Sobre a importância de uma imprensa forte

No mesmo dia em que a grande imprensa voltava toda a sua atenção à cobertura do deplorável assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, o ministro da Justiça, Torquato Jardim, dava no Fórum Econômico Mundial para a América Latina uma chocante declaração, que acabou passando despercebida: a de que os numerosos esquemas de corrupção dados a conhecer pela operação Lava Jato é apenas “10%, a ponta do iceberg” comparado às fraudes que ocorrem nos municípios brasileiros. Ele corroborou tais afirmações com dados de auditorias feitas pela Controladoria Geral da União – uma delas prova que dois terços dos municípios fraudam a compra de merendas escolares, por exemplo.

Nos dias seguintes a essas duas notícias, haters começaram a multiplicar fake news (notícias falsas) redes sociais afora com as mais chocantes calúnias sobre a vida e a atuação de Marielle. Acusaram-na de ex-mulher de traficante a integrante de facções criminosas, quando até organismos internacionais como ONU (Organização das Nações Unidas), OEA (Organização dos Estados Americanos) e Anistia Internacional conheciam seu trabalho em prol dos direitos humanos, especialmente entre as minorias LGBT, de negros, favelados e mulheres.

O que a morte de Marielle tem em comum com a declaração do ministro da Justiça sobre a corrupção no Brasil?

A imprensa!

Explicando melhor: um e outro caso fornecem exemplos de como a imprensa é determinante em nossa apreensão da realidade e tomada de posição do lado certo ou errado da história.

Vejamos:

O importante trabalho que era desenvolvido pela vereadora do PSOL só pôde ser conhecido, para além da órbita de militância social em que ela gravitava, graças à grande imprensa. E a elucidação de seu assassinato, com consequente punição dos responsáveis, só se dará quanto maior for a pressão exercida sobre os poderes pela opinião pública, cuja voz é ampliada… PELA IMPRENSA.

Ao mesmo tempo, a disseminação de notícias falsas sobre ela podem exercer uma pressão contrária, e os assassinos e/ou mandantes poderão continuar mantendo os esquemas que fazem do Rio de Janeiro o inferno que é hoje SE a imprensa “se esquecer” de cobrar soluções para o caso.

Voltando ao alto grau de corrupção nos municípios brasileiros, o ministro da Justiça o atribui ao fato de o jornalismo independente ficar concentrado em apenas cinco dos 26 estados do País – “não há jornais fazendo cobranças sobre ética no setor público em 80% do território nacional”, disse ele com todas as letras.

Dito tudo isso, fica claro o quanto o jornalismo sério e independente pode ampliar a voz de heroínas como Marielle e o como o “marrom” pode calá-las. Mais… sem o primeiro, não enxergamos as causas de nossas misérias sociais. Até dois anos atrás, só sofríamos seus sintomas: saúde, educação e segurança sucateados e ineficientes, criminalidade descontrolada, etc, etc, etc… Já hoje sabemos, graças à operação Lava Jato, com ampla cobertura da imprensa, que muito do dinheiro de nossos impostos tem sido desviado para esquemas corruptos.

E, segundo o próprio ministro da Justiça, ainda há muito a ser denunciado.

Então, que a Polícia Federal consiga desnudar todos e o jornalismo independente amplie-se para todos os estados brasileiros.

Que os jornalistas que estão se formando nas faculdades preocupem-se menos com a via mais rápida de serem bem-sucedidos na vida e mais com o que podem fazer para ajudar nesta ampliação da voz de suas comunidades. Que enxerguem-se mais como instrumentos a serviço de seu entorno, como o fez Marielle e o fizeram grandes jornalistas antes deles.

E que, por fim, os consumidores de notícias, POR FAVOR, sejam menos preguiçosos e procurem por fontes confiáveis de informação antes de compartilhar qualquer coisa que passe por sua timeline.

Uma imprensa forte não se faz apenas com bons jornalistas, mas com leitores que lhe valorizem!

Um comentário

  • Márcio Pelegrina

    Perfeito! O papel da imprensa séria, não tendenciosa, é de suma importância em qualquer paÍs democrático. Essas fake news são um desserviço à sociedade e as pessoas e/ou entidades que as criam devem ser punidas criminalmente.

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