Os anos, os meses e os dias

Foi Dia das Mães.

Geralmente, nessas datas comerciais comemorativas que nós condenamos por serem comerciais, mas que aproveitamos para comemorar porque gostamos de símbolos e, bem, não resistimos aos apelos comerciais, nós escrevemos com antecedência sobre elas. Ou no dia da comemoração. Mas é que continuamos com os números indecentes da pandemia e seguimos para o terceiro mês de isolamento, de forma que só me lembrei do Dia das Mães no domingo em que se comemora o Dia das Mães. E só me lembrei porque mensagens com fotos de flores começaram a chegar pelo Whatsapp, o que me fez chamar meus filhos e dizer ei, hoje é Dia das Mães, coloquei a mesa do café, mas não vou tirá-la, nem vou fazer almoço, muito menos o jantar, e quero massagem nos pés, o que foi recebido com algumas gargalhadas. Não ganhei nenhum desses presentes. Mas mãe é essa coisa mole, que derrete feito a manteiga que passa no pão quando vê um bigode do leite que ela esquentou no rosto do filho.

Já são muitas as manhãs em que abro os olhos, quase sempre depois de ter passado horas na madrugada com eles abertos, e me pergunto em que mês estamos. Já entramos em abril? Então me lembro que sim, também teve um domingo de Páscoa que esqueci, um domingo de Páscoa sem ovos de chocolate para as crianças, que descobriram que ovos de chocolate não são itens essenciais, o que me fez lembrar de ter cozinhado carne vermelha na Sexta-feira Santa. Apesar de não ser cristã e muito menos católica, passei a vida comendo peixe nesse dia. A culpa sempre me caiu muito bem.

E teve o aniversário do meu pai. Sim, teve, puxo na memória. Papai fez setenta e cinco, o que me lembra que farei quarenta e cinco, e teve “parabéns” virtual, então sim, já entramos em abril. E já entramos em maio, mês do meu aniversário, que também deverá ter um “parabéns” virtual. E em algumas manhãs até me localizo no mês, mas tenho dificuldade com os dias. Passo a quarta achando que é quinta ou a quinta achando que é quarta. Não bastasse a falta de dinheiro, atrapalho-me também com os vencimentos das contas. Mas já é dia 10? O quê, já passou o dia 15? E pode ficar muito difícil respirar. Mas há a literatura, penso. E escolho uma escritora ou escritor para me acalmar.

Nessa semana foi Annie Ernaux, com o livro “Os Anos”. Eu sabia que tinha algo de muito especial ali. Abro o livro com carinho e aspiro fundo a primeira frase:

Todas as imagens vão desaparecer.

Tem muita imagem bonita que vai desaparecer. Mas as feias e cruéis também irão. Pode demorar muito, mas a Annie está certa, todas as imagens irão desaparecer. Dói. Mas também alivia.

Viva a literatura!

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