Categoria: #crônicasdeacidentada

Crônicas relacionadas ao período de recuperação de um acidente sofrido pela autora.

Gratidão: um legado

Ontem me emocionei assistindo na TV a depoimentos de pessoas que se recuperam da covid-19. Só quem passou por convalescenças extremas entende o sentimento genuíno de gratidão que vem a cada pequena reconquista de saúde.

Eu sei porque, antes da quarentena do novo coronavírus, eu tive a minha própria entre os julhos de 2016 e 2017. Um acidente de moto, que me quebrou ossos nas duas pernas, provocou imobilidade física e isolamento social forçados. Assistir ao mundo seguir seu curso normal pela TV enquanto mergulhava numa rotina de dores, medicamentos e exercícios fisioterápicos diários não pesou tanto quanto a dependência física total de terceiros – para tudo… banho, alimentação, evacuações e até uma simples troca de posição na cama. Lembro-me de refrear minha sede no período da noite para tentar limitar as idas ao banheiro na madrugada. Assim, com sorte, não sacrificava tanto o sono de meu marido, mesmo ele acordando sempre tão pronto a me ajudar a passar da cama para a cadeira de banho, na qual me empurrava até o banheiro social da casa de minha irmã – ficamos hospedados lá durante meu período de imobilidade total porque o condomínio de nosso apartamento não tem elevador. Como a cadeira de banho não deixava a porta do banheiro ser fechada, Márcio tinha que ficar de guarda no corredor de acesso aos quartos para proteger minha privacidade do direito de ir e vir de nossos anfitriões.

Ainda lembro do quão grata fiquei no dia em que a fisioterapeuta domiciliar me ensinou a técnica de me virar sozinha na cama, com manipulação metódica de travesseiros; de como me emocionei às lágrimas na primeira vez em que consegui, amparada no andador, me encerrar sozinha dentro do banheiro – as pessoas subestimam o valioso privilégio da completa solidão em um sanitário! Também me lembro do amor que senti pelos raios de sol me atingindo inteira – não só um pedaço da perna deixado à luz da janela aberta – em minha primeira saída para o médico em 40 dias de reclusão.

Cada pequena reconquista de mobilidade individual inundava de hormônios de felicidade minha química cerebral, àquela altura calejada pela consciência do quão hostil pode ser o mundo para usuários de cadeiras de rodas, andadores e muletas.

Por tudo isso sei exatamente o que devem sentir os infectados por covid a cada segundo que conseguem respirar sem ajuda. Imagino a alegria deles ao sentirem o primeiro aroma ou sabor após um período prolongado sem olfato e paladar,  mas, principalmente, saber que sobreviveram para mais natais e aniversários em família.

Só não sei o que deve ter sido passar pela convalescença longe de seus entes queridos, pois conheço o valor de ver a pessoa amada chegando em um sorriso quando você está numa cama de hospital; a mão de seu companheiro segurando a sua no momento de maior dor; uma conversa normal, cheia daquelas senhas femininas de praxe, com as amigas que não via há semanas!

Ah se soubessem o valor que tem tudo isso as pessoas que teimam em se aglomerar nas praias e bares a desdenhar a importância da emergência de saúde pelo qual passa o mundo!

Penso que a gratidão por tudo o que tivemos sem a consciência exata de seu valor será o maior legado dos sobreviventes desta pandemia. Espero que ela floresça para além dos corações afetados pela doença física, pois nosso mundo nunca esteve tão necessitado dela!

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Cinco centímetros

Meu mundo encolheu.

Ficou pequeno de repente ou será que está assim faz tempo e só me dei conta agora? Neste exato momento em que escrevo ele tem o tamanho do primeiro salto fino de 5 centímetros que coloco em quase dois anos.

Sei que ele tomou esta dimensão porque, pelos cerca de 200 metros caminhados entre o estacionamento de veículos e minha mesa de trabalho, equilibrar-me sobre aqueles finos 5 cm tornou-se o propósito da minha vida.

Não tinha me dado conta disso até chegar arfando ao destino.

“Correu Silvia?” – perguntou minha colega de trabalho ante meu descontrole respiratório.

“Quem me dera”. Andei foi bem devagarinho, cuidando de cada passo, esquadrinhando cada centímetro quadrado de piso antes de depositar sobre ele meu equilíbrio vacilante de acidentada.

Arfava era de algum tipo de emoção que não sei se consigo explicar… uma melancolia de finitude, como uma nostalgia de um sonho que, realizado, não parecia mais tão… sonho.

Talvez porque foi ali que me dei conta do tamaninho do meu mundo.

Lembrei-me do Du e da Clara, que acabaram de vender tudo o que tinham no Brasil para mudar-se de vez para a Espanha (isto sim de tirar o fôlego)… do querido Marcelo, vivendo há 20 anos em Londres a administrar saudades que mata por 30 dias ao ano… de minhas amigas, que já trilharam o Caminho de Santiago de Compostela e a Via Francígena, na Europa, e agora fazem planos de uma viagem ao Chile.

E eu limitando os meus a conseguir equilibrar-me sobre um salto fino de mulher.

Agora entendo o frio na barriga sentido quando me convidaram pra tal viagem: estava tão quentinho ali, encolhidinha que estava dentro de meus “não-planos” (aqueles que se faz quando não se tem plano algum) de voltar a usar salto ou decidir se poupo para trocar de carro ou faço reserva para um hipotético futuro desemprego!

Quando foi que fiquei tão pequenininha?

Será que consigo crescer de novo?

Barriguinha, prepare-se! Acho que vou levá-la (com frio e tudo) ao Chile.

 

* Publicada no jornal A Cidade em 15/2/2018

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‘É o que tem para hoje’

Desfilava, re-desfilava, tirava sapatos, calçava chinelos, trocava palmilhas e voltava, teimosamente, a desafiar seu reflexo no espelho, ensaiando duas, três, quatro, cinco, dez vezes a marcha manquitola.

Ruminou essa fixação por alguns dias após pegar o resultado da última  escanometria – exame radiológico que mede o cumprimento exato de cada perna.

Não acreditou de primeira no laudo: “Como assim encurtamento de 2,4 cm da perna esquerda em relação à direita?” Pois não passou um mês inteiro arrastando (literalmente) um ferro extensor acoplado ao fêmur para forçá-lo a alongar-se? “Não, não é possível, não pode ser verdade”, falava para si mesma.

Mas era!

O exame, seu médico – e o espelho – confirmaram: duas cirurgias, uma infecção e três meses de fisioterapia depois, o ganho foi de apenas 4mm de alongamento.

E pensar que foi preciso quebrar (propositalmente) o fêmur uma segunda vez, para que suas duas partes fossem forçadas a se separarem 1 cm por dia…! O vão entre elas deveria ser preenchido com calcificação natural, mas, segundo o ortopedista, a haste de titânio que sustentava o osso desde o acidente não conseguiu impedir que  voltassem a colar antes do preenchimento.

Depois da negação, veio a frustração – e uma pitadinha de auto-piedade, vá, que ninguém é de ferro! -, mas não demorou a chegar à fase seguinte: aceitação.

Agarrou-se ao lema do último ano e meio de recuperação do acidente – “é o que tem para hoje” – e passou à ação.

Começou por concluir um exercício de desapego que iniciara antes do exame: devolver todos os acessórios que a ajudaram a se locomover durante a recuperação – cadeira de banho, andador, par de muletas.

Como ainda necessita de apoio para subir degraus e transpor obstáculos de calçadas, concedeu-se o uso de apenas uma muleta, mas, para se compensar, comprou uma da cor preferida – um lilás vivo que chama atenção há uns dois quarteirões de distância, pra desespero da amiga fashionista-clássica.

Agora está empenhada no trabalho interior de administrar a própria vaidade feminina ante as perspectivas de mancar para sempre e de nunca mais permitir-se um impulso de comprar qualquer sapato lindo de uma vitrine qualquer. De agora em diante, só calçados que possam segurar palmilhas e suportem adaptações em um salto – é isso ou sofrer mais dores na coluna desalinhada pelas mancadas.

Como boa aprendiz de Pollyanna, quando sente aproximar-se a auto-piedade (esse atraso de vida!), evoca o mantra da gratidão – por andar, por manter autonomia de locomoção, por ter saído viva de tão grave acidente -, respira fundo e dá as costas para o espelho.

Afinal, “’é o que tem para hoje”!

 

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Olhares falantes

Nossos olhos se encontraram assim que me sentei em uma das cadeiras na recepção da clínica fisioterápica. Elas ficam dispostas em fileiras, umas viradas para as outras, talvez para forçar a interação entre os pacientes – mas o que costuma acontecer é de todos ficarem passeando as pupilas, nervosa e artificialmente, por tudo o que não forem “os outros”.

Ele não. Já devia estar me observando há alguns segundos quando meu olhar foi atraído pela insistência do seu. Nem piscou quando finalmente o notei. Continuou a me esquadrinhar com naturalidade e até um certo sentido de direito.

Mandei-lhe uma piscadela.

Ele não reagiu logo, mas o risquinho que era sua boca relaxou levemente no esboço de um “quase sorriso”.

Continuou a me encarar tranquilamente, como se eu não percebesse, e assim permaneceu mesmo quando desloquei minhas pupilas num olhar vesgo.

Desta vez o desenho de um sorrisinho foi inequívoco e passamos então a uma “conversa” sem falas, feita só de pequenas contrações musculares de rosto: um arquear de sobrancelhas como interrogação, um enrugamento de nariz em aprovação, uma tremidinha de olhos – como a de meus gatos quando me acarinham de longe.

Tudo à vista de todos, mas de ninguém ao mesmo tempo, já que “os outros” continuavam a se ocupar de seus esforços em ignorarem-se mutuamente.

Entramos assim numa “bolha” só nossa, feita de compreensão silenciosa.


Entramos assim numa “bolha” só nossa, feita de compreensão silenciosa


Sempre tive facilidade em atrair o olhar de crianças em lugares públicos. É como se eu ocupasse junto com elas uma dimensão especial, como se a criança que sobrevive em mim fosse reconhecida e cumprimentada. Assim foi com aquele menino de óculos grossos e perninhas atrofiadas que agora me acariciava com um meio sorriso e olhar de curiosidade.

Mas então um chamado nominal que ignoramos acionou sua mãe, que o empurrou do próprio colo para levantá-lo e colocar seu corpinho magro na posição de elevá-lo novamente em seus braços. E ele seguiu agarrado ao pescoço dela, mas de rosto e olhar voltados para mim, como a despedir-se em silêncio.

Retribuí com o formato de um beijo mudo nos lábios, que desta vez me valeu um indubitável sorriso de rosto inteiro, que expôs a gengiva alta emoldurando dentes encavalados.

Uma doçura de sorriso! Franco, genuíno, sem medos.

Quando eu mesma fui chamada, do corredor o vi deitado no divã de uma das salas tendo as perninhas atrofiadas manipuladas por uma fisioterapeuta. Ela lhe arrancava gargalhadas fazendo dos exercícios brincadeiras.

Um sorriso involuntário me escapou e tive vontade ir lá abraçá-lo e lhe dizer o quanto é especial. Não por ser criança e menos ainda por ser diferente, mas por se deixar amar tão facilmente.

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P Â N I C O!

Precisei de novo… Que droga!

Estava orgulhosa de mim, acreditando que havia aprendido a dominar meus medos, a ser a guerreira que todos me julgam, mas precisei de novo da muleta.

Não a de metal, que ainda ajuda minha perna esquerda a suportar o peso do corpo na troca do passo… a outra… a que usei pela última vez muito antes do acidente de um ano atrás.

Ah… como estava feliz comigo por não ter precisado durante todo o período de recuperação das fraturas!

Achei que estava no controle.

Mas o susto veio de novo, no caminho pro trabalho (de novo), no cruzamento de um semáforo (de novo).

O sinal abriu pra nós, mas a Kombi que vinha na transversal não parou – o motorista não deve ter visto o vermelho (como eu há um ano e pouco) –  nem diminuiu. Cresceu rápido para cima do banco do passageiro, onde eu estava, como o carro que me fez voar da moto há 374 dias – devo ter gritado alto, porque minha garganta ficou raspando depois, como que machucada.

Parecia aquele carro de novo.

Habilidoso na direção, o Ma acelerou e jogou nosso carro pra esquerda, invadindo a pista contrária por um segundo e meio, quase batendo nos outros veículos que vinham no sentido inverso. Mas escapou da Kombi e não bateu em ninguém!

Pro meu cérebro, bateu. Foi o acidente de um ano atrás (de novoooo!).

Meu coração disparou igual, mas o pânico foi maior… muito maior do que eu me lembrava. Maior que eu! Maior que todas as certezas que eu vinha construindo dentro de mim. E não segurei…

Ele – o pânico – explodiu de dentro pra fora numa torrente descontrolada de choro, falta de ar e taquicardia.

Chorei na frente dos outros ao chegar à redação (vergonha no nível daqueles sonhos em que nos descobrimos nus em público!).

E cedi à “muleta”… a outra… Ainda tinha em minha gaveta da mesa de trabalho, intocada por todo o último ano.

A pilulinha desceu garganta abaixo com gosto de fracasso. Cedi à p… do ansiolítico após mais de dois anos aguentando minhas dores sem pânico; após um ano exercitando a serenidade.

Mas uma Kombi me desmascarou.

Lições do episódio: não sou guerreira, não domino meus medos e não controlo p… nenhuma!

 

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B R U X I S M O (ou o que chamo de ‘enxugar gelo’)

Silvia Pereira

Sobre aquele “botão de emergência” a que me referi em uma #crônicadeacidentada… acho que foi definitivamente desligado.

Talvez porque minha parte física esteja sarando mesmo ou porque a volta ao trabalho trouxe ansiedade… o fato é que, nos últimos dias, não consegui manter a mente semi-vazia, como quando concentrada nos esforços da recuperação de meu acidente.

Prova disso foi a volta de sintomas funestos de um bruxismo severo – que durante os períodos críticos de recuperação do acidente concederam-me a graça de diminuírem.

Na última semana voltaram com força total: a aflição de ser puxada de dentro do sono por uma dor-de-cabeça terrível… ser despertada por ela… iniciar o dia cansada, como se tivesse passado a noite toda me exercitando; sentir bolsas de inchaço debaixo dos olhos; tijolos pesando sobre pescoço e o trapézio doloridíssimos – de onde, às vezes, as dores se ramificam para a cabeça toda (rosto incluso)…

Uso placa de mordedura para dormir já há uns 15 anos, mas tenho a sensação de que ela é mais eficaz em proteger meus dentes do que em amortecer o travamento de minha arcada “nervosinha” – só o que muda com o uso ou não dela é o feixe de músculos que doem, o que me leva à conclusão de que dormir “sem ela” é ligeiramente pior do que “com ela”.


“a aflição de ser puxada de dentro do sono por uma dor-de-cabeça
terrível e ser despertada por ela… de iniciar o dia cansada…”


Já me meti em tratamentos os mais variados contra o problema: de acupuntura a uma técnica inventada por profissional ribeirão-pretana que prefiro não citar (longa história). Em todos só consegui melhorar os sintomas por algum tempo.

Pesquisando a literatura disponível sobre o assunto, minha impressão é de que a comunidade médica não está empenhada em encontrar uma cura para o problema, pois conhece-se muito apenas seus sintomas e sabe-se que está  intimamente ligado ao sistema nervoso, mas não há certezas sobre suas muitas prováveis causas (de mau posicionamento dental a fatores psicológicos).

Assim, quando os sintomas pioram muito, só me resta tentar apaziguá-los com analgésicos (pobres rins e estômago!), pomadas e massagens local com eletrodos, com os quais a querida, doce e fofa Dani Ramos presenteou-me numa visita. Isso tudo  sabendo que, com o sono da noite, podem voltar a piorar.

É o que chamo de “enxugar gelo”.

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A fisioterapeuta e o gato fujão

Desde minha última cirurgia, as terças e quintas de manhã eram de fisioterapia. Em um desses dias, a fisioterapeuta que me atendia em casa extrapolou sua função para tornar-se a heroína de uma aventura entre minha família “multiespécie”.

Como eu sempre a esperava à porta do apartamento, após abrir o portão do prédio remotamente, tinha de esgrimar com as investidas de Lóki (o gato) tentando fugir porta afora. Neste dia, enquanto cumprimentava a profissional, deixei a barreira de muletas ceder um pouquinho e o danado do bichano ganhou o corredor, sumindo ligeiro escada abaixo.

Meu susto deve ter desenhado uma expressão de alarme em meu rosto – “e se ele aproveitar a abertura do portão por algum vizinho para ganhar a rua e… sumir?!”, pensei, com susto de mãe.

Já a fisioterapeuta não se alarmou nada. Mas também não teve dúvidas: sem perder seu jeito todo manso de falar e se mover, perguntou se havia algum petisco com o qual atraí-lo. Dei-lhe os biscoitinhos de carne com os quais premio os gatos vez ou outra… e lá foi ela, devagarinho, à caça do fujão.

Por sorte, Lóki não estava longe. Manso, apesar de travesso, deixou-se pegar sem debates, protestos ou arranhões. Quando a vi subindo aquela escadaria “ingrata” pela segunda vez no dia, com o gato ao colo, tive vontade de enchê-la de beijos.

Passado o susto, caímos na gargalhada. “Deixe a porta destrancada da próxima vez, que eu mesma abro sem deixar o gato sair”, instruiu a heroína, ao se despedir.

E assim ela tornou-se praticamente “da família”.

Lóki passou a se sentir à vontade para brincar com ela. Adorava escalar o sofá atrás da cadeira de onde ela supervisionava meus exercícios, para dar patadas e mordidinhas no rabo-de-cavalo às suas costas. Ela ria, encantada, e chacoalhava ainda mais as mechas de cabelo douradas de luzes (assista a seguir).

Despedidas

Na última quinta não houve sessão. Tive retorno com meu ortopedista, que me encaminhou para fisioterapia na clínica – “Há aparelhos que aceleram os resultados”, disse.

Pelo Whatsapp avisei à fisioterapeuta do Home Care que não nos veríamos mais. Seguiram-se congratulações da parte dela, agradecimentos de minha parte e despedidas de ambos os lados… Mas não fiquei satisfeita.

Faltou dizer à Fernanda Pimenta (é o nome dela) o quanto seu incentivo manso e encantador me motivou nos dois momentos em que precisei do Home Care: logo após o acidente, há um ano, e após minha última cirurgia, há pouco mais de um mês.

A Fer é uma graça! Delicadinha até para falar, com sua voz meio anasalada de adolescente, sempre demonstrou demais como ficava feliz com meus progressos. Dizia que eu era a mais aplicada de suas pacientes e que minha musculatura respondia muito rapidamente a meu trabalho.

Mal sabe ela que, em dias frios, quando minhas hastes de titânio ficavam a me lembrar de suas existências entre meus ossos, eu negligenciava os exercícios ao menos uma vez no dia – devem ser duas.

“Caxias”, eu sempre acabava confessando minhas omissões, mas acho que ela nem acreditava. “Se todos os pacientes evoluíssem assim…”, elogiava, tornando-me mais otimista a cada visita.

Portanto, não era justo que eu me despedisse sem testemunhar publicamente minha gratidão.

Obrigada por tudo, Fer. Fica com Deus!

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Um certo tipo de solidão

Existe uma solidão que não é de falta de gente, mas de experenciar uma situação que ninguém pode compartilhar com você ou imaginar como é. É como olhar as pessoas em torno de si – mesmo as mais próximas – através de um vidro que nos separa do restante da humanidade.

Eu me senti assim durante uma crise de depressão, mas então existia uma grande dor a me desconectar até de mim mesma – não me reconhecia…  passei a desgostar de tudo o que costumava me dar prazer (música, leitura, cinema, parentes, amigos…).

Mas descobri que não existem só as solidões ruins.

Durante vários períodos de recuperação do acidente senti novamente este vidro me isolando de todos – até de quem eu dependia para as mais elementares necessidades, meus cuidadores. Mas então não havia “a grande dor”, só uma grande percepção, como um estado de alerta constante.

Acho que precisamos de vez em quando dessa solidão. Com ela passei a olhar com mais atenção para as coisas do cotidiano que fazia automaticamente antes e também para as pessoas.

Re-hierarquizei o valor de tudo.

Desenvolvi uma gratidão retardatária por tudo o que podia fazer antes – e fazia no piloto automático, sem dar grande importância -, como andar rápido, correr (não fazia muito, mas deveria), dançar (adoooooro), ir ao banheiro e tomar banhos sozinha, dirigir um carro para onde quisesse… olhar – mas olhar meeesmo! – os caminhos.


“Desenvolvi uma gratidão retardatária por tudo o que podia fazer
antes – e fazia no piloto automático, sem dar grande importância”


E me fazia feliz saber que aquela imobilidade não era definitiva, que, com tempo e esforço, eu voltaria a fazer tudo.

Havia, sim, dias em que acordava triste, com um sentimento de urgência de voltar ao mundo. Eu não os evitava. Vivenciava as tristezinhas pacientemente… esperava passar. Sabia que passariam.

Passavam!

Era fácil enquanto só tinha minha recuperação para me preocupar.

Mas será que conseguirei manter isso? É a questão que tem me vindo muito ultimamente, conforme se aproxima a data da volta ao trabalho e, com ela, todos os gatilhos das antigas ansiedades.

Procuro me abastecer de leituras para a alma… tudo o que me cai nas mãos para lembrar-me que podemos escolher como viver e que teremos sempre ajuda (se a pedirmos).

Por indicação da querida Solange Bataglion, comecei a ler “Todo Mundo Tem um Anjo da Guarda”, do médium católico (sim, católico!) Pedro Siqueira.

Desde então tenho reservado o último momento de minhas orações de antes de dormir para tentar estabelecer contato com o meu. Por ora, tenho lhe endereçado pedidos de ajuda para manter os “ganhos” e administrar as perdas do último ano, mas tenho fé de que chegará o momento de só agradecer.

Que assim seja.

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‘Melhor a cada dia’

Silvia Pereira

Sempre invejei as respostas de meu colega José Manuel Lourenço àquelas protocolares perguntas “Como vai?” ou “Tudo bem?” (para a qual ninguém quer uma resposta de verdade):

“Eu estou sempre bem, estou sempre bem!”, responde nosso Mané. E está mesmo. Por escolha, vontade, chamamento, que o universo entende e obedece.

Fiz yoga, cresci no espiritismo e sou uma curiosa das filosofias que o livro “O Segredo” compilou, por isso acredito que a palavra é uma forma-pensamento com o poder de transformar a nós e nosso entorno.

Na prática, porém, eu nunca conseguia responder aos cumprimentos como o Mané. Se tentasse, tinha certeza de que me sentiria ridícula e falsa aos olhos de todos, porque não basta dizer qualquer coisa da boca pra fora. Apesar de toda teoria que eu engolia, nunca fui, assim, uma otimista – pense numa espírita sem muita fé.

Saber não é acreditar.

Daí que, concentrada na recuperação de minhas fraturas, desenvolvi uma percepção de como a melhora física respondia a meu esforço fisioterápico devagar e muito sutilmente… cada dia um movimentinho novo, uma dor um pouco menor, um músculo começando a acordar.

Tudo a conta-gotas, mas acontecendo… e eu vendo/sentindo.

Passei a acreditar que toda e qualquer melhora continuaria vindo assim, um pouquinho por dia, contanto que eu continuasse fazendo minha parte.

E veio.

De repente – e sem perceber, juro – já estava respondendo àquelas perguntas-cumprimento das pessoas com um: “Melhor a cada dia”. E sempre me lembrava rapidamente do Mané ao responder.

Eu, que sempre temia o pior, aprendia assim a acreditar no melhor.

Quase posso sentir os machucados de dentro começarem a melhorar também.

O universo encontrou seu jeito de me ensinar.

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As lições que a dor oferece

Silvia Pereira

Dia desses minha terapeuta perguntou, à queima-roupa, o que aprendi com as experiências do último ano de recuperação de fraturas nas pernas.

Emudeci. Não tinha a menor ideia.

Desde então fico esquadrinhando memórias recentes pra tentar entender o que ficou para além dos fatos.

Ontem, na volta do médico, enquanto revivia o esforço de obrigar braços e perna boa a impulsionar meu corpo escada acima, trombei com a consciência de uma das lições que as dores físicas me ofereceram (nem sempre a gente aceita o que é ofertado, que fique claro): a de conseguir manter foco no momento presente – objetivo de toda meditação.

Antes do acidente havia tantos “e se” nublando minha consciência enquanto o cérebro tocava as ações do presente no automático: e se a renda do mês ficar aquém das contas a pagar? E se o mês que vem eu não tiver mais emprego? E se eu não for suficientemente capaz? E se nada der certo… etc e etc?

Foi assim que acabei por não enxergar um sinal vermelho.

Mas lembro-me agora de que, no período pós-acidente, às voltas com dores frequentes, imobilidade forçada e dependência total de outros, meu pensamento era completamente desligado das preocupações comezinhas do cotidiano.


“Se o corpo estava fisicamente preso, a mente funcionava
liberada do peso dos “SEs” fabricadores de ansiedade e medo”


Assim, do acordar até o adormecer, eu focava única e exclusivamente nos desafios do dia: conseguir fazer todos os exercícios da fisioterapia, lidar com o trabalhoso processo de usar a comadre, suportar os medicamentos abrirem um caminho de fogo nas minhas veias, vencer os esforços e dores do banho, exercitar a paciência esperando pela ajuda necessária para fazer tudo isso.

De certa forma, era libertador acordar e sentir-me comprometida apenas com o “agora” de cada dia. Se o corpo estava fisicamente preso, a mente funcionava liberada do peso dos “SEs” fabricadores de ansiedade e medo. E como o sono era melhor!

Talvez por isso tenha sido relativamente leve meu fardo, o que faz eu me sentir uma impostora sempre que alguém elogia minha força. Não foi consciente e nem por esforço meu. Simplesmente não havia escolha. Foi como se o cérebro tivesse ligado um botão de “funcionamento de emergência” à minha própria revelia.

Ainda assim, houve momentos de rendição à melancolia e às lágrimas. Mas até esses tinham prazo de validade, pois sempre chegava a hora de ligar o foco no desafio seguinte.

Se aprendi a lição para todo sempre? Eis a questão… Hoje já me flagrei cedendo a ansiedades antigas, conjecturas de futuro… novos “e se”.

Já não sei se conseguirei reproduzir este “funcionar mais leve” quando voltar à minha rotina de antes – Deus sabe que somos convidados a nos sabotar o tempo todo -, mas é certo que não tenho mais desculpas.

Se voltar ao “sonambulismo” não será por falta de escolha, mas total incompetência.

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