Categoria: A Loka dos Livros

Crônicas da advogada, mediadora de leitura e sobretudo leitora Luciana Gerbovic.

Ouça seu coração, já dizia a minha mãe

Durante os primeiros meses dessa pandemia não foram poucas as pessoas que me mandaram mensagens pedindo dicas de leitura, livros que pudessem fazer com que elas se concentrassem em algo que não fosse o medo. Dicas eu até dei, mas as pessoas ainda me procuravam, chateadas: não consigo ler.

Eu, ao contrário das pessoas que não conseguiam se concentrar na leitura, saí lendo feito uma desesperada, o que eu estava mesmo, em vários momentos. No ano de 2020 li 109 livros de literatura. A lista, que não fez parte de meta alguma, é grande, do tamanho da minha agonia.

No começo, quando ainda achava que ficaríamos um mês em casa e a pandemia estaria controlada, peguei os livros que mais tinha medo de ler, pela dureza do tema, e li muitos deles. Saber que havia histórias piores do que a de pessoas que ficam trancadas em suas casas para evitarem uma contaminação me ajudaria a ver que já houve, e ainda há, situações piores. Foi assim que li todos os livros, até então publicados, da Scolastique Mukasonga. Eu tinha pavor de ler esses livros que têm como tema o genocídio de Ruanda. E, eu estava certa. Depois de lê-los, eu só pensava que não era possível não ter garra para passar por essa, ou qualquer outra, pandemia. Reli “A Peste”, de Camus. Consegui enfrentar as quase mil páginas de “Um Defeito de Cor”.

Mas quando entendi que a pandemia não teria um fim assim tão próximo, tive que mudar de estratégia para não deprimir. Ainda que eu realmente ache que na boa literatura não há quase livros felizes (afinal, a gente escreve sobre aquilo que não conseguimos encarar ou dominar, sobre aquilo que dói – e aí nos comunicamos, aí nos sentimos menos sozinhos – e os momentos felizes estão longe disso), deixei a lista dos livros que me provocam medo de lado e segui por outro caminho.

E o ano virou. E as promessas das vacinas estão mais próximas. Talvez seja como ver um pouco de terra firme depois de um oceano agitado. E agora ficou difícil para mim. Passo o dia fazendo mil coisas que não queria estar fazendo, só pensando no momento de parar e abrir um livro e quando esse momento chega eu viro a página sem saber o que li na anterior. E volto as páginas. E viro de novo, sem lembrar do que li na anterior, e tento mais uma vez e ganho um buraco no peito. Já foram alguns os livros deixados na cabeceira nessa primeira quinzena de 2021. Dois terminados, não sem esforço, confesso. A tristeza que sinto é seca.

Mas aí a magia acontece. Um título indicado há anos e que não tive coragem de ler naquele momento começa a surgir no fundo da minha mente. A voz do livro fica batendo aqui no peito: leia-me, leia-me, leia-me… e depois de alguns dias sendo perseguida por essa vozinha eu decido ceder e aqui estou, dentro de um hospital em Israel, sugando cada palavra, imersa para saber o que vem na página seguinte, uma leitora contente de novo, grata por ter livros que me chamam quando eu mais preciso.

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2021

Voltei.

Considerando o número de pessoas que não conseguiram chegar em 2021 só por causa do mais novo vírus que nos assombra, voltei agradecida. Mais do que nunca. Nunca uma virada de ano foi tão comemorada. Desde março do ano passado o que mais falei para meus filhos, parentes e amigos foi: o importante é chegarmos vivos ao final do ano, minimamente sãos, física e mentalmente. O resto a gente resolve depois.

E chegamos.

Bebi um pouco e dancei muito entre as últimas horas de 2020 e as primeiras de 2021. Sozinha mesmo. Na sala. Fiz minha celebração, ainda que com todo o resto para resolver, tentando fazer com que meus filhos dançassem comigo, o que não consegui. Mas o importante era que eles estavam na sala, ao alcance do meu abraço, e pudemos nos beijar à meia-noite. O que mais desejei para eles e para todos, mais do que nos outros anos, foi saúde. Nunca também fez tanto sentido a famosa frase “o que importa é ter saúde, do resto a gente corre atrás”.

Terminei 2020 com 109 livros lidos. Uma média de dois livros por semana. Um deles com mil páginas. Nunca li tanto. Nunca escrevi tanto “nunca” em um texto só. Porque em 2020 muita coisa que nunca tinha acontecido antes na minha vida, aconteceu. Meu pai, que nem gripado eu tinha visto, em um entra e sai de hospitais. Minha mãe com passos lentos e olhar cansado. Meu braço direito paralisado de dor. Eu na cozinha fazendo comida. Meu marido em casa em uma quarta-feira à tarde. Uma tela entre alunos e professores, aniversariantes e convidados, entre amigos e amantes.

Se tudo doeu mais em 2020, todo pequeno ato também foi celebrado. A luz do sol que entra pela janela da sala às quatro da tarde e deixa o chão e os móveis alaranjados. O sono dos gatos nas almofadas durante uma tarde inteira. Uma xícara de café recém passado.

Assim fomos, ato por ato, página por página, passo por passo.

No dia primeiro de janeiro de 2021 meu filho mais velho me chamou no canto: mãe, agora que o ano novo chegou, a gente precisa fazer alguma coisa diferente ou pode continuar vivendo como antes? Ele estava sério. Era mesmo uma dúvida. Havíamos chegado ao ano novo, afinal. Estávamos vivos e saudáveis, meta alcançada. E agora, já que falamos tanto dele?

Agora continuamos, filho, vivendo como sempre vivemos. Tentando ser uma pessoa melhor a cada novo dia, sem deixar de olhar a luz do sol que entra pela janela, sem deixar de agradecer pelos pores do sol, sem esquecer do cafezinho no meio da tarde, sem deixar de chorar quando a garganta apertar muito.

E sem deixar de ler, não é, mãe?

Sempre. Isso sempre, meu filho.

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Vai que…

‘Meus pais, avós e tios me perguntavam o que eu gostaria de ganhar de presente nos aniversários e eu respondia: qualquer coisa que não seja mole. Porque, como toda criança pequena, eu não gostava de ganhar roupas. Pegava naqueles pacotes que se amoldavam à minha mão e já pensava: ah, roupa não. Até sapato, que vinha nas caixas, eu gostava, mas roupas?!

Então em um aniversário, eu era bem pequena, uma amiga da minha mãe me deu um pacote duro. Fiquei animada, começou bem. Abri, ansiosa, e era um livro. Um livro! Eu nunca tinha ganhado um livro de presente antes (Tereza, onde será que você está para saber disso?) e fiquei maravilhada. Porque eu gostava dos livros que tinha que ler para e na escola, mas ainda não tinha falado para as pessoas, mesmo para as mais próximas, que eu gostava dos livros. Era um livro do Monteiro Lobato com ilustrações, em preto e branco, papel jornal. Além de ler as histórias com alguma dificuldade, pois estava no início da alfabetização (meu pai e minha mãe nunca leram para mim e eu não sabia que podia pedir para eles lerem), eu também colori as ilustrações, mesmo sabendo que não era um livro de colorir. Aquele era meu livro e eu podia fazer com ele o que eu quisesse, assim como até hoje grifo e escrevo nos meus livros, para desespero de alguns.

Foi também nessa época que em um Natal, na casa da minha tia, tive outra experiência marcante. Essa minha tia era (e ainda é) casada com o homem que eu mais vi lendo na minha vida. Final de semana juntos, os paranauês rolando e meu tio sentado com a cara enfiada em um livro. Ele tinha (ainda tem) uma sobrinha da mesma idade que a minha e quando nos juntávamos no Natal ganhávamos os mesmos presentes. E, nesse ano marcante, meus tios deram primeiro o presente para ela. Um livro! Grande, capa dura, colorido, recheado de contos de fadas. Fiquei ansiosa, aquele mesmo livro logo estaria nas minhas mãos e… não foi o que aconteceu. Pela primeira vez, nossos presentes foram diferentes. Não me lembro qual foi o meu. Me lembro que era um presentão, um brinquedo bom (não é mole, não é, Luciana, gostou?), mas eu só conseguia pensar que não tinha ganhado aquele livro. Por que, eu tinha vontade de perguntar, justo dessa vez nossos presentes não são iguais? Já adulta, comprei um livrão colorido e de capa dura cheio de contos de fadas para mim. O mais perto que consegui chegar daquele que sempre achei que deveria ser meu.

Demorou para eu contar para os meus pais que eu gostava de livros. Talvez por não ver meus pais lendo, talvez por não ver quase ninguém lendo com exceção desse tio, eu não me sentisse encorajada para revelar esse amor. Quando revelei, que bom, fui apoiada. Minha mãe passou a me dar livros. Meu pai passou a dizer “sim” todas as vezes em que eu pedia livros de presente, fosse uma data especial ou não. Que alívio!

Gostar de ler quando estamos em um ambiente com poucos leitores pode ser motivo de vergonha. Michèle Petit chega a dizer que aquele que gosta de ler, nesse ambiente, pode se sentir um traidor. Todos seus amigos lá, por exemplo, com uma bola, e você chega com um livro? A família naquele auê de televisão e você querendo silêncio para ler? Michèle Petit me fez entender porque demorei para fazer a revelação. Porque mantive esse amor em silêncio por um tempo que me parece longo. Por isso, na dúvida, dê livros de presente. Vai que o presenteado está ali, em silêncio, esperando por isso.

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A Humanização

E chegamos em dezembro.

Desde março meu discurso em casa é para tentarmos chegar em dezembro com saúde. Se as crianças vão perder o ano letivo e estudar tudo de novo no ano que vem e se os adultos vão precisar se endividar para pagar as contas, são problemas que resolveremos depois. O foco nesse 2020 foi outro. Ou, dito de forma mais bonita pelo escritor Valter Hugo Mãe, no livro “A desumanização”, em trecho que me chegou pelo Whatsapp de um grupo de leitura:

Havemos de dezembrar. Dizia eu. Faltava pouco para o fim do ano. Era o meu pai, nos tempos de maior conversa, que o pedia. Depois de cada dificuldade, esperava que dezembrássemos todos. Que era prometer que chegaríamos vivos e salvos ao fim do ano, entrados em janeiro, começados de novo. A resistir.

Dezembramos, pois. Havemos de janeirar. Havemos de continuar sonhando e resistindo e insistindo. Havemos de fazer concessão ao uso do gerúndio. Havemos de aprender a desacelerar. Talvez a comprar menos nesse Natal. Quase um ano inteiro isolados em casa nos fez ver que o consumismo não tapa os nossos buracos, não? Nós precisamos que os aparelhos celulares funcionem e só. Ninguém sairá saltitante pelas ruas cheias de bolas vermelhas caindo do céu porque comprou um telefone, por mais inteligente que ele seja.  Não vamos sair dançando pela sala se usarmos este ou aquele amaciante de roupas. Vamos dançar pela sala se colocarmos uma música para tocar, ainda que dentro da nossa cabeça. E se tivermos companhia, melhor ainda. Não tem par de sapato que substitua o olhar de uma pessoa amada. Dividir um poema com uma amiga acalenta mais do que uma sacola cheia de roupas. Tente. Uma calça jeans no armário é suficiente. Por que tenho uns dez batons na gaveta se uso sempre o mesmo? Para que três aparelhos de jantar se o mais gostoso mesmo é encher a casa de gente querida e cada um que coma onde der e como der? Os pratos, cada um de jeito, equilibrados nas nossas mãos enquanto nos acomodamos no braço do sofá e até sentamos num cantinho, no chão? Quem se preocupa com pratos e copos iguais se o ambiente está tomado por risadas? Havemos de ter tudo isso novamente.

Havemos de ter vacina para todos e não primeiro para os membros do Ministério Público, como está na notícia que li hoje. Aqueles dentre os mais privilegiados, com mais condições materiais de se proteger, querendo a frente da fila. Sim, quando penso na vacina, por exemplo, eu não deixo de pensar: vai ter para os meus filhos? Porque sou umbiguista e medrosa como creio que todos humanos são. A diferença, penso eu, está na nossa disposição de todos os dias, por mais que doa, nos tirarmos do centro do mundo.

Havemos de aprender a dezembrar, todos os anos, com mais comunhão.

 

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Amém

Meu ombro e meu braço direito ainda doem, mas já consigo digitar sem fazer tantas caretas e soltar alguns ais e uis. Digito devagar, no ritmo que a dor me impôs. É como dizem: uma hora o corpo te obriga a diminuir o ritmo. Só parece que não sou inteligente o suficiente para aprender a lição de forma definitiva. Porque já fui obrigada a diminuir o ritmo antes. Morar em São Paulo talvez não ajude, onde partículas de ansiedade podem ser captadas no ar. Só que eu amo São Paulo. E aprendi a entrar em alguns lugares (quando podíamos andar pelas ruas) quando me sentia sufocada pelos passos apressados nas calçadas e pelas buzinas tocadas por pessoas à beira da insanidade: livrarias principalmente. Com café então, era como sair do inferno direto para o paraíso. Perto dos livros, a calma me toma. Cada um com seu templo.

Nesses dias de dores, tantas outras além daquela no meu braço e ombro (a pandemia não acabou, as crianças continuam trancadas em casa, nossos pais, assim como nós, seguem envelhecendo, o dinheiro nem sempre dá para as contas, continuamos matando jovens negros), sigo na companhia dos livros e das personagens que misturo com pessoas de carne e osso que conheço. Será que alguém me entende quando digo que Carolina Maria de Jesus tem segurado a minha mão em vários momentos? Estanco um grito e escuto sua voz me encorajando: vai, filha, vai… Escuto Kehinde, escuto Amina, escuto Anna, escuto minha vó Cida e minha vó Eslava, escuto minha mãe: vai, filha, vai…

Como você lê tanto, Luciana, como consegue? A pergunta que escuto quase diariamente. Você não trabalha (sim, e trabalho muito com livros)? Você não come (sim, bastante, muitas vezes lendo ao mesmo tempo)? Você não dorme (pouco, é verdade)? Você não vê tevê (quase nada)? Algumas perguntas são mera curiosidade. Algumas vêm com o peso da afronta: só uma pessoa tão desocupada pode ler tanto assim, não? Algumas vêm revestidas de receita doce:

Sabe por que você tem essas dores, Luciana? Porque você não reza.

Dei de ombros (mesmo dolorido – quiçá por falta de reza). Como já disse: cada um com seu templo. Eu já rezei com texto de Clarice Lispector. Não peço que ninguém reze comigo. Em troca, espero que ninguém me obrigue a rezar de modo diferente.

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Prescrição: clubes de leitura

Capsulite. Tendinite. Bursite. Dois mil e vintite. Parece que é tudo isso junto que tem me causado dores no ombro e braço direitos. Dores que me fizeram escrever, semana passada, “não consigo escrever o texto dessa semana.” Ler a frase que eu tinha acabado de digitar me doeu mais. Porque eu escrevo desde que fui alfabetizada. Antes de ser alfabetizada eu já escrevia na minha cabeça, o que fiz depois foi só começar a colocar no papel. Meus diários reais e fictícios e diários de personagens que eu criava. Tenho um diário até hoje guardado, que escrevi quando tinha uns oito ou nove anos, anotando detalhes de uma viagem que fiz (na minha cabeça enquanto folheava um Atlas – ai, meu ombro  –  do meu pai) para a Europa. O avião pousou em Madri, em um dia cinza e chuvoso, foi difícil conseguir entrar no ônibus que nos levaria para o hotel, a cidade estava um caos por causa da chuva.

Quase quarenta anos depois, quando fui para a Espanha também com o corpo, me despedi de Barcelona em um dia cinza e chuvoso, em que não conseguia achar um táxi para me levar até o aeroporto. Tive que me enfiar no metrô mesmo, às seis da tarde, carregando as malas, encharcada, e só cheguei a tempo porque um funcionário espanhol se compadeceu de mim e foi na minha frente feito Moisés. Quando me sentei no café do aeroporto, com tudo resolvido, para só esperar o voo, me lembrei da minha viagem ficcional. Não consegui não sorrir, pensando no vaticínio da menina para quem era tão fundamental escrever, fosse o que fosse, fosse como fosse. Essa menina que sou hoje. Se digito e a dor vai do ombro direito para o ombro esquerdo e se alastra até o dedo médio da mão direita e até a orelha direita, digitar “não consigo escrever” doeu mais. E agora, nesse exato momento enquanto digito, lembro da minha mãe me dizendo que eu parecia catar milho na primeira máquina de escrever que meu pai me deu. Uma maquininha infantil em vários tons de azul, trazida de uma viagem que ele fez a trabalho para os Estados Unidos. Ele me explicou que a máquina não tinha os acentos porque em inglês eles não existiam. Eu digitava e colocava os acentos depois, com a caneta. E pensava nessa língua que não tinha acentos. O que mais existia sem eu ter a mais remota ideia? E lá ia eu para o Atlas, para a Barsa, para a Mirador, para a biblioteca da escola. E lá ia eu experimentar a vida pela leitura e pela escrita. Como nunca deixei de fazer. A angústia e a delícia de tanto querer conhecer.

Nesse ano cheio de dores como meu corpo agora, conhecer o mundo e as pessoas por meio de tantas páginas já escritas ainda é o melhor remédio que encontrei, com um ganho: a existência dos clubes de leitura, os quais conheci só na vida adulta. Se ler sozinha já melhora as dores, compartilhar a leitura com tantas pessoas incríveis que habitam o mundo (sim, há muitas, há tantas) faz a dor quase sumir. Pelo menos por algumas horas. O que já é muito.

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Quando?

Sonhei com praia. Eu caminhava e andava de bicicleta pela areia e mergulhava no mar. E sonhei com festa. Todo mundo de roupa de praia e canga e bermuda. Sonhei com caipirinha, cerveja e abraços. E música e dança. Tinha ônibus trazendo e levando gente da festa. O moço mais bonito foi embora, entrou no ônibus sem nem olhar para atrás, no caso para mim, sem que ele tivesse me notado em momento algum. Mas tinha música e eu saí dançando até chegar em Salvador, porque nessa pandemia eu tenho sentido falta mesmo é de Salvador. Ter lido “Um Defeito de Cor”, além de ter me ensinado tudo o que eu deveria ter visto nas aulas de História e não vi, me levou para Salvador. E em cada descrição das ruas, que já existiam lá no século XIX, eu parava mais. Lia uma frase e fechava os olhos para olhar as pedras, o mar, a Baía de Todos os Santos. De olhos fechados, respirava mais fundo para sentir o cheiro do mar. E ouvir o som do Mercado Modelo.

E acordei ao me mexer, o nervo do braço se retorceu e suei frio e vi círculos amarelos e azuis, de tanta dor o cérebro quase me fez desmaiar, uma gota gelada escorria pelo meu pescoço e nem chorar eu conseguia, então fiquei deitada respirando fundo, muito fundo, cada vez mais fundo, até a dor passar, e adormeci na neve de Davos, no Sanatório de Berghof, pois é lá que tenho passado muito tempo nas últimas semanas, nas centenas de páginas de “A Montanha Mágica”, confundida pelo tempo lá e cá. Ler “A Montanha Mágica” durante uma pandemia é diferente. Fazer qualquer coisa durante uma pandemia é diferente.

Hoje é sexta? De novo estou sem me localizar nesse tempo inventado. Desde terça estou achando que é quinta. E hoje ainda acho que é quinta. Passei uma semana na quinta-feira. Alguém falou em novembro e eu ri. Mas novembro não demora? Em um dia de 2019 andei quatro horas seguidas em uma praia, tenho sonhado com essa caminhada. Andar de quinta a quinta, quatro horas em cada quinta, em algum lugar onde o vento possa bater no meu rosto, no calor de Salvador ou no frio de Davos, andar, andar e andar, além dos livros, além dos sonhos.

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O que eu quero ser quando crescer

Passei a semana com um tema martelando minha cabeça. Vou deixar para escrever na quinta, pensei. E a quinta-feira chegou e é 15 de outubro. E como vou escrever neste dia sem falar dos professores? Porque o dia escolhido para homenagear os professores, para mim, é diferente das outras datas escolhidas para outras homenagens. Até do Dia das Crianças eu quase me esqueci, mesmo com dois exemplares em casa, mas desde ontem estou falando para os meus filhos: amanhã é Dia dos Professores, por favor, vejam como eles são importantes, peloamordeDeus, agradeçam os seus professores por eles existirem e ainda não terem desistido, digam, verbalizem, beijem os pés pela tela se for preciso, ergam as mãos aos céus, o que seria de nós, eu e vocês, sem eles? Porque nessa pandemia, mais do que nunca, eu penso nos professores e fico comovida. Agradecida. Encantada. Como fizeram meus filhos ler? Como não perderam a paciência ao ensinar a tabuada? E as caixas-lotes (quem me acompanha aqui sabe do que estou falando)? Como não jogaram papel, apagador e giz (ou pincel atômico) pro alto para nunca mais voltar?

Então penso nos meus professores. Talvez eles não tenham jogado tudo para cima para nunca mais voltarem porque sabiam que dificilmente seriam esquecidos. Porque sabiam que estavam ali para fazer uma diferença positiva nas nossas vidas. Tenho tantos professores ainda falando diariamente dentro de mim. Dona Ângela, sei até hoje as preposições e o uso da crase só de te ouvir falando. E o mais importante, aquilo que me transformou e me constituiu: a professora-ponte para a literatura. A professora que me fez leitora. Isso eu nunca teria como agradecer, então faço o que consigo: estico a ponte. Maraísa, a professora de História que me ensinou que os livros podem estar cheios de mentiras contadas por quem está e quer se manter no poder. Ela explodiu minha cabeça aos nove anos de idade. Professor Edu, se alguma coisa eu sei de Biologia, foi por sua causa, os desenhos na lousa até hoje na minha retina. O professor que lotou uma sala de aula com mais de 200 adolescentes, em uma tarde de sexta-feira ensolarada, ao falar sobre cobras peçonhentas, matéria que não estava no currículo escolar e nem cairia na prova. Gian e o exército de Napoleão desenhado nas paredes. Eram muitos para ficarem só na lousa. O professor que já tinha acabado a matéria do ano e viu um jornal sobre a mesa e disse: querem saber a história da Folha e do Estadão? Nós quisemos. E ele deu a aula ali, pensada na hora, da qual me lembro até hoje ao ler um ou outro jornal. Francis, o que me fez parecer que eu sempre entendi Matemática. Ciça, tão além do “the book is on the table”. Professor Júnior com os olhos brilhantes falando de Capitu, Lúcia falando de “Senhora”, meu amor pela literatura sempre aquecido. Professor Pasquale e a Língua Portuguesa nas letras de Gil, Chico e Caetano. O dia em que colocamos o Hino Nacional na ordem direta. Como podia um professor juntar tanta coisa boa ao mesmo tempo?, eu pensava enquanto me encantava ainda mais com a nossa língua. Elena, que mais do que Educação Física, nos mostrou nossos corpos, nossas individualidades. Foi ela, e não minha mãe, quem me falou pela primeira vez sobre menstruação. Isso é marca boa e indelével. Meu professor de Direito Civil, responsável por eu escolher minha área de atuação só por causa das aulas que nos deu. Não, ele não falou nem fez nada de extraordinário. Foi lá, durante cinco anos, pontualmente, e deu as aulas que tinha que dar, do início ao fim. Nos respondeu na hora quando sabia, nos trouxe respostas depois quando não sabia. Pessoas, do jeito que eu gosto. Como Fernando Pessoa na pele de Álvaro de Campos, eu também me cansei de semideuses há muito tempo.

E penso aqui no meu texto mais recente, no qual mencionei meu primeiro emprego, de professora de inglês. Tomo um susto. Penso nas turmas de Direito em que fui professora auxiliar, as vezes em que conduzi as aulas sozinha, aqueles estudantes todos me olhando, anotando o que eu falava, levantando a mão para me questionar, que frio na barriga de quem está viva e pensando.

E hoje nas formações de mediadores, nas oficinas de leitura e escrita para jovens eu continuo lá, nesse lugar da professora, mas sem conseguir assim me nomear. Talvez eu ainda ache que não estou à altura. Porque ser professora é grande. Grande demais!

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A sociedade do cansaço pode ficar sempre mais cansada – ou não

Eu tinha quatorze anos quando consegui meu primeiro trabalho, de professora de inglês para crianças ainda não alfabetizadas. Logo depois ganhei uma turma de crianças maiores. E depois outra. Lembro de corrigir as lições dos meus alunos durante as aulas de inglês que tinha na escola. Enquanto ficávamos no “I am You are He She It is”, a professora me dava uma piscadela e eu seguia fazendo as correções. No fim da semana eu estava bem cansada, ao que meu pai me dizia: você não tem ideia do que é o cansaço.

Dei aula de inglês até deixar a cidade em que cresci para voltar para a cidade onde nasci (São Paulo que nunca saiu do meu coração) para fazer faculdade. Logo consegui um estágio perfeito para quem estudava de manhã. O estágio na emissora de tevê começava só após o almoço e seguia madrugada adentro, fosse nas gravações de shows e eventos fosse nas geladas ilhas de edição, para onde eu levava muito café e chocolate. E tinha as gravações nos sábados, domingos e feriados. Lembro de chegar em casa após a primeira semana com aulas na faculdade, produção, captação e edição de shows e me deitar no chão da sala mesmo, braços e pernas espalhadas e olhos fechados, achando que dali nunca mais sairia. Já não morava mais com meu pai, mas me fiz a pergunta: será que agora sei o que é o cansaço? Ah, os nossos limites que sempre se alargam.

Terminei a faculdade, continuei trabalhando nessa emissora, depois mudei, era produção de tarde e de noite, edição na madrugada, um pouco de sono pela manhã, programas ao vivo nos finais de semana, fui assaltada em São Paulo, comecei a ganhar uma síndrome de pânico, resolvi estudar Direito e voltar para o interior, dei mais aulas de inglês, logo já veio o estágio na advocacia, depois a chance de estagiar em escritórios maiores na capital, não quis mudar de escola, estrada todo dia, estágio de manhã e à tarde, faculdade à noite, poucas horas de sono, achava que já sabia o que era cansaço, mas não, meu pai tinha razão, eu não tinha nem trinta anos, dava até tempo de fazer ioga, me formei, continuei no escritório da capital, casei e voltei para São Paulo de vez, onde nasceram meus filhos.

Meu riso agora (que você não está vendo, mas que está aqui no meu rosto) é de nervoso. O que eu achava que eram poucas horas de sono até então era, na verdade, um banquete. Eu ouvia as amigas falarem que com um bebê em casa a gente mal conseguia tomar banho e não conseguia imaginar como isso era possível. Afinal, o que tanto faz um bebê para impedir a mãe de um banho? (Meu riso agora cresce e sinto até palpitação). Lembro da primeira vez em que consegui lavar e secar o cabelo, meu filho com uns três meses, e da sensação de que, talvez, talvez um dia, mesmo que longe, eu teria minha vida autônoma de volta.

Meu filho mais velho não tinha nem um ano e meio quando nasceu o segundo, o bebê que chorava de três em três horas para comer, feito um relógio suíço programado por um alemão. Lembro de me deitar às vezes na cama, olhar para o marido e dizer: não é possível que esse cansaço que estou sentindo exista. Mas era, e eu o sentia. E isso que eu tinha marido, ajudante em casa, mãe, irmã, cunhada e sogra a postos, amigas, dinheiro para pagar a maioria das contas, a dos médicos incluída. Eu chorava no banho para dar um alívio ao cansaço e pensava nas tantas mulheres e mães como eu, só que sem a minha sorte e os meus privilégios. Passei a entender tantos comportamentos, mas tantos…

Sim, o cansaço foi se transformando em pânico que se transformou em depressão, que fica para outro dia, outra história, tantas outras histórias, mas meu pai me olhava e já não me falava que eu ainda não sabia o que era cansaço. Até porque sabia o que podia vir se falasse. Já enfrentou uma mãe exausta? Então.

Assim como não me falou dias atrás, quando cheguei para passar uns dias com ele e minha mãe, carregando filhos, sacolas, livros, apostilas, malas, mochilas de escola com as lições vencidas e vincendas, computador para as aulas, cronograma de cada um, mais o meu, revezamento de computador e celular para todo mundo poder fazer o que tem que fazer pela tela, agora você tem aula, depois é a minha reunião, mil e quinhentas mensagens no Whatsapp a cada duas horas, agora quem tem aula é você, depois eu dou aula, enquanto eu dou aula ninguém me chama peloamordasdeusas, e depois das aulas saiam da tela, nosso cérebros vão derreter e nossos olhos ficarão quadrados, não é possível que isso vá acabar bem, mas, mãe, a gente sai da tela e vai pra onde agora? Nós também estamos cansados, mãe.

Não. Não digo para eles que ainda não sabem o que é o cansaço. Dou um abraço, me permito chorar um pouco. Estamos todos muito cansados, eu digo, vamos fazer o possível, fazer o que dá para fazer agora, pegar um livro cada um, por exemplo, deitar juntos na cama, cada um com seu livrinho, uma viagem individual que pode ser compartilhada, leio um pouco e te conto um pouco, você lê e me conta, e a ficção vai entrando e conversando com a realidade, o que é uma e o que é outra, e o corpo vai esquecendo do cansaço, a cabeça vai para longe e volta, vai e volta, e tem risada e tem mais choro e estamos juntos – estamos juntos.

O que acham dessa ideia, hein?

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Cinco caixa-lotes e um abraço

Nunca precisei estudar muito Língua Portuguesa e História para tirar boas notas na escola. Eu prestava atenção porque gostava das aulas. Sei lá como isso se dá. Só sei que me lembro perfeitamente das aulas de alfabetização, mesmo com a vovó viu a uva. Para cada letra do alfabeto minha professora criou um personagem. Fez os desenhos no papel, pintou, plastificou e colou cada um em um espetinho de madeira de churrasco. Uma espécie de fantoches. Lembro que a letra “b” era uma bailarina. O corpinho delgado era a parte alongada do “b”. E um dia a bailarina se encontrou com o índio, corpo magrelo como o da letra “i” e juntos foram passear num “bi”. Fiquei maravilhada com esses encontros que de bi viraram bicicleta, bisteca, biblioteca e por aí vai, por aí fui.

Nunca tive dificuldade para entender a crase. Artigo mais preposição (sei ainda de cor toda a lista das preposições) sempre fez sentido para mim, assim como as frases subordinadas. Adorava fazer análise sintática. Com História era a mesma coisa. Não entendia o sofrimento das amigas que não entendiam História. Nem sei se um dia achei que havia algo para ser entendido, mas não é divertido saber o que aconteceu, como aconteceu? Não, muitas me diziam. E trocávamos lições e trabalhos de História pelos de Matemática e Física. Até hoje não me conformo que eu precisava ficar calculando quando o carrinho A encontraria o carrinho B na estrada X se A estivesse a sei lá quantos quilômetros por hora e B blá blá blá. Uma hora encontra, professora, eu queria dizer, e aí faz tchauzinho e tá resolvido.

Cheguei a tirar meio em uma prova de Física. Meu pai, depois de se recuperar do quase enfarto, disse que o meio ponto foi por eu saber meu nome (hoje talvez nem isso eu conseguiria). Mas a professora me chamou e me fez uma proposta: se eu te der uma nova prova, você estuda? Porque ela percebeu que eu realmente não estava nem aí para a Física. Aceitei a proposta, honrei a chance e tirei dez. Mas meu sangue continuou só borbulhando pelas Humanas. Se acho importante passarmos por tudo? Claro. Me arrependo de não ter estudado mais Matemática e Física (e Biologia também, vai)? Não. Mas a vida, ah, a vida…

Se a crase fazia sentido para mim, o mesmo não se dava com as operações com frações, por exemplo. E a pandemia me pega com um dos filhos bem nesse momento na escola. Por que, minhas deusas, eu preciso rever a soma, a subtração, a divisão e a multiplicação de frações próprias e impróprias? Impróprias são as palavras que eu tenho vontade de falar para o meu filho que me pede ajuda e que não tem nada a ver com o fato de ter uma mãe constituída inteiramente de Humanidades. E tem o outro que está aprendendo divisão e não usa mais chave para armar a operação. Tantos anos tentando fazer as contas armadas e agora não me servem de nada.

Hoje entendo minha mãe, que também não podia me ajudar com o método ultrapassado com o qual tinha aprendido. A gente envelhece de várias formas. Tenho vontade de me jogar aos pés de minha mãezinha e pedir perdão por tudo o que pensava quando ela não conseguia me ajudar. Talvez eu faça isso quando pudermos (se pudermos) encostar nas pessoas novamente. Talvez eu peça perdão por isso e por tanto mais, já que ela foi uma mulher adulta dedicada integralmente aos filhos e à casa. E não nos matou. Nem mesmo nos causou grandes traumas. Que feito! Não tem salário de CEO que pague essa trabalheira, mas isso fica para outro dia.

Por ora, olho minha pilha de livros para ler, o que tanto eu gostaria de fazer após todo o trabalho feito, enquanto aprendo a usar caixa-lote na divisão. Para cada caixa-lote, umas dez ou vinte páginas a menos na minha vida. Para quem é mortal e ama ler como eu, é muita coisa.

PS: termino agora de revisar esse texto. Meu filho mais novo entra no quarto: obrigado, mãe, por me ajudar com a lição de Matemática. Vinte páginas a menos, mas valeu a pena. Ah, a maternidade.

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