Categoria: COLABORAÇÕES

Textos de cronistas convidados do blog.

Saúde!

A primeira pessoa a receber a vacina no Brasil, uma mulher negra. As mulheres na linha de frente. A guerra não tem rosto de mulher, a Svetlana tem razão, não tem mesmo. Mulheres não fazem guerra, mas não fogem da luta, jamais. Nos momentos em que penso que é difícil além da conta lidar com a vida e com a maternidade, penso na minha bisavó atravessando o Atlântico segurando quatro filhos pelas duas mãos, com a certeza de que nunca mais veria sua terra natal devastada pela guerra, mesmo com a esperança de revê-la, rumo a um país que ela não sabia nem identificar no mapa. É pra lá ou pra cá? Penso na minha avó que ria muito e fazia piadas e gostava de dançar e não chorava vendo filmes. E quando perguntei se ela não chorava nunca, ouvi que “quem já viu guerra não chora, minha filha”. E essa frase ficou. Pá pá pá na minha cabeça.

O homem laranja que gosta de guerra entrou no avião e foi embora da presidência e eu fiquei dando tchau para a tevê com as mãos dizendo “já vai tarde” e meu filho riu. Que tonta eu sou de dar tchau pela tevê. E rimos. E dei mais tchau. O outro homem que gosta de guerra e de tortura, ao sul de quem olha o mapa desenhado por quem, afinal? (pra lá ou pra cá?), continua por aqui. Para quem gosta do que ele gosta, o prazer de ver pessoas morrendo asfixiadas deve ser quase sexual. No livro o homem que está na guerra começa a ser enterrado vivo e é sempre muito assustador pensar que isso existe fora da literatura. Uma pessoa ser enterrada viva. Uma pessoa ter as unhas arrancadas. Uma pessoa receber choques. Coloco o marcador na página insuportável e cubro meus filhos na cama. No quarto ao lado dorme o meu pai, que nunca conseguiu me falar sobre o que viu nos anos de uma ditadura que tanta gente afirma nunca ter existido.

Eu, mamis e a sister brindando os 21!

O dia já clareou, é sempre novo e pode ser sempre o mesmo. Procuro pelo cheiro do café, pelo pão quente ou amanhecido, ainda sinto dor no braço onde meu filho adormeceu. Os patos grasnam mais pela manhã. Os cocôs das capivaras espalhados pela grama e pelo asfalto. É bom estar com quem não quer guerra com ninguém. Imagine, como nos pediu Lennon. Faltou oxigênio na floresta chamada de pulmão do mundo. O sono quase não veio esta semana. O tamanho do broche no peito da Lady Gaga é do tamanho da nossa agonia. A luz do sol ontem à tarde deixou a água do lago dourada e eu vi e pensei que é bonito a água ficar dourada.

Às 21h21 do dia 21 de 01 de 2021 eu brindei. Sobretudo por estar viva e disposta, ainda que dolorida. E porque é bom brincar. Depois do café leio as notícias e abro o livro de novo. Porque quanto mais sei que dói, mais sei contra o que é preciso lutar.

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Ouça seu coração, já dizia a minha mãe

Durante os primeiros meses dessa pandemia não foram poucas as pessoas que me mandaram mensagens pedindo dicas de leitura, livros que pudessem fazer com que elas se concentrassem em algo que não fosse o medo. Dicas eu até dei, mas as pessoas ainda me procuravam, chateadas: não consigo ler.

Eu, ao contrário das pessoas que não conseguiam se concentrar na leitura, saí lendo feito uma desesperada, o que eu estava mesmo, em vários momentos. No ano de 2020 li 109 livros de literatura. A lista, que não fez parte de meta alguma, é grande, do tamanho da minha agonia.

No começo, quando ainda achava que ficaríamos um mês em casa e a pandemia estaria controlada, peguei os livros que mais tinha medo de ler, pela dureza do tema, e li muitos deles. Saber que havia histórias piores do que a de pessoas que ficam trancadas em suas casas para evitarem uma contaminação me ajudaria a ver que já houve, e ainda há, situações piores. Foi assim que li todos os livros, até então publicados, da Scolastique Mukasonga. Eu tinha pavor de ler esses livros que têm como tema o genocídio de Ruanda. E, eu estava certa. Depois de lê-los, eu só pensava que não era possível não ter garra para passar por essa, ou qualquer outra, pandemia. Reli “A Peste”, de Camus. Consegui enfrentar as quase mil páginas de “Um Defeito de Cor”.

Mas quando entendi que a pandemia não teria um fim assim tão próximo, tive que mudar de estratégia para não deprimir. Ainda que eu realmente ache que na boa literatura não há quase livros felizes (afinal, a gente escreve sobre aquilo que não conseguimos encarar ou dominar, sobre aquilo que dói – e aí nos comunicamos, aí nos sentimos menos sozinhos – e os momentos felizes estão longe disso), deixei a lista dos livros que me provocam medo de lado e segui por outro caminho.

E o ano virou. E as promessas das vacinas estão mais próximas. Talvez seja como ver um pouco de terra firme depois de um oceano agitado. E agora ficou difícil para mim. Passo o dia fazendo mil coisas que não queria estar fazendo, só pensando no momento de parar e abrir um livro e quando esse momento chega eu viro a página sem saber o que li na anterior. E volto as páginas. E viro de novo, sem lembrar do que li na anterior, e tento mais uma vez e ganho um buraco no peito. Já foram alguns os livros deixados na cabeceira nessa primeira quinzena de 2021. Dois terminados, não sem esforço, confesso. A tristeza que sinto é seca.

Mas aí a magia acontece. Um título indicado há anos e que não tive coragem de ler naquele momento começa a surgir no fundo da minha mente. A voz do livro fica batendo aqui no peito: leia-me, leia-me, leia-me… e depois de alguns dias sendo perseguida por essa vozinha eu decido ceder e aqui estou, dentro de um hospital em Israel, sugando cada palavra, imersa para saber o que vem na página seguinte, uma leitora contente de novo, grata por ter livros que me chamam quando eu mais preciso.

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2021

Voltei.

Considerando o número de pessoas que não conseguiram chegar em 2021 só por causa do mais novo vírus que nos assombra, voltei agradecida. Mais do que nunca. Nunca uma virada de ano foi tão comemorada. Desde março do ano passado o que mais falei para meus filhos, parentes e amigos foi: o importante é chegarmos vivos ao final do ano, minimamente sãos, física e mentalmente. O resto a gente resolve depois.

E chegamos.

Bebi um pouco e dancei muito entre as últimas horas de 2020 e as primeiras de 2021. Sozinha mesmo. Na sala. Fiz minha celebração, ainda que com todo o resto para resolver, tentando fazer com que meus filhos dançassem comigo, o que não consegui. Mas o importante era que eles estavam na sala, ao alcance do meu abraço, e pudemos nos beijar à meia-noite. O que mais desejei para eles e para todos, mais do que nos outros anos, foi saúde. Nunca também fez tanto sentido a famosa frase “o que importa é ter saúde, do resto a gente corre atrás”.

Terminei 2020 com 109 livros lidos. Uma média de dois livros por semana. Um deles com mil páginas. Nunca li tanto. Nunca escrevi tanto “nunca” em um texto só. Porque em 2020 muita coisa que nunca tinha acontecido antes na minha vida, aconteceu. Meu pai, que nem gripado eu tinha visto, em um entra e sai de hospitais. Minha mãe com passos lentos e olhar cansado. Meu braço direito paralisado de dor. Eu na cozinha fazendo comida. Meu marido em casa em uma quarta-feira à tarde. Uma tela entre alunos e professores, aniversariantes e convidados, entre amigos e amantes.

Se tudo doeu mais em 2020, todo pequeno ato também foi celebrado. A luz do sol que entra pela janela da sala às quatro da tarde e deixa o chão e os móveis alaranjados. O sono dos gatos nas almofadas durante uma tarde inteira. Uma xícara de café recém passado.

Assim fomos, ato por ato, página por página, passo por passo.

No dia primeiro de janeiro de 2021 meu filho mais velho me chamou no canto: mãe, agora que o ano novo chegou, a gente precisa fazer alguma coisa diferente ou pode continuar vivendo como antes? Ele estava sério. Era mesmo uma dúvida. Havíamos chegado ao ano novo, afinal. Estávamos vivos e saudáveis, meta alcançada. E agora, já que falamos tanto dele?

Agora continuamos, filho, vivendo como sempre vivemos. Tentando ser uma pessoa melhor a cada novo dia, sem deixar de olhar a luz do sol que entra pela janela, sem deixar de agradecer pelos pores do sol, sem esquecer do cafezinho no meio da tarde, sem deixar de chorar quando a garganta apertar muito.

E sem deixar de ler, não é, mãe?

Sempre. Isso sempre, meu filho.

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Qual é o pente que te penteia?

Phillip Roth, de longe meu autor preferido em língua inglesa, escreveu um livro ao mesmo tempo delicado e altamente provocador, chamado “The Human Stain” [A Mancha Humana], que funciona como uma espécie de bíblia antirracista para mim. Conta a estória de um homem oriundo de uma família negra humilde, mas que nasceu com a pele clara. Ao longo de sua infância, ele se dá conta do forte preconceito da vizinhança e dos colegas de escola contra sua família de origem e aos poucos vai se afastando dela, envergonhado.

No início da adolescência, começa a praticar boxe no colégio e se envolve cada vez mais com seu treinador judeu. Em função da proximidade afetiva entre os dois, que se estende para fora da escola, e do tom azeitonado de sua pele, que é comum entre alguns grupos judeus, muitas pessoas começam a imaginar ser ele também de origem judaica. A crença logo se consolida na cidade e o rapaz se aproveita dela para se afastar ainda mais da família e ocultar sua verdadeira identidade racial.

Amparado pela comunidade judaica, ele consegue ascender socialmente, torna-se professor e, mais tarde,  é eleito reitor de uma universidade local. A partir da perspectiva racial, Phillip  Roth vai então tecendo toda uma sutil trama abordando outras “manchas” humanas que orbitam a história de vida do personagem: conflitos psicológicos, disfarce de sentimentos, invejas, disputas de poder, conflitos identitários, preconceitos raciais e de classe social, etc.

Cena do filme norte-americano inspirado no livro de Phillip Roth

Apesar de sua habilidade para se esquivar dos golpes do destino, esse ex-pugilista vai enfrentando uma série de acusações na convivência com seus pares e alunos na faculdade, com os moradores da cidade e também com as mulheres. Certo dia, por exemplo, ele é acusado de racismo por duas de suas alunas afro-americanas por tê-las chamado de “spooks” [fantasmas], um termo fortemente pejorativo. Ele se defende argumentando que se referia apenas à baixa frequência das duas nas suas aulas, mas o conflito se instala, é levado ao conselho diretor da instituição e ele termina sendo demitido.

Em meio à disputa para limpar seu nome, ele sofre ainda com a doença e morte da esposa, uma mulher branca a quem nunca revelou sua origem racial, e acaba atribuindo o AVC sofrido por ela à tensão intrafamiliar decorrente da acusação. Ao mesmo tempo, ele conhece e se apaixona por uma faxineira branca, semialfabetizada e muito mais nova que ele, encarregada de limpar sua sala na faculdade. O encontro amoroso dos dois acaba sendo outra fonte de conflito e de pesadas acusações vindas de um grupo de professoras feministas que o denunciam por assédio sexual e machismo.

O leitor é sutilmente forçado a confrontar, ao longo de todo o roteiro, as nuances do universo psíquico desse afro-americano/judeu e as pretensas motivações atribuídas a ele pela hipócrita sociedade local. Não vou contar outras passagens dramáticas porque sei que os mais apressados perderiam a chance de pinçar por conta própria outras agudas provocações do livro.

O que quero ressaltar aqui é como é difícil se equilibrar num mundo que valoriza as aparências e que nos convida a cada instante a nos envolvermos em um intrincado jogo de espelhos. O convite à luta antirracista proposta nesse livro veio somar-se à minha intensa admiração pela obra de uma professora americana, ativista da causa da diversidade, Jane Elliott. Em uma série de vídeos contundentes, ela promove sessões de conscientização para crianças e adultos quanto às aparentemente inocentes mas perigosas armadilhas do cotidiano que levam à discriminação de pessoas a partir da cor de suas peles.

A série, chamada de “Blue Eyes” [Olhos Azuis], baseada num experimento de sensibilização para o racismo, propõe uma total inversão dos privilégios concedidos às pessoas brancas em nossa sociedade valendo-se de um recurso simples, mas engenhoso: o deslocamento da discriminação por cor de pele para a de cor dos olhos. Ela desenvolve e apresenta aos participantes a pseudo tese “científica” de que os portadores de olhos azuis ou verdes seriam pessoas menos inteligentes (porque lhes falta a melanina da maior adaptabilidade a um ambiente hostil), com mais dificuldades de aprendizagem, mais preguiçosas e mais ”mimizentas” (isto é, eternas reivindicadoras de direitos) do que as pessoas de olhos castanhos.

É simplesmente imperdível acompanhar o profundo choque causado à autoestima dos brancos por essa tese e a enorme comoção que toma conta dos participantes negros ao se verem retratados como pessoas “superiores”. É importante destacar que a participação de todos no experimento era totalmente voluntária – e, mesmo assim, praticamente ninguém opta por sair da sala antes do fim da sessão.

Desde a chegada, os participantes são divididos em dois grupos: os de olhos azuis/verdes e os de olhos castanhos. Os primeiros são obrigados a colocar um colar da mesma cor de seus olhos no pescoço para que seja possível reconhecê-los à distância. São atendidos de forma antipática ou indiferente, precisam esperar o início dos trabalhos sentados no chão de uma sala apertada e sem ar-condicionado. Enquanto isso, os de olhos castanhos recebem uma série de regalias: sucos, lanches, cadeiras confortáveis e tratamento preferencial. Uma vez iniciados os trabalhos, os participantes de olhos claros são então informados de que não poderão interagir com os membros do outro grupo nos intervalos e podem ser penalizados caso protestem contra o tratamento diferencial.

Em um trecho de um dos vídeos, Jane Elliott confronta os participantes com aquela que me parece a proposta mais reveladora do racismo estrutural: “Qualquer pessoa nesta sala que aceitaria passar um dia sendo tratado como nós tratamos os negros neste país, por favor se levante”. Frente ao silêncio constrangido que se sucede, ela replica: “Acho que vocês não entenderam o que eu disse. Vou explicar de novo” – e repete a proposta, com as mesmas palavras. Mais uma vez, ninguém se voluntaria. Ela então conclui: “É pior do que eu imaginava. Vocês sabem exatamente o que acontece… e são coniventes com esse estado de coisas”.

Adotei esse raciocínio como uma espécie de mantra para minha vida e no meu trabalho. Adoraria poder replicar esse treinamento em terras tupiniquins. Se isso fosse possível, no entanto, eu certamente teria de substituir a cor dos olhos por tipo de cabelo, uma vez que é essa característica a que mais concentra a atenção raivosa  dos racistas brasileiros.

Fora o velho xingamento de macaco, repetido à exaustão, o que mais se ouve em todos os casos nacionais de injúria racial é que o “cabelo duro/de Bombril” e os penteados afro não se adequam ao exercício de cargos de recepção ou contato com clientes e até mesmo podem interferir na capacidade e credibilidade dos ocupantes de cargos de liderança. Domar o cabelo rebelde tornou-se então o esporte preferido dos preconceituosos de plantão.  Intimidadas, as vítimas até que tentaram adequar-se, prendendo ou alisando os cabelos, mas o “atrevimento” dos fios em voltar às condições originais continua sendo sinônimo daquilo que mais se rejeita no trato diário com a comunidade negra: a insubmissão, a indisciplina, a ousadia de manter a cabeça ereta e de encarar os frequentadores da casa grande sem pestanejar, direto no fundo dos olhos.

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Vai que…

‘Meus pais, avós e tios me perguntavam o que eu gostaria de ganhar de presente nos aniversários e eu respondia: qualquer coisa que não seja mole. Porque, como toda criança pequena, eu não gostava de ganhar roupas. Pegava naqueles pacotes que se amoldavam à minha mão e já pensava: ah, roupa não. Até sapato, que vinha nas caixas, eu gostava, mas roupas?!

Então em um aniversário, eu era bem pequena, uma amiga da minha mãe me deu um pacote duro. Fiquei animada, começou bem. Abri, ansiosa, e era um livro. Um livro! Eu nunca tinha ganhado um livro de presente antes (Tereza, onde será que você está para saber disso?) e fiquei maravilhada. Porque eu gostava dos livros que tinha que ler para e na escola, mas ainda não tinha falado para as pessoas, mesmo para as mais próximas, que eu gostava dos livros. Era um livro do Monteiro Lobato com ilustrações, em preto e branco, papel jornal. Além de ler as histórias com alguma dificuldade, pois estava no início da alfabetização (meu pai e minha mãe nunca leram para mim e eu não sabia que podia pedir para eles lerem), eu também colori as ilustrações, mesmo sabendo que não era um livro de colorir. Aquele era meu livro e eu podia fazer com ele o que eu quisesse, assim como até hoje grifo e escrevo nos meus livros, para desespero de alguns.

Foi também nessa época que em um Natal, na casa da minha tia, tive outra experiência marcante. Essa minha tia era (e ainda é) casada com o homem que eu mais vi lendo na minha vida. Final de semana juntos, os paranauês rolando e meu tio sentado com a cara enfiada em um livro. Ele tinha (ainda tem) uma sobrinha da mesma idade que a minha e quando nos juntávamos no Natal ganhávamos os mesmos presentes. E, nesse ano marcante, meus tios deram primeiro o presente para ela. Um livro! Grande, capa dura, colorido, recheado de contos de fadas. Fiquei ansiosa, aquele mesmo livro logo estaria nas minhas mãos e… não foi o que aconteceu. Pela primeira vez, nossos presentes foram diferentes. Não me lembro qual foi o meu. Me lembro que era um presentão, um brinquedo bom (não é mole, não é, Luciana, gostou?), mas eu só conseguia pensar que não tinha ganhado aquele livro. Por que, eu tinha vontade de perguntar, justo dessa vez nossos presentes não são iguais? Já adulta, comprei um livrão colorido e de capa dura cheio de contos de fadas para mim. O mais perto que consegui chegar daquele que sempre achei que deveria ser meu.

Demorou para eu contar para os meus pais que eu gostava de livros. Talvez por não ver meus pais lendo, talvez por não ver quase ninguém lendo com exceção desse tio, eu não me sentisse encorajada para revelar esse amor. Quando revelei, que bom, fui apoiada. Minha mãe passou a me dar livros. Meu pai passou a dizer “sim” todas as vezes em que eu pedia livros de presente, fosse uma data especial ou não. Que alívio!

Gostar de ler quando estamos em um ambiente com poucos leitores pode ser motivo de vergonha. Michèle Petit chega a dizer que aquele que gosta de ler, nesse ambiente, pode se sentir um traidor. Todos seus amigos lá, por exemplo, com uma bola, e você chega com um livro? A família naquele auê de televisão e você querendo silêncio para ler? Michèle Petit me fez entender porque demorei para fazer a revelação. Porque mantive esse amor em silêncio por um tempo que me parece longo. Por isso, na dúvida, dê livros de presente. Vai que o presenteado está ali, em silêncio, esperando por isso.

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A Humanização

E chegamos em dezembro.

Desde março meu discurso em casa é para tentarmos chegar em dezembro com saúde. Se as crianças vão perder o ano letivo e estudar tudo de novo no ano que vem e se os adultos vão precisar se endividar para pagar as contas, são problemas que resolveremos depois. O foco nesse 2020 foi outro. Ou, dito de forma mais bonita pelo escritor Valter Hugo Mãe, no livro “A desumanização”, em trecho que me chegou pelo Whatsapp de um grupo de leitura:

Havemos de dezembrar. Dizia eu. Faltava pouco para o fim do ano. Era o meu pai, nos tempos de maior conversa, que o pedia. Depois de cada dificuldade, esperava que dezembrássemos todos. Que era prometer que chegaríamos vivos e salvos ao fim do ano, entrados em janeiro, começados de novo. A resistir.

Dezembramos, pois. Havemos de janeirar. Havemos de continuar sonhando e resistindo e insistindo. Havemos de fazer concessão ao uso do gerúndio. Havemos de aprender a desacelerar. Talvez a comprar menos nesse Natal. Quase um ano inteiro isolados em casa nos fez ver que o consumismo não tapa os nossos buracos, não? Nós precisamos que os aparelhos celulares funcionem e só. Ninguém sairá saltitante pelas ruas cheias de bolas vermelhas caindo do céu porque comprou um telefone, por mais inteligente que ele seja.  Não vamos sair dançando pela sala se usarmos este ou aquele amaciante de roupas. Vamos dançar pela sala se colocarmos uma música para tocar, ainda que dentro da nossa cabeça. E se tivermos companhia, melhor ainda. Não tem par de sapato que substitua o olhar de uma pessoa amada. Dividir um poema com uma amiga acalenta mais do que uma sacola cheia de roupas. Tente. Uma calça jeans no armário é suficiente. Por que tenho uns dez batons na gaveta se uso sempre o mesmo? Para que três aparelhos de jantar se o mais gostoso mesmo é encher a casa de gente querida e cada um que coma onde der e como der? Os pratos, cada um de jeito, equilibrados nas nossas mãos enquanto nos acomodamos no braço do sofá e até sentamos num cantinho, no chão? Quem se preocupa com pratos e copos iguais se o ambiente está tomado por risadas? Havemos de ter tudo isso novamente.

Havemos de ter vacina para todos e não primeiro para os membros do Ministério Público, como está na notícia que li hoje. Aqueles dentre os mais privilegiados, com mais condições materiais de se proteger, querendo a frente da fila. Sim, quando penso na vacina, por exemplo, eu não deixo de pensar: vai ter para os meus filhos? Porque sou umbiguista e medrosa como creio que todos humanos são. A diferença, penso eu, está na nossa disposição de todos os dias, por mais que doa, nos tirarmos do centro do mundo.

Havemos de aprender a dezembrar, todos os anos, com mais comunhão.

 

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Amém

Meu ombro e meu braço direito ainda doem, mas já consigo digitar sem fazer tantas caretas e soltar alguns ais e uis. Digito devagar, no ritmo que a dor me impôs. É como dizem: uma hora o corpo te obriga a diminuir o ritmo. Só parece que não sou inteligente o suficiente para aprender a lição de forma definitiva. Porque já fui obrigada a diminuir o ritmo antes. Morar em São Paulo talvez não ajude, onde partículas de ansiedade podem ser captadas no ar. Só que eu amo São Paulo. E aprendi a entrar em alguns lugares (quando podíamos andar pelas ruas) quando me sentia sufocada pelos passos apressados nas calçadas e pelas buzinas tocadas por pessoas à beira da insanidade: livrarias principalmente. Com café então, era como sair do inferno direto para o paraíso. Perto dos livros, a calma me toma. Cada um com seu templo.

Nesses dias de dores, tantas outras além daquela no meu braço e ombro (a pandemia não acabou, as crianças continuam trancadas em casa, nossos pais, assim como nós, seguem envelhecendo, o dinheiro nem sempre dá para as contas, continuamos matando jovens negros), sigo na companhia dos livros e das personagens que misturo com pessoas de carne e osso que conheço. Será que alguém me entende quando digo que Carolina Maria de Jesus tem segurado a minha mão em vários momentos? Estanco um grito e escuto sua voz me encorajando: vai, filha, vai… Escuto Kehinde, escuto Amina, escuto Anna, escuto minha vó Cida e minha vó Eslava, escuto minha mãe: vai, filha, vai…

Como você lê tanto, Luciana, como consegue? A pergunta que escuto quase diariamente. Você não trabalha (sim, e trabalho muito com livros)? Você não come (sim, bastante, muitas vezes lendo ao mesmo tempo)? Você não dorme (pouco, é verdade)? Você não vê tevê (quase nada)? Algumas perguntas são mera curiosidade. Algumas vêm com o peso da afronta: só uma pessoa tão desocupada pode ler tanto assim, não? Algumas vêm revestidas de receita doce:

Sabe por que você tem essas dores, Luciana? Porque você não reza.

Dei de ombros (mesmo dolorido – quiçá por falta de reza). Como já disse: cada um com seu templo. Eu já rezei com texto de Clarice Lispector. Não peço que ninguém reze comigo. Em troca, espero que ninguém me obrigue a rezar de modo diferente.

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‘Rebecca’, ou a arte de contar histórias

por Carmen Cagno

Joan Fontaine e Dame Judith Anderson no original de 1940 e Kristin Scott Thomas com Lily James na de 2020

Produzir remakes de grandes clássicos é um perigo. No caso da nova versão de “Rebecca”, lançada em outubro deste ano, trata-se de um verdadeiro desastre. Na modesta opinião de quem sempre se curvou diante do altar do grande Alfred Hitchcock, o diretor da nova versão, Ben Wheatley (“Free Fire”, “No Topo do Poder”), deveria, a partir de agora, subir a escadaria da Lapa de joelhos diariamente e bater no peito três vezes ao dia, pedindo perdão ao grande mestre do suspense pelo pecado cometido.     Sem contar a dívida eterna para com os verdadeiros amantes do cinema que tiveram que engolir essa bobagem que mais se assemelha a uma comédia romântica de quinta (afinal, existem comédias românticas boas).

Quem teve o prazer de assistir à versão de 1940 sabe do que estou falando. Além da história de Daphne du Maurier (1938), na qual o filme se baseia, “Rebecca, a mulher inesquecível” original é uma obra prima, com indicação aos Oscars de melhor filme, melhor diretor (Alfred Hitchcok), melhor ator (Lawrence Olivier), melhor atriz (Joan Fontaine), melhor atriz coadjuvante (Judith Anderson), melhor roteiro, efeitos especiais, edição, trilha sonora e fotografia. Levou os prêmios de melhor filme e fotografia em PB. Poderia ter levado todos.

Primeiro projeto norte-americano de Hitchcock, produzido por outra fera, David O. Selznick, trata-se de um suspense com tintas góticas, ambientado na Inglaterra e gira em torno da relação entre um riquíssimo herdeiro e uma garota simples e ingênua, atormentada pelo fantasma da antiga esposa do protagonista, morta em condições misteriosas. O filme se passa dentro dos limites da mansão Manderley – que a genialidade do diretor transformou em mais um personagem. É esse lugar imenso, ostensivo, sombrio um dos elementos fundamentais como cenário da história.

Com roteiro impecável de Michael Hogan e Joan Harrison assentado sobre a belíssima fotografia em branco e preto de George Barnes, com luz e enquadramentos que intensificam o clima de suspense, e trilha de Franz Waxman, o filme conta com algumas vigas de sustentação que constroem seu preciosismo. A principal delas, lógico, é a direção do mestre do suspense, que transforma Rebecca, a personagem fantasma, na verdadeira protagonista, através da qual cresce aos poucos o clima de tensão e mistério. Hitchcock constrói essa heroína invisível, idealizada e aparentemente indestrutível através de efeitos contundentes: os closes em seus monogramas espalhados por todos os objetos da casa, a câmera passeando obsessiva por suas roupas, seu quarto, seu perfume, suas lembranças e até seu cachorro, e os relatos dos personagens sobre a beleza e a personalidade da morta.

A frágil personagem de Fontaine, assim como nós, pobres espectadores, vamos sendo aos poucos conduzidos às dúvidas e ao temor em relação a essa mulher que dá nome ao filme, embora não apareça em nenhuma cena. O fantasma, o espectro, o intangível, portanto, o perfeito.

A grande alavanca para essa idealização, sem dúvida, é a governanta, magistralmente interpretada por Anderson – cruel, doentia, assustadora, ela mantém vivo e soberano o espectro da antiga patroa em cada cômodo da casa, aterrorizando crescentemente a frágil e insegura protagonista vivida por Fontaine.

A aparente indiferença e arrogância de Max de Winter, o viúvo de Rebecca, interpretado pelo grande Olivier, que vaga pela propriedade num silêncio atormentado, corrobora o clima de incerteza e tensão da jovem e ingênua personagem de Joan Fontaine, que não por acaso, não tem nome na história – falta-lhe identidade, personalidade, força, diante do turbilhão de Rebecca.

A atuação de Fontaine empresta a sua personagem uma sensação de enorme fragilidade. Seu corpo se curva, encolhe-se, seu rosto em primeiríssimo plano estampa o medo e a orfandade diante do poder da outra. Dizem as más línguas, inclusive, que a interpretação de Joan Fontaine foi “auxiliada” por Olivier, que queria para o papel sua então mulher, Vivien Leigh. Contrariado, teria fustigado a protagonista o tempo todo – para gáudio do diretor, que nunca se importou muito com o bem estar dos seus atores.

Além disso, o filme conta com a excelente performance do amante de Rebecca, interpretado pelo impagável George Sanders e seu cinismo sedutor e cafajeste que vai semeando dúvidas crescentes ao longo da história.

Muito bem. Encantados com as lembranças dessa obra prima, 80 anos depois somos apresentados à nova versão da história. Inteiramente apoiado no roteiro original, o filme ainda assim é um grande desastre, a começar pela direção, que não imprime em nenhuma cena a tensão e o suspense necessários. Não explora as dúvidas, a dramaticidade, a intensidade gótica da versão original.

Lawrence Olivier e Fontaine na versão de Hitchcock, e Armie Hammer com Lily James na de 2020: quanta diferença!

Wheatley limita-se a narrar o roteiro original, esquecendo-se de que, mais importante que a história, é a forma de contá-la. O resultado é um filme boboca, sem envergadura, pobre e mal feito. Com certeza, poucos diretores de cinema se igualam ao mestre inglês na arte da direção. Mas a impressão que se tem é que o atual diretor nem tentou fazer um bom trabalho. Além de aparentemente não ter exigido nada dos atores, não teve o cuidado de escolher um bom diretor de fotografia, ignorando iluminação e enquadramentos e desprezou até a direção de arte (vide o horrendo figurino da protagonista, que parece ter sido arrematado numa banca de liquidação).

A atuação de Lily James é fraca e inexpressiva. A atriz está longe de envergar o “aplomb” e a elegância discreta de Fontaine, além de não transmitir em nenhum momento a angústia indispensável à construção da personagem. Parece mais uma garota perdidinha e insatisfeita num filme de Sessão da Tarde. Armie Hammer jamais chegará aos pés de Olivier. Bonitinho, mas inexpressivo, não consegue emprestar a seu Max, em nenhum momento, a personalidade angustiada e misteriosa do protagonista lutando contra seus demônios e imprimindo à história a carga de mistério necessária.

E mesmo a excelente Kristin Scott Thomas não dá conta da perturbadora Mrs. Danver – é bonita e doce demais pra carregar personagem tão sombrio. Ou seja, tudo indica que o projeto de Wheatley foi muito mais comercial do que artístico. Poderia ter lançado mão de atores muito mais talentosos e competentes para interpretar os papéis principais e, sem dúvida, utilizado os infinitos recursos técnicos de que o cinema dispõe atualmente em favor de um resultado, no mínimo, mais sério. E mesmo nas raras tentativas de emprestar alguma dramaticidade à determinada cena, como no baile acontecido na mansão, o resultado é banal e forçado.

As grandes histórias, no cinema ou não, são aquelas que nos encantam, afligem, assustam, redimem e ajudam a reinventar o frio cotidiano da vida. Atrás delas estão os grandes contadores de histórias, que com talento, dedicação e afinco extrapolam os limites da realidade e nos permitem experimentar a dimensão da fantasia, justificando a vida através da arte.

Rebecca contada por Hitchcok é pura arte.

Rebecca contada por Wheatley não é nada.

 

 

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Prescrição: clubes de leitura

Capsulite. Tendinite. Bursite. Dois mil e vintite. Parece que é tudo isso junto que tem me causado dores no ombro e braço direitos. Dores que me fizeram escrever, semana passada, “não consigo escrever o texto dessa semana.” Ler a frase que eu tinha acabado de digitar me doeu mais. Porque eu escrevo desde que fui alfabetizada. Antes de ser alfabetizada eu já escrevia na minha cabeça, o que fiz depois foi só começar a colocar no papel. Meus diários reais e fictícios e diários de personagens que eu criava. Tenho um diário até hoje guardado, que escrevi quando tinha uns oito ou nove anos, anotando detalhes de uma viagem que fiz (na minha cabeça enquanto folheava um Atlas – ai, meu ombro  –  do meu pai) para a Europa. O avião pousou em Madri, em um dia cinza e chuvoso, foi difícil conseguir entrar no ônibus que nos levaria para o hotel, a cidade estava um caos por causa da chuva.

Quase quarenta anos depois, quando fui para a Espanha também com o corpo, me despedi de Barcelona em um dia cinza e chuvoso, em que não conseguia achar um táxi para me levar até o aeroporto. Tive que me enfiar no metrô mesmo, às seis da tarde, carregando as malas, encharcada, e só cheguei a tempo porque um funcionário espanhol se compadeceu de mim e foi na minha frente feito Moisés. Quando me sentei no café do aeroporto, com tudo resolvido, para só esperar o voo, me lembrei da minha viagem ficcional. Não consegui não sorrir, pensando no vaticínio da menina para quem era tão fundamental escrever, fosse o que fosse, fosse como fosse. Essa menina que sou hoje. Se digito e a dor vai do ombro direito para o ombro esquerdo e se alastra até o dedo médio da mão direita e até a orelha direita, digitar “não consigo escrever” doeu mais. E agora, nesse exato momento enquanto digito, lembro da minha mãe me dizendo que eu parecia catar milho na primeira máquina de escrever que meu pai me deu. Uma maquininha infantil em vários tons de azul, trazida de uma viagem que ele fez a trabalho para os Estados Unidos. Ele me explicou que a máquina não tinha os acentos porque em inglês eles não existiam. Eu digitava e colocava os acentos depois, com a caneta. E pensava nessa língua que não tinha acentos. O que mais existia sem eu ter a mais remota ideia? E lá ia eu para o Atlas, para a Barsa, para a Mirador, para a biblioteca da escola. E lá ia eu experimentar a vida pela leitura e pela escrita. Como nunca deixei de fazer. A angústia e a delícia de tanto querer conhecer.

Nesse ano cheio de dores como meu corpo agora, conhecer o mundo e as pessoas por meio de tantas páginas já escritas ainda é o melhor remédio que encontrei, com um ganho: a existência dos clubes de leitura, os quais conheci só na vida adulta. Se ler sozinha já melhora as dores, compartilhar a leitura com tantas pessoas incríveis que habitam o mundo (sim, há muitas, há tantas) faz a dor quase sumir. Pelo menos por algumas horas. O que já é muito.

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Quando?

Sonhei com praia. Eu caminhava e andava de bicicleta pela areia e mergulhava no mar. E sonhei com festa. Todo mundo de roupa de praia e canga e bermuda. Sonhei com caipirinha, cerveja e abraços. E música e dança. Tinha ônibus trazendo e levando gente da festa. O moço mais bonito foi embora, entrou no ônibus sem nem olhar para atrás, no caso para mim, sem que ele tivesse me notado em momento algum. Mas tinha música e eu saí dançando até chegar em Salvador, porque nessa pandemia eu tenho sentido falta mesmo é de Salvador. Ter lido “Um Defeito de Cor”, além de ter me ensinado tudo o que eu deveria ter visto nas aulas de História e não vi, me levou para Salvador. E em cada descrição das ruas, que já existiam lá no século XIX, eu parava mais. Lia uma frase e fechava os olhos para olhar as pedras, o mar, a Baía de Todos os Santos. De olhos fechados, respirava mais fundo para sentir o cheiro do mar. E ouvir o som do Mercado Modelo.

E acordei ao me mexer, o nervo do braço se retorceu e suei frio e vi círculos amarelos e azuis, de tanta dor o cérebro quase me fez desmaiar, uma gota gelada escorria pelo meu pescoço e nem chorar eu conseguia, então fiquei deitada respirando fundo, muito fundo, cada vez mais fundo, até a dor passar, e adormeci na neve de Davos, no Sanatório de Berghof, pois é lá que tenho passado muito tempo nas últimas semanas, nas centenas de páginas de “A Montanha Mágica”, confundida pelo tempo lá e cá. Ler “A Montanha Mágica” durante uma pandemia é diferente. Fazer qualquer coisa durante uma pandemia é diferente.

Hoje é sexta? De novo estou sem me localizar nesse tempo inventado. Desde terça estou achando que é quinta. E hoje ainda acho que é quinta. Passei uma semana na quinta-feira. Alguém falou em novembro e eu ri. Mas novembro não demora? Em um dia de 2019 andei quatro horas seguidas em uma praia, tenho sonhado com essa caminhada. Andar de quinta a quinta, quatro horas em cada quinta, em algum lugar onde o vento possa bater no meu rosto, no calor de Salvador ou no frio de Davos, andar, andar e andar, além dos livros, além dos sonhos.

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