‘O Casamento de Rachel’: de perto nenhuma família é normal

“Todas as famílias felizes se parecem, mas as famílias infelizes o são cada uma a seu modo “, escreveu Leon Tolstói no clássico “Anna Karenina”. O cinema explora constantemente esta premissa em filmes que adentram a intimidade de famílias exemplares na aparência, mas desfuncionais nos bastidores. Esta modalidade de enredo acaba de ganhar um representante original em “O Casamento de Rachel”, que rendeu a primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz na carreira de Anne Hathaway (“O Diário da Princesa” e “O Diabo Veste Prada”).

Ela faz Kimmy, a caçula de duas irmãs que recebe autorização da clínica de reabilitação onde trata – não pela primeira vez – sua dependência química e de álcool para comparecer ao casamento da mais velha, Rachel. A condição é que se submeta a testes de urina antes e depois do evento e freqüente reuniões diárias do Narcóticos Anônimos pelo tempo que precisar se ausentar.

Logo que é recebida, pelo pai, a madrasta e a irmã noiva, na casa toda preparada para um casamento com tema indiano, percebe-se que o afeto a unir aquela família é genuíno. Mas isso não impede que todos ainda tenham que lidar com as feridas abertas por episódios traumáticos causados pelos vícios de Kimmy. Um pedido de desculpas público em pleno jantar de ensaio do casamento faz emergir em Rachel antigos ressentimentos com os quais todos evitavam lidar, e em Kimmy uma culpa antiga pela qual ela recusa-se a se perdoar.

A câmera de Jonathan Demme (de “O Silêncio dos Inocentes”) acompanha as ações e reações de cada personagem como se o seguisse muito de perto, como em um documentário ou mesmo em um filme caseiro de evento familiar. Isso faz com que tenhamos a impressão de estarmos olhando o que não deveríamos pelo buraco da fechadura.

Talvez a intenção de Demme tenha sido mesmo fazer com que no sentíssemos intrusos, para intensificar a idéia de que estamos assistindo a cenas de profunda intimidade e da conta apenas daquela família.

Ao final, nem todos os ressentimentos são resolvidos e nem todas as culpas perdoadas, mas a mensagem que fica é a de que, mais forte que os dissabores e decepções, o amor tem o poder de manter unidos entes que nem sempre conseguem conviver juntos sem se machucarem. Não é exatamente um final feliz, mas rescinde a esperança, o que não deixa de ser, ao mesmo tempo, realista e auspicioso.

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