Chuva de presente

Sabe o que é acordar às 6h da manhã, abrir uma janela do seu apê e receber em cheio, no rosto, um bafo quente fedendo a queimada? Aí você olha pra um horizonte embaçado, como se envolto em neblina, e percebe que é fumaça mesmo. Olha as lindas árvores plantadas no estacionamento do vizinho e não vê uma folha sequer se movendo.

Ontem foi assim: ar quente, parado e impregnado de fumaça! Igual tivemos anteontem… e antes de anteontem  – aqui na minha cidade do interior paulista e no país todo.

Há semanas meu nariz segue ressecado e machucado por dentro, coçando o tempo todo, a fabricar espirros na tentativa de expulsar o que quer que esteja entrando organismo adentro junto com o ar respirado. Previ mais um dia inteiro como refém do único cômodo do apartamento abençoado com ar-condicionado – nosso quarto de dormir, onde já deixamos, a noite toda, um umidificador ligado pra tentar reequilibrar a umidade do ar (condicionado ou não).

Em dias assim penso, compadecida, nas pessoas que não contam sequer com ventiladores pra minimizar, um pouquinho que seja, a asfixia destes tempos. Rezo a Deus por eles. Por todos nós também. Jogo baixo, pedindo chuva de aniversário – não garoa ou “pancada” de verão, mas chuvão mesmo, ainda que escurecido por carvõezinhos – pra lavar tudo, até nossa alma ressentida.

E eu que sempre condenei barganhas com Deus, prometo não querer mais nada de presente se Ele nos enviar as águas de setembro. Prometo sequer abrir aquele espumante que guardamos, há semanas, no baldinho do carrinho de bebidas em imbuia herdado da minha sogra.

Se acreditasse em adorar imagens, eu estaria agora ajoelhada em frente a uma linda, em gesso, de Francisco de Assis na posição de lótus, com pássaros ao ombro, braço e perna (quase comprei uma pra mim quando adquiri esta para presentear um Amigo Secreto ). Pediria chuva e proteção dos animais.

Amo Francisco de Assis, que sei ter sido enviado pela espiritualidade pra nos lembrar de viver conforme o Evangelho de Jesus. E porque ele sabia conversar com os animais e os elementos, rogo-lhe que receba em seu céu os que estão morrendo nos incêndios florestais. E pra que também  interceda por nós junto à natureza ressentida.

Peço, por fim, ao Pai, que perdoe-nos, pois, 2020 anos após ter enviado seu filho mais velho, ainda não sabemos o que fazemos.

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2 comentários

    • msuplicy em 20 de setembro de 2020 às 12:41
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    Parece que o Chico já começou a atender o seu pedido. Ele, que entende de natureza, dos bichos e do mal que se esconde no coração dos homens, nos lembrou que não adianta ficar praguejando contra a escuridão, que é mais fácil e mais eficaz acender uma vela. Pegou a fumaça das queimadas, a condensou, formou nuvens e fez chover. Mesmo pouca, a chuvinha que caiu aqui e acolá parece ser um convite para que, ao invés de reclamar da falta de recursos, saiamos todos da passividade absurda em que nos metemos e façamos algo de concreto para pôr fim à destruição do meio ambiente patrocinada pelo atual governo. Em tempo: nunca vi uma imagem mais bela de São Francisco, meu ídolo maior.

    • mariangela em 20 de setembro de 2020 às 09:44
    • Responder

    Estamos numa redoma angustiante. Espero que depois de todos, como eu e você, recorrermos à espiritualudade, venha a tão esperada chuva. Por enquanto veio apenas um projeto de chuva.

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