Silvia Pereira

Jornalista com 30 anos de experiência em redações jornalísticas e blogueira de cinema, séries e literatura desde 2008. Apaixonada por histórias, adora lê-las, assisti-las e ouvi-las, mas, principalmente, contá-las.

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Impiedade!

O celerado na presidência está alcançando seu intento de autorizar a desumanidade nas pessoas. Na farmácia de manipulação onde fui buscar medicamentos para meus pais, pra que não rompam o confinamento doméstico, ouço um cliente comentando com o proprietário que o primeiro ribeirão-pretano morto com coronavírus já tinha câncer “e outra doença aí…” – ou seja, já ia morrer mesmo, né? E que uma parente já perdeu clientes, e que um empresário conhecido já demitiu 50… e o restante do discurso, podem adivinhar.

Contei até 10 e saí da farmácia pra não bater-boca de novo com gente desumana (não adianta).

Mas quero dizer aqui que meus pais também tratam câncer há anos. Minha mãe teve dois infartos, quatro AVC e ainda tem hipertensão. Meu pai vive com bolsa de ileostomia por não ter mais a maior parte do intestino delgado. Sou grata pelos anos que eles têm vivido para além de todos os seus problemas de saúde e tenho certeza de que os parentes do primeiro morto com coronavírus da cidade também teriam ficado gratos se ele pudesse ter vivido mais.

Este país passou por recessões e desempregos antes em inúmeras crises econômicas e vai passar de novo, mas é a primeira vez que vejo seres humanos admitirem sem vergonha nenhuma darem mais valor a seus negócios e empregos do que ao próximo. Sem falar que caem direitinho na cilada do presidente, que, jogando a culpa nas medidas preconizadas pela classe médica mundial, desvia atenção do fato de que é ele quem não está tomando as medidas que deve para minimizar a crise.

O cliente que conversava com o proprietário da farmácia estava bem vestido, mas com traje informal. Ou seja, deve estar confinado em sua casa e duvido que, se suspenderem a quarentena, ele mesmo e sua preciosa família voltem ao trabalho junto com a massa mais pobre.

A propósito, pela primeira vez em mais de um ano trabalhando como jornalista free lancer também estou completamente sem trabalho (perdi os poucos que tinha por causa da quarentena). Não tenho ideia de quanto tempo consigo aguentar sem renda, mas nem por isso quero que a economia se reaqueça à custa de mortes em massa.

De verdade, estou arrasada é por testemunhar a impiedade das pessoas!

 

P.S.: já avisei ao dono da farmácia (da qual era cliente há anos) que não piso mais lá.

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‘Quem sabe isso quer dizer amor…’ (relato de uma quarentena)

Quase tenho culpa por me sentir tão confortável em isolamento, neste momento grave de ameaça civil. É que pela primeira vez na vida minha tendência natural ao encasulamento está sendo visto como algo desejável e não como um grave defeito.

Explico-me: cresci levando pitos de familiares e amigos por “viver no mundo da lua”. Na adolescência, levava descomposturas de amigas por ser antissocial a ponto de não saber manter as chamadas “small talk”. Era capaz de me refugiar em meus próprios pensamentos mesmo integrando uma roda de conversa, fosse numa festa cheia de gente ou em rodinhas de amigos. Claro que isso me tornava esquisita demais, engraçada de menos e zero interessante! Por isso minha presença chegava a ser expressamente proibida por anfitriões de eventos e programas legais para os quais minhas melhores amigas eram convidadas – coitadas, depois se contorciam em desculpas para justificar seus sumiços e o porquê de não terem me chamado.

Adulta, descobri que tenho déficit de atenção e me esforcei muito para melhorar a partir das lições que as rejeições sociais me ensinaram. Melhorei, sim, mas… quando me mudei de minha cidade natal para trabalhar em outra, ainda era capaz de passar finais de semana inteiros sem colocar o pé fora da porta de casa – minhas horas sozinha eram preenchidas com leituras, sessões de filmes e playlists de músicas favoritas embalando a limpeza da casa ou a preparação da minha comida.

Para mim, não era solidão! Ao contrário, eu me sentia conectada ao mundo através dos noticiários (que nunca deixei de acompanhar) e também a todos os personagens das ficções que eu lia em livros ou assistia em filmes e séries. Ainda gozava uma alegria genuína cantarolando junto músicas que me falam ao coração.

Não por acaso veio a tornar-se meu marido um certo estudante de engenharia – também um talentoso cantor e violonista – que, dias após me conhecer em uma sessão de cantoria, fez-me uma visita surpresa bem no meio de um desses meus fins-de-semana de imersão. Sua “invasão” não me incomodou. Ao contrário, porque ele compartilhou meus prazeres e os tornou ainda mais interessantes.

Dez anos após nos tornarmos um casal, vivemos um período de separação. Voltei à minha antiga tendência de me encasular em casa, entregue a meus passatempos, o que fez uma amiga em comum me dar outro pito: “sai pro mundo, pelo-amor-de-Deus!”. De novo, forcei-me contra minha própria natureza e saí.

A separação durou só dois meses e desde então eu e Márcio seguimos juntos. Tivemos nossos períodos de crise conjugal, mas o advento do coronavírus nos pegou em um momento de perfeito entendimento e sincronia. Não tivemos filhos (infelizmente!), por isso nossa rotina tem bem menos estresse do que a de casais que são pais, mas por isso mesmo é menos diversificada e interessante (digamos assim).

Durante a quarentena imposta pela pandemia, compartilhamos os medos de toda a população, principalmente por meus pais idosos, mas dividimos sem crises as tarefas domésticas e curtimos juntos, em casa, nossos hobbies preferidos e sabemos nos separar para o trabalho. Tudo somado, seguimos muito bem, obrigada, sem sermos invadidos por ansiedade ou tédio. Bem ao contrário.

Como cantou Lô Borges, “quem sabe isso quer dizer amor…”.

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Os ‘sabe-tudo’ contra o coronavírus

Olha, eu já vinha mais ou menos conformada em ignorar a intransigência e agressividade dos haters e a acolher com bom humor a inconsistência dos terraplanistas, mas não estava preparada para me confrontar com o mesmo modus operandi deles na negação da ameaça mundial representada pela pandemia de coronavírus.

Foram dois episódios na mesma quarta-feira: o primeiro na casa de meus pais, para quem estou servindo de leva-e-traz de farmácia-mercado-e-afins para mantê-los abastecidos sem que precisem deixar o confinamento doméstico. Minha tia chega da rua para visitar e vai direto dar um beijo no rosto de minha mãe, sem que eu tivesse tempo de impedir.

“Que é isso, tia? Não sabe que tem que cumprimentar de longe agora?” – questiono.

Ela dá de ombros: “bobagem, filha. Se tiver que pegar a doença, pega, e se tiver que morrer, morre. Deus é quem decide”.

Respeito minha tia e sua religiosidade. Sei que duvida mais por ingenuidade do que por arrogância, influenciada por outros, por isso não me alonguei muito na ladainha ensaiada. Mas recusei seu beijo e, quando estava sozinha com meus pais, decretei: “Se a tia aparecer de novo,  vocês recusem beijo e abraço, hein!?”.

E fui para a Farmácia Especializada do Hospital das Clínicas, onde me aguardava uma longa fila na calçada só para pegar a senha de outra fila: a de retirada de medicamentos – no caso, para tratamento de um câncer em meu pai. Eu já padecia de desconforto sob um sol de 38 graus há uns 15 minutos quando ouvi esta pérola do homem atrás de mim:

“Uma bobagem esse pânico todo disseminado pela imprensa por causa do coronavírus. Aonde já se viu fechar tudo, mandar as pessoas pararem de fazer suas coisas? Querem ferrar com a economia de vez? Eu não paro mesmo. Se pegar, peguei. E aí? É uma gripe, gente!”.

Não me contive.

“Desculpe, meu senhor, mas não é só uma gripe, e esta doença pode matar a parcela mais frágil da população…” – ele nem me deixou continuar.

“Mata nada! Quem morreu até agora já estava doente, podia ter morrido de dengue ou qualquer outra coisa”, retrucou, já elevando o tom de voz e dando-se ares arrogantes.

“Não é possível. O senhor não lê jornais? Não assiste TV? Não deve ter pais idosos…”

“Assisto sim, mas acho tudo uma mentirada, um exagero dessa imprensa vendida. E meus pais vão muito bem, obrigada” – respondeu, me interrompendo de novo.

“E qual é a fonte de informações do senhor? Porque eu sou jornalista e posso garantir que não tem como a imprensa mentir nesta escala…”.

A esta altura ele já está falando sem parar, por cima da minha fala, para não me deixar ser ouvida: “Não preciso de fonte pra saber que isso tudo é uma palhaçada…”.

“E que interesse qualquer um teria em mentir sobre isso? Não faz sentido…” – eu já falo alto também.

“É tudo uma palhaçada! Quero que me mostrem o obituário do coronavírus…” – e eleva o dedo no ar, aponta pra minha cara… o que me enfurece!

“Então o senhor está me dizendo que, irresponsavelmente, não está se prevenindo e pode estar, neste momento, me contaminando e a todos à sua volta? – eu também já não controlava o volume da minha voz e da minha indignação.

“Ah, estou infectando você sim, tô infectando todo mundo aqui” – continuou, rindo em tom de chacota, como se a palhaça fosse eu.

“O senhor é um irresponsável!”.

Ele fica vermelho, faz cara de ódio, chama o segurança:

“Esta mulher está me incomodando!” – grita para o pobre, que olha para um, olha para outro, e pede calma baixinho, como se tivesse medo de apanhar.

“Irresponsável! Chama a polícia. Vamos ver pra quem eles vão dar razão.” – desafio.

E, inexplicavelmente (ou não), ele fica quieto.

Olho em torno para me desculpar e recebo olhares de sobrancelhas levantadas em rostos mascarados e sorrisinhos cúmplices de outros rostos sem máscara. Todos parecem dizer: “fazer o quê, minha filha?”

É… fazer o quê com pessoas que escolhem desacreditar informações de procedência comprovada e se baseiam em “absolutamente nada” para criar e disseminar teorias da conspiração que servem a seus próprios propósitos? E eu pensando que eleger um presidente ruim e defender que a terra é plana era o que de pior esse tipo de gente podia fazer! Mas, como diz uma grande amiga, “pra pior não tem limite”, e o pior da vez é ignorar, por pura opinião (!), a prevenção contra um vírus que pode matar a parcela mais indefesa da população.

Esses “sabe-tudo” ainda vão  colocar o mundo todo a perder.

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Revide 1000

Quando fui admitida na Revide, em janeiro de 1992, havia acabado de dançar no baile de formatura de minha turma de Jornalismo na Unaerp. Já trabalhava há dois anos em um jornal semanal que se confundia com o laboratório de redação da faculdade. Mesmo assim posso dizer que, quando bati à porta do Murilo Pinheiro pedindo uma chance na revista, ainda era, em tudo – emoção, inexperiência, medos -, uma autêntica “foca” (gíria da área para jornalista inexperiente).

O que moveu minha coragem foi a vontade de exercitar aquele modelo de reportagens analíticas que, à época, a Veja fazia com muita qualidade (e sem sensacionalismo!) e a Isabel Farias queria imprimir na Revide.

Se tivesse, então, a mínima ideia das “feras” com as quais trabalharia naquela redação, jamais teria me atrevido (ainda bem que me atrevi!). Trabalhei ao lado da Matilde Leone, que já admirava muito! Do saudoso José Rubens da Silva, veterano que me acolheu como a uma colega de seu nível. Da Janice Kiss, que andava às voltas com suas primeiras aulas de alemão. E com o querido Júlio Sian, amizade que levei pra vida toda. Pouco tempo depois de admitida, eu ganharia como colegas de redação professoras que tinha no mais alto grau de admiração: Carmen Cagno e Adriana Canova – como tremi de medo! E como aprendi com elas!

Não pensem que esta foca teve vida fácil entre essas feras. A inexperiência me faria ouvir muitas críticas, ter textos retalhados e chorar de frustração. Se soubesse, na época, o quanto aquilo tudo estava me ensinando, teria sofrido menos. Mas cada vez mais fui conquistando minha assinatura no alto de uma reportagem – era o prêmio estipulado para os textos pouco modificados pelo exigente editor.

Folheando meus arquivos, consigo me orgulhar de algumas reportagens que assinei. Entre elas “Laços de brutalidade”, na qual delegados e promotores me municiaram com dados suficientes para concluir que, já naquela época, a violência contra a mulher ocorria, majoritariamente, dentro da família e era muito subnotificada em Ribeirão. Gosto de pensar que este quadro melhorou, mas sabemos que ainda está longe do ideal.

Com o tempo, aprendi a me reconciliar com o fato de que, às vezes, apenas denunciar problemas numa reportagem pouco ajuda. Em outras, é um bom começo. O que importa é se, ao colocar cada ponto final, sentimos que cumprimos o objetivo que nos fez seguir esta profissão – no meu caso, contribuir para abrir os olhos do maior número possível de pessoas.

Saí da Revide para adquirir experiência em outros veículos e acabei indo para outras cidades. A revista seguiu crescendo, virou uma grande editora e, quando voltei, após 15 anos fora, já era uma marca superlativa em Ribeirão Preto.

Orgulha-me ter feito parte dessa história. Mais ainda ter sido convidada a contribuir com reportagens para a Revide Ancienne, novo e ousado projeto da marca voltado para o público 60+.

Mais do que orgulhosa, porém, sou muito grata, viu, Revide!

Que venham outras 1.000!

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ALGUNS TRABALHOS: jornal A Cidade

Seleção de reportagens e artigos de Cultura e Comportamento para o extinto Caderno C.


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Idosos Superpoderosos – Revide Ancienne

Cinéfilos e cineastas opinam sobre o envelhecimento de personagens icônicos do cinema.


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