O que eu quero ser quando crescer

Passei a semana com um tema martelando minha cabeça. Vou deixar para escrever na quinta, pensei. E a quinta-feira chegou e é 15 de outubro. E como vou escrever neste dia sem falar dos professores? Porque o dia escolhido para homenagear os professores, para mim, é diferente das outras datas escolhidas para outras homenagens. Até do Dia das Crianças eu quase me esqueci, mesmo com dois exemplares em casa, mas desde ontem estou falando para os meus filhos: amanhã é Dia dos Professores, por favor, vejam como eles são importantes, peloamordeDeus, agradeçam os seus professores por eles existirem e ainda não terem desistido, digam, verbalizem, beijem os pés pela tela se for preciso, ergam as mãos aos céus, o que seria de nós, eu e vocês, sem eles? Porque nessa pandemia, mais do que nunca, eu penso nos professores e fico comovida. Agradecida. Encantada. Como fizeram meus filhos ler? Como não perderam a paciência ao ensinar a tabuada? E as caixas-lotes (quem me acompanha aqui sabe do que estou falando)? Como não jogaram papel, apagador e giz (ou pincel atômico) pro alto para nunca mais voltar?

Então penso nos meus professores. Talvez eles não tenham jogado tudo para cima para nunca mais voltarem porque sabiam que dificilmente seriam esquecidos. Porque sabiam que estavam ali para fazer uma diferença positiva nas nossas vidas. Tenho tantos professores ainda falando diariamente dentro de mim. Dona Ângela, sei até hoje as preposições e o uso da crase só de te ouvir falando. E o mais importante, aquilo que me transformou e me constituiu: a professora-ponte para a literatura. A professora que me fez leitora. Isso eu nunca teria como agradecer, então faço o que consigo: estico a ponte. Maraísa, a professora de História que me ensinou que os livros podem estar cheios de mentiras contadas por quem está e quer se manter no poder. Ela explodiu minha cabeça aos nove anos de idade. Professor Edu, se alguma coisa eu sei de Biologia, foi por sua causa, os desenhos na lousa até hoje na minha retina. O professor que lotou uma sala de aula com mais de 200 adolescentes, em uma tarde de sexta-feira ensolarada, ao falar sobre cobras peçonhentas, matéria que não estava no currículo escolar e nem cairia na prova. Gian e o exército de Napoleão desenhado nas paredes. Eram muitos para ficarem só na lousa. O professor que já tinha acabado a matéria do ano e viu um jornal sobre a mesa e disse: querem saber a história da Folha e do Estadão? Nós quisemos. E ele deu a aula ali, pensada na hora, da qual me lembro até hoje ao ler um ou outro jornal. Francis, o que me fez parecer que eu sempre entendi Matemática. Ciça, tão além do “the book is on the table”. Professor Júnior com os olhos brilhantes falando de Capitu, Lúcia falando de “Senhora”, meu amor pela literatura sempre aquecido. Professor Pasquale e a Língua Portuguesa nas letras de Gil, Chico e Caetano. O dia em que colocamos o Hino Nacional na ordem direta. Como podia um professor juntar tanta coisa boa ao mesmo tempo?, eu pensava enquanto me encantava ainda mais com a nossa língua. Elena, que mais do que Educação Física, nos mostrou nossos corpos, nossas individualidades. Foi ela, e não minha mãe, quem me falou pela primeira vez sobre menstruação. Isso é marca boa e indelével. Meu professor de Direito Civil, responsável por eu escolher minha área de atuação só por causa das aulas que nos deu. Não, ele não falou nem fez nada de extraordinário. Foi lá, durante cinco anos, pontualmente, e deu as aulas que tinha que dar, do início ao fim. Nos respondeu na hora quando sabia, nos trouxe respostas depois quando não sabia. Pessoas, do jeito que eu gosto. Como Fernando Pessoa na pele de Álvaro de Campos, eu também me cansei de semideuses há muito tempo.

E penso aqui no meu texto mais recente, no qual mencionei meu primeiro emprego, de professora de inglês. Tomo um susto. Penso nas turmas de Direito em que fui professora auxiliar, as vezes em que conduzi as aulas sozinha, aqueles estudantes todos me olhando, anotando o que eu falava, levantando a mão para me questionar, que frio na barriga de quem está viva e pensando.

E hoje nas formações de mediadores, nas oficinas de leitura e escrita para jovens eu continuo lá, nesse lugar da professora, mas sem conseguir assim me nomear. Talvez eu ainda ache que não estou à altura. Porque ser professora é grande. Grande demais!

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1 comentário

    • Elena Maria Pattacini em 17 de outubro de 2020 às 10:57
    • Responder

    Lu, que texto lindo. E não poderia homenagear melhor, do que falando daqueles que fizeram você se tornar a pessoa especial que é. Você teve pais que fizeram desabrochar as emoções, e professores que te tornaram a escritora sensível e carismática que é. Você é uma grande professora, que desperta nas pessoas a curiosidade e mexe com as emoções, fazendo com que pensem nesse mundo caótico que vivemos. Nos deixa angustiados quando vemos com clareza as entrelinhas, e desperta a curiosidade dos jovens, com os temas e livros que oferece. Amo você como pessoa e admiro pelo que escreve. Obrigado.

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