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‘Os 13 Porquês’: vai encarar este espelho?

Com sua quarta temporada recém-lançada na plataforma de streaming Netflix, “Os 13 Porquês” segue carreira como uma das séries mais polêmicas dos últimos tempos. Parte por abordar o tema espinhoso do suicídio, motivo de críticas de profissionais de saúde mental, que a acusam de fornecer vasto material para o chamado Efeito Werther – em Psicologia, o ato de emular (copiar ou igualar) um suicídio do qual se tem conhecimento localmente ou por meios de comunicação.

Pessoalmente, respeito a ressalva dos profissionais, que justifica uma criteriosa avaliação por parte de pais e responsáveis antes de darem acesso à série pelos jovens. Mas considero “Os 13 Porquês” igualmente necessária, porque didática. Mostra de forma clara e séria as piores consequências que podem advir de atos que adolescentes costumam praticar irresponsavelmente – principalmente o bullying, porta de entrada para outros comportamentos mais graves e até criminosos, como homofobia e estupro.

Na primeira temporada, a adolescente Hannah Baker se suicida sem deixar bilhete ou carta para os pais. Sigilosamente, porém, deixa um depositário de sua confiança incumbido de passar, a 13 pessoas específicas, fitas cassetes com áudios gravados por ela. O que todas têm em comum é o fato de cada uma ter contribuído com uma razão para Hannah ter tomado sua decisão extrema – os 13 porquês. A escolha da mídia obsoleta é proposital, já que vamos descobrindo que os bullying sofridos pela jovem são amplificados pelo uso das ferramentas tecnológicas desta geração imagética: celulares com câmeras, redes sociais, aplicativos de comunicação instantânea, etc.  Acompanhamos tudo do ponto de vista do tímido Clay Jensen, que nutriu uma paixonite por Hannah e parece ser o último dos destinatários a ouvir as fitas. À medida que ele avança nas audições, uma teia de novos mistérios vai sendo tecida.


A série é nos obriga a pensar se aquele espelho incômodo que Hannah Baker esfrega na cara de seus bullyers não reflete também a todos nós


A segunda temporada mostra os pais de Hannah lutando por justiça pela filha, e alguns dos envolvidos nos 13 porquês tendo de lidar com as próprias sequelas emocionais. Também leva o espectador a conhecer detalhes da vida pregressa dos ex-bullyers, que, se não justificam, ao menos explicam como e porque certos jovens agem de determinada forma – sobre o que também é valioso refletir.

Na terceira, as investigações sobre um assassinato revelam novos segredos insuspeitos, inclusive sobre Hannah, que fazem Clay questionar se a conhecia realmente e até duvidar da própria sanidade. Ao mesmo tempo, sugerem que ninguém é inocente e nem todo o vilão é irrecuperável.

A quarta temporada vem encontrar os alunos da Liberty High no ano de suas formaturas. O grupo de amigos que ajudou Clay a se livrar de uma acusação de assassinato tem que lidar agora com culpa, questões de saúde mental e vício em drogas.

Em todas as temporadas, o que mais me chamou a atenção foi a surpresa com que muitos dos personagens bullyiers encaravam as consequências de seus atos quando confrontados. Isso diz muito sobre um “sonambulismo” endêmico que percebemos nas atuais gerações, que postam o que querem nas redes sociais, sem pesar as consequências – ou sem se importarem mesmo, como se a possibilidade de vidas serem destruídas não fosse real.

A série toda acaba sendo muito perturbadora, porque nos obriga a pensar se aquele espelho incômodo que Hannah Baker esfrega na cara de seus bullyers não reflete também a nós todos, como sociedade. Ninguém é poupado, nem os omissos (saca o ditado “para o mal vencer basta os bons não fazerem nada”?).

Quem tiver coragem de encarar este espelho corre o risco de não se arrepender.

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Não perca ‘Littles Fires Everywhere’!

Uma silhueta loira observa uma mansão em estilo colonial ser consumida pelo incêndio. Pouco depois é a dona da silhueta em questão (Reese Whiterspoon de arrasar!) quem sequestra a total atenção do espectador com apenas uma expressão, em close. Perplexidade, dor e impotência misturam-se naquele rosto de olhos esgazeados, que parecem perdidos em outro tempo e lugar enquanto um oficial de polícia questiona sua dona sobre “quem teria interesse em atear fogo em sua casa com sua família dentro?”.

Ali! É como somos fisgados já nas primeiras cenas de “Little Fires Everywhere”, série que acaba de entrar para o catálogo de streaming da plataforma Prime Vídeo, da Amazon. Passamos os oito episódios seguintes conjeturando que fato devastador pode ter levado àquele incêndio e, principalmente, àquela expressão digna de Globo de Ouro de Reese Whiterspoon (ela já ganhou um por seu papel em “Johnny & June”).

Em mais este acerto de sua Hello Sunshine Produtora – que está se especializando em produções protagonizadas por mulheres marcantes -, Reese interpreta a personagem Helena Richardson, mãe, esposa, jornalista e cidadã exemplar de Shaker Heighs, localidade-modelo de Ohio (EUA), onde até o tamanho da grama nas casas é definido por lei municipal. Ali, Helena leva uma “vida de comercial de margarina”, regida por um planejamento rígido, que ela controla com ajuda de um kanban (quadro/agenda) gigante afixado em sua cozinha americana – para desespero de sua caçula, a rebelde Izzy.

Seu equilíbrio começa a ser quebrado quando chegam à cidade Mia e Pearl Warren, uma artista conceitual e sua filha adolescente, que levam uma vida libertária, cada temporada em uma cidade, às vezes chegando a dormir dentro do chevette azul usado com o qual percorrem o país. Seguindo um impulso, Helena aceita alugar a casa que recebeu como herança dos pais para aquela família, convencendo-se de que o faz por compaixão, pois só pode concluir que tenham uma vida tão diferente da sua por falta de opção melhor (primeiro preconceito estruturado… check!),

Helena e Mia não poderiam ser mais diferentes: uma branca e orgulhosa de seu pertencimento social; outra negra e ciosa de sua liberdade. Uma amizade forçada se insinua entre elas quando, percebendo o interesse da filha pelos novos amigos da família abastada, Mia acaba por aceitar uma oferta de Helena que encobre outro preconceito: de que funcionária doméstica é um trabalho óbvio para qualquer mulher negra (racismo estruturado… check!).

A interação que se desenvolve a partir daí suscitará conflitos para além das famílias de Helena e Mia, colocando em pauta debates sobre preconceitos racial, de gênero e, principalmente, tabus sobre a maternidade.

O roteiro é tão bem amarrado e os finais de cada episódio sempre tão intrigantes que não consegui parar de assistir até chegar ao final da temporada. Mais importante do que  um ótimo entretenimento,  “Little Fires Everywhere” é um convite à reflexão sobre nossos próprios vieses inconscientes, responsáveis por preconceitos tão arraigados em nosso modo de agir em sociedade que, às vezes, sequer os percebemos.

Não perca!

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‘Coringa’ e nossa embaraçosa catarse

Que atire a primeira pipoca o espectador de “Coringa” (Joker, 2019) que não empatizou com seu protagonista a ponto de, lá no fundinho, achar “bem feito” os crimes que ele acaba por cometer.

Um palhaço infeliz, que não controla o riso em situações de estresse

Esta é a grande armadilha do filme dirigido e co-roteirizado por Todd Phillips (pausa pra me chocar com o fato deste produtor, diretor e roteirista ter se especializado, antes, mais em besteiróis do nível de ‘Se Beber, Não Case’). Ele e o co-roteirista Scott Silver (“O Vencedor”) nos levam de tal forma a nos compadecer do dócil e maltratado Arthur Fleck – palhaço de rua triste que não controla o riso compulsivo em situações de estresse – que, sem nos darmos conta, continuamos a torcer por ele quando passa a assumir sua natureza psicopata.

Fez eu me lembrar do filme “A Onda” (The Wave, EUA, 1981; e Die Welle, Alemanha, 2008), que retrata a história verídica de um experimento realizado por um professor de História com seus alunos, a fim de provar, na prática, como uma sociedade inteira é levada a apoiar um regime racista, capaz de genocídio em massa – caso do Nazismo na Segunda Guerra Mundial. Mal comparando, é mais ou menos como milhões de pessoas acabam elegendo um líder que prega o machismo, a misoginia e a violência: fazendo nos identificar com histórias que busquem, lá em nosso subconsciente, nossos maiores medos e fraquezas e nos convençam de que “tudo bem” aniquilarmos quem este líder nos aponta como responsáveis por fazerem vibrar essas cordas. Dá uma sensação acolhedora de pertencimento nos ver representados por alguém que prometa se vingar por nós, né?

Está aí a armadilha!

E catarse é o nome dado pela psicanálise a este sentimento de “evacuação” de emoções internas (represadas em prol da civilidade) por meio de uma experiência fora de nós. É o que nos faz vibrar quando assistimos ao palhaço alquebrado finalmente defender-se de uma agressão gratuita, ainda que desproporcionalmente.

Se você não cedeu a esta embaraçosa catarse, parabéns! Pode se considerar um primor de civilidade, além de uma “pedra de gelo”, à prova de obras de arte que cumpram, para além do entretenimento, seu papel original: nos colocar um espelho nas fuças, para que nos reconheçamos nele e possamos extravasar nossos instintos primitivos apenas no terreno da ficção.

Por alcançar este intento de forma magistral é que “Coringa” entra para o rol das grandes obras-primas do cinema contemporâneo, ao lado de outras produções do gênero que bebem na fonte das histórias em quadrinhos – todos os “Batman” de Christopher Nolan entre eles.

Os Coringas de Heath Ledger e Joaquim Phoenix: interpretações de grandezas distintas

Aliás, não por acaso está na trilogia de Nolan a outra interpretação impecável do mesmo personagem, que elevou a atuação do saudoso Heath Ledger ao altar das mais memoráveis do cinema. Não há comparação possível entre seu Coringa e o de Joaquin Phoenix, porém. São duas grandezas distintas, nenhuma maior ou menor que a outra, até porque o mesmo personagem ganha tintas diferentes em uma e outra produção.

O Coringa de Ledger carrega o mesmo signo do caos do de Phoenix, herdado de seu original da HQ, mas nos arrebata mais pelo talento de sua interpretação. Não chegamos a torcer por ele, por mais que nos dê prazer cada uma de suas aparições magnetizantes na tela. Já o de Phoenix nos mantém o tempo todo suspensos pelo anzol da empatia. Por exemplo [alerta de spoiler!], desminta-me se você também não ficou sem saber se sentia repulsa ou compaixão por ele na cena em que, com o rosto branco ainda respingado de sangue, despede-se do amigo anão com um beijo na testa e palavras de gratidão e amizade ditas em um inconfundível tom de ternura (que interpretação, senhoras e senhores!).

Demorei alguns quartos de hora pra me tocar do absurdo de simpatizar com um assassino e enxergar o que diz sobre nós a cena em que ele dança em cima de uma viatura, aplaudido pela multidão: que todos temos dentro as mesmas sombras que a condição psiquiátrica de Coringa faz aflorarem à superfície de seu consciente; e que, devidamente incentivados, também somos capazes de aplaudir a barbárie. Ou não seriam tantos os que, entre nós, aprovam jargões como “bandido bom é bandido morto”.

Lamentável é que alguns de nós levem esta necessidade de catarse para a vida, aplaudindo e incentivando o ódio contra o diferente, que sempre vai nos ameaçar (culpa de nossos vieses inconscientes).

Phoenix arrasando como Coringa na cena de dança que viralizou nas redes, ao som de ‘Rock’n Roll’, de Gary Glitter

Seria bom se todos nos lembrássemos que as periferias pobres do mundo estão cheias de “coringas em potencial”, a sofrerem humilhações, violências e injustiças sociais, às vezes cometidas por quem deveria lhes proteger – governo e polícia. Mas nossa percepção vai só até o ódio primitivo que nos aflora quando somos assaltados por eles, por exemplo. Porque pra nós, ditos “civilizados”, sentir empatia por excluídos que ameaçam a segurança e a ordem sociais… só no cinema mesmo, né?

 

P.S. O QUE É AQUELE ROCKÃO DO CREAM – “White Room”,1968 – EMBALANDO UMA DAS CENAS DE DANÇA DO CORINGA?!?! (a que viralizou nas redes, ao som de “Rock’in Roll” de Gary Glitter, também empolga… mas sou mais Clapton!).

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‘Vice’ vale cada indicação

por Thiago Roque     

O diretor Adam McKay colecionou elogios com “A Grande Aposta”, filme que destila sarcasmo e referências pop para explicar como os Estados Unidos quebraram financeiramente em 2008. Entre explicações sobre o quase incompreensível mercado norte-americano e definições econômicas criadas para serem inteligíveis, um elenco pra lá de competente mostrava como o cinismo, a ganância e o imediatismo criaram uma crise sem precedentes na terra do Tio Sam

Bom, “Vice” repete e melhora a fórmula na maneira de apresentar os fatos – agora, sobre a história e as histórias que cercam Dick Cheney, famoso político republicano que foi vice-presidente no governo George W. Bush (2001-2009).

Primeiro, os cortes de cena e as referências explicativas surgem mais equilibrados, com mais timing e menos exagero cinematográfico – tem uma cena com os protagonistas num jogral shakespeariano que é prova viva disso.

Segundo, o elenco à disposição entrega atuações pra lá de convincentes – Christian Bale arrasa em todas as fases de Dick; Amy Adams também faz por merecer cada elogio na pele de Lynne Cheney; e Sam Rockwell entrega um Bush-filho caricato e tão imbecil que é impossível não se divertir.

Christian Bale arrasa em todas as fases de Dick

Não à toa, os três estão indicados ao Oscar – Bale como Melhor Ator, Adams como Melhor Atriz Coadjuvante e Rockwell como Melhor Ator Coadjuvante. O estilo de McKay trouxe as indicações para Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original e Edição. De quebra, o longa completa suas oito chances da estatueta dourada com Melhor Maquiagem e Penteado – igualmente merecido, aliás.

Ah, é verdade, quase me esqueci: “Vice” vale cada indicação.
Muito por trazer à tona os mandos e desmandos de um vice-presidente que, nos bastidores, se recusou a ser um mero espectador da política norte-americana. E o fez por causa de sua trajetória: um jovem problemático, beberrão, que estagiou com figuras mais folclóricas do que competentes no Congresso dos Estados Unidos e foi, pela lealdade, se mantendo nas entranhas do poder em busca de uma redenção que nunca mereceu. Deixou como legado um gabinete pautado pela falta de transparência, a atuação pós-ataques do 11/9, a desnecessária Guerra do Iraque e, acredite, a gênese do Estado Islâmico.

Não bastasse todo esse menu político como espinha dorsal, Christian Bale coloca a película em outro patamar cinematográfico falando pouco e sendo muito. Conforme vai perdendo cabelo e ganhando (muito!) peso, distribui um sem-número de poses, sorrisos e trejeitos que parecem ter sido forjados com o personagem – ao ponto de, numa cena, um diálogo de Cheney com a mulher é feito durante a escovação dos dentes! E o único discurso mais longo do personagem é um mea-culpa ao avesso no melhor estilo “House of Cards”, mas já no final da fita.

“não é um filme fácil, de humor sandleriano e que vai entregar
a você uma biografia completa e mastigada do político republicano”

E ao mesmo tempo em que humaniza o político impopular (aqui, entram as cenas com a filha Mary), Bale mostra o motivo de Cheney ser uma pessoa tão criticada e tão pouco querida pela sociedade. E acredite: nada sobrevive à necessidade de ser relevante – nem mesmo o próprio Dick Cheney. Qualquer chance de torcer pelo político é encerrada logo depois de você pensar em simpatizar com ele, fique tranquilo(a).

Mas não se engane: “Vice” não é um filme fácil, de humor sandleriano e que vai entregar a você uma biografia completa e mastigada do político republicano – e isso pode jogar contra o sucesso do longa. Prepare-se para receber recortes da história de Dick Cheney – logo no começo, o diretor avisa que ele o elenco fizeram o melhor possível.

Talvez o suficiente para você clamar pelo “Volta, Temer”.

 

Thiago Roque é jornalista, cinéfilo e dono de um humor “ogro” engraçadíssimo!

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A primeira heroína que eu quis ser

Não me lembro quantos anos tinha quando assisti ao primeiro “Star Wars” da minha vida, mas sim o impacto que me causou. Tudo, do roteiro ao visual,  era original e revolucionário, mas nada me deu tanto prazer quanto assistir à personagem princesa Leia – a primeira heroína que eu quis ser!

Naquela década de 1980, eu estava acostumada a assistir mocinhas chorosas e frágeis no cinema e nas novelas.  O máximo de “girl power” a que as garotas de minha geração tinham acesso pela dramaturgia era a Mulher Maravilha da TV – fortona, mas derretida por seu sargento Rogers e usando um uniforme que era puro fetiche para o sexo oposto: maiô decotado, pernas de fora e botas de cano alto e saltos 10 (alguém aí já viu algum super-herói masculino quase mostrando a bunda?).

A princesa Leia era revolucionária total! Como assim uma heroína vestida até o pescoço, que guerreava de igual para igual e lado a lado com os homens e nunca chorava ou pulava no primeiro colo masculino ante uma ameaça?

E o que foi aquela despedida de seu apaixonado Han Solo, prestes a ser congelado e talvez morrer no processo!?! … Nenhuma lágrima e uma declaração de amor sem firulas ou gestos dramáticos. E quando ela vira prisioneira após tentar salvá-lo, até de coleira no pescoço e acorrentada a um monstrengo nojento e babão manda pose de “fodona”!

Hoje entendo porque a princesa Leia foi a primeira heroína com a qual me identifiquei: ela não era feminista simplesmente porque não precisava (aliás, não se vira qualquer tipo de militante por direitos porque se quer, mas porque se é vítima de alguma opressão), mas ai de quem atravessasse seu caminho!

Leia já se sentia, agia e era vista como uma igual pelo sexo oposto. Uma verdadeira “girl power”. Como não querer ser ela?

 

 

 

 

 

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‘The Post’: registro essencial

Nunca admirei ou tive vontades relacionadas aos Estados Unidos, mas uma inveja eu tenho desses “primos ricos” da América: a forma como sua imprensa resiste às pressões de poderosos e mantém o legado dos fundadores da Constituição para defender a liberdade de expressão – arrisco-me a dizer, o bem mais caro da democracia e sua mais eficiente ferramenta de manutenção.

Ao menos é isso o que nos fazem acreditar filmes como “Todos os Homens do Presidente” (sobre o escândalo Watergate, que culminou na renúncia do presidente Richard Nixon), “O Informante” (que desmascarou a indústria de cigarros); e agora “The Post: A Guerra Secreta”, concorrente em duas categorias do Oscar deste ano (Melhor Filme e Melhor Atriz para… adivinhe… Meryl Streep!).

Como os dois primeiros títulos citados, “The Post” narra uma história real, ambientada nos bastidores da imprensa norte-americana, que opõe um poder muito maior à liberdade de expressão de um veículo de comunicação.

A história começa com o jornal The Times publicando trechos de um relatório confidencial do governo que prova que os cinco presidentes anteriores dos Estados Unidos mentiram sobre a real situação do país na Guerra do Vietnã, que ceifou milhares de vidas de jovens americanos.

Acionado na Justiça pelo governo, sob alegação de ter atentado contra a segurança nacional, o Times é impedido de continuar publicando a história, à qual o The Post também acaba tendo acesso.

Resta à proprietária do The Post – já desacreditada por ser mulher e por ter herdado o negócio em circunstâncias nada ideais – a decisão de publicar ou não a história. Pesam sobre ela o fato de que, na mesma semana, o jornal abria seu capital na bolsa de valores para conseguir sobreviver financeiramente – o que significa que, enquanto empresa, poderia até fechar por insolvência se os bancos o considerassem um “mal negócio”.

Traduzindo: Katherine Graham (Streep) tinha a perder tudo; a ganhar, apenas um subjetivo sentimento de missão cumprida.

Todos sabemos como esta história acaba, até porque, real, está registrada em livros e jornais. Mas retratá-la em filme garante-lhe um alcance exponencial, no que reside uma das grandes missões do cinema: tornar a história verdadeira conhecida pelo maior número possível de pessoas… fazê-la exemplar, eterna.

Desta missão o diretor Steven Spielberg se desincumbe com louvor.

Como cinema, “The Post” não é assim uma obra-prima digna de prêmios, mas faz-se obrigatório de uma forma muito competente e honesta. O que não é pouco. Mais que isso: é essencial!

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‘Blade Runner 2049’: uma experiência e tanto!

A primeira coisa que chama a atenção sobre “Blade Runner 2049”, quando ainda se tem o primeiro filme fresco na memória, é a inesperada luz do dia nas primeiras cenas. Um dia nublado, em uma colônia agrícola fria, mas ainda “dia”. Demora um pouco para nos reencontrarmos com a atmosfera noir futurista tão “familiar” do primeiro filme: uma Los Angeles sempre noturna, claustrofóbica, hiper adensada em suas construções de concreto e ferro e imagética porque poluída de letreiros e publicidades holográficas gigantes.

Mas considero esperar uma cópia reeditada do primeiro “Blade Runner” um grande erro dos fãs e receita pra se decepcionar. Por isso meu conselho é que o espectador se liberte totalmente das expectativas relacionadas ao original para apreciar esta sequência, que tem seu valor próprio.

Nela, nosso caçador de androides agora é K., um modelo Nexus 8 de replicante, pertencente a uma linhagem de última geração, que já não tem data definida para “aposentadoria” (leia-se morte) e caracterizada pela obediência. Como o Rick Deckard de Harrison Ford, sua missão é “aposentar” modelos antigos de replicantes, que tornaram-se ilegais. Mas se esta premissa é a mesma, o desenvolvimento a partir daí é bem outro, muito mais denso e elaborado que o do primeiro filme.

Na pele de K., Ryan Reynolds descobre um segredo sem precedentes sobre um certo modelo antigo, desaparecido há três décadas, e recebe de sua chefe na Polícia de Los Angeles (Robin Wright envelhecida, mas ainda uma presença forte na tela) a missão de eliminar todos os seus rastros.

O trabalho implica uma investigação que desperta a atenção de Niander Wallace, herdeiro da Tyrell Corporation, e passará pela busca por Rick Deckard, desaparecido há 30 anos.

Wallace, que ergueu um novo império baseado na agricultura sintétita, não herdou apenas o espólio da falida Tyrell, mas também a síndrome de “Deus” do antigo criador de replicantes, como descobriremos. Um deus cego, porém, o que é uma genial ironia ante toda a simbologia criada pela franquia em torno do olhar – pela pupila se desmascara um replicante, por exemplo.

Não é a única analogia do filme. Se o primeiro evocava o mito da criatura que se rebela contra seu criador, neste temos simbolizada em um androide um anseio humano muito característico deste novo século: a busca sobre si mesmo, suas origens.

E como romance não pode faltar, o de K. é um simulacro, que pode ser considerado uma metáfora das relações fluídas deste século de solidão coletiva forjada pelo fenômeno das redes sociais.

Há muitas outras por todo o filme, mas detalhar mais implicaria spoilers. As interpretações acima não comprometem em nada todas as surpresas que se tem ao longo de quase 3h de filme, que se passam sem nenhum tédio.

A imersão recebe uma grande ajuda da trilha sonora, que quase nem deve ser chamada assim, já que os sons que acompanham toda a história parecem-se muito pouco com música. O tempo todo ouvimos um barulho desconfortável, como de máquinas “gritando” – se máquinas pudessem fazê-lo.

O francês Dennis Villeneuve cuida muito bem do legado de Ridley Scott e entrega um filme, em minha opinião, muito superior ao original de 1982. Não só a história, mas efeitos, direção de arte – esta então bem menos confusa – também funcionam muito melhor, sem, no entanto, roubarem as cenas. A história é a estrela e isso é muito bom!

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‘Dunkirk’: cinema de imersão da melhor qualidade

Christopher Nolan fez de novo.

Com “Dunkirk”, drama de guerra sobre episódio real da Segunda Guerra mundial – a evacuação de mais de 300 mil soldados ingleses de praia de Dunquerque, na França, durante cerco do exército alemão -, volta a proporcionar cinema de imersão da melhor qualidade. Faz valer a pena deixarmos o conforto de nossas casas, com telas de alta definição, para nos internarmos dentro de uma sala escura de cinema por um ingresso já nada barato.

E olhe que desta vez o diretor saiu de sua, digamos, “zona de conforto” – se é que se pode chamar assim materializar na tela roteiros esquemáticos, cheio de cenas fantasiosas, como os de “A Origem” e “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. Digo conforto referindo-me a todo o suporte de efeitos especiais e atuações memoráveis de alguns dos mais bem pagos atores da indústria, que ajudavam a “garantir o show” nos títulos citados.

Em “Dunkirk” os poucos efeitos especiais não visam criar ilusões ou sensações, mas reproduzir um episódio real com a máxima fidelidade. E o elenco, apesar de contar com medalhões aqui e ali, em papéis coadjuvantes – Kenneth Branagh como um oficial que comanda a evacuação, Tom Hardy como um piloto heroico, por exemplo -, é capitaneado mesmo por atores semi-desconhecidos e/ou estreantes. Harry Styles, da banda One Direction entre eles.

Também ao contrário das produções anteriores do diretor, “Dunkirk” não acompanha a jornada de um herói. Há vários, mas nenhum com superpoderes – bem ao contrário. Confrontados pela iminência da morte em batalha, estão todos com suas fragilidades expostas, o que dá a pequenos gestos de humanidade grandes dimensões.


Também ao contrário das produções anteriores do diretor,
“Dunkirk” não acompanha a jornada de um herói. Há vários,
mas nenhum com superpoderes – bem ao contrário.


É heroica a forma como o dono de uma das embarcações civis convocadas pelo exército inglês para buscar os soldados não hesita em levar o filho que lhe restou para uma missão com perigo de morte. Também heroicas as decisões do piloto do único avião inglês que permanece no ar tentando proteger a evacuação dos soldados por mar.

Mas também há decisões de um egoísmo desesperado entre as várias histórias contadas dentro da grande história da evacuação. – sim, também é um roteiro intrincado, com idas e voltas no tempo para mostrar diferentes pontos de vista de um mesmo momento da batalha, mas de que, novamente, Nolan se desincumbe muito bem, sem confundir (demais) o espectador atento.

E não tem como não ficar atento. O ritmo do filme hipnotiza a atenção, para o que tudo contribui: a montagem impecável, a trilha enxuta, as imagens bem cuidadas… Imersão!

Ao final, assistimos a um filme de guerra que não mostra nenhum sangue derramado, nenhuma cena de grande selvageria. O realismo de Nolan prescinde dessa crueza. É onde “Dunkirk” se encontra com os demais títulos do diretor: não precisa apelar para o óbvio.

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‘O Mínimo Para Viver’: perturbador!

Se você é do mesmo time das pessoas que consideram irresponsável falar sobre um problema com medo de multiplicá-lo, não leia este post.

Alerto porque, assim como ocorreu com a série “13 reasons Why” (“Os 13 Porquês” no Brasil), que trata de um suicídio motivado por bullying, já li pela internet alguns posts vociferando contra o filme “O Mínimo Para Viver” (To the Bone), da diretora estreante Marti Noxon, por considerarem que mostra a pessoas com predisposição à anorexia o “como fazer” para perder peso propositalmente.

Não discutirei este mérito, pois não sou especialista. Registrarei meu ponto de vista apenas como espectadora e ser humano, que achou de grande importância entender um pouco mais sobre as compulsões, os truques e a grande angústia que leva anoréxicos a evitarem comida, comprometendo a própria sobrevivência.

De fato, o filme é, no mínimo, perturbador!

Entendi que não trata-se apenas de uma dismorfia corporal (transtorno psicológico que faz o indivíduo se incomodar profundamente com “defeitos imaginários” ou triviais de seu corpo). Este é, antes, um do grande espectro de sintomas a convergirem para o gigantesco problema da Anorexia.

Da forma como entendemos a vida de Ellen – a protagonista, vivida por uma Lily Collins impressionantemente CADAVÉRICA -, é uma doença da alma, que leva à negação de tudo o que é vida por meio da recusa em comer e a obsessão por perder peso.

Tudo vale para alimentar essa obsessão: vomitar, correr, fazer exercícios escondido, tomar laxantes, entre outros inacreditáveis estratagemas que podem levar à morte.

No filme, acompanhamos um pedaço da vida de Ellen, 20 anos, a partir de sua expulsão da última clínica para a qual foi enviada pelo pai ausente e a madrasta preocupada-mas-bem-intencionada. Motivo: a ironia ácida de sua incontinência verbal começava a perturbar os demais pacientes.

Como último recurso, a madrasta falante tenta um especialista conhecido por seus métodos não-convencionais, interpretado por ninguém menos que Keanu Reeves (pausa para um suspiro), ainda lindo em seus 53 abençoados anos de vida.

Na casa que Ellen passa a dividir com outros recuperandos, ela tem contato com todo tipo de estratagemas para perder peso e também com o inglesinho e ex-bailarino Luke (Alex Sharp – estreante no cinema, mas já premiado por um musical da Broadway), que demonstra responder bem aos métodos do dr. Beckham.

Desenha-se um potencial romance, mas a compulsão da anorexia é mais importante, por isso a diretora atém-se a mostrar como a arte, o carinho e a atenção podem ajudar no processo de tratamento, e como um único e isolado incidente pode colocar tudo a perder.

Perto do final do filme, há uma cena tocantemente íntima entre Ellen e sua mãe bipolar, cheia de lições subliminares sobre amor, aceitação e disponibilidade, que fez eu me liquefazer em lágrimas. Para bom entendedor, dá pistas de como minar a fortaleza erguida pela doença em torno do anoréxico.

Talvez o segredo não seja tentar trazê-lo, à força, para o nosso “mundo real”, mas entrar no dele para explorar alternativas de resgate.

Dá pra entender que não existe um tratamento ou remédio milagroso, mas que cada doente demanda diferentes tentativas e que o único ingrediente indispensável é o amor.

Talvez, “O Mínimo Para Viver”, que está disponível para ser assistido na plataforma Netflix, não seja mesmo recomendável a quem já sofre com o problema, mas considero indispensável para quem deseja saber lidar com pessoas queridas acometidas por ele.

De minha parte, merece cinco estrelas.

 

 

 

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Nossos idosos não são mais aqueles

Quando escrevi pela primeira vez sobre a série cômica “Grace & Frankie”, em 2015, achei que não houvesse mais o que explorar na história de dois casais idosos que se reconfiguram da forma mais inusitada (ou não nestes tempos “gay friendly”): os dois maridos “saem do armário” ao mesmo tempo para assumirem sua relação homo-extraconjugal, que já dura 20 anos – dos 40 que os dois casais mantinham amizade e vidas entrelaçadas.

Mas a série da Netflix chega à sua terceira temporada em grande forma, obrigada!

Embalada por um timing cômico sofisticado e, de certa forma, codificado – significa que nem todos vão entender as piadas, principalmente quem está na faixa abaixo dos 40 anos -, a série aborda com extrema verdade e inteligência os conflitos que o novo perfil de idosos têm tido de enfrentar atualmente.

Nossos idosos de hoje não são mais sombras das pessoas que foram apenas esperando para morrerem em cadeiras de balanço, camas de hospital ou quartos de asilo. Principalmente os das classes média acima, mantêm-se funcionais e lúcidos, o que, de certa forma, até os torna mais sensíveis aos tratamentos preconceituosos das novas gerações, pois eles não se sentem como os seus jovens o tratam: seres ultrapassados.


“Nossos idosos de hoje não são mais sombras das pessoas que foram apenas esperando para morrer em cadeiras de balanço”


Na segunda temporada, exibida em 2016, Grace e Frankie tiveram de lidar com o processo de despedida de uma amiga com câncer que manteve uma vida “solar”, positiva e generosa até o melancólico fim, enquanto Robert e Sal tentavam se entender após o primeiro descobrir que o segundo teve um “sexo de despedida” com a ex-mulher.

Grace e Frankie chegam ao último episódio enfrentando a triste conclusão de que são tratadas como peças inúteis no xadrez familiar, mas prometendo que darão a volta por cima iniciando um negócio próprio juntas.

A terceira temporada as encontra enfrentando as dificuldades de praxe para conseguir levantar capital para o novo negócio: fabricação de vibradores específicos para idosas, que respeitem as limitações físicas típicas da fase (artrite, por exemplo), tecido vaginal ultra-delicado e com baixa lubrificação (se você pensar bem, é um baita nicho… rs).

O problema é que nenhum banco se arrisca a conceder empréstimo com amortização de longo prazo para duas mulheres na casa dos 70 anos, a despeito delas gozarem de boa saúde, energia e de Grace ter um bem-sucedido currículo de empreendedora – afinal, ela montou do nada a empresa de produtos femininos que a filha mais velha agora administra e na qual ela não é mais bem-vinda.

Parece uma história triste – e no fundo é -, mas você não consegue chorar nesta série. Se tiver o repertório certo, vai é rir muito, mesmo que no fundo se entristeça por reconhecer que aquelas verdades temperadas com o humor inteligente da roteirista Martha Kauffman (de “Friends”) são é de chorar.

 

P.S. By the way, quero envelhecer como a Jane Fonda!

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