Verde é a cor da grama onde não pisamos mais

Acordei até que animada para uma reunião que teria logo cedo, o primeiro compromisso do dia depois de acordar os filhos e verificar o que iriam comer e se já não estavam atrasados para as aulas. O mais novo está em semana de Olimpíadas-virtuais-com-cara-de-gincana-mico e depois de termos gravado um vídeo, na noite anterior, em que simulávamos os movimentos do nado sincronizado no seco, ele me pediu para ajudar na composição de um grito de guerra com gravação de novo vídeo. Eram sete da manhã, verde é a cor da equipe do meu menino e mesmo xingando a ideia da escola, por mais que um lado meu entenda todo o esforço e até agradeça muito, não resisti à carinha dele me pedindo ajuda. Só eu poderia passar ridículo com ele, eu que já dancei o créu em um barquinho cheio de turistas na República Dominicana, o que fez meu filho corar ao se lembrar da cena, ao mesmo tempo em que confirmou a certeza de que eu passo ridículo rindo e seria a companhia ideal para a gravação do grito de guerra. Sete da manhã e pulei da cama, “claro que te ajudo, filho”, e me vesti toda de verde, vestido, colar, brincos e achei exagero os óculos, mudei para os de aro roxo, aprendi o grito com ele – ele que inventou, ensaiamos, igual ao ensaio do nado sincronizado no seco, trancados no banheiro para o pai e o irmão não verem, eu toda no verde e já pronta para a reunião que viria em seguida, veeeeeeeerde, veeeeeeeerde, verde é a cor da grama…, vi os vídeos com as outras mães, mães me comovem, cada coisa que fazemos, cada coisa que nossas mães fizeram por nós, rindo e sorrindo, veeeeeeeerde, veeeeeeeerde, acabou, ufa, o vídeo ficou bom, ele gostou, abri o computador para ir para a reunião, é assim que vamos agora, abre tela, fecha tela, abre tela, fecha tela, e atravessamos quilômetros. Essa semana fui até Angola, ouvi Ondjaki falando, outras pessoas de Angola e em Angola ali, na minha tela, a literatura em torno de nós, precisei ler Ondjaki para poder dormir – meu corpo é assim, se não lê pelo menos algumas páginas por dia não dorme à noite, roda roda roda na cama, e eu sei que é o livro que ficou faltando, então não resisto, assim como não resisti ao meu filho . E abro o livro e leio, às vezes atravesso a madrugada e ela não se torna mais um sapo boi gigante querendo me devorar. Às vezes poucas linhas fazem com que meus olhos se fechem e meu corpo se acalme, e essa noite foi assim, poucas páginas, e eu toda no verde com óculos roxos, cadê o link?, cadê o link?, outra pergunta que não aguentamos mais, cadê o link?, você tá mutado; caiu?, acho que caiu, voltou!; e dá um aperto, uma vontade de gritar que não farei mais nada a distância, mas tanta coisa melhorou a distância, e a reunião não era hoje. Acordei adiantada. Estou verde, brinquei com os outros participantes pelo Whatsapp, alguns achando que tinham perdido a reunião que era só amanhã diante da minha confusão. Mas amanhã estarei madura. Espero.

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