Verão, outono, inverno e inverno

O cenário lá fora está branco e cinza. Eu gosto. Acho que combina com xícara de chá, lâmpada amarela e um livro. Pena que não posso passar o dia assim. Meu filho não entendeu a lição sobre classe dos números no milhar, milhão, centena, dezena, valor relativo e absoluto. Mentira, quem não entendeu fui eu e já devo ter escrito tudo errado aqui, mas me esforcei para ajudá-lo, até que disse: “se estiver errado tua professora te explica e tudo bem não aprender isso agora, isso agora é um valor relativo, entendeu, filho?” E o dia cinza com uma camada de ar branca e espessa cortando o horizonte de prédios. Quantas pessoas morreram nas últimas 24 horas? Parei de ver. E me sinto mal por isso. E se vejo também me sinto mal, literalmente fico sem saída dentro de mim e desse apartamento. E que bom que eu tenho um apartamento. Pare de carregar as dores da humanidade nas costas, Luciana, minha terapeuta já cansou de me falar. Mas como faz?, ainda não aprendi.

Está muito frio hoje. Será que o Sr. Wilson, que costuma dormir na calçada, vem hoje? Onde ele estará agora? Ontem ele disse que não queria lanche nenhum. “Mas eu trago pro senhor, Sr. Wilson”. “Traz não, taz não”, a voz dele saía fraca como sempre. Talvez ele me quisesse distante para poder ler.  Já percebi que ele prefere os clássicos. E que não gosta muito de conversa. Em dias como o de hoje gosto de ler os russos. E já vi o Sr. Wilson com “Crime e Castigo”.

Proibiram a leitura livre nos presídios de São Paulo. Uma gente que nem gosta de ler, decidindo o que aqueles que já são privados de todos os direitos lerão. De preferência livros edificantes. Essa gente não entende nada de literatura. Ou entende e justamente tem medo dela. “Pra cima de mim, não, que fique tudo como está”. Estou cansada. Estamos cansados. Às vezes penso que é muita sacanagem ter que ser brasileira a viva toda. De algumas nacionalidades podíamos tirar férias. Vocês, do Brasil, têm direito a um ano, a cada década, de viver na Escandinávia. Ou também não será assim? Além de frio, que dia é hoje? Ouço meu filho terminar uma aula, “valeu, galera, até amanhã”, e as janelinhas se fechando e meu peito apertando. A galera… O frio na pandemia brasileira é ainda mais gelado. Será que em novembro vou poder fazer uma festa de aniversário com meus amigos, mãe?, o mais novo pergunta. Em março eu ri dessa pergunta feita pelo filho que aniversariou em junho. Agora não rio mais. Há meses não rio mais. Não sei nada, meu filho, não sei nada de nada.

Todos os dias um pouco do que eu era e pensava e sentia e sabia se esvai. Nada de concreto onde me segurar. A cabeça dói, a ponta do nariz dói, a lombar, o osso do nariz onde os óculos se apoiam, os dedos das mãos, os pulsos, apareceu um calombo no meu punho esquerdo e eu sei que só tenho a agradecer. Onde estará o Sr. Wilson? Se ele aparecer hoje, eu levo um lanche, mesmo ele dizendo não e não e não. E talvez “Noites Brancas”, de Dostoiévski. Se ele não leu ainda, acho que poderá gostar.

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1 comentário

    • Milca em 23 de agosto de 2020 às 05:22

    Que triste realidade… fico com o coração encolhido de dor… gente humilde e de bom coração não devia sofrer neste mundão de Deus…

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