Categoria: COLABORAÇÕES

Textos de cronistas convidados do blog.

‘F’ de festa

Amo festa. Música, dança, bebida para quem quiser, gente mexendo o corpo, sedução, descanso para as preocupações. Tanta gente fala isso agora: quando sairmos da pandemia, a primeira coisa que vou fazer vai ser uma festa. Eu também tenho dito isso. Comemorar meu aniversário. Comemorar todos os aniversários passados em isolamento. Comemorar a vida, os amigos. Comemorar nada. Só viver em liberdade e suspensão por algumas horas. Dançar até suar tanto que parece mais que saí de uma aula de spinning (eu ia escrever aeróbica, o que mostra minha idade – não quero mentir). Trocar um olhar. Fechar os olhos e soltar a imaginação. Fazer várias festas para as várias turmas. Fazer uma festa para misturar as turmas. Dançar sozinha ou agarrada a alguém. Se entregar ao que foi taxado de ridículo pelos recalcados. Meus filhos, que me chamam de ridícula quando danço sozinha em casa, me perguntaram do que mais sinto falta na pandemia. Do bar e das festas com os amigos, foi a resposta.  Amo uma mesa de bar também. Agora só quero sair para festas e bares. O resto vou fazer de casa mesmo.

Nesse sol de inverno tenho pensado mais em Paraty. Na festa literária brasileira mais famosa, mesmo com todas as críticas. Mas até Cristina, em Minas Gerais, foi uma festa. Porque veja bem: não falo de feira. Eu falo de festa. Na festa do meu sonho, nessa semana, tinha sol de inverno e ruas de pedras. E ladeiras. Talvez Salvador. Talvez Ouro Preto. Talvez não precise localizar a cidade no sonho. Pensar menos e sentir mais. Tinha gente, tanta gente nas ruas, nos restaurantes, nas lanchonetes, nos bares. Tinha um escritor que eu queria beijar com um bebê no colo. E teve um beijo bom demais trocado em uma festa. Um moço tão lindo, com a boca descrita pela Jacqueline Woodson no livro “Um outro Brooklyn”. Um moço que tocava uma guitarra triangular, preta e brilhante, como a pele dele. Antes de ele subir no palco, antes de nos beijarmos, eu tirei a poeira da guitarra, com um pano macio ao toque. Toda a gente, como escrevem os portugueses, dançava e dançava muito. Toda a gente ria.

Queria passar um ano em festas literárias. Fazer um calendário para acompanhar todas. Andar pelas ruas cheias de pessoas com o amor pela literatura em comum. Pessoas com livros nas mãos, debaixo do braço, nas filas de autógrafos, trocando dicas de leitura, falando mal disso e bem daquilo. Ou vice-versa. E pessoas nas mesas de bares. E à noite nos espaços transformados em pistas de dança. Dançar até não sabermos quem somos. Queria um Woodstock literário, uma festa à la Tim Maia, vale tudo, e vale até mais, porque vale homem com homem e mulher com mulher, vale o que a gente quiser. Por uma noite que seja. A literatura tem me sustentado, mas eu preciso de festa.

 

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Baile de máscaras planetário

Agora, COVID-isolada, com todo o tempo do mundo liberado, escuto em mim um eco fundo, ‘Clariciano’

Évanes Pache*

Antes do convite para o baile de máscaras planetário eu pensava que o bem mais precioso que o ser humano podia ter se chamava Tempo. A vida se dava em aceleração constante.

Fiquei maravilhada com as reflexões que um filme de ficção científica, estrelado por Justin Timberlake, me provocou. Num futuro próximo, as personagens trabalham em fábricas e, todos os dias, ao final do expediente, passam num guichê para receber seu pagamento. O seu salário é pago em tempo. Sim, tempo. Naquela fatia de realidade, as pessoas trabalham por tempo de vida. Essa é a moeda de troca em “O Preço do Amanhã” (In Time, 2011). É com o tempo que se paga comida, transporte público e todo o necessário para viver.

O filme é muito interessante e não quero dar (mais) spoiler, mas dá pra imaginar o que acontece se a pessoa para de trabalhar, não?

“O Preço do Amanhã” é, pra mim, uma releitura do mundo pré-baile de máscaras. Até fevereiro de 2020, vivíamos e trabalhávamos numa velocidade cada vez maior e, por outro lado, no subtexto, estava a angústia de atingir o tempo livre, sonhando com o final de semana, com o próximo feriado, com as próximas férias.

Hoje, com a COVID-Fest a pleno vapor e mascarados disputando pela versão mais mask fashion no baile planetário (um comportamento resquício do mundo pré COVID), o tal do tempo deu um cavalo de pau e se atravessou na avenida. Tudo virou de cabeça pra baixo no LP “Terra Plana”. Podia apenas ser a maravilhosa “Terra”, de Caetano (já que estão querendo voltar no tempo), mas não. Agora, estamos ouvindo o Lado B do mundo e de cada um de nós também. No Brasil, o Lado B roda em 78 rotações e em algumas bocas canta “todo mundo, vamos, pra frente Brasil…” (né Regina?).

Tenho pensado nas projeções de cientistas e informações de profissionais da saúde, nas notícias que chegam diariamente e no comportamento inexplicável de tantas pessoas que tenho visto – estupefata – todos os dias. Olhando em perspectiva, o quadro pintado não é bonito. ‘#EleNão’ tem 50 tons de cinza. “#Elenão” e seus seguidores gozam com a pulsão de morte descrita por Freud.

Ahhhhh, mas eu vou colorir com o Azul que é a cor mais quente. Pra começar, vou jogar aquele azul bem Frida misturado a um rosa bem Liniker. Depois eu penso no resto.

Nos primeiros dias ficamos meio perdidos com tanto tempo, à deriva. Pensei muito em Clarice ao refletir sobre tempo e liberdade. Apliquei Clarice em minhas inquietações. Antes das máscaras era um tal de “liberdade é pouco. O que eu quero ainda não tem nome”. Eu tinha fome (tenho) de mundo e queria (quero) tempo pra explorar inúmeros lugares. Agora, COVID-isolada, com todo o tempo do mundo liberado, escuto em mim um eco fundo, ‘Clariciano’, que diz: “eu e minha liberdade que não sei usar“.

Das reflexões, um pensamento urgente incomoda/mente. “É preciso amar como se não houvesse amanhã”. Tô pensando aqui que, sem poder frequentar a academia que cuida do físico, talvez seja interessante inventar em nós a academia da alma e exercitar todos os dias os músculos da compaixão, solidariedade e empatia. Na minha perspectiva, esses são os nossos maiores ativos.

Quem sabe, ao desfilar essas atitudes nas redes, nas videochamadas, lives, textos, mais gente perceba que o discurso bélico/presidente da Ustra direita, está mais que demodé. Está ultrapassado, brega, oldfashion nas velhas prateleiras ditatoriais do Brasil do século passado.

Então, meu caro amigo, me perdoe, por favor”, se agora eu deixo essa pergunta:

“O que você faria se só te restasse esse dia?”

 

P.S.: hoje, eu apenas gostaria de fazer poesia e declarações de amor. Enquanto isso, no meu baile pessoal, me prometo fazer tudo o que mais gosto. #Ficaremcasa, falar, me declarar a amigos queridos, cozinhar coisas que me dão prazer ouvindo jazz e tomando um bom vinho. Vou continuar a sonhar, amar, me renovar, revelar. Quero dizer do meu amor e me despir do que ainda pode restar em mim de ustra-passado. Sim, porque todos nós temos sombras de estimação a dar conta. Eu tenho esse figurino mas escolho deixá-lo no armário enquanto vivo livre.

Em tempo…all we need is love” and respect for all sort of life.

 

Évanes Pache é jornalista e especialista em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz

Crônica da seção Palavreiros, do blog, que traz colaborações de convidados com temas livres. O convite é extensivo a todos que gostam de “palavrear” a vida na forma escrita.

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Os lugares mais bonitos da Terra

Cresci em uma casa com livros nas estantes da sala, mas meus pais não os liam. Eu, pelo menos, não tenho recordação deles com livros abertos nas mãos. Se liam, era em algum lugar (no quarto, talvez) longe dos meus olhos. Meus pais também nunca leram histórias para os filhos. Na hora de dormir era um “boa noite” e um beijo. Então foi na escola que o mundo da literatura se abriu para mim. Se nas aulas de Matemática eu fingia dor de cabeça para não ter que enfrentar uma lógica que não compreendia, com o primeiro livro de ficção já enxerguei algum sentido na vida. Mas, se meus pais não liam, sabiam da importância da leitura na constituição de um ser humano e me estimularam. Se na escola gostei de ler “O cachorrinho Samba” e comentei com minha mãe, ela rapidamente me presenteou com o restante da série, com o cachorrinho Samba na fazenda, na cidade, na floresta, sei lá para onde mais ele foi. Só sei que eu o acompanhei por todos esses lugares. Lembro, ainda, da minha mãe me presentear com o livro “A Montanha Encantada”, também da Maria José Dupré, que me marcou desde o azul da capa. Lembro do livro nas mãos da minha mãe. Lembro do livro passar para as minhas mãos. E do quanto, até hoje, aquelas horas vividas em outra dimensão me marcaram. Se gostei dos livros da Maria José Dupré, então minha mãe procurou tudo o que ela havia escrito. E se minha mãe me viu devorando “O urso com música na barriga”, indicado pela escola, ela complementou minha paixão com outros do Érico Veríssimo. O mesmo com os livros da Fernanda Lopes de Almeida (depois que me tornei mãe, fui atrás das edições de “A fada que tinha ideias” e “Soprinho” que li na infância, precisava daquelas capas novamente ao alcance das mãos).
Hoje, enquanto escrevo esse texto, penso na atenção que minha mãe prestava nas leituras indicadas pela escola, e do quanto também aprendia com elas. Já por iniciativa própria, minha mãe me deu “Pollyanna” e “Pollyanna Moça”, que ela tinha lido e gostado. Minha mãe achava que eu tinha muito a aprender com a Pollyanna, mas a menina (e a moça) só me irritou e resolvi seguir o caminho contrário. Mas não posso dizer que Pollyanna não me marcou. Meu pai, por outro lado, virava e mexia soltava algo sobre algum livro de Graciliano Ramos, autor de quem ele leu toda a obra, em bibliotecas públicas frequentadas na juventude. Mas se eu não via meu pai lendo, ouvi dele essa resposta, quando pedi para ele me comprar um livro: farei o sacrifício que for, mas para livros nunca te falarei “não”. Estava descoberta a minha mina de ouro! Se para a maioria dos brinquedos que pedia eu ouvia “no Natal ou no teu aniversário eu penso sobre isso”, para os livros seria sempre “sim”.

E meu pai cumpriu a promessa. Estava criado o meu time de estimuladores à leitura: as professoras na frente, especialmente a Dona Ângela, professora de português dos meus 10 aos 14 anos, que assumia erros em algumas indicações e mudava de ideia, sempre conversando com os alunos, e meus pais atrás, atentos. E um tio, silencioso, que vinha passar muitos finais de semana com a gente, ou com quem eu passava as férias, o tempo todo com um livro nas mãos e uma cara de enorme satisfação.
Sempre achei bonito ver uma pessoa lendo. Ela estampa um sorriso, mesmo que discreto, de quem descobre uma nova forma (agradável) de estar no mundo. Ela parece carregar um segredo precioso e esse segredo a deixa feliz. Eu sempre quis estar na cabeça das pessoas que estão lendo, parecia um lugar bonito para se passar um tempo. Eu sempre quis conversar com as pessoas que estão lendo: divide comigo isso aí que você sabe e que te deixa assim contente?
Puxa!, exatamente o que faço hoje nos clubes de leitura, acabei de concluir. Viu, Luciana menina, como deu certo? E a Luciana menina tinha razão: é mesmo muito bonita a cabeça de uma pessoa leitora.

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Viagens na pandemia

Foi logo no primeiro mês de isolamento que meu filho mais velho me disse:

“Mãe, você está traumatizada com essa pandemia, né?”

E a resposta à minha pergunta “por que você está falando isso?” foi:

“Você está descobrindo que não suporta a sua família”.

“Não suporta” foi forte demais, respondi para ele. Mas, sim, eu continuei, ele não deixava de ter razão: é mais fácil (e saudável) conviver quando a gente não fica com a pessoa o dia todo, vinte e quatro horas por dia (literalmente e sem exageros). Seja essa pessoa quem for. Seja essa pessoa aquela para quem um dia você olhou e disse, acreditando que era verdade, até sendo verdade mesmo: eu passaria o resto da minha vida grudada em você (pequena homenagem ao dia dos namorados).

Eu, particularmente, acho que nunca disse essa frase para ninguém. A ideia de grude nunca me atraiu. Grudados em casa, então, so-cor-ro! Porque nem da ideia de casa eu gosto muito. Desde que saí da casa dos meus pais, minhas casas estão sempre com cara de quem acabou de receber os hóspedes. E faz um tempo que entendi a razão: nunca acho que cheguei ao meu lugar, toda casa me parece temporária e aquela arrumação definitiva fica sempre para depois. E tanto é assim que vendi uma casa própria e nunca consegui substitui-la (tem a falta de dinheiro suficiente, tem o pavor de fazer dívida com o banco por 475869097 meses com juros de 177294840292727174748484949393% ao mês e tem uma casa que nunca achei). Desde então, moro de aluguel. Se tiver que arrumar demais, se tiver que mexer demais, se simplesmente eu precisar mudar de bairro ou cidade, rescindo o contrato e mudo.

Talvez seja o sangue croata. Há relatos de que os ciganos se concentraram em países como Iugoslávia, Bulgária e Romênia.  Sempre gostei da rua, das casas dos outros, daquilo que não me é familiar. Na infância, tinha escovas de dentes nas casas de várias amigas. Bastava ouvir “quer dormir em …” para já responder com um “sim”. Talvez o final da pergunta nem fosse “em casa”, mas eu já estava pronta. Além da companhia das amigas, claro, tinha sempre uma comida que eu não conhecia (o lanche de frango da Tia Rê), um hábito que não existia na minha casa (tomar lanche da tarde na casa da Patrícia), um som (o violão do Tchê), espaços (o quintal com cachorros na casa da Mariana), luzes (amarelas na casa da Mette) e eu me encantava com cada detalhe capaz de ampliar meu mundo.

E, sim, eu gostava muito da casa dos meus pais. Gostava muito da minha casa. E na minha casa também eram várias as escovas de dentes das amigas. Cada uma com um nome, todas guardadas na primeira gaveta do gabinete embaixo da pia. Uma casa cheia de amigas e amigos. Então não era uma questão, como não é até hoje, de não gostar de ficar em casa. É só uma questão de “mas tem tanta coisa para ser vista lá fora”. Uma amiga, espírita, uma vez me disse que sou espírito jovem, encarnado poucas vezes, daí a vontade de conhecer tanto o mundo. Pode ser. Eu sei muito pouco sobre nada.

Mas sei que em 2020 resolvi voltar a fazer diário. No dia primeiro de janeiro listei todos os lugares que ainda quero conhecer e coloquei um asterisco naqueles que achei que seria possível conhecer ainda este ano. A lista segue lá e não deixei de acrescentar lugares. Não eliminei, ainda, os sonhos. Mas, por enquanto, viagens mesmo só com os livros (aliás, os únicos objetos definitivamente arrumados em todas as casas temporárias), em cantinhos da casa onde gosto de estar, de preferência longe dos meus filhos na hora da leitura. Até para eu poder olhar para eles depois de deixar o cantinho e me encher de amor e gratidão.

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Goela abaixo

Acordei e puxei o celular para ver as horas, mais tarde que o habitual. O sono foi todo entrecortado, como tem sido há muitas noites, ou dias, dias ou noites, dias e noites, perdi a conta, uma agonia que não diminui, salvo raríssimas exceções. Busquei um ânimo interno. Como tem acontecido há muitos dias também, o ânimo veio e durou do quarto à cozinha. Sim, tenho café preto quentinho. E pão. E frutas. E se nunca deixei comida ser jogada fora, neta que sou de fugidos da guerra na Europa, agora é que estou ainda mais vigilante. Da banana escura e mole vai sair um doce. Mas nem a ideia do doce me aquece. Só consigo pensar nas vidas negras que importam. No absurdo que é viver e ter que escrever e gritar essa frase. Escrever e gritar o óbvio que não é óbvio. Tomo café e penso nas vidas negras. Escovo os dentes e penso nas vidas negras. Troco de roupa e penso nas vidas negras. Mentira, quase não tenho trocado de roupa. Passo os dias de pijama e disfarço do peito para cima quando tenho reuniões e aulas on-line. Tento trabalhar. Tento escrever. Tento cozinhar. Esturriquei legumes em uma assadeira esquecida no forno. A água para o chá ferveu até sumir. Salguei tanto o peixe que ficou incomível, mas comemos mesmo assim – a guerra, lembra? Uma garfada e um gole d’água. O purê de batatas virou sopa. A sopa esquecida na panela virou um creme espesso. Também difícil de engolir. Assim como a notícia da criança de cinco anos que caiu de um prédio, onde estava porque precisou acompanhar a mãe no trabalho de empregada doméstica. E parece que a mãe foi andar com o cachorro da patroa e o filho ficou com a patroa. E parece que a patroa não olhou a criança, que queria a mãe, que andava com o cachorro da patroa. É isso mesmo: a empregada, mãe de uma criança que não está podendo frequentar a escola por causa de uma pandemia, passeava com o cachorro da patroa. E a criança, que queria a mãe que andava com o cachorro da patroa, caiu do prédio. Mas o cachorro passa bem.

E são tantos os dias em que sonho com uma vida em que teríamos que lidar apenas com todos os problemas inerentes à existência, que já são tantos. Mas não, eles parecem não bastar. Precisamos criar mais e mais e mais. E colocar no governo quem crie mais e mais e mais. Tanto sexo para ser feito, tanta música para ser cantada, tanta dança para ser dançada, tanta conversa para ser trocada, mas não. Criamos maldades.

E essa semana quem me salvou foi o Sérgio Sant’Anna, vítima fatal da COVID-19, mais uma, “mas é o destino de todo mundo”¹, né? Parece que foi isso, nem quero confirmar, fico na torcida para que não tenha sido, mas sei que foi, fui confirmar. Foi, é o destino de todo mundo, mas se pudermos adiantar alguns, não? De pretos e pobres de preferência, não? E o Sérgio me salvou com o livro “Amazona”, publicado em 1984, talvez mais atual do que à época. A genialidade e o humor do autor iluminaram os dias, em contraste com a escuridão sem luz no fim do túnel que é viver nesse país que anda para trás. Estamos sempre caindo na casa do “volte uma jogada”. Morremos asfixiados desde sempre. Mas quem é preto morre mais.

E eu queria falar de coisas boas. Nossa, isso é muito Regina Duarte, mas acho que não vou cortar a frase. Porque eu queria mesmo falar de coisas boas, todos nós queríamos, Regina, mas não dá. Em alguns momentos não dá e pronto e é preciso assumir. Como quando meu primeiro filho nasceu e foi levado para a UTI assim que me foi mostrado. Falei “seja bem-vindo, meu amor” e em seguida UTI. Eu jogada no buraco do mundo. Vinte e quatro horas de observação para os médicos descobrirem que tipo de cirurgia ele precisaria fazer. Vinte e quatro horas em que fiquei trancada no quarto, os peitos inchados e doloridos por causa de um leite não sugado, o corte da cesárea doendo da unha do dedinho do pé até o lóbulo da orelha, as batidas do coração suspensas, e meu pai fez uma piada. Uma piada da qual ninguém riu. Ao que ele, de dentro do seu pavor, soltou que era difícil aliviar tensão nessas horas. É, pai, eu respondi, porque em alguns momentos a tensão não é para ser aliviada e, sim, vivida. E esse texto, que nem gênero tem, ou melhor, não tem gênero, mas está na categoria dos textos ruins, vai ficar assim, porque é preciso respeitar o que sai agora. Uma frase e um gole d’água. Uma frase e um gole d’água. Vai assim mesmo. Porque está difícil de engolir. E vidas negras importam. Meudeus!

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Do susto inicial ou das criaturas ou de qualquer coisa que não sei nomear

Escrevo no dia do meu aniversário de 45 anos. Penso em partida de futebol, no apito que anuncia o final do primeiro tempo. O primeiro aniversário, e espero que único, passado em meio a uma pandemia que exige isolamento (no Brasil, por conta da consciência de cada um) social. Ver meus pais pela tela. E agradecer por ter meus pais do outro lado da tela. Mesmo que meu pai ainda esteja no hospital. Nesse andar também nascem bebês, minha mãe me conta, ainda que ela não saia do quarto onde está com o marido. Mas saber que há bebês é tão bom. É, mãe, é tão bom. Lembro do bebê de uma amiga, que conheci essa semana, também pela tela. Quando eu me tirar do isolamento, já que no Brasil é cada um por si – Deus acima de tudo, desde que o Diabo não atrapalhe -, não quero mais amigos pela tela.

Pelo rádio, enquanto escrevo, ouço a voz de Elis, “vivendo e aprendendo a jogar”. É, “nem sempre ganhando, nem sempre perdendo”, e o juiz apitando no meu ouvido. Nenhum cartão vermelho, alguns amarelos. Penso em “Encontros e despedidas”, “todos os dias é um vai-e-vem”, meus pais lá no hospital, onde também nascem bebês, eu em casa em busca de um raio de sol na mesa da cozinha, meus filhos na sala, o mais velho que acabou de vir até mim para me dar um beijo e dizer “mamãe bonita”, como ele faz várias vezes por dia. Tenho a sensação de que, quando estiver com o ninho vazio, é das vozes infantis que mais sentirei falta. “Mamãe bonita”.

O gato que chega e resolve se instalar sobre o teclado. Todos em busca de alguma quentura. A temperatura caiu muito essa semana, mas já estava frio lá fora. Há alguns meses. Terminei de ler Frankenstein, da Mary Shelley, essa semana. De quantas coisas falamos só de “ouvir falar”, sem saber exatamente do que se trata? Se ouvíssemos mais e falássemos menos… Frankenstein era uma dessas coisas para mim. A criatura sem nome, que passa os dias em busca de escuta. “Escute-me”, é só o que ela pede. Assim como meu outro gato, que mia aos meus pés. Assim como as crianças na sala que me chamam. Assim como mais uma menina negra baleada na cabeça.

Gosto de ouvir minha mãe contar sobre o dia em que nasci, assim como meus filhos gostam de ouvir sobre o nascimento deles. A história de cada um. A criatura de Frankenstein, como tantas criaturas criadas pela elite brasileira, sem ninguém para ouvir sua história. Nós somos as nossas histórias, a Michelle Obama disse isso e eu concordo. Não, não somos só as notas que tiramos nas provas. Somos tão mais. Mi nha mãe, que conta que ficou admirada ao ver meus olhos arregalados logo que me levaram para o colo dela. Ela esperando um repolhinho de olhos fechados e chega uma menina com os olhos bem abertos. Também conta que cheguei virando a cabeça, como se já quisesse entender onde estava. Acho que esse susto inicial, tão visível para minha mãe, nunca me abandonou. Sigo até hoje arregalando os olhos e virando a cabeça para tudo tentar enxergar. E entender. Acho também que enxergo muito, mas ainda entendo pouco. Talvez não vá mesmo entender. Mas uma coisa eu aprendi: a gente quer é escuta. Que no meu segundo tempo eu possa continuar com os ouvidos abertos. E que possa encontrar ouvidos dispostos também. Afinal, se olharmos lá no fundo, no fundo mesmo, queremos todos as mesmas coisas.

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Socorro, Guima!

João Pedro. 14 anos. Setenta tiros. Se-ten-ta-ti-ros. Dentro de casa. Setentatirosdentrodecasa. Ágata. 8 anos. Oitenta tiros. Oi-ten-ta-ti-ros. No carro. No carro da família. Oitentatirosemumcarrocomumafamíliadentro. Quem mais? Quantos nomes não sabemos? Alô, Brasil, quem vamos matar hoje? Quantas crianças? Mas crianças negras, hein! É, a carne negra é a mais barata do mercado. A primeira vez que li essa frase… só consegui paralisar.

E tem o Covid-19 e quase vinte mil mortos no Brasil. Quase vinte mil pessoas mortas e os feriados de novembro e julho e junho, nem sei mais que dia, mês ou ano é hoje, os feriados adiantados e nós vamos para a praia, que é para onde se vai nos feriados se você não for parte dessas famílias mortas pelo Estado dentro do carro ou dentro de casa. E não tem ministro da saúde. Nem da cultura. Mas não precisamos. Tem cloroquina e tubaína. E parece que tubaína era o apelido de uma tortura praticada na ditadura militar. Não vou conferir a veracidade da informação. Não quero saber. Não aguento. Tudo dói. A unha, o fio do cabelo, as solas dos pés e as palmas das mãos. A minha incapacidade dói. Ser essa pessoa que nada faz diante do horror dói. Dói em lugares fora do meu corpo, como se a alma fosse concreta. Uma dor que tento alisar com a mão, mas a mão não alcança. Porque não há algo para ser alcançado. Não há coisa a ser alcançada. Coisa.

Meu filho não dormiu uma noite inteira assustado com um vídeo que viu dentro de um jogo que nem sei qual é porque ou trabalho e cozinho e limpo ou vejo o que as crianças estão fazendo na Internet, aqui, ao meu lado. O vídeo era sobre pessoas que moram em uma cidade e tomam uma pílula da felicidade, mãe. O nome disso é São Paulo e Rivotril, respondo para o meu filho, que não entende, claro, ainda bem, e me olha arregalado e diz que felicidade não se toma. Felicidade se sente, mãe. Sim, meu filho, é isso, felicidade é rara e se sente, e geralmente naqueles momentos de distração, horinhas de descuido, como escreveu o velho e grande Guimarães Rosa! Salve, Guimarães! Felicidade singela que tem me escapado porque tem morte demais e descaso demais e ódio demais e falta de responsabilidade demais. Porque tem meu pai no hospital sem poder receber visitas e não, não é Covid-19. É que outros vírus e bactérias e células cancerígenas também não respeitam o isolamento e continuam por aí, rondando nossos corpos e o ar poluído que ainda respiramos. É que tem a vida.

E tem a Internet que cai. O aplicativo do banco que não funciona. O sobrepeso. A fruta que apodreceu e ninguém viu. O leite que azedou. O supermercado que não entregou. A ligação via Internet que precisa ser reiniciada uma, duas, três, não aguento mais, vezes. A minha angústia que é mais veloz que meus dedos no teclado e sai tudo errado, tudo confuso, tudo cansado.

Tem um grito aqui, preso entre o estômago e a garganta. Um grito que fermenta, sem buraco por onde sair. Vou inchar. Estou inchando. Estou inchada. Essa semana, acho eu, porque certeza não tenho nenhuma, só Guimarães pode me salvar.

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Os anos, os meses e os dias

Foi Dia das Mães.

Geralmente, nessas datas comerciais comemorativas que nós condenamos por serem comerciais, mas que aproveitamos para comemorar porque gostamos de símbolos e, bem, não resistimos aos apelos comerciais, nós escrevemos com antecedência sobre elas. Ou no dia da comemoração. Mas é que continuamos com os números indecentes da pandemia e seguimos para o terceiro mês de isolamento, de forma que só me lembrei do Dia das Mães no domingo em que se comemora o Dia das Mães. E só me lembrei porque mensagens com fotos de flores começaram a chegar pelo Whatsapp, o que me fez chamar meus filhos e dizer ei, hoje é Dia das Mães, coloquei a mesa do café, mas não vou tirá-la, nem vou fazer almoço, muito menos o jantar, e quero massagem nos pés, o que foi recebido com algumas gargalhadas. Não ganhei nenhum desses presentes. Mas mãe é essa coisa mole, que derrete feito a manteiga que passa no pão quando vê um bigode do leite que ela esquentou no rosto do filho.

Já são muitas as manhãs em que abro os olhos, quase sempre depois de ter passado horas na madrugada com eles abertos, e me pergunto em que mês estamos. Já entramos em abril? Então me lembro que sim, também teve um domingo de Páscoa que esqueci, um domingo de Páscoa sem ovos de chocolate para as crianças, que descobriram que ovos de chocolate não são itens essenciais, o que me fez lembrar de ter cozinhado carne vermelha na Sexta-feira Santa. Apesar de não ser cristã e muito menos católica, passei a vida comendo peixe nesse dia. A culpa sempre me caiu muito bem.

E teve o aniversário do meu pai. Sim, teve, puxo na memória. Papai fez setenta e cinco, o que me lembra que farei quarenta e cinco, e teve “parabéns” virtual, então sim, já entramos em abril. E já entramos em maio, mês do meu aniversário, que também deverá ter um “parabéns” virtual. E em algumas manhãs até me localizo no mês, mas tenho dificuldade com os dias. Passo a quarta achando que é quinta ou a quinta achando que é quarta. Não bastasse a falta de dinheiro, atrapalho-me também com os vencimentos das contas. Mas já é dia 10? O quê, já passou o dia 15? E pode ficar muito difícil respirar. Mas há a literatura, penso. E escolho uma escritora ou escritor para me acalmar.

Nessa semana foi Annie Ernaux, com o livro “Os Anos”. Eu sabia que tinha algo de muito especial ali. Abro o livro com carinho e aspiro fundo a primeira frase:

Todas as imagens vão desaparecer.

Tem muita imagem bonita que vai desaparecer. Mas as feias e cruéis também irão. Pode demorar muito, mas a Annie está certa, todas as imagens irão desaparecer. Dói. Mas também alivia.

Viva a literatura!

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Em busca do verde perdido

Depois de quarenta e oito dias dentro de um apartamento, no centro de São Paulo, com duas crianças transbordando energia represada, conseguimos colocar internet no sítio da família, onde cresci e de onde meus pais se mudaram há anos, o que nos permitiu mudar de paisagem. Assim que minha irmã me avisou, pelo Whatsapp que ora agradeço e ora amaldiçoo, “temos internet”, arrumei minha mala com um notebook, pouca roupa e muitos livros, mais as malas e o material escolar das crianças e fomos. Está certo que uma não colocou o material no carro, mas isso fica para outro dia para eu não me estressar (mais) de novo.

Há pelos menos dez anos eu não dormia no sítio, desde que meus pais se mudaram às pressas em razão de um assalto traumático. Mas o importante era sair do apartamento. O importante era o verde que não vemos em São Paulo. Como disse meu filho, assim que chegamos: “ver árvore dá uma esperança, né?”.

Com o sol já posto, a segunda pergunta do mesmo filho: “mãe, será que vou conseguir dormir aqui? É silêncio demais”, ele explicou. Eu, na cozinha, preparando um lanche, respondi: “não para mim”.

De fato, longe da zona urbana o silêncio pode ser ouvido, assim como a escuridão vista, mas a casa onde passei a infância e a adolescência fala. Na cozinha, onde agora eu preparava o misto quente, a voz de minha mãe nos chamando para comer. Os barulhos das panelas. Os latidos dos cachorros do lado de fora, com quem minha mãe conversava. Tinha um cachorro que chorava enquanto comíamos, contei para o meu filho, e sempre o colocávamos na conversa, para que não se sentisse deslocado. “Ele era fofinho?”, meu caçula pergunta. E contei a história da chegada do Tobias à nossa família, de laço e tudo, um presente para minha irmã.

Na sala a voz de meu pai, reclamando das novelas. “Vocês ficam vendo essa dramaturgia barata, com gente boa ou gente má, precisam ver arte de qualidade, o ser humano não é binário”. Não ligávamos para o que ele dizia, nem sabíamos o que era binário, e meu pai não deixava de nos alertar. Nunca deixou. Os passos apressados, meus e dos meus irmãos, no corredor dos quartos, o medo de andarmos no escuro de uma casa grande no meio do mato, como meus filhos agora. O vento que uiva e entra pelas janelas. Sempre foi assim, contei para meus meninos de olhos arregalados. Quando éramos crianças, minha mãe mandou cortar umas espumas para colocar no vão das janelas. Na falta dessas espumas, preencho os vãos com a própria cortina.

E tem os beijos que eu trocava com os namorados, no lado de fora da casa, na hora de me despedir. O sítio que era tão afastado da cidade, que me fazia pensar que nunca arrumaria um namorado com amor suficiente para ir até lá me ver. Mas fui muito querida, eles vieram. Conto sobre eles para meus filhos, que defendem o pai. O pai que é mais bonito. O pai que é mais legal. Assim como eu defendia meu pai quando, no quarto onde agora estou dormindo, minha mãe abria uma caixa de madeira onde guardava as cartas de um ex-namorado. “Que ridículo esse Toninho”, eu dizia para minha mãe, sem saber então que todas as cartas de amor são ridículas. E não entendia a bronca que tomava do meu pai: “não fale assim, sua mãe gostou dele e você tem que respeitar”. Frase que meu marido repete para os meus filhos.

Nas paredes da sala, os quadros que meu pai pintou e não levou quando se mudou. Tantas perguntas sem respostas em todos os cantos da casa. Em cada canto, uma madeleine*. Escolho mergulhá-las ou não no chá de hortelã, que recolho do que sobrou da horta.

Não consigo escrever como Proust, mas tenho aqui umas páginas em branco e uma pilha de livros, além daqueles que encontrei guardados, cobertos de poeira. Se o trabalho doméstico e o remunerado, mais as aulas das crianças permitirem, poderei fazer, ainda que doída, uma bela viagem.

 


(*) Bolachinhas francesas.
(*²) Valentin Louis Georges Eugène MARCEL PROUST foi um escritor francês, mais conhecido pela sua obra “Em Busca do Tempo Perdido”, publicada em sete partes, entre 1913 e 1927.

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Shhhhhhh

Eu tinha quatorze anos, disso me lembro bem, quando cheguei faminta da escola e fui direto para a cozinha. O almoço ainda não estava pronto, nem a mesa posta. No fogão, aquele pininho da panela de pressão girava e soltava um chiadinho. Tive dificuldade para soltar a trava de segurança e enxergar, afinal, o que minha mãe preparava. Foi quando ela, como se enviada pelos anjos, entrou na cozinha e soltou um berro de horror. Larguei o cabo da panela na hora e respondi: só queria ver o que tem para o almoço. E você não sabe que não pode abrir panela de pressão???, ela continuou berrando entre incrédula e aliviada. Não, eu não sabia. Está certo que ela não tinha me ensinado, mas eu era, mesmo, essa adolescente sem noção nenhuma de cozinha (ou seja, de química, de física e da realidade). Tenho uma tia que, com quase trinta anos e recém casada lá nos anos 1970, resolveu fazer uma feijoada para o marido, prato que ele adorava. Era um sábado e ela comprou feijoada enlatada para o grande dia. Não cozinhava nada. Absolutamente nada. Leu as instruções e pronto: colocou a lata, fechada, dentro da panela de pressão. Perdeu o almoço e quase perdeu também a inteireza do rosto quando a lata voou da panela e abriu um rombo no teto. Desconfio que, no lugar dessa tia, eu teria aberto a lata e despejado o conteúdo na panela, mas é essa a minha linhagem. Ao menos parte dela.

Cresci sabendo fazer só duas coisas, e olhe lá: ler e escrever. Escolhi profissões que dependem dessas habilidades. Enquanto morei sozinha gastei muito dinheiro em restaurantes, e depois de casada também. Até que vieram as crianças. E eu fiz as piores papinhas do mundo. Os bebês cuspiam e eu lhes dava razão. E mais dinheiro com comida pronta e cozinheiras. E minha mãe, a melhor mãe e avó do mundo, que sempre nos salvou. Quando não tínhamos alternativa, era macarrão com molho de tomate, macarrão com molho branco e macarrão na manteiga. E ovo mexido. Porque o frito não dá certo de jeito nenhum. E o macarrão podia variar: com ovo mexido e sem ovo mexido. E os meninos foram crescendo e dizendo que meu macarrão era o melhor do mundo. E eu só pensava: ah, quando o mundo deles se ampliar… Até que veio a pandemia do Covid-19 e o mundo de todo mundo se encolheu. Consegui, aos quarenta e cinco do segundo tempo antes de nos isolarmos em casa, um estoque de congelados. Mas o mundo ia se encolher ainda mais e por mais tempo. E eu, era o quê, afinal? Mãe de dois meninos famintos, como são todos os meninos em transição para a adolescência. Acordei um dia cheia de coragem e não deixei que ela sumisse entre o quarto e a cozinha, como acontece quase todas as manhãs. Estava obcecada: dessa vez o arroz ia ficar bom. E, sorte de principiante ou não, até meu marido se espantou: como você fez esse arroz tão soltinho? Encolhi os ombros discretamente, mas soltei fogos de artifício por dentro. E peguei todos os legumes que tinha na casa e fiz uma bela fornada regada a azeite. E teve peixe. E depois frango. E até a carne vermelha, meu maior pavor, já deu certo. Macia e bem temperada. Arrisquei feijão, que ficou comestível, mas a lentilha ficou boa mesmo. E fiz um purê de batatas, o prato preferido das crianças, que parecia uma nuvem. E teve até tortinha de maçã, que começaram feias, mas terminaram douradinhas e gostosas. Bolo de beterraba com chocolate. Pedi receitas pelas redes sociais. Ganhei várias e fiz algumas. As outras estão guardadas. Quero fazer todas, já gosto da minha comida. E tive até a ousadia de não seguir estritamente uma receita.

E deu certo. Deu certo! Pensei em pedir silêncio, como o poeta: nesse meu mundo encolhido e doído, nasceu uma flor. “Vejam!, pode ser feia, mas é uma flor”(*). E, em meio às panelas, à louça suja, à faxina, ao trabalho agora menos remunerado e às lições de casa das crianças, saíram também os textos jogados nas redes, uma tentativa de respiro e aproximação, porque sim, eu gosto tanto de gente, e chegou o convite para escrever nesse blog. Puxa, mais uma flor, ainda que feia. E talvez, mesmo nesse momento tão triste e duro para o mundo, a gente consiga cultivar um pequeno jardim.

Obrigada, Silvia!

 

(*) referência ao poema “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade

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