, não está se prevenindo e pode estar, neste momento, me contaminando e a todos à sua volta? – eu também já não controlava o volume da minha voz e da minha indignação.

“Ah, estou infectando você sim, tô infectando todo mundo aqui” – continuou, rindo em tom de chacota, como se a palhaça fosse eu.

“O senhor é um irresponsável!”.

Ele fica vermelho, faz cara de ódio, chama o segurança:

“Esta mulher está me incomodando!” – grita para o pobre, que olha para um, olha para outro, e pede calma baixinho, como se tivesse medo de apanhar.

“Irresponsável! Chama a polícia. Vamos ver pra quem eles vão dar razão.” – desafio.

E, inexplicavelmente (ou não), ele fica quieto.

Olho em torno para me desculpar e recebo olhares de sobrancelhas levantadas em rostos mascarados e sorrisinhos cúmplices de outros rostos sem máscara. Todos parecem dizer: “fazer o quê, minha filha?”

É… fazer o quê com pessoas que escolhem desacreditar informações de procedência comprovada e se baseiam em “absolutamente nada” para criar e disseminar teorias da conspiração que servem a seus próprios propósitos? E eu pensando que eleger um presidente ruim e defender que a terra é plana era o que de pior esse tipo de gente podia fazer! Mas, como diz uma grande amiga, “pra pior não tem limite”, e o pior da vez é ignorar, por pura opinião (!), a prevenção contra um vírus que pode matar a parcela mais indefesa da população.

Esses “sabe-tudo” ainda vão  colocar o mundo todo a perder.

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No espelho, com minha idade

Antes de assumir meus cabelos grisalhos em definitivo, tentei por duas vezes deixá-los crescer sem tintura. Desistia sempre que o espelho me mostrava o inevitável: os fios brancos me envelhecem, sim!… por mais que o corte seja sofisticado, que eu use os xampus certos, que cuide para nunca amarelarem ou ficarem opacos e cinzas.

Só consegui após um acontecimento que mudou minha forma de me enxergar e ao mundo: um acidente de moto que me tirou de circulação por um ano inteiro – quebrei as duas pernas. Claro que não era uma prioridade sair para pintar o cabelo ou chamar alguém para fazê-lo em casa, quando apenas ser transferida da cama para a cadeira de rodas ou passar muito tempo sentada era torturante.

Durante o período de recuperação física, encontrei a coragem para me aceitar em frente ao espelho com a idade que tenho. É verdade que também ajudou a sensação de liberdade por não ter mais que me preocupar com retoques de raízes, reservar aquela grana para pagar a tintura no salão preferido (confiar no cabeleireiro é tu-do!) e uma hidratação caprichada nos fios ressentidos pelos maus-tratos da química.

Mas não me entendam mal: não sou, absolutamente, contra a tintura. Até porque eu mesma brinquei com as cores em minhas madeixas por 30 anos – comecei antes de aparecer o primeiro fio branco em minha cabeleira escura de neta de afro-brasileiro com índia (tenho um avô lituano também, mas suas características caucasianas ficaram todas para as minhas irmãs). Já as tive preto-azuladas, castanhas acobreadas, bicolores (vermelho na metade de baixo e preto na de cima), com mechas prateadas só em torno do rosto, luzes vermelhas no cabelo todo, californianas caramelo nas pontas… Enfim, nunca fui muito ortodoxa sobre isso e sempre encontrei cabeleireiros loucos o bastante para executarem minhas ideias.

Por incrível que possa parecer, porém, cultivei secretamente a vontade de assumir meus brancos por muito tempo, inspirada em minha mãe. Sempre achei lindos seus grisalhos ondulados, que quando longos caíam em cachos volumosos sobre seus ombros.

Mas se foi preciso coragem para enfrentar o espelho, vocês não imaginam o que foi encarar a “patrulha social”, exercida, inclusive, por pessoas queridas – às quais, aliás, dou a maior abertura para opinar e criticar qualquer coisa em mim, desde que eu não tenha que concordar sempre com elas.

Entre os questionamentos que ouvi de uma delas estava este, apresentado com voz e postura de indignação: “você, entre todas nós (da turma de faculdade) é a que ainda não tem rugas e pode passar por mais jovem de cabelos tingidos. Por que está optando por parecer mais velha? Se fosse ideologia, eu até entendia, mas por preguiça de pintar!”.

Foi quando me despertou a reflexão que proponho aqui, atiçada pelas seguintes questões: qual o problema de ostentar a idade que se tem? Juventude é um requisito indispensável à boa aparência? Por que principalmente nós, mulheres, temos vergonha de informar a idade? Mais: por que é deselegante perguntar a idade de uma mulher?

Ok. Tem a história do preconceito contra os mais velhos, que são tratados desde com indiferença até com desrespeito em muitos lugares, mas, primeiro: os errados são quem os destrata; segundo: fosse este o motivo, por que nos homens o grisalho é considerado charmosíssimo?

Não sou adepta do bordão “nunca me arrependo de nada” – fosse assim não teria aprendido com metade dos erros que cometi na vida -, mas não tenho vergonha de minha trajetória. Por que deveria ter do tempo que ela me custou?

Importante esclarecer também que não estou desistindo de minha vaidade. Quero, sim, sempre me sentir bonita e, na medida do possível, tornar-me uma idosa tão linda quanto acho minha mãe até hoje. E tanto não tenho preguiça de salão que agora comecei a brincar com os meus brancos. Acabo de tonalizá-los na cor azul (sai em cinco lavadas, mas é divertido enquanto dura!).

Ainda não recebi muitas avaliações sobre isso, mas pelo menos uma pessoa está amando a brincadeira: EU!

Por ora, é suficiente.

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Diários do SUS: dia 3

Em seu terceiro dia de espera por internação, na sala de Observação da Santa Casa de Ribeirão Preto, mamãe mantém a candura de sempre. A expressão é de cansaço, e o humor, deprimido, por mais que ela tente disfarçar. Mas ela nunca reclama de nada e se interessa genuinamente por todos os outros pacientes à sua volta.

Quando cheguei para mais uma jornada de 12 horas como sua acompanhante, havia mais uma maca com paciente na mesma baia que a dela – aliás, como em todas as outras, que deveriam abrigar apenas uma cama.

Aprendi nesses dias que vagas estão entre as inúmeras carências do serviço público de saúde ribeirão-pretano. Falta de tudo. De itens básicos, como roupas de cama e banho para todos, até os mais macro – aparelhamento tecnológico, insumos, mão-de-obra com e sem qualificação, etc. Eles existem, mas não o suficiente

Em meus 28 anos como jornalista, fiz e editei muitas reportagens sobre as agruras por que passam os usuários do SUS, mas nada como senti-las na pele. 

Não cabem nos espaços e tempos limitados dos jornais impressos e televisivos todos os detalhes denotativos do abandono que essas carências nos fazem sentir. Por exemplo, no primeiro dia de mamãe por aqui, levou horas para eu conseguir o primeiro lençol para cobri-la; mais 1h para ela herdar um cobertor de um leito liberado e dois dias para lhe sobrar um travesseiro.

Fraldas geriátricas, toalha, medicamentos usuais e sabonete só trazendo de casa, e melhor não esperar por um enfermeiro que ajude a trocar fralda, dar banho ou levar seu paciente ao banheiro. Pode levar horas ou nem acontecer.

Melhor também ficar atenta à chegada dos médicos para, se for caso, educadamente lembrá-lo de ver seu paciente, pois são tantos, em tão pouco espaço, que às vezes algum “passa batido “. O mesmo para o pessoal da Enfermagem, que precisa auscultar e fazer medições regulares dos pacientes. Às vezes, simplesmente não dá tempo de fazê-lo em todos dentro de um mesmo turno.

Mais importante de tudo é lembrar que nada é culpa de qualquer profissional dali. Todos fazem o que podem. De verdade. Por isso tento não gritar com alguém quando uma dessas tantas carências eleva minha revolta a níveis  insuportáveis. Até porque a vida e o “conforto” de mamãe estão nas mãos desses profissionais.

Em última análise, somos todos – acompanhantes, pacientes, médicos e enfermeiros – humanos, portanto suscetíveis a reações emocionais como qualquer outro. Mas ninguém quer um profissional de saúde de má vontade ou extremamente estressado cuidando de sua própria mãe.

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Minha mãe tem fome!

Minha mãe tem fome. Não só de comida.

São 9h da manhã de um domingo de abril. Eu a acompanho na sala de observação da Santa Casa de Ribeirão Preto desde as 8h, quando rendi minha irmã, que passou a madrugada toda com ela. Antes, das 18h às 23h de sábado, foi minha outra irmã quem a acompanhou na longa espera por atendimento na UPA, que de Pronto Atendimento – como reza sua sigla – não tem nada.

Mamãe chegou à unidade pouco antes das 19h do sábado sentindo sintomas que acreditamos ser de um novo AVC (já teve três, conhece bem). Na Triagem, foi colocada como atendimento prioritário e mesmo assim só foi chamada 3h30 depois.

Uma jovem e educada médica desconfia de um micro derrame e dá encaminhamento para o hospital, onde uma investigação mais apurada deve ser conduzida. O Serviço de Regulação (que administra as vagas em hospitais) informa que um leito de SUS só vagaria no dia seguinte e mamãe passa a noite numa maca da UPA, com minha irmã insone ao lado.

Quatorze horas depois, mamãe só se queixa de fome. Não pode comer antes de o neurologista do plantão avaliá-la… e ele não chega! Ela está medicada só para as dores – de cabeça e musculares, pelas quatro quedas sofridas – e sequer temos a confirmação de seu diagnóstico.

Em minha cabeça ecoa, como uma sirene, tudo o que já li sobre o custo da espera pelo devido socorro a um paciente de AVC. Desde ontem mamãe não sente o lado esquerdo inteiro de seu corpo. Já tinha a perna e braço direitos “bobos” – sequela de dois AVC anteriores, sofridos dois anos atrás, em um mesmo dia (o primeiro, há dez, foi isquêmico, sem danos permanentes). Ainda tem que lidar com o jejum prolongado – sua última alimentação foi um lanche de pão com frios que levei à UPA 13 horas antes.

Minha mãe tem fome de comida e de cuidados. Meu impulso é gritar, cobrar médico, fazer escândalo, mas a sala cheia de outros pacientes na mesma situação me contém – eu só os incomodaria, e estressaria as equipes de enfermagem, que não têm culpa da falta de estrutura com que trabalham. 

Mamãe tem frio. Só um edredom fino que minha irmã trouxe de casa a cobre. Preciso pedir que um enfermeiro cace um lençol limpo. Mais um cobertor só quando vagar algum leito (1h depois surge um). Uma enfermeira me instrui a comprar fraldas geriátricas para ela, pois o hospital não fornece.

Obtenho permissão para mamãe  ingerir  uma banana que trago na bolsa. Às 10h30, a Copa serve uma sopinha a todos os pacientes, mas não para ela (sem médico, sem comida), que sofre calada sentindo o cheirinho de comida no ar. 

Reflito que a fome é só mais uma privação com a qual ela tem tido que lidar em sua velhice, que pode ficar ainda mais abandonada com a Reforma da Previdência que vem por aí – discute-se diminuir (mais!) o valor do benefício mínimo dos aposentados mais pobres e suspender o adicional para beneficiários que comprovadamente demandam cuidados em tempo integral.

Mamãe e meu pai – que trata um câncer de próstata com metástases – já não conseguem pagar todos os remédios de que precisam com suas aposentadorias. Mesmo separados, têm que viver na mesma casa com minha irmã mais velha para economizar gastos, inclusive com cuidadores – um deve “olhar” o outro enquanto as filhas trabalham e, eventualmente, soar o alarme para uma de nós acudir em caso de ocorrência de saúde.

A cada dia ambos ficam mais debilitados e temo que o momento de necessitarem cuidados mais intensivos tenha chegado antes de termos um plano B. O medo do que virá faz a gastrite acordar em meu estômago e, na falta de calmante melhor, aciono minha principal válvula de escape: a escrita.

10h43 e nada de médico.

12h: minha mãe começa a chorar, me desintegrando toda por dentro. Não é só de fome… “É de abandono, filha”.

Não tem jeito… Vou ter que gritar com alguém… 

A SAGA CONTINUA…

Após questionamentos indignados, seguidos de uma crise de choro, consigo que localizem o neuro do plantão para avaliar minha mãe. Um médico “menino”, de seus 20 e poucos anos, gasta seu sotaque mineiro justificando-se pra mim, que, soluçante, devo formar um quadro assustador. “Não se preocupe comigo, dr. Só avalie minha mãe, por favor!”.

Ele avalia. Diz que pedirá uma tomografia, por isso o jejum precisa continuar. Pede mais uns 40 minutos de paciência.

Só 1h30 depois o enfermeiro vem buscar minha mãe para o exame, mas desiste ao saber que, antes, ela precisa ter a fralda trocada. Promete voltar para fazê-lo e passa outra paciente à frente dela na fila do exame.

Às 16h30 eu desisto de esperar e decido eu mesma trocar a fralda de mamãe, que a esta altura deita sobre lençóis molhados. Um enfermeiro vem ajudar. Questiono a demora em levá-la pra fazer a tomografia e descubro que ela não foi ainda por falta de maca.

17h: a maca aparece. Eu a acompanho à tomografia. Agora dependemos de o médico ter tempo de avaliar o exame para autorizar que ela se alimente, o que só ocorre mais de 1h depois – perto de completar 24h de jejum quase completo.

18h: O resultado sai. É AVC mesmo, diz o médico, que recomenda uma ressonância para investigar o tamanho do dano. Ele explica que só será possível fazê-la com internação, e para internar tem que haver leito vago em algum quarto. Esperamos.

23h: ela pede pra ir ao banheiro. Eu a levo sozinha, colocando-a e tirando-a da cadeira de banho – desisto de esperar por um enfermeiro.

Percebo que vaza sangue de seu equipo (peça do equipamento que injeta soro pela veia) e peço que investiguem. “Está com defeito. Vieram vários com defeito”, diz uma enfermeira, que desliga o soro e promete mandar alguém substituir a peça. Ninguém aparece por TRÊS HORAS, apesar d’eu cobrar a cada 30 minutos.

Mamãe continua com frio, mas não tem mais um cobertor. O vazamento do equipo pintassilga sangue por seus lençol e camisola, que não podem ser trocados. “Não tem”, é a resposta padrão para tudo por aqui.

3h da madrugada de segunda-feira: finalmente um enfermeiro de meia idade – muito gentil por sinal – troca o equipo de mamãe, fazendo o soro voltar a correr por suas veias. Também encontra uma nova camisola e ajuda a ajustar a cama de uma forma que a deixe mais confortável e segura (Deus o abençoe!).

4h: mamãe dorme (graças a Deus e ao Zolpidem), mas continuamos sem quarto, sem internação, sem ressonância e sem previsão de nada até de manhã.

A saga vai continuar…

 

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Contrição

Em meu nome e de todo o povo brasileiro, peço desculpas por nosso presidente ter autorizado a comemoração de um golpe militar que culminou na privação de liberdades coletivas e individuais, na tortura e morte de milhares de brasileiros pela máquina repressora da Ditadura. Apesar de não ter votado nele, respeito e prezo a democracia que permitiu sua eleição e rezo para que ela sobreviva ao retrocesso que tenta promover.

Humildemente peço desculpas a todas as pessoas que tiveram seu corpo e mente violados durante o regime repressor e sobreviveram para assistir à memória de seus sofrimentos ser aviltada. Estendo-as aos filhos, filhas, pais, mães, maridos e esposas dos que não sobreviveram – muitos dos quais sequer tiveram um enterro digno, porque seus corpos nunca foram encontrados.

Desculpas a todos os opositores do regime que amargaram exílios forçados, expatriados de seus afetos.

Peço perdão aos historiadores que estão tendo seus minuciosos e sérios trabalhos de pesquisa e documentação desonrados pela negação dos fatos que comprovam. E por serem estes trabalhos alvo de chacota e descrédito dos seguidores desse presidente peço renovadas desculpas.

Solidariedade e desculpas a todos os colegas jornalistas que foram calados pela censura do regime, muitos dos quais também acabaram presos ou mortos.

Peço perdão a todos os artistas que tiveram suas energias criadoras asfixiadas pelas proibições de músicas, novelas, peças de teatros, livros e todo o tipo de veículo cultural que, ao longo da história, ajudaram a humanidade a conhecer-se e, consequentemente, evoluir.

Encarecidas desculpas aos professores que teimaram em cumprir suas sagradas missões de informar e formar jovens mentes em ambientes hostis e amordaçados por censura ideológica durante os anos de chumbo. ELES NÃO TÊM CULPA por muitos de nós terem crescido ignorantes da realidade sombria que nos rodeava a ponto de hoje aplaudirem a celebração do golpe.

Envergonhadas desculpas à geração de crianças que corre o risco de também crescer acreditando que a Ditadura Militar foi boa para o País e deve voltar.

Desculpo-me também com os militares de hoje que não aprovam as práticas repressivas de seus antecessores. Imagino como devem se constranger por tal celebração fazer muitos de nós enxergarem em suas fardas uma ameaça e a eles como inimigos.

E se esta contrição me trouxer, futuramente, consequências iguais às que outros antes de mim sofreram por não se calarem, peço antecipadas desculpas aos amigos e familiares que se condoerem por mim.

Por fim, peço solidárias desculpas aos que odeiam, pois minha revolta já me colocou onde estão agora – é um péssimo lugar para estar! -, contribuindo para a energia funesta em que todos vibramos neste momento.

E que Deus tenha piedade de todos nós!

 

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