Categoria: OSCAR 2019

Ação especial da seção CINÉLIDE que consistiu na publicação de uma crítica de filme concorrente ao Oscar por dia, durante as duas semanas anteriores à cerimônia de premiação, assinadas por convidados variados.

Poesia do cotidiano

por Thiago Roque     

“Roma” é o que os grandes críticos costumam chamar de “cinema em seu estado mais puro”. Bom, eu não sou um grande crítico, por isso, me arrisco a escrever que o longa de Alfonso Cuarón é uma obra corajosa para os dias de hoje.

É só observar as escolhas do diretor: o filme, todo em preto e branco, traz as personagens falando espanhol e mixteco – língua de um dos povos nativos mexicanos. No elenco, saem as grandes estrelas de Hollywood (em “Gravidade”, por exemplo, Cuáron trabalhou com George Clooney e Sandra Bullock) e ocupam a tela descendentes indígenas. Você também não encontrará milionários efeitos especiais ou grandes recursos de edição – “Roma” apresenta cenas simples, quase cruas, mas sensivelmente carregadas de metáforas e simbolismos. Além de tudo isso, o diretor mexicano quis levar sua obra direto para a casa das pessoas, via Netflix – para ser relevante e discutir temas como diversidade, desigualdades sociais e solidão, era necessário ser visto por todos.

‘Roma’ apresenta cenas simples, quase cruas, mas
sensivelmente carregadas de metáforas e simbolismos

Coragem premiada: são dez indicações para o Oscar – Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz (a inexperiente e arrebatadora Yalitza Aparicio), Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz Coadjuvante (Marina De Tavira), Melhor Fotografia, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Design de Produção, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som. De quebra, um grande favoritismo para a premiação.

Cuarón dirigindo Yalitzia: ele indicado ao Oscar de Melhor Diretor e ela, a atriz

“Roma” também espalha beleza e poesia em suas pouco mais de duas horas de duração. Cuáron (que escreveu, produziu, dirigiu e cuidou da fotografia e da montagem do filme) nos tira de um mundo  moderno, facebookiano, apressado, e nos desacelera – levando a câmera da direita para a esquerda, da esquerda para a direita. É assim, como se estivesse registrando panorâmicas, que o diretor conta sua história por meio da história de Cleo (Yalitza Aparicio), uma jovem que trabalha como babá e doméstica de uma família de classe média do México nos anos 1970 – “Roma”, aqui, é referência ao bairro Colonia Roma no nome e inspiração no cinema neorrealista italiano.

Nesta posição de observador privilegiado, você poderá se aborrecer um pouco com o cotidiano sem grandes aventuras da protagonista – faz café, lava roupa, limpa a casa, segura o cachorro… Mas também se encantará com o amor dela pelas crianças, se preocupará com a ingenuidade na companhia do namorado e com o medo e a vergonha quase adolescentes da gravidez, irá compartilhar a dor do abandono, talvez até derrube uma lágrima ou outra com o desespero da perda ou a coragem de lutar pelo que ama – aqui, olhos bem abertos para a cena da praia.

Cada cena um lindo quadro em preto-e-branco

Ao redor de Cleo, o olhar do diretor sobre a própria vida: o retrato das desigualdades (da casa cheia de quartos dos patrões de Cleo ao bairro sem estrutura no qual mora o namorado), a paixão pelos aviões, a pressão imposta sobre as mulheres (da esposa que não quer acreditar no fim do casamento à filha que não pode comer doce para engordar), as revoltas populares do país (destaque para a cena que reproduz o Massacre de Corpus Christi, página triste e sangrenta da história mexicana), a homenagem ao cinema, o barulho ensurdecedor das ruas solitárias do bairro.

Vale destacar também a relação de Cleo com a patroa Sofía (a excelente Marina de Tavira). As duas saem do estabelecido padrão empregada-empregadora para uma posição de iguais – com seus sofrimentos e esperanças. E se a doméstica mal fala durante o longa, a patroa não joga palavras ao vento. “Estamos sozinhas. Não importa o que digam, nós, mulheres, estamos sempre sozinhas”, diz Sofía a Cleo, derrubando muros (fica a dica aí, Trump!) de qualquer diferença socioeconômica, política, educacional, sexual.

E é assim, a cada frase dita e, principalmente, não dita, a cada horizonte ampliado, que “Roma” vai conquistando você. Talvez demore um pouco, talvez um pouco mais do que você gostaria. Mas alerto: será difícil, depois do filme, não procurar um pouco mais de poesia no seu cotidiano.

Que não falte coragem a você para encontrá-la.

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‘Um Lugar Silencioso’: menos é mais

por Régis Martins     

Filmes de gênero são sempre tratados com certo desdém pela turma do Oscar em Hollywood. Que o diga Stanley Kubrick que investiu em filmes de guerra, terror e ficção científica com a sua genialidade peculiar, mas foi esnobado pela academia a vida inteira.

‘Um Lugar Silencioso’ sofre desse mal. Trata-se de um terror/suspense que vai além dos clichês do estilo, mas vai concorrer apenas a categoria técnica de Melhor Edição de Som na cerimônia desse domingo.

Melhor sorte teve “Corra”, filme de Jordan Peele, que no ano passado faturou Melhor Roteiro Original e foi indicado a outras três categorias. Mas não se deixem enganar, o filme dirigido por John Krasinski, que também atua ao lado da mulher, Emily Blunt, merecia mais. É um daqueles produtos baratos – para os padrões de Hollywood, claro – que consegue tirar leite de pedra.

Na trama, uma família vive num mundo pós-apocalíptico assombrada por criaturas cegas que atacam tudo que faz algum tipo de barulho. Por isso, os humanos precisam viver em absoluto silencio para sobreviver. Depois de uma tragédia inicial, a trama discorre num clima de tensão, culpa e medo.

John Krasinski em cena no primeiro filme que dirige: boa surpresa

Podem-se fazer diversas leituras filosóficas/político/sociais da trama: porém enxerguei ali um drama familiar e, principalmente, a aflição da paternidade/maternidade nos dias atuais. Como proteger nossos filhos de um mundo apavorante, barulhento e caótico?

Ao optar  por estilo minimalista, sem excessos, Krasinski mostra que, quando o assunto é terror ou suspense, menos é mais. Com poucos diálogos e poucas explicações, o longa dá espaço à imaginação do espectador, sem truques baratos e baboseiras sentimentalóides.

Outro detalhe que chama a atenção é que uma das crianças, a atriz Millicent Simmonds, realmente é deficiente auditiva. Sua personagem é um dos pontos altos da trama, porque carrega consigo toda a dor de existir num ambiente inóspito.

Ela e Emily Blunt estão muito bem e mereciam pelo menos serem indicadas para o Oscar. Mas, vocês sabem, o mundo é injusto.

 

Régis Martins é jornalista, músico/compositor e cinéfilo

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Sonhei que eu era Buster Scruggs

por Raul Otuzi

Com o meu indefectível figurino branco e um chapéu exibicionista que mais parecia um sombreiro, eu estava cavalgando solitário, dedilhando com destreza meu violão e cantando: “Cool Water”.

Um dos irmãos Coen falou que estava muito à vontade, cheio de empáfia.

O outro completou:

  • Hey, Buster, cuidado. Toda esta confiança pode acabar. Assim como a vida, a sorte não é eterna.

Dei de ombros, troquei algumas palavras com o público, cheguei à cidade, matei uns cowboys mal encarados e puxei outra canção. Agora um misto de show e catarse, em cima do balcão: “Surly Joe. Surly Joe”.

Um dos Coen:

  • Não se empolgue tanto, Você não é a Lady Gaga, não está em um musical, isso aqui é um faroeste. Sangrento, tenso. Para de ser cínico.

O outro Coen:

  • Verdade. Baixa a bola. Nenhuma de suas músicas vai para o Oscar. A indicada será “When a cowboy trades his spur of wings”. E mais: apesar do seu nome batizar o filme, temos mais cinco contos. Um melhor que o outro.

  • Cala a boca! – gritei – puxei meu revólver e…

Uma página gigante de livro encerrou minha história. Voei para longe.

 ….

Cena de “A Balada de Buster Scruggs”

O sonho continuou. Do alto, vi um ladrão de bancos em apuros. Ele se parecia muito com o ator James Franco. Mas não tenho certeza. Será que era ele?

Tudo foi muito rápido. A porta de banco se abrindo, o close nas botas e esporas, a conversa pouco amistosa, a reação quase instantânea, o tiroteio desvairado, o assalto frustrado. A captura, a sentença, o pescoço, a corda. Cavalos, índios, gritos, flechas.

No meio de tudo, antes, o velho funcionário do banco vestido com uma roupa/couraça feita de panelas. Comecei a rir. Santo Batman, quanta criatividade para se defender. Esses irmãos Coen são hilários, pensei.

….

Então apareceu uma charrete. O tom ficou sombrio. Uma farpa melancólica beliscou meu coração. Senti pena do viajante Liam Nesson e a sua atração de circo, um cara sem braços e pernas. Ah, impossível não lembrar de “Encaixotando Helena”, o filme de Jennifer Lynch.

Desci dos céus e comecei a escutar as histórias do garoto circense.

É incrível coma a vida pode ser miserável e valer menos que uma galinha.

Confesso que senti um nó na garganta.

Senti os Coen bafejando ao meu lado. Uma cortina de escárnio.

Os irmãos Joel e Ethan Coen

Nem tive tempo de me recuperar e começou mais um conto. Um velho começou a cavar, cavar, cavar. Era Tom Waits.

  • Ei, o que você está fazendo aqui, cara? Você é cantor. E isso aqui não é um musical – eu disse para ele. – Não seja ridículo.

Tom não me ouviu, estava mais ocupado brigando com um bandido que tentava roubar o ouro que ele finalmente havia encontrado depois de fazer inúmeros buracos no solo maltratado.

Eu pensei em ajudar o Tom. Mas um dos Coen me impediu, antevendo minha interferência.

  • Buster, sua participação no filme já acabou. Fica quietinho, só assistindo.

Cerrei os dentes. Esse caras ainda vão ter o que merecem!

….

 

Caravana. Uma jovem endividada e sem ninguém no mundo encontra um protetor inesperado. Rá… já era tempo, manos Coen. Até que enfim, uma história de amor.

Peguei a pipoca, uma dose de uísque e delirei antevendo (depois de alguns percalços, é óbvio) um final feliz.

O roteiro era claro: após extremas desilusões, um romance delicado e tórrido se desenharia no meio de uma paisagem deserta, preenchida pelos latidos insistentes do Presidente Pierce, o cachorro que a jovem Alice havia herdado do irmão morto.

Não é que sempre pode haver esperança? – Refleti, sentindo o cheiro de poeira e poesia.

  • Talvez – um dos Coen me cutucou – Não esqueça que você não está em um musical. Isso aqui é um faroeste. Um faroeste!

….

Último conto. Mesmo sendo Buster Scruggs, um astro, eu não sabia o que esperar. Eu deveria saber antes, me indignei. O que seria? Outra piada ácida? Veio um suspense. Cinco personagens conversando dentro de uma carruagem. Mais uma viagem. Já reparou como estamos sempre tentando chegar a algum lugar? Por que não sossegamos o facho e ficamos quietos, aproveitando onde estamos? Por que temos que estar sempre em movimento? Começando uma nova jornada? Experimentando novos caminhos? Por quê? Tantas dúvidas.

  • Chega! Quero um duelo! – Desafiei os irmãos Coen – O mundo é pequeno demais para nós três, quer dizer, dois.

  • Um duelo, seu idiota? Apesar de indizíveis, somos duas almas distintas – Joel e Ethan mostraram os dentes.

Antes que tivesse a chance de sacar meu reluzente revólver, senti meu peito ausente, formigando quente. Levei minha mão até ele. Molhei os dedos, docilmente.

A última coisa que pensei foi: Quem é Joel? Quem é Ethan? Nunca sei quem é quem. Acho que nunca saberei.

Ouviu um sopro distante:

  • Desde que continuem nos fazendo sonhar assim, isso importa?

 

 

 

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‘Pantera Negra’ pra sempre

por Thiago Roque    

O ano era 1966, a temperatura nos Estados Unidos subia com a luta pelos Direitos Humanos por parte da população negra. As HQs, que retratavam como ninguém as mudanças da época, saíam na frente de novo e trouxeram pela primeira vez Pantera Negra, um herói negro, em suas páginas.

Lá se vão 50 anos até o mesmo Pantera Negra integrar, após aparição em “Capitão América – Guerra Civil” os 10 anos do Universo Cinematográfico Marvel com filme próprio. E, mais uma vez, para fazer história – apesar de “Blade” ainda levar o crédito de primeira obra cinematográfica com protagonista negro.

Mas faz história porque “Pantera Negra” não é apenas mais um filme de herói do estúdio preferido da moçada. É, também e principalmente, um necessário manifesto sobre a diversidade.

Tão necessário que a Academia não conseguiu ignorá-lo. Assim, pela primeira vez em 91 anos, um filme de herói rompe a barreira das indicações técnicas – “Pantera Negra” foi indicado ao Oscar de Melhor Filme, além de Melhor Figurino, Melhor Mixagem e Edição de Som, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Direção de Arte e Melhor Canção Original.

 “a Academia não conseguiu ignorá-lo. Assim, pela primeira vez em 91 anos, um filme de herói rompe a barreira das indicações técnicas”

O retorno de T’Challa (Chadwick Boseman) a Wakanda para ser coroado rei dá início a uma jornada por um universo sem igual nos filmes da Marvel. O diretor Ryan Coogler nos apresenta uma nação que se equilibra entre o futurismo e o orgulho de suas tradições, que fala a língua da ciência moderna e os inúmeros dialetos dos ancestrais. Cores, figurinos, olhares, sonoridades, tudo é meticulosamente pensado e detalhado para apresentar ao espectador o que ele deve ter ignorado (propositadamente ou mesmo sem querer) por anos e anos: a cultura negra – e de uma forma tão provocativa que, daqui pra frente, você deve sentir falta de uma estampa geométrica colorida ou mesmo de um batuque em outros filmes…

Photo: Matt Kennedy..©Marvel Studios 2018

Michael B. Jordan é Erik Killmonger e Chadwick Boseman T’Challa em ‘Pantera Negra’

“Pantera Negra” também nos presenteia com um dos melhores vilões da saga Marvel até aqui: Killmonger (ponto para Michael B. Jordan) vem carregado de idealismo e de sede por justiça – não se assuste se, em determinado momento, você até torcer um pouquinho por ele. O personagem carrega as frustrações de um povo excluído, sofrido, maltratado – e faz de tudo isso combustível para seus atos. É dele a melhor frase do filme: “Jogue-me no oceano com meus antepassados, que pularam dos navios porque sabiam que a morte era melhor do que a escravidão”.

“às mulheres foram reservados relevância, bons diálogos e incríveis takes de ação”

Mas se engana você se acha que apenas os homens brilham neste filme: às mulheres foram reservados relevância, bons diálogos e incríveis takes de ação (as cenas na Coreia do Sul, meus amigos!), seja com Okoye (Danai Gurira), general do exército das Dora Milaje, seja com a espiã Nakia (a sempre competente Lupita Nyong’o), seja com Shuri (Letitia Wright), uma cientista brilhante, jovem e descolada – ah, ela também é irmã do rei T’Challa, quase esqueci.

Além do protagonismo feminino, vale destacar também a convivência entre a antiga e a nova geração de atores negros – se Michael B. Jordan e Letitia Wright brilham pelo time dos jovens, Forest Whitaker (Zuri) e Angela Bassett (a rainha-mãe Ramonda) fazem a trama toda passar por seus diálogos para ganhar história, equilíbrio e uma dose de drama. E, claro, não decepcionam.

Como também não decepciona a trilha sonora que corre durante todo o filme – que tem consultoria de Kendrick Lamar. Vale dar o play depois.

Se os filmes de heróis surgem para inspirar o melhor nas pessoas, “Pantera Negra” surge não só para corrigir uma falha histórica com a população negra, mas também para mostrar que o mundo perde demais quando comete o erro de negar sua tão rica pluralidade.

O Pantera Negra sabia disso lá em 1966. Mas ó: ao menos, essa (injusta) espera de 50 anos valeu a pena.

 

Thiago Roque é jornalista, cinéfilo e descalvadense orgulhoso.

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“Infiltrado na Klan”: inteligente, instigante, inspirador

por Luís Fernando Laranjeira     

Além da direção leve e sensível, ótimos diálogos, belíssima fotografia, tomadas que enaltecem cenários e personagens, uma trilha sonora que dá vontade de dançar, “Infiltrado na Klan” (BlackkKlanman, no original em inglês), do genial, polêmico, provocador Spike Lee, leva a algumas reflexões necessárias nestes tempos sombrios de recrudescimento de preconceitos, violência, intolerância, fanatismo, fundamentalismo cego, de proliferação de fake news.

Negro, Lee nos mostra que o racismo não se limita à questão da cor da pele, uma vez que os fascistas militantes da Ku Klux Klan também odeiam homossexuais, judeus e brancos que não pensam como eles.

O racismo sempre foi explícito nos EUA e vem sendo revelado claramente em nossas terras tropicais povoadas por seres miscigenados, onde já não se consegue mais disfarçar, sob uma hipócrita imagem de cordialidade, sua existência histórica. Sempre me perguntei como um país assumidamente racista pode querer se colocar na vanguarda da civilização, como os EUA, de modo arrogante, se colocam. O que há de desenvolvido ou vanguardista no racismo senão a vilania, a ignorância, o sentimento e a sensação de uma falsa superioridade, a incapacidade de aceitar as diferenças? Que sociedade desenvolvida é essa que mal consegue admitir a diversidade? Nesse ponto, Lee põe o dedo na ferida.

“Sempre me perguntei como um país assumidamente racista pode querer se colocar na vanguarda da civilização”

Inteligente, instigante, inspirador, “Infiltrado na Klan” retrata bem os “caipiras” e “jecas” do sul estadunidense que espelham o resto, ou grande parte, do país. Nova Iorque, por exemplo, tida por muitos como a capital do mundo civilizado, é uma cidade dividida em guetos de negros, latinos, judeus, italianos… O que é o Harlem se não o gueto negro da big apple?

Fundada em 1866, no Tennessee, a Ku Klux Klan tem como marca os roupões e capuzes brancos que escondem a identidade de seus membros. No final da década de 1880, chegou a perder força para voltar revigorada em meados do século XX, na Geórgia. A nova doutrina, de cunho nacionalista, pregava o ódio e tinha como alvos os negros, os imigrantes, os católicos, os judeus.

John David Washington é o policial Ron Stallworth no filme

Infiltrado na Klan” é a história de Ron Stallworth (John David Washington), o primeiro policial negro de Colorado Springs, que propõe investigar a KKK infiltrando-se no grupo após receber como primeira missão no setor de inteligência da polícia: “arapongar” um discurso do ex-pantera negra e líder do movimento negro Stokely Carmichael, que adotou o nome de Kuame Ture em homenagem a líderes negros africanos, na Universidade local. Ture é tido pelo chefe da polícia não como um ativista pelos direitos dos negros, mas como um terrorista, assim como os integrantes do MST, MTST e outros movimentos sociais no nosso Brasil varonil dos tempos atuais. Na Universidade, Ron conhece Patrice (Laura Harrier), a presidenta do grêmio estudantil, por quem acaba se apaixonando. Autorizado a conduzir a investigação, Ron tem como parceiro o policial judeu Flip Zimmerman (Adam Driver), que o encarna quando ele é aceito na organização e passa a ser necessário o contato pessoal com os demais integrantes.

O filme começa fazendo referência ao clássico “E o Vento Levou”, de 1939, mostrando a sequência em que Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), caminhando entre os corpos destroçados dos soldados sulistas derrotados pelos ianques na guerra civil americana (1861 a 1865), procura desesperadamente pelo Dr. Meade. Corte para o discurso do Dr. Kennebrew Beauregard (Alec Baldwin), tendo como pano de fundo cenas de “O Nascimento de uma Nação” (1915),dirigido por D. W. Griffith, que retrata negros (interpretados por atores brancos com os rostos pintados) sem inteligência e agressivos sexualmente com as mulheres brancas. A cena mostra Beauregard praguejando contra negros e judeus e defendendo a supremacia branca representada pelos protestantes. A fala dá a tônica do perfil ideológico da Ku Klux Klan, denominação que eles evitam, preferindo referir-se à milícia, (opa, ato falho) como a “organização”.

O discurso de ódio mal ensaiado, os diálogos perversos entre os “klansmen” e o gozo histérico dos que assistem ao já citado “O Nascimento de uma Nação”, após uma cerimônia da KKK, bem demonstram a pequenez e a pobreza de espírito, a carência de humanidade, a fraqueza e até mesmo o temor de, eventualmente, eles próprios se sentirem inferiores aos negros. Nesse sentido, a expressão aparvalhada de David Duke (Topher Grace), após ouvir em ligação telefônica a troça de Ron a respeito das diferenças de pronúncia entre negros e brancos, sobretudo quando fala que, além de ignorante e pedante, o líder da KKK tem pau pequeno, é bem ilustrativa.

Spike Lee dirige Topher Grace e Adam Drive

A caracterização do “fake Ron” é especialmente bem construída. Uma mistura da voz do Ron original negro com o corpo do judeu branco. Um mantém conversas telefônicas com a milícia (opa, de novo), quer dizer, com a organização, e o outro se apresenta pessoalmente nos encontros. O “fake Ron” é uma tremenda contradição, pois reúne um negro que tem consciência da opressão contra os negros, mas tem um espírito conciliador e acredita que pode fazer algo para mudar a situação; e um judeu branco que, como ele mesmo diz, não foi criado para ser judeu. “Jamais fui a um bar mitzvah, não tive um bar mitzvah”, afirma, para depois concluir que nunca deu importância aos rituais e à tradição. Isso depois de ter um revólver apontado para seu rosto por um dos mais violentos membros da KKK, que queria obrigá-lo a enfrentar um detector de mentiras e ver se ele era cincuncidado. No diálogo, Felix nega veementemente o holocausto (peço licença e perdão pelo parêntesis, mas não resisto a lembrar que no Brasil de hoje há quem, em postos chave no governo, negam com a mesma veemência e atribuem o aquecimento global a uma trama do marxismo cultural), e Flip diz que os massacres na Segunda Guerra Mundial foram necessários para a limpeza étnica e eliminação dos judeus. Uma cena tensa. Assim como tenso é o próprio argumento do filme. Mas Lee, com sensibilidade e leveza, conduziu a trama pouco explicitando essa tensão. São poucas as sequências explícitas de ação e violência, praticamente restritas aos diálogos. Esses, sim, carregados de violenta tensão. E de ironias também.

“São poucas as sequências explícitas de ação e violência, praticamente restritas aos diálogos. Esses, sim, carregados de violenta tensão. E de ironias também”

Por outro lado, iluminação delicada e a elaborada fotografia, assim como planos e enquadramentos de câmera, dão um tom poético à película. É o caso da cena em que Ron e Patrice caminham por uma trilha margeando um riacho. O cuidado com a iluminação, os ângulos para as tomadas realçam o brilho do sol e criam pontos de luz ao longo do trecho percorrido pelo casal. Linda cena.

Um primor também a música e a coreografia na sequência em que Ron e Patrice dançam em uma casa noturna após a palestra na Universidade, logo no início do filme. Spike Lee consegue com cenas como essas, a da caminhada, em alguns diálogos e situações, amenizar a tensão e a violência que norteiam a trama, provocando até risos.

Interessante destacar também que, paradoxalmente, o chefe de polícia branco fornece as condições para a investigação e até alerta um ingênuo detetive negro que a tática da milícia (ai, meu Deus, de novo), a tática da KKK é infiltrar sua gente na política, ocupar espaços e buscar o poder por meios institucionais (David Duke é hoje um congressista que apoia Donald Trump, por exemplo). Porém, sempre há um porém… Bem, assista ao filme para entender porque o espírito conciliador de Ron Stallworth não encontra tanto eco na realidade.

Enfim, Spike Lee consegue com “Infiltrado na Klan” nos brindar com um filme, ao mesmo tempo, questionador, que denuncia uma triste e cruel realidade, poético, chocante, contundente, que contribui para compreendermos um pouco mais o que se passa neste início de século XXI no Brasil e no mundo. O diretor, inclusive, inclui imagens reais de manifestações violentas que provocaram mortes nos EUA nos últimos anos. Uma obra que merece a estatueta.

 

 Luís Fernando Laranjeira é Jornalista, Mestre em Comunicação e Estudos de Linguagens, fotógrafo, editor e um curtidor da Sétima Arte.

 

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‘O Primeiro Homem’: cara a cara com a Lua

por Elcio Thenorio

 Quiçá não, mas tudo indica que um dia teremos de extrapolar, exorbitar, sair da Terra para povoar outros mundos. Essa é uma ideia recorrente do imaginário da humanidade que perpassa autores de escolas tão distintas quanto as de Julio Verne e Isaac Asimov. E não sem razão: enquanto a população mundial cresce a assustadores 0,33% ao ano, projetando uma população de 9 bilhões de almas para 2050, a área do planeta segue imutável em seus escassos 510 milhões de quilômetros quadrados, aí inclusas as águas e as terras inabitáveis.

Nosso berço no cosmo é limitado e já dá claros sinais de que desse limite nos aproximamos a uma velocidade perigosa. Porém, as ameaças à permanência humana na Terra não vêm apenas da superpopulação, mas também da ignorância do homem, perfeitamente retratada na recente retirada de seus países do acordo de não-proliferação nuclear pelos presidentes dos Estados Unidos e da Rússia, duas potências armadas até os dentes. Talvez, quem sabe, nós mesmos diligentemente cuidemos de destruir nossa nave-mãe.

Diante desse quadro funesto, ou talvez movido apenas por sua ancestral e inescapável compulsão pela aventura – ou ambos – o ser humano trata de preparar suas opções de partida. Missão intrincada, que exige a exploração das fronteiras da tecnologia e do mais criativo engenho humano. Lançar-se no vácuo, cobrir distâncias astronômicas, singrar as solitárias vastidões desconhecidas do espaço é um dos maiores desafios já enfrentados pela espécie humana, que até aqui tem se saído relativamente bem. Mas a duras penas.

Para que chegássemos só até ali vidas se perderam, anos de empenho viraram pó em tentativas frustradas, somas incontáveis de dinheiro foram gastas para que discretos avanços fossem feitos. Da reunião desses esforços obtivemos até agora alguns resultados, dos quais dois se destacam: uma sonda não tripulada, a Voyager 1, ultrapassou os limites do Sistema Solar e hoje, a 17 bilhões de quilômetros do Sol, é o objeto mais distante já feito pelo homem. E seis missões Apollo, tripuladas, pousaram sobre a Lua.

“O Primeiro Homem” é a história da primeira delas que deu certo.

O filme acerta em mesclar as dificuldades técnicas enfrentadas por engenheiros e astronautas da NASA, a agência espacial norteamericana, com o drama pessoal vivido pelo comandante da Apollo 11, o primeiro homem a pisar na Lua, Neil Alden Armstrong. Escolhido dentre outros pilotos navais por sua calma diante de situações adversas, Armstrong lidava com a perda de uma filha enquanto seu nome era cogitado para ocupar o assento principal. E tudo se dava em meio a um frenesi, causado pela corrida espacial na qual levava vantagem a arquiinimiga União Soviética, que houvera sido a primeira a colocar em órbita tanto um artefato, o satélite Sputnik 1 (outubro de 1957), quanto o primeiro ser vivo, a cadela Laika, a bordo do Sputnik 2 (novembro de 1957) – e ainda o primeiro homem, Yuri Gagárin, a bordo da nave Vostok 1 (abril de 1961). (“A Terra é azul” disse ele).

Estamos em 1969 e, oito anos antes, o então presidente John Fitzgerald Kennedy proferira seu profético discurso “Vamos à Lua”, no qual praticamente prometera que os Estados Unidos realizariam tal proeza “nesta década”. Realizá-la antes dos anos 70 era, portanto, uma questão de honra nacional para os americanos. Mas a corrida contra o relógio cobrava seu preço: em janeiro de 1967, durante os testes do Programa Apollo, três astronautas morreram carbonizados com o foguete ainda no solo, quando um incêndio destruiu a cabine de comando.

Em meio à comoção causada por essa perda, Armstrong, obrigado pela mulher, tem de enfrentar a dura realidade de contar aos filhos que papai pode nunca mais voltar. É um momento pungente que faz refletir sobre a divisão psicológica pela qual devia estar passando aquele pai-herói. Mas este era um homem obstinado, que não recuaria diante do medo, da dor ou da perda. E eis que já é hora do embarque! Todos a bordo, desresce a contagem regressiva, ativam-se os gigantescos motores do Saturno V, foguete que leva na ponta o módulo Apollo, e cheia de combustível e esperança a imensa nave se eleva no ar…

Três dias de viagem claustrofóbica e tem início o processo de alunissagem: enquanto o módulo de comando circunda o satélite natural da Terra, o módulo lunar, chamado Eagle, desprende-se e desce à superfície. E então o primeiro drama: com apenas 2% de combustível restante, Armstrong ainda não encontra um terreno propício ao pouso, que só se dá nos derradeiros segundos antes da tragédia. “Houston, o Eagle pousou!”, diz. Abre-se a escotilha e estamos cara a cara com a Lua! É quando o comandante desce pela escada e, ao pisar no poeirento solo lunar, profere a frase histórica: “Um pequeno passo para o homem, um gigantesco salto para a humanidade”.

Pequeno passo… gigantesco salto… Tudo muito relativo quando se trata de viagens espaciais. Este feito fantástico cobriu a ínfima distância de um segundo-luz. Quase nada quando se sabe que a estrela mais próxima, Alpha Centauri, está a quatro anos-luz, ou trinta e oito trilhões de quilômetros, da Terra. Na velocidade atingida pela Apollo 11, de 8.300km/h a viagem até lá levaria mais de quinhentos e vinte mil anos. Mas, sendo o universo o mistério insondável que é, tudo é possível. Talvez se descubram formas de vencer esta lonjura com as quais hoje nem sonhamos. Afinal, o principal já foi feito: Armstrong deu o primeiro passo.

Elcio Thenorio é jornalista, concurseiro e um amigão

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‘Bohemian Rhapsody’: filme de fã

por Silvia Pereira    

Um dos títulos concorrentes ao Oscar 2019 de Melhor Filme, “Bohemian Rhapsody” é, antes de tudo, um filme de fã. Uma cinebiografia “baba-ovo” total do grupo de rock inglês Queen. E digo isso “pagando pau”, porque… SIM!… estou entre os mais fervorosos fãs da banda que revolucionou o mercado fonográfico com a gravação, em 1975, do hit homônimo ao filme.

Ainda hoje me arrepia ouvir o vocal a capela que introduz “Bohemian Rhapsody” (“Is this the real life / Is this just fantasy…”). Igualzinho ao que senti na primeira vez que a vitrolinha verde de casa reproduziu os discos da banda, que minha irmã trouxe emprestados de um vizinho. Eu devia ter uns 9 anos de idade e, desde então, as músicas do Queen, com seus arranjos malucos e vocais grandiosos, vêm ocupando uma posição majoritária na trilha sonora da minha vida, fabricando e evocando memórias afetivas.

“Bohemian Rhapsody”, a música, tem 6 minutos (impensáveis para a época) de duração, solos de guitarra do rock, vocais operísticos, “trama de tragédia grega e a alegria descontrolada do teatro musical”, nas palavras do vocalista Freddie Mercury, sobre quem a cinebiografia, de fato, se detém.

Mas este clássico maior – longe de ser o único do Queen – não é a única justificativa para o filme de Bryan Singer compartilhar seu título. “Rapsódia” era como os gregos antigos chamavam trechos de poemas épicos e hoje define um tipo de composição musical que tem a mistura de ritmos e temas como principal característica. Épico é um adjetivo que se ajusta perfeitamente ao estilo megalômeno de criação, de Mercury em particular, e de todos os Queen em algum grau. E mistura… bem… quem conhece o som sabe como isso tem tudo a ver com os caras. Já “boemia”, no sentido clássico do termo, foi o estilo de vida ao qual Mercury entregou-se de cabeça, segundo o filme tentando anestesiar-se da paradoxal solidão da fama.

Rami Malek como o vocalista Freddie Mercury, sobre quem a cinebiografia, de fato, se detém

A primeira cena já entrega que ele será o foco principal da narrativa. O olhar de Rami Malek, assustadoramente parecido com o do músico, ocupa a tela toda. A câmera vai abrindo e passa a segui-lo até ele se materializar nos bastidores do show que, saberemos mais tarde, será um marco na história do grupo.

Daí em diante a narrativa segue uma ordem cronológica, que começa quando Mercury, Brian May (o guitarrista) e Roger Taylor (baterista) se conhecem – o baixista John Deacon foi o último a subir a bordo. O som de fundo dessa overture é a também fodástica “Somebody To Love”, do disco “A Day At The Races” (1976).

O recorte temporal segue até o tal show para o qual Mercury se prepara nas primeiras cenas. Entre um e outro estão as histórias de seu primeiro e grande amor (hétero), o processo de criação de “Bohemian Rhapsody” (os fãs vão babar), as desavenças entre os membros do grupo e os excessos que levaram o vocalista ao diagnóstico de Aids em um tempo anterior ao coquetel medicamentoso que hoje prolonga a sobrevida dos soropositivos.

Ben Hardy, Gwylin Lee, Joseph Mazello e Rami Malek são Roger Taylor, Bryan May, John Deacon e Freddie Mercury no filme: caracterizações perfeitas

Feitos todos os descontos aos resumos inevitáveis – afinal é preciso fazer caber mais de 20 anos em 2h15 de filme -, Bryan Singer saiu-se muito bem na costura da “colcha de retalhos” formada pelas histórias da história de Freddie Mercury e o Queen. Embora o foco mantenha-se o tempo todo no vocalista, as cenas dão conta de destacar, usando detalhes, as principais características de cada integrante: Taylor é o esquentadinho namorador, May o virtuoso disciplinado e Deacon o quieto conciliador. Todos abertos ao experimentalismo e à ousadia, musical e midiática.

O humor é inglês (adoro!). E como em um autêntico filme de fã, a romantização é a tônica. Por isso a narrativa apenas sobrevoa o lado controverso da personalidade de Mercury – os excessos com álcool, sexo e drogas são sutilmente citados, embora muito bem entendidos – e um pouco de equilíbrio se perde nessa simplificação. O que se sobressai é a grandeza do legado musical de Mercury, o que é legítimo, mas eleva-o a uma dimensão menos humana. E o barato de biografias é justamente humanizar os ídolos, mostrando-os com todos os seus defeitos e qualidades. Aqui o fã é levado a relevá-los.

A  atuação de Rami Malek, vencedor do Oscar de Melhor Ator pelo papel (também levou o Globo de Ouro), é muitíssimo convincente. No entanto, é preciso desculpar o desconforto que ele demonstra, em algumas cenas, com a prótese que usa na boca para reproduzir a dentição pródiga de Mercury.

Todos os atores estão impressionantemente parecidos com os músicos que interpretam. Fizeram direitinho o dever de casa, imitando trejeitos, modo de falar, tocar, movimentar-se no palco…

E a trilha sonora… ah, a trilha sonora!!! É Queen, né?! Ame ou odeie, indiferente  não é possível ficar. Faz o fã sair do cinema direto para o local mais próximo onde possa ouvir os sucessos preferidos da banda no último volume.

Aliás, é o que vou fazer em 3, 2…1.

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Morre Uma Estrela

por Cleido Vasconcelos

Antes de mais nada, seria de bom tom de minha parte avisar que eu sou super a favor da pirataria. Acredito que é através dela que derrubaremos a hegemonia midiática, tanto baixando músicas e filmes de grátis, quanto produzindo e postando em plataformas digitais, músicas e filmes. Com isso, a industria cultural cairá na real e passará a fornecer conteúdo, se nao de graça (patrocinado), pelo menos por um preço bem acessivel. Preço este que vai fazer com que eu tenha preguiça de baixar filme, procurar legenda, ver se tá sincronizada e resolva assistir por streaming. A conclusão de tudo isso será que as estrelas morrerão enquanto star system tradicional de hollywood. Nada mais de fazer um filme por ano e ficar coçando e gastando os zilhões de dolares que ganhou com ele. Morre uma estrela e nasce uma atriz do proletariado. Aquela com carteira assinada com contrato CLT e longe de sonhar com algum tipo de aposentadoria antes dos 120 anos de botox, preenchimentos e pilates.

Posto tudo isso neste prólogo, seria mais de bom tom ainda dizer, de minha parte, que eu paguei R$18,90 para assistir este filme pelo serviço de streaming do iTunes. Sim, sim, eu sou uma dessas pessoas que baixavam filme enlouquecidamente, mas que parou bastante com isso pq tem mais preguiça de procurar uma legenda que funcione e uma cópia digna de qualidade, do que de pagar o streaming. Se bem que 18, 90 eu acho muuuito caro e, por incrível que pareça, isso pode ter ajudado a influenciar no resultado final do que eu achei sobre este filme.

Já teve quatro versões de Nasce uma Estrela, eu procurei lá no google, eu só vi a da década de 1970 com a Barbra Streisand e essa agora. Confesso, não sou muito fã de musicais. Quando é um musical igual a este em que a pessoa é uma cantora e só canta nas horas que ela está cantando eu ainda dou conta. Mas aqueles em que alguém tá almoçando e diz, Me passa a salada? E o outro responde, A salada? E já sai cantando e sobe em cima da mesa e os garçons dançam sincronizados, eu tenho muuuuuuuuita dificuldade em dar conta. A exceção desta minha regra fica com Sweeney Todd do Tim Burton, Hair do Milos Forman, Moulin Rouge do Braz Luhrman e The Wall do Alan Parker.

“E a Lady Gaga vcs sabem né? Ela é foda! Mais do que isso, ela é fodástica”

Eu me lembro que eu meio que gostei da versão da Barbra de 1976, apesar de estar no apogeu de minha juventude pré-universitária roquenrol alternativo pink floyd psicodelico progressivo futurista e músicas da Barbra Streisand nao ser lá o que uma pessoa como eu era naquela época gostar de ouvir. Então, nunca me empolguei muito com os nascimentos das estrelas no interior das Nebulosas.

Mesmo assim, resolvi assistir esta nova versão por três motivos. Primeiro que falaram muito bem dela. Segundo pq minha filha insistiu muito e passou as férias inteiras querendo que eu assistisse pagando o streaming da apple tv. E finalmente e o mais importante, pq tinha a Lady Gaga. E a Lady Gaga vcs sabem né? Ela é foda! Mais do que isso, ela é fodástica. Admiro a estratégia dela de começar cantando com vestidos feitos de carne fresca e outras exotices e terminar (por enquanto) gravando um disco com o Tony Benett só com standards do cancioneiro norte americano e arrasar e mostrar pra todos a puta voz que ela tem e a cantora que ela é. Então la fui eu ver o filme, com o pequeno agravante de ter pago 18,90 e isso me deixar meio q desconfortável e intolerante para aquilo que eu nao tolero.

Gostei muito do começo do filme, intimista, a maneira com eles se conhecem, a boate e a homenagem ao fiel público drag da lady. Chorei com ela cantando La Vie en Rose, chorei quando ele chama ela ao palco. Mas depois, a fonte secou. Achei o filme beeeeem comprido. E acho q ele tem uma barriga fenomenal no meio que faz vc pensar de tempos em tempos em que hora que o carinha lá vai conversar com o Kurt Cobain. Outra coisa que ajudou bastante e eu ja tinha avisado vcs no inicio deste texto, é que eu não suporto muito estas canções norte-americanas que são feitas pra ganhar o oscar de melhor canção e ganham quando não tem algum desenho da disney no páreo. Eu não gosto do jeito que a Lady Gaga canta no filme, das canções. Aquilo nao me emociona. Gosto mais das músicas do começo que o ensebadinho (alguém podia passar um pó compacto naquele moço roqueiro please?) canta. Não sei, nao sei se foi os 18,90, mas nao shipei o casal. Entendo até que o moço se beber nao case é bonito e precisava dar uma estragadinha no visual dele pra ficar mais outsider roquenroll. Entendo também que é o mesmo filme de sempre de hollywood para ganhar oscar que quando ganha a gente diz, Ah, é filme de oscar, por isso ganhou! Entendo tb que é um filme que arrebatou milhões de gente e de dinheiro e que, por isso, é um excelente produto da industria a que pertence. Mais entendo ainda que é uma história que, a essa altura do campeonato, já é arquetípica e que essa versão nada mais é que the same old story atualizada para as gerações atuais (reparem por exemplo que, agora, o nascimento de uma cantora também envolve coreografia intensa com as bailarinas de palco). O final é bonito pois ele consegue evitar a overdose de melação post mortem que se costuma derramar nos filmes deste estilo de hollywood. O close no rosto dela suave e triste conseguiu recuperar, pra mim, uns quatro pontos na escala Cimino’s Portal do Paraíso de flopagem de películas.

Mesmo assim, não consigo ver um acréscimo que este filme possa ter feito às outras versões da mesma história. Mas aí eu me pergunto, Existe realmente a necessidade, em um filme, de se acrescentar algo na história do cinema? Um filme não pode ser apenas entretenimento? E eu respondo, Sim, um filme pode ser apenas um filme. E digo mais, sempre que eu começo a pensar nisso é pq o filme realmente não me arrebatou. Pois, lembre-se, eu não gosto de musicais, não gosto destas musicas que se cantam em duplas estilo jane e herondy e eu ainda paguei pra ver este aqui. Assisti completamente contaminado pelos meus proprios juízos de gosto e preconceitos. Portanto, pessoas queridas, o problema de eu ter achado tudo meio que meia boca inteira, com certeza, é meu e não do filme.


Cleido Vasconcelos
é artista visual, performer, professor e cinéfilo

http://cleidologoexisto.com/category/cleidonetflix

www.facebook.com/cleidonetflix/

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‘Vice’ vale cada indicação

por Thiago Roque     

O diretor Adam McKay colecionou elogios com “A Grande Aposta”, filme que destila sarcasmo e referências pop para explicar como os Estados Unidos quebraram financeiramente em 2008. Entre explicações sobre o quase incompreensível mercado norte-americano e definições econômicas criadas para serem inteligíveis, um elenco pra lá de competente mostrava como o cinismo, a ganância e o imediatismo criaram uma crise sem precedentes na terra do Tio Sam

Bom, “Vice” repete e melhora a fórmula na maneira de apresentar os fatos – agora, sobre a história e as histórias que cercam Dick Cheney, famoso político republicano que foi vice-presidente no governo George W. Bush (2001-2009).

Primeiro, os cortes de cena e as referências explicativas surgem mais equilibrados, com mais timing e menos exagero cinematográfico – tem uma cena com os protagonistas num jogral shakespeariano que é prova viva disso.

Segundo, o elenco à disposição entrega atuações pra lá de convincentes – Christian Bale arrasa em todas as fases de Dick; Amy Adams também faz por merecer cada elogio na pele de Lynne Cheney; e Sam Rockwell entrega um Bush-filho caricato e tão imbecil que é impossível não se divertir.

Christian Bale arrasa em todas as fases de Dick

Não à toa, os três estão indicados ao Oscar – Bale como Melhor Ator, Adams como Melhor Atriz Coadjuvante e Rockwell como Melhor Ator Coadjuvante. O estilo de McKay trouxe as indicações para Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original e Edição. De quebra, o longa completa suas oito chances da estatueta dourada com Melhor Maquiagem e Penteado – igualmente merecido, aliás.

Ah, é verdade, quase me esqueci: “Vice” vale cada indicação.
Muito por trazer à tona os mandos e desmandos de um vice-presidente que, nos bastidores, se recusou a ser um mero espectador da política norte-americana. E o fez por causa de sua trajetória: um jovem problemático, beberrão, que estagiou com figuras mais folclóricas do que competentes no Congresso dos Estados Unidos e foi, pela lealdade, se mantendo nas entranhas do poder em busca de uma redenção que nunca mereceu. Deixou como legado um gabinete pautado pela falta de transparência, a atuação pós-ataques do 11/9, a desnecessária Guerra do Iraque e, acredite, a gênese do Estado Islâmico.

Não bastasse todo esse menu político como espinha dorsal, Christian Bale coloca a película em outro patamar cinematográfico falando pouco e sendo muito. Conforme vai perdendo cabelo e ganhando (muito!) peso, distribui um sem-número de poses, sorrisos e trejeitos que parecem ter sido forjados com o personagem – ao ponto de, numa cena, um diálogo de Cheney com a mulher é feito durante a escovação dos dentes! E o único discurso mais longo do personagem é um mea-culpa ao avesso no melhor estilo “House of Cards”, mas já no final da fita.

“não é um filme fácil, de humor sandleriano e que vai entregar
a você uma biografia completa e mastigada do político republicano”

E ao mesmo tempo em que humaniza o político impopular (aqui, entram as cenas com a filha Mary), Bale mostra o motivo de Cheney ser uma pessoa tão criticada e tão pouco querida pela sociedade. E acredite: nada sobrevive à necessidade de ser relevante – nem mesmo o próprio Dick Cheney. Qualquer chance de torcer pelo político é encerrada logo depois de você pensar em simpatizar com ele, fique tranquilo(a).

Mas não se engane: “Vice” não é um filme fácil, de humor sandleriano e que vai entregar a você uma biografia completa e mastigada do político republicano – e isso pode jogar contra o sucesso do longa. Prepare-se para receber recortes da história de Dick Cheney – logo no começo, o diretor avisa que ele o elenco fizeram o melhor possível.

Talvez o suficiente para você clamar pelo “Volta, Temer”.

 

Thiago Roque é jornalista, cinéfilo e dono de um humor “ogro” engraçadíssimo!

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‘Poderia me perdoar’ rende assunto

por Márcia Intrabartollo

Seja precavido, recomende a seus amigos que assistam “Poderia Me Perdoar?”… e assista você também. Isso pode salvá-los. No dia que em que estiverem juntos e o assunto começar a faltar, essa dica do Palavreira será valiosa.

É que o filme que tem indicações em três categorias do Oscar 2019 – Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Adaptado – é um dos favoritos no quesito “rende assunto”.

O roteiro é a adaptação do livro homônimo sobre a escritora Lee Israel, famosa das décadas de 80 e 90 que, em um revés da vida, virou sua casaca para o legalmente incorreto e passou a vender supostas cartas de celebridades a colecionadores.

O filme perpassa, então, temas diversos: ética, mercado de trabalho na meia idade, os impactos desesperadores da perda do poder aquisitivo, solidão, bloqueios criativos, relações de afeto com animais, simbioses nas amizades, busca de reconhecimento, perdão, recomeços…

A atriz Melissa MacCarthy, que interpretou a protagonista, surpreendeu com sua atuação dramática, sendo comediante. Teve a seu favor uma direção e roteiro que conseguiram fazer com que a anti-heroína conquistasse o público, e também o ator Richard E. Grant, que encarnou muito bem Jack, o amigo meio oportunista da escritora, e pode sim emplacar como Melhor Ator Coadjuvante.

A ironia da indicação está em Melissa MacCarthy brigar pela Oscar de Melhor Atriz ao mesmo tempo em que corre o risco de ser escolhida como a Pior Atriz por sua atuação em Crimes em Happytime. Isso mesmo. O prêmio humorístico Framboesa de Ouro, aquele que faz paródia com o Oscar e celebra os piores filmes e performances do ano, dará a Melissa essa chance, amargura, publicidade ou piada pronta. Se for eleita nos dois prêmios, igualará Sandra Bulock, que conseguiu tal feito em 2010.

A vida se imbricou com a arte e a embelezou ainda mais, relativizando o que é ser bom profissional, misturando comédia e drama, mostrando-se como é, com altos e baixos… é a vida imitando a arte ou a arte imitando a vida?

Opino que o filme Poderia me Perdoar? surpreende pelo enredo e atuações, mas se leva um tantinho arrastado, e em algum momento parece perder o timming. No entanto, eu consegui sentir o cheiro do apartamento sujo de Lee Israel e até poderia ter limpado de minhas mãos a poeira dos papéis velhos.

Se para mim, acima de tudo, um filme vale a pena se faz pensar, qualquer outro deslize, eu posso perdoar.

 

Márcia Intrabartollo é jornalista, aprendiz de escritora, peregrina mundo afora e amiga querida

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