Quando?

Sonhei com praia. Eu caminhava e andava de bicicleta pela areia e mergulhava no mar. E sonhei com festa. Todo mundo de roupa de praia e canga e bermuda. Sonhei com caipirinha, cerveja e abraços. E música e dança. Tinha ônibus trazendo e levando gente da festa. O moço mais bonito foi embora, entrou no ônibus sem nem olhar para atrás, no caso para mim, sem que ele tivesse me notado em momento algum. Mas tinha música e eu saí dançando até chegar em Salvador, porque nessa pandemia eu tenho sentido falta mesmo é de Salvador. Ter lido “Um Defeito de Cor”, além de ter me ensinado tudo o que eu deveria ter visto nas aulas de História e não vi, me levou para Salvador. E em cada descrição das ruas, que já existiam lá no século XIX, eu parava mais. Lia uma frase e fechava os olhos para olhar as pedras, o mar, a Baía de Todos os Santos. De olhos fechados, respirava mais fundo para sentir o cheiro do mar. E ouvir o som do Mercado Modelo.

E acordei ao me mexer, o nervo do braço se retorceu e suei frio e vi círculos amarelos e azuis, de tanta dor o cérebro quase me fez desmaiar, uma gota gelada escorria pelo meu pescoço e nem chorar eu conseguia, então fiquei deitada respirando fundo, muito fundo, cada vez mais fundo, até a dor passar, e adormeci na neve de Davos, no Sanatório de Berghof, pois é lá que tenho passado muito tempo nas últimas semanas, nas centenas de páginas de “A Montanha Mágica”, confundida pelo tempo lá e cá. Ler “A Montanha Mágica” durante uma pandemia é diferente. Fazer qualquer coisa durante uma pandemia é diferente.

Hoje é sexta? De novo estou sem me localizar nesse tempo inventado. Desde terça estou achando que é quinta. E hoje ainda acho que é quinta. Passei uma semana na quinta-feira. Alguém falou em novembro e eu ri. Mas novembro não demora? Em um dia de 2019 andei quatro horas seguidas em uma praia, tenho sonhado com essa caminhada. Andar de quinta a quinta, quatro horas em cada quinta, em algum lugar onde o vento possa bater no meu rosto, no calor de Salvador ou no frio de Davos, andar, andar e andar, além dos livros, além dos sonhos.

Link permanente para este artigo: https://palavreira.com.br/quando/

Deixe uma resposta

Seu e-mail não será publicado.