Pelas janelas do Zoom

De todas as estantes, a da Ana Maria até agora é a mais desejada. Claro, teve a do Caetano Veloso, mas estou falando das pessoas-pessoas, como eu, que fazem reuniões e cursos virtuais e ficam bisbilhotando as casas alheias. Mais do que as salas (ganhou a sala de frente pro mar da Betina), cozinhas (os azulejos coloridos da Aparecida, com um pinguim em cima da geladeira amarela), quartos (o da Luiza que tem o tamanho da minha sala) – e outro dia teve uma mulher-mãe-profissional-desesperada-em-pandemia (o que é praticamente um pleonasmo) que se trancou no guarda-roupas para fazer uma reunião -, eu fico de olho mesmo é nas estantes. Está certo que, devo confessar, eu estava era de olho no gato na varanda do vizinho da Laura, que sem ela perceber também aparecia no vídeo. O gato se espreguiçava sob o sol fraco em um céu azul claro, sem nem imaginar que eu parei de prestar atenção na aula para observá-lo. Até que o vizinho veio, a Laura de costas para eles, e tirou o gato da varanda. Quase abri meu microfone para pedir para a Laura gritar para o vizinho deixar o gatinho ali sossegado. “Em que maluca estou me transformando?”, pensei e voltei para a aula. Até reparar no lustre da sala da Maria Cristina, mais parecido com uma escultura de aço retorcido com luzes amarelas escapando pelas curvas. E se eu mandasse uma mensagem privada para a Maria Cristina, que eu na verdade só conheço pela tela, e perguntasse onde ela tinha encontrado aquele lustre maravilhoso? Voltei para a aula, “presta atenção!”, triste com minha luminária. Foco, foco, foco! Foi aí que a Ana Maria abriu a câmera e estragou tudo. Estantes, estantes, estantes de madeira nem tão clara nem tão escura repletas de livros, luz indireta, amarelinha, quentinha, quase um cobertor em dias de inverno, uma poltrona de couro onde eu poderia não só passar horas sentada ou deitada lendo, mas também dormir. Ana Maria, eu poderia morar na sua biblioteca! Eu queria escrever para ela, em uma mensagem privada, mas a Ana Maria não tinha ideia da minha existência. Tentei dar zoom na tela para conseguir ler os títulos nas estantes, mas esse não era um recurso possível. Tantas foram as vezes que quase plantei bananeira (se eu soubesse teria plantado) no metrô para tentar ler o título do livro que uma pessoa lia com tanta atenção. Quase segui uma mulher uma vez, de tanto que ela não tirava os olhos das páginas. Poderia perguntar que livro era? Sim, mas e a graça da investigação com a alegria da descoberta, como fica? Uma vez foi na praça. Um homem, sentado em um banco, com um livro que eu tinha acabado de ler nas mãos. “Eu amei esse livro!”, gritei para ele, que fechou o livro, sorriu de leve, bem de leve mesmo, e levantou. Antes que eu me aproximasse mais. Fiquei pensando em tudo isso, saudosa do metrô e das praças e das ruas e do contato com estranhos, enquanto tentava descobrir os livros nas estantes da Ana Maria, que para piorar ainda mais a minha situação, se serviu de um chá em uma xícara branca de porcelana pintada com flores azuis. Tudo tão lindo na biblioteca da Ana Maria!… Quero ser amiga dela. Sou inofensiva, juro.

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2 comentários

    • Flavio Freire em 26 de fevereiro de 2021 às 10:03
    • Responder

    Adoro seus textos. Tenho certeza que essa passagem aqui ocorreu em Curitiba (risos): “Um homem, sentado em um banco, com um livro que eu tinha acabado de ler nas mãos. Eu amei esse livro!, gritei para ele, que fechou o livro, sorriu de leve, bem de leve mesmo, e levantou. Antes que eu me aproximasse mais…”

      • Luciana Gerbovic em 28 de fevereiro de 2021 às 09:00
      • Responder

      hahaha…pode ser, Flavio! Muito obrigada.

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