Dúvida: todas as certezas são frágeis

“Sempre tive medo de pessoas que têm certeza de tudo”. Esta frase, que li há muitos anos, não sei em qual livro ou filme, me marcou para sempre. Hoje sei porque: as pessoas que mais temi na vida exerceram algum tipo de autoridade opressora sobre mim. Não o tipo de autoridade moral que nasce do respeito conquistado ou do reconhecimento – como a de que gozam os (bons) pais, por exemplo. Mas aquela de pessoas que se fazem obedecer pelo medo, que parecem não ter dúvidas sobre nada, que não admitem questionamentos e acham que não devem explicações a ninguém. Acreditam estar invariavelmente certas sobre tudo, sempre.

Este é o tipo de autoridade exercida pela personagem que deu o Oscar de Melhor Atriz deste ano a Meryl Streep no filme “Dúvida”, com ótimos roteiro e direção de John Patrick Shanley (vou procurar mais trabalhos desse cara para ver).

A história é muito simples, mas faz a gente pensar. Meryl interpreta (divinamente, como sempre) uma freira assustadora, que dirige com mãos de ferro um colégio religioso. Quando um padre faz um sermão sobre o tema “Dúvida”, ela passa a desconfiar de que há algo errado com ele. É o bastante para que o acredite capaz de molestar o único garoto negro da escola, que, isolado, recebe deste padre apoio e atenção especiais.

A suspeita parte de fatos vagos relatados pela freira mais jovem da ordem, também muito bem interpretada por Amy Adams, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante – o filme, aliás, rendeu quatro indicações aos Oscars de atuações: para a vencedora Meryl, para Amy e para Viola Davis (também como coadjuvantes) e Phillip Seymour Hoffman (ator), que faz o padre sob suspeita.

A freira passa a perseguir o padre e, no ponto alto da história, trava com ele um duelo fantástico de idéias (e de interpretações). Mesmo sem provas, ela tem certeza de que ele é culpado. Não teme, não vacila, acua-o com suas certezas. Assustadora esta freira que olha nos olhos e diz exatamente o que deve ser feito, que não admite que possa haver outras versões para o que é certo. Você sabe que esta pessoa é capaz de tudo para provar que o seu certo é “O CERTO” e nada vai pará-la.

O desfecho do filme reserva destinos surpreendentes a estes dois antagonistas. Como na vida real, nada é o que parece ser. Concluímos que há algo de frágil na autoridade de quem não admite questionamentos. Se as certezas são sua sustentação, o que acontecerá a essas pessoas quando a mínima dúvida começar a corroer este pilar?

No caso da freira de Meryl Streep, seus próprios medos e não a suspeita de um crime a municiaram contra aquele padre de idéias progressistas, que a ameaçou com a mudança, inimiga da ordem estabelecida… inimiga, portanto, das certezas pelas quais ela se guiou por toda a vida.

Com o tempo, também deixei de temer as pessoas que têm certeza de tudo. Porque, no fundo, todas as certezas são frágeis.

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