Nada a comemorar

Quando uma condenação por corrupção ocorre em um desses países orientais supercivilizados, como a China, as reações, tanto da população quanto dos acusados, costumam ser de vergonha genuína. Pais perguntam-se: “o que fizemos de errado?” Políticos desculpam-se (quando não se suicidam).

No Brasil, os políticos negam tudo até a mais amarga condenação e a população divide-se em um “fla-flu” político. No caso específico da de Lula, muitos foram para a rua comemorá-la com fogos e pixulecos, como numa final de campeonato vencido por seu time – se o resultado tivesse sido outro, os partidários de Lula teriam feito o mesmo.

Desculpem se soo petista para uns e “coxinha” para outros (o “fla-flu” tende a essas simplificações), mas não consigo enxergar motivo para comemorar em nenhum dos casos. Não torci para o livramento de Lula, mas tampouco estou feliz com o que sua condenação e a de tantos outros dizem sobre nosso País e sobre nós mesmos. Nem com como isso reflete em nossa identidade cidadã ou em nossas noções internas de justiça, que influenciam nossas tomadas de decisões no dia a dia – de respeitar uma lei de trânsito a ensinar um filho que não se deve fingir uma falta no futebol.

Além do mais, a punição de um ou dez corruptos não acaba com toda a corrupção. Em estruturas de poder contaminadas, como as nossas têm se mostrado, sempre há os que ficam para inventar novos modos de corromper sem ser pego ou chegam novos corruptos para substituir os antigos.

O que rompe esse ciclo é educação e não estou falando só da formal – até porque esta muitos corruptos tiveram e da mais cara que o ensino particular pode fornecer -, mas da moral, que vem de berço e sofre uma grande influência do consciente coletivo, formado por um conjunto de práticas em sociedade.

Tantas condenações mostram o quanto estamos falhando nisso e que não temos, na verdade, nada a comemorar.

* Artigo publicado no jornal A Cidade em 25/1/2018

 

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