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Sobre rolimãs e meganhas

RENATO ANDRADE *

Era preta e branca e depois ganhou esse laranjão vivo. Moderno.

No começo dos anos 1970 era possivelmente um dos símbolos mais aterrorizantes da repressão. UCom os meganhas de rayban e braços à mostra na janela, a chegada da viatura quase sempre impunha o sentimento de medo e obediência. Polícia era polícia. Ponto.

A construção do bólido partia quase do nada, ou melhor dizendo: não existia loja especializada, manual e muito menos um site ou tutorial de apoio. As várias construções em andamento no bairro ainda nascituro fornecia madeiras, tábuas, ripas, vigas, caibros, chapas e mais uma infinidade de materiais a serem “emprestados”.

As rolimãs já exigiam conexões mais específicas. Uma oficina do tio daquele carinha novo na rua. Aquele desmanche quase em outro estado onde uma excursão de belina seria organizada.

Comprar novas só em caso extremo, e engolindo o certificado de incapacidade.

A ajuda do pai, irmão mais velho, amigos, tio, primo ou outro elemento com mais destreza e segurança no manusear do ferramentário, claro, era sempre muito bem vinda.

Quem vê hoje um desses prontos sendo vendidos em loja acha que a empreitada não exigia muitos segredos. Procurem um projetista automobilístico, “assuntem” sobre todas as variantes mecânicas, aerodinâmicas, de design, materiais… e depois tentem transferir todas as informações prum moleque de 10 anos há 45 anos atrás. Era tudo na unha (muitas vezes martelada) e na raça.

Depois de pronto, o teste na rua.

O som das rolimãs deslizando pelo asfalto (impressão ou não existiam tantos buracos?) fazia qualquer ronco de F1 parecer um liquidificador engasgado. Pinturas customizadas não eram muito comuns, mas um colante STP sempre fazia bonito.


O som das rolimãs deslizando pelo asfalto fazia qualquer ronco de F1 parecer um liquidificador engasgado


As corridas. 10, 15, 25, 35… acho que ninguém contabilizava os participantes. Essa mania de precisão numérica deve ter vindo depois. O importante era a vibração na rua e o som…

Aaaaah o som!

Vivo, encorpado, selvagemente metálico e assustador!

Daqueles que quem sentiu – pois era um som pra ser absorvido por todos os poros e sentidos do corpo humano – nunca mais esqueceu.

Mas sempre tinha um morador que se incomodava com essa rascante sinfonia. E aí chegava o camburão lá de cima.

Falei em medo e obediência?

A molecada jogava os carrinhos dentro dos altos matos do entorno, quase florestas. E se divertia vendo os homens da lei adentrando na busca e apreensão. Invariavelmente lotavam o chiqueirinho com o comboio tão arduamente construído. 

Uma vez um dos pilotos sorrateiramente tentou tirar o adesivo grudado em seu carrinho já acomodado na caçamba. Bastou um olhar do oficial.

Sabe que eu acho que no fundo os milicos se divertiam com a coisa toda?

Eram tempos de chumbo – torturas, terrorismo, desaparecimentos, bombas e sequestros.

Ali, naquelas ruas de um bairro sendo colonizado, numa cidade do interior que poderia até ser chamada de pacata na época, uma molecada reproduzindo Interlagos com direito a derrapagens e sentidas escoriações… agora tenho quase certeza… se divertiam sim.

Por trás dos raybans e fardas acontecia de vez em quando um comentário jocoso sobre a operação em andamento. Todos ríamos: PMs e pilotos. Naqueles distantes dias, até o medo, de vez em quando, tinha motivos para brincar.

 

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De São José a Olavo – A Trajetória de Um Casal Inesquecível

JORGE RODINI *

Um amor de amoreira. E mangueiras, limoeiros e tantas árvores frutíferas naquele pomar enorme que circundava nosso mundo. Cavalos de vassoura “Aiô Silver”, o cinema paradiso, a praça da Igreja, os bancos marcados com nomes das famílias.
E o quadro do São Jorge? Imponente na sala pequena ao lado da Mor. Pilhas de revistas hoje antigas, com fotos de mulheres belas de cabelos armados, de produtos inovadores à época. Na cozinha, um fogão de lenha impecável. Inesquecíveis momentos da velha senhora que sofria com feridas na perna e jamais desistia.
De tempos em tempos, repouso. Mas aquilo só lhe fazia bem quando os netos a paparicavam. E brincavam e escondiam debaixo da cama, agora já na cidade grande. Cama de ferro, fabricado pelo dono do cartório, seu marido, ex-presidente da Câmara da cidade de onde vinham.
Agora, uma casa menor, que abrigava cada vez mais gente. É uma casa árvore, onde a raiz foi se solidificando e gerando frutos e frutos dos frutos e sempre frutos. O portão branco, fácil dos pequenos pularem, o pinheiro que se empolgava, a netaiada que chegava. Na calada do dia, no silêncio da noite. E o senhor da casa árvore, lendo seus jornais, agora já de lupa, com um terno que lhe conferia austeridade, uma credibilidade patriarcal. Terminava as refeições pela salada, fazia contas enormes de somar começando pelos algarismos da esquerda. Era tradicional com o básico, mas liberal com o importante.
Aquele casal, com quadro emoldurado na sala principal, era só um. Único, imponente, humilde. Doce mulher, homem guerreiro. Um sem o outro, só pelos filhos e pelos netos.
Daquela harmonia, uma história fincou na terra. E parece que todos são pautados pela mesma fome de família.
Em todos os 25 de dezembro desde 1966, o Natal é realizado naquela casa árvore, já sem pinheiro, sem portão baixo, sem os donos legítimos, sem um par de tios, sem um par de primos, mas com alegria ímpar. A admiração é de muitos com aquela festa-bagunça organizada na varanda, na sala, na copa-cozinha, no quintal e na calçada. Sem perder a foto do meio da rua.
Cada vez mais família, cada vez menos rua. E a cada novo membro, a árvore, em forma de concreto, cuida e acolhe. Parece que a porta da casa é aberta a cada nova vida que se inicia, pelos que nunca serão esquecidos.
E, lá pelas três, a mesa está servida! Saúde! TIM TIM!

 

* Jorge Rodini é engenheiro, empresário, pai de quatro filhos e avô de quatro netos,
que gosta  de números, palavras e pessoas


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Poesia crônica

SÔNIA MAGGIOTTO *

Hum, e agora?

Por que essa dificuldade em escrever?

Como assim, escrever é o que mais faz no dia!

Então, melhor… o que acontece com essa dificuldade em publicar o que escrevo?

Opiniões, ideias e sensações. Tudo muito rico, muito intenso e muito volúvel.

Sim, descobri!

Sou mulher, fluo com as energias, com o que acontece dentro e fora de mim.

Percebo que escrevo com a alma e depois, assim que termino de ler, já não sou mais essa.

Já sou outra.

Como assim? Outra?

Outras impressões, outras vontades, outros desejos e outros prazeres.

Simples assim! Muitas em uma, uma em muitas.

Tai, Palavreira! Obrigada por me fazer pensar! Um dia eu escreverei algo publicável!

No melhor estilo mendiga

me componho de retalhos, de trapos.

peças que me aquecem, que me colorem e me fazem sentido.

uma sobre a outra. essa sou eu. uma composição de coisas que não combinam

Às vezes com nós, outras ao vento.

Sou feita de retalhos. De

Seda,

Juta,

Barbante e sonhos.

Todos verdadeiros a seu modo, no seu tempo.

 

* Sonia Magiotto é jornalista, empresária, mestre em yoga e palavreira
encantadoramente modesta


 

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O Anjo da Justiça

FÁBIO LUÍS LUCIANO *

Se houvesse um anjo da justiça. Se ele propusesse trazer justiça ao planeta Terra, ele desembainharia sua espada afiada de JUSTIÇA e atravessaria impiedosamente a alegria e a felicidade de toda a Terra. E a começar pelos banquetes extravagantes dos bilionários, passando de puteiro em puteiro, de desfile de moda a desfile de Carnaval, viraria todas as mesas de todos os botecos do mundo, atravessando goela abaixo com sua espada de justiça a felicidade excêntrica do ser humano até restar apenas luto sobre luto, lágrima sobre lágrima. Degolaria impiedosamente a felicidade de cada ser humano da Terra até que este pudesse compreender a gravidade da injustiça, da fome e da miséria do mundo e deixasse de apontar seus dedos alienados para cima se furtando convenientemente à verdade absoluta dos fatos e da realidade da injustiça impiedosa humana em toda a Terra. Traria fome e miséria para toda a Terra de maneira democrática e contundente até que o último poderoso; presidente ou banqueiro, astro ou ídolo, bonequinho e bonequinha fútil de vaidade chorassem de fome como uma criança miserável africana. Até que este monte de carne e osso desalmado que se auto-denomina humano descobrisse o valor da vida acima do ultraje fútil e escandaloso que é vestido de ego, orgulho, arrogância e diversão. Talvez, como no Êxodo, trouxesse consigo o anjo da morte para levar todos os primogênitos de todos os bilionários e multimilionários do mundo para que estes aprendessem na realidade o que é a dor de perder um filho de fome e sede. Certamente este anjo da justiça iria com grande fúria a acabar com toda a indústria fútil do entretenimento do mundo e de todo tipo de cultura inútil para ensinar ao ser humano o que é a vida além da festa, além do comercial, além do ócio e além da diversão. Assim apresentaria ao mundo o quanto trabalho duro é preciso para manter um planeta vivo e equilibrado e assim traria, enfim, JUSTIÇA a todos os animais. Até que o ser humano apavorado e assombrado reduzisse o valor que dá em sua pulsão e desejo, cobiça e vaidade a pó. E assim, quando o mundo inteiro estivesse de luto ao mesmo tempo, na mesma miséria, na mesma fome, na mesma sede insuportável, na mesma hora, no mesmo dia, haveria o retorno de alguma consciência do valor da vida, da razão da vida e da JUSTIÇA na Terra. E assim sacrificando impiedosamente a alegria, a felicidade e a euforia do ser humano, apresentaria a este desumano o que ele tanto clama: “JUSTIÇA”. E ao colocar enfim sua espada de JUSTIÇA de volta à bainha, ao colocar a balança da JUSTIÇA definitiva na Terra, não sobraria sequer um só inocente.

 

* Fábio Luís Luciano é teólogo e aluno do curso de escrita ficcional
de Lucas Arantes, do Espaço
A Coisa, em Ribeirão Preto


 

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O nascimento de um pai

ALEX MENDES *

Ela chegou durante o frio de uma das cidades mais quentes do Estado de São Paulo.

Na escura madrugada de um dia de semana, minha mulher deu à luz.

Eu, que nunca na vida havia podido ver sangue sem sentir tontura, tremi. Tremi ao ver minha reação contrária.

Com a câmera fotográfica na mão enchi minhas veias de coragem e controlei o ímpeto de sair correndo da sala de cirurgia.

E olha que tudo me levava a isso. O histórico com as agulhas, o cheiro de hospital e, principalmente, o que eu via.

Ali na minha frente, a mulher que eu tinha jurado proteger no altar estava amarrada, com os braços esticados, nua e com uma pessoa prestes a abrir-lhe a barriga com um objeto cortante.

Mas eu estava decidido. Eu estava preocupado em buscar o melhor ângulo.

Eu.

Ali foram os últimos momentos da existência do “eu” que eu conhecia desde que me entendi por gente.

Não foi o barulho dos instrumentos, aquele tec tec com precisão cirúrgica para deixar qualquer um ligado à área de humanas desesperado que me atordoou. Foi outro som. O de um choro engasgado. Era aquele negócio pequenininho, sujo de líquidos e gosmas que eu nem sabia direito o que eram, que eu deveria amar?

Talvez a preocupação com o foco da máquina tenha tirado o meu próprio. Eu não pensava racional ou emocionalmente. Era um robô. Tinha de fotografar e fazer exatamente como eu vira antes nas novelas e nos filmes.

Confesso, mesmo ali, vendo minha herdeira com olhos fechados e boca arreganhada tão perto, ainda não sentia o que a minha esposa carregara durante nove meses. O bebê, até aquele momento, era dela. A mãe. Que alimentava, que dava segurança, que garantia vida a cada vez que respirava.

Já eu, fotografava. Achando que aquilo era o máximo. Que “eu” era o máximo. Um marido que agora tinha uma filha.

‘Eu”. Algo que em poucos minutos iria viver só no passado.

Depois de receber os cumprimentos de dois corajosos parentes que enfrentaram uma noite sem sono, fui para o berçário. Mais preocupado em evitar o sumiço da criança que qualquer outra coisa.

Paula nasceu de oito meses. Foi uma luta diária entre diagnósticos receosos e esperanças religiosas. Graças a Deus, a segunda venceu. Vitória que estava agora à minha frente. Um cisquinho de gente encolhido numa estufa. Um frágil ser com um poder enorme. Algo que eu descobri num abrir de olhos.

Eu – ainda era eu – sentei-me numa cadeira do lado de fora do berçário. Paula na estufa, com dois vidros nos separando. Meu olhar fixo conferia tudo com atenção. Se ela respirava, se parecia comigo, se abriria os olhos.

A última resposta foi avassaladora. Ela parecia ter lido meu pensamento. E ao levantar as pequenas pálpebras, abriu duas bolas negras.

E um coração.

O olhar me atingiu como um raio. Desses de filme de ficção. Transformou-me na hora. Daquele momento em diante tinha sido promovido de duas para três letras.

O “EU” virou “PAI”.

Demoraria vários meses até ouvir a palavra da boquinha dela. Mas aquele primeiro olhar, naquela madrugada fria, me chamou de pai com toda a força do mundo.

Um grito silencioso com o tom de um amor até então desconhecido. Inimaginável pra mim. Um sentimento incondicional, incansável, indissolúvel. Egoísta e ao mesmo tempo coletivo.

Sei que cada um de vocês, leitores, tem uma Paula pra olhar nos olhos. Pra dizer com palavras, gestos, responsabilidades ou simplesmente com um abraço: Sim, sou seu pai.

Temos datas de aniversários diferentes, mas posso afirmar que nasci no mesmo dia que você.

Um pai. E uma filha.

Que possamos crescer juntos por muito tempo aproveitando cada fase.

A pequenina que dormia no meu antebraço.

A gigante que andava sobre minha barriga.

A loirinha que cruzava os braços e fazia biquinho quando queria algo que não podia.

A princesa que segurava a minha mão no cinema.

A adolescente que até hoje faz questão de beijar meu rosto num boa noite impossível de ser contaminado pela rotina.

Paula e Alex. Um pai e uma filha.

Olho no olho. Coração com coração.

Amor.

E nada mais que se compare a isso.

 

* Alex Mendes é jornalista, cinéfilo, escritor talentoso, amigo querido e pai amoroso da Paula


 

 

 

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O céu da vó e do vô

LÍVIA KOMAR BARUSCO *

Ela deitava com o irmão na grama bem aparada dos fundos, no quintal da velha casa da vó e do vô. Ficavam de costas lado a lado, porém com uma distância necessária para que pudessem abrir os braços e se tocarem as mãos. Lá, no interior do interior, banhados pelos verões ensolarados, longe da poluição da cidade grande, imaginavam desenhos onde apenas tinham nuvens brancas.

Vinte e cinco anos se passaram quando eles repetiram a mesma cena, em outro palco. No terraço do apartamento dele, do outro lado do mundo, com outro céu nublado e nuvens não tão bonitas, eles se deitaram no chão frio e usaram aquela tela cinza lá do alto para passarem um filme de suas vidas. Em outro canto, o que já foi o preferido deles, havia morrido a última peça daquelas memórias. A vó ia embora ficar ao lado do vô, que morrera quando ainda eram adolescentes.

Entre um vinho e outro, ativavam suas memórias. Na infância, até parecia que eles existiam para estar ali, em todas as férias desde que se conheciam por gente. Na casa da vó e vô eles eram livres, sem escola, sem piano, ballet ou natação. Na casa da vó e do vô eram ajudantes de jardinagem, boleiros ocasionais, marceneiros de passagem, colhedores de frutas direto do pé. Tomavam café com bolo de fubá feito na hora e ouviam moda de viola contando os besouros da parede do alpendre. Andavam de carrinho feito pelo vô e comiam o bolo de chuva da vó, mesmo que as tardes fossem ensolaradas.

A menina desconhecia saias naquele período mágico e gostava de balançar na rede e sentia-se voando enquanto o mundo a sua volta dançava feito bailarina em torno dela. O menino gostava de subir no telhado da casa e certa vez, escondido, fumou uma bituca da palha do vô até ficar tonto. Ele não aprendeu a lição, pegou gosto e fuma da hora que acorda até o último bocejo do dia.

Estavam tão distantes da vó, mas com histórias tão vivas que preferiram sentir a dor desse momento juntos, em um mundo só deles – que resolveram mais uma vez compartilhar depois de adultos. O vô e a vó foram embora de vez e levaram com eles aquele refúgio fascinante de outrora. Nunca mais as frutas teriam gosto de pé de goiaba da casa do vô. Nunca nenhum sabor de café coado conseguiria penetrar tão fundo a alma como o que o da vó. Nunca mais sentiriam aquele cheiro de amaciante da camisola da vó e nem da mão áspera do vô ao se darem boa noite. Nunca mais. E ao constatarem tantas perdas, dormiram em lágrimas de saudade ali mesmo, no relento.

De manhã, em uma das cidades mais chuvosas do planeta, fez-se sol com nuvens brancas. O homem e a mulher despertaram do porre de vinho e de dor e, deitados, deram as mãos novamente. Calados e emocionados, agradeceram juntos a oportunidade de um dia ter vivido tudo aquilo que nunca mais ousariam querer viver sem a vó e sem o vô.

 

* Lívia Komar Barusco é jornalista especialista em marketing, assessora
de imprensa e mãe do Matteo


 

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Amigos na Ponta dos Dedos

ELCO THENÓRIO *

Com o advento das redes sociais as relações interpessoais tornaram-se expressas, imediatas, ao alcance de um clique. Isso não significa necessariamente que tenha havido modificações estruturais na forma como as pessoas se relacionam, pois mudam os meios e não as mensagens, mas certamente tornou-se mais fácil monitorar as próprias relações com o nosso universo de parentes, amigos e conhecidos. Aliás, até de desconhecidos os quais, graças a essas redes, hoje caem de paraquedas nas nossas vidas.

Assim, ao abrir o Facebook, por exemplo, que das redes sociais é a mais social, vejo à minha frente um verdadeiro mapa de como anda minha amizade com cada um daqueles “amigos”, entre aspas porque nem sempre o são (aliás, qual seria a palavra correta neste caso? Ciberamigos? Facefriends?).

E o que vejo? Vejo parentes com os quais não mais me relaciono, outros que sim embora nunca. Vejo amigos de verdade que me são tão caros na tela quanto na vida real, alguns em outros continentes. Vejo conhecidos de todos os matizes, dos mais familiares àqueles que nem sei de onde os conheço. Vejo completos estranhos que, por uma razão ou outra, vieram dar com os costados (virtuais) ali. E vejo até – para o cúmulo do assombro – pessoas queridas que, bem sei, já neste mundo não existem.

Vejo, enfim, num relance meu entorno social clara e ordenadamente catalogado.

Só não vejo aqueles que um dia foram amigos, os quais a vida, ao fluir pelas curvas de seus meandros, desviou para longe. Pessoas que me foram caras num passado, recente ou remoto, mas que já não pertencem ao meu círculo. Algumas que me baniram de suas relações, outras que as bani eu. Algumas das que me cortaram relembro com pesar, outras com alívio. Das que cortei, invariavelmente sinto alívio ao delas me lembrar.

Alguém disse que “ex-amigo não existe, o nome disso é filho-da-puta”. Eu não iria tão longe. Acho natural que certas pessoas, do bem, que até foram queridas um dia, tenham enveredado por caminhos outros, porque nesta nossa vida alguns vieram para ficar, outros estiveram de passagem.


‘Vejo, enfim, num relance meu entorno
social clara e ordenadamente catalogado’


Há algum tempo fiz uma incursão de bicicleta pelo sul da América e diariamente postava a evolução do pedalar bem como, sempre que dava, uma reportagem acerca de qualquer pauta sobre sustentabilidade com a qual me deparasse. Isso fez com que centenas de pessoas afeitas ao ciclismo e/ou à aventura, mas que me eram totalmente ignotas, se agregassem ao meu perfil. Por essa razão, e só por essa, tenho hoje mais de 1.600 “amigos” no Facebook. A grande maioria, desconhecida, silenciei, o que significa que só sei deles quando a rede me avisa que aniversariam. Mas o curioso é que não os deleto… Estão lá, como esqueletos no armário, entes dos quais sequer o ectoplasma se manifesta. Mas estão lá. Refletindo agora, acho que me agrada ostentar 1.600 amigos, ainda que eu seja uma das pessoas mais solitárias que conheço. É mais do que raro que esteja diante de mim algum deles animado em carne e osso.

Certa feita ao telefone um velho e grande chapa, daqueles de ter morado juntos, me disse: “Nunca te falei, mas não me sinto à vontade na tua presença” – e desse dia, há mais de uma década, nunca mais nos vimos ou falamos. Por um tempo, chocado, o rotulei negativamente, para ser ameno, a cada vez que de sua pessoa me lembrava. Depois, como tudo amadurece, até os pensamentos, passei a admirá-lo. Isso porque invertendo a situação, há um amigo na presença do qual eu não me sinto à vontade – mas ao qual até hoje eu não tive a coragem de dizer tão sinceras palavras. Apenas sumi inexplicadamente.

Desnecessário dizer que não sou perfeito e esta é mais uma prova disso. Porém, relembro estes dois episódios para seguir discorrendo sobre a natureza das relações humanas nos internéticos dias atuais – sem com isso pretender chegar a alguma excelsa conclusão filosófica. Chegue quem lê, parodiando o poeta. Mas no perfil do primeiro, que já não mais está atrelado ao meu, às vezes entro por uma mórbida curiosidade de saber a quantas anda meu velho camarada. No do segundo jamais o fiz. Parece que não me sinto à vontade sequer de fazê-lo. Mas o fiz neste exato momento e constato que, mesmo abandonado, não me cortou. Surpreendentemente, porque as pessoas não lidam bem com o abandono.

Exemplifico: num outro caso, mais recente, um grande amigo não respondia aos meus convites para nos encontrarmos no mundo real. Uma cerveja, um papo, matar as saudades…Tentei por umas quatro vezes. Eu de fato o tinha em alta conta. Porém, aquele silêncio foi me incomodando no início e por fim exasperando. Então, num arroubo de zanga, ressentimento, deletei-o sumariamente. O tempo passou, a raiva idem, e há meses enviei-lhe um convite – sempre pelo Facebook – para reatarmos. Ignorou. Tentei novamente com o mesmo resultado. E agora estou na dúvida se tento pela terceira vez ou o mando à merda definitivamente – não sem uma ponta de culpa, outra de arrependimento e, ainda, uma terceira de consternação. Afinal, em breve estaremos ambos mortos.

Lembro-me da sensação de desalento que já por vezes senti quando, ao aperceber-me de que determinad@ amig@ há tempos não dava as caras ia ao seu perfil… só para descobrir que el@ me havia extirpado. Nessas horas sempre costumava me passar pela mente como que um filme do que havia sido nosso relacionamento – e era comum acabar por atinar com a razão que @ havia levado a agir de maneira tão radical para comigo. É como num matrimônio em que as relações se vão deteriorando sem que uma das partes se dê conta em tempo hábil de reverter o estrago.

Seja como for, o que realmente parece ter se firmado é a certeza de que cortar alguém de sua rede social é a forma moderna de se dizer “adeus”.


Esta crônica termina aqui, mas se o assunto lhe agradou talvez gostará do singelo conto “A Tarde“, escrito há tempos com alvitres de meu amigo Leonardo Colosso. Nele, procurei abordar este tema pelo viés mais humano possível. Espero que aprecie.

 

(*) Elcio Thenório é jornalista e apresentador, “pai de gato” e amigo
“indeletável” (do Face da vida)


 

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Sobre peixes e poesia *

** SHEILA GUIMARÃES

A poesia falava de amor companheiro, encantado com oportunidades improváveis de desfrutar dos prazeres divididos. Descrevia, poeticamente, a satisfação em limpar peixes pescados pelo marido, numa cozinha compartilhada a dois, com cotovelos se esbarrando e narrativas de pescador interpretadas pelo olhar poético de uma mulher.

Olhar encantado de quem escreve, refletido na admiração de quem lê. A leitura em voz alta teve intencional propósito de contagiar o amado de amor poético. Mas eis que a narrativa apaixonada esbarrou em ouvidos preenchidos de realidades experientes, daquele que um dia fora um tenro pescador conhecedor do ofício e sabedor de cada detalhe da arte de pescar. A cada verso reverberado em seus ouvidos, tentava disfarçar seu questionamento silencioso sobre “onde estava a beleza em escamar, abrir e eviscerar peixes”, descrita nas estrofes da poesia.

Sua alma de pequeno pescador, de tão transparente, desconsolada e descrente, causou na interlocutora uma imediata “descompreensão”: “como assim, não existe beleza na limpeza poética de um peixe?!”  O desconsolo desmanchou-se em sincera gargalhada, deixando sua amada tão paralisada, que tratou logo de iniciar suas justificadas explicações advindas da sua vasta vivência de menino, filho de pai pescador.

Contou que a sua frequente desventura infantil começava em um pequeno barco, onde perdia boa parte do seu sangue ao ser violentamente atacado por vampiros e assassinos pernilongos advindos das águas navegadas. Memória viva de infância, que vem à tona para narrar sua experiência de outrora, como se o tempo decorrido não existisse.


“como assim, não existe beleza na limpeza poética de um peixe?!”


Descreveu as contrariedades de uma pescaria noturna: da retirada da rede do rio, que quase sempre trazia cobras, ao cheiro insuportável dos peixes jogados num balde ou escapados para o assoalho furado da embarcação, que, por sua vez, desprotegia os seus pés das águas noturnas.

Por fim, chegou ao ponto crucial da sua história, diametralmente oposta à da poeta, deve-se dizer: a fatídica hora da limpeza dos peixes. Conta que saltavam ele, pai, irmão e peixes de dentro do barco, esses últimos no balde cheio d’água, e seguiam rancho adentro para iniciar um precário processo artesanal de limpeza. Em meio ao cheiro, vísceras e escamas, o menino só pensava em acabar logo com aquela insatisfação e pôr fim à pescaria.

Antes de concluir a história, solta uma sonora gargalhada. Recupera-se. Finaliza: peixe fede e o cheiro não sai da gente!

Seu olhar sincero transbordou-se em poesia aos ouvidos de sua amada e sua memória de pescador compartilhada “atravessou o silêncio de quando nos vimos pela primeira vez”.


* inspirada no poema “Casamento”,
da maravilhosa Adélia Prado



** Sheila Guimarães
é jornalista, designer gráfica, professora
e amiga querida

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Por onde começar?

* THAÍS REGINA ISMAIL

Nunca perder tempo. É a regra para mim, uma mãe solitária que vive com os dois filhos. Cuidar dos boletos, da casa, dos meninos, da cachorrinha, da roupa, da comida, das pernas que doem, das costas que queimam… também cuidar da mãe, do trabalho, do relógio que desperta três vezes todos os dias…

Férias! Preciso de férias urgentemente! São elas as sonhadas, esperadas de joelhos… Olhos vidrados contando os segundos… Aí chegam… Silenciosamente… Ufa!

Grito risonho dentro do carro com os filhos! Comemoramos o fim da falta de tempo pro cinema, pra visita, pro passeio, pra viagem, pra leitura, pra descanso puro e simples no cochilo do sofá (puxa… só lembro do sofá nas férias… e o resto do ano? ele é da cachorrinha… só isso? Só).

Tá. E agora? Por onde começar? O que seria mais gostoso fazer: ocupar o tempo todo com atividades ou largar-me no sofá sem relógio ou remorso? Quantas doses de Netflix?

A árvore de Natal… esqueci de desmanchar… Ah, tão linda! Tão rápido! Penso em minha mãe tentando fazer uma ceia para parentes tão queridos… meu pai prometia, mas nunca vinha. Ela chorava baixinho quando todos estavam sonhando felizes com os seus cavalos indomáveis … e anos passaram lívidos.

Aproveito e vou aos médicos. Vários. Limpo gavetas e guarda-roupas, desapego de fotos e pequenas recordações… Separo as roupas, escondo segredinhos antigos entre papeis e poeira cósmica. É bom, vez ou outra, sentir o passado… Pensar o presente… Deixar-se sonhar como adolescente…

Futuro? Ah, quero saber não. Só se for para planejar leituras de Mia Couto… poemas, por favor!

Aproveito e faço as comidinhas preferidas dos meninos. Visito a amiga de infância que amo mais que chocolate. A Pety é minha irmã com mais coração. É minha verdade sem senões. E temos vinho! Fica perfeito!

Este ano não tem viagem, mas algo está melhor. A simples ideia de estar onde eu sempre quis estar: dentro de mim mesma… a liberdade de escrever e ler quando eu bem entender. Isso, para mim, é o valor de férias reais.

A grandiosidade das coisas já me fascina naturalmente. Mas saber quem sou, sentir quem são as pessoas que amo e que estão aqui… Na vida, o amor corre ao meu redor. Por eles, peço a Deus saúde para mais dias assim.

Ah… Manoel de Barros tem um livro intitulado “Meu quintal é maior do que o mundo”… E eu digo que meu mundo já foi um quintal. Depois… acreditei que já fora um coração. Hoje meu mundo são vozes inesquecíveis, presentes e ausentes.

É libertador apenas escolher uma música… ou um poema… e aceitar-me assim e pronto.

Férias sempre funcionam. São borboletas em sorrisos, são suspiros em travesseiros fofinhos… café fumegando na virada da página poética. É soluço interrompendo a lágrima ardida na passagem do tempo… Férias… Vale tanto a pena esperar por elas!

Mas uma pergunta me surpreende: só durante as férias sei ser eu mesma?

Você já viu plaquinhas que colocam nas portas: “não perturbe”, “fechado”, “ aberto”? Pois bem, a plaquinha que escolhi, agora, durante as férias, para a porta do meu coração diz: “Sem planos”. É tão doce…

 

* Thais Regina Ismail  é professora, sonhadora profissional, amiga para todas
as horas e lírica por natureza


 

Toda semana, às quartas, o blog traz a crônica de um(a) ‘palavreiro(a)’ convidado(a). O convite é extensivo a todos que gostam de palavrear a vida em forma de crônicas.

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Crônica do dia de Ano Novo

* CÁSSIO BIDA

Em uma passeada pelas redes, li de de uma amiga uma história que me tocou bastante. Sobre uma estrela solitária que brilhava enquanto ela caminhava à noite e as sensações dela naquele momento. Nesta virada de ano aconteceu algo parecido comigo.

Saí de casa rumo a uma balada. A ideia era festejar, celebrar a virada de mais um ano e curtir a noite o máximo possível. Como se tornou hábito nos últimos cinco anos, a celebração da passagem de ano é um evento meu comigo mesmo. Guardo várias histórias dessas viradas. Mas esta, talvez, seja a a mais interessante.

Peguei a condução. Estava lá somente o motorista, eu e mais um passageiro. Como de costume, sentei mais ao fundo e esperei o ponto certo para descer. Agradeci ao motorista e desejei a ele e ao outro passageiro Boas Entradas, Feliz Ano Novo.

Havia ainda algumas nuvens no céu. A lua, teimosa, brilhava por entre as nuvens que, horas antes, haviam despejado uma chuva inclemente.

Para uns, a tristeza de um ano espetacular que se despedia. Para tantos outros, aquela que veio lavar a alma e levar tudo o que ainda restava de ruim no ano que se encerraria em, no máximo, uma hora.

Após alguns minutos de fila, consegui entrar no lugar. Uma casa pequena onde estava tocando sucessos do rock e pop nacional.

Peguei uma água. Sim, uma água. Afinal, não estava querendo encher a cara. Principalmente de estômago vazio.

E sóbrio, além de me divertir mais, conseguia observar o ambiente com mais propriedade.

Muita gente de branco. Alguns de amarelo. Outros com cores bem diferentes do usual. Todos com algum copo de bebida para brindar. Tantas presenças e, ao mesmo tempo, todos, de certo modo, ausentes.

Ninguém se animava.

Tentei puxar palmas, dançar, me agitar. Até mesmo o único abraço que troquei com alguém naquele bar pareceu frio. Embora a moça precisasse mesmo de um abraço.

Ela chamava a atenção pelo visual. Estava em um vestido tubinho branco. Curto, extremamente apertado. Não sei se ela estava à vontade no traje. Mas quando cheguei oferecendo um abraço o desconforto dela com o meu gesto, esse sim, foi nítido.

A moça foi bastante rude de início. Até grossa. Tinha acabado de chorar. Sem nenhuma maldade perguntei o que houve, se estava tudo bem. Ela disse que sentia saudades de alguém, por isso a tristeza.

Senti que não poderia me demorar muito. Logo, abri os braços. Precisava dividir com alguém a chegada de um novo ano. Com certa relutância, a moça aceitou e agradeceu a minha gentileza por perguntar o que havia acontecido. Depois disso, saí, voltei ao meu canto, dancei mais um pouco e, com cerca de 15 minutos de ano, fui embora.

Senti que minha missão ali estava cumprida.

Enquanto olhava o Uber para chamar um carro e voltar para casa, eis que, no alto da Iguaçu, surge o ônibus. Como era a última viagem dele, corri feito um maluco para chegar ao ponto. Me senti o legítimo Forrest Gump enquanto tentava, com alguma dificuldade, alcançar o ponto de embarque. O motorista, o mesmo da ida, me reconheceu e buzinou para que eu parasse a corrida. Ao entrar, logicamente, agradeci a gentileza e seguimos viagem.

Fomos papeando. Diferente da frieza curitibana no bar, o matogrossense que dirigia o Vila Rosinha era bom de prosa.

Essa troca sim foi autêntica, gostosa, sincera. Naqueles poucos minutos até em casa houve presença na conversa.

Quando desci do ônibus vi uma estrela solitária. Brilhando firme no alto apesar dos fogos que ainda estouravam de forma mais tímida. Ela estava ali para lembrar que não estamos sozinhos. E que, mesmo sozinhos, não precisamos ser solidão.

Naquela noite pude ceder um pouco de brilho a alguém.

Que em 2018 não nos deixemos intimidar por qualquer escuridão. Trovoadas e nuvens carregadas vão surgir, sim. É da vida. Faz parte! O segredo é a lição que tiramos de cada tempestade. Assim, vamos nos fortalecendo.

Um 2018 iluminado para todos nós!

 

(*) Cássio Bida
Jornalista curitibano e funcionário público, gosta de criar escrever histórias nas horas vagas.

É autor do PodCast Cartas Faladas  que desenvolveu para espalhar amor em meio à dureza do mundo.


 

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