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A arte, essa estranha arte

Em que pesem – e muito – os comentários nem sempre elegantes sobre as mais recentes exposições nos museus e galerias de arte no Brasil, e por mais estranho que pareça, vejo um lado positivo. Não sou Pollyana, mas estou aprendendo a medir os fatos da vida em algum ponto entre o oito e o oitenta.

A discussão infindável nas redes, com argumentos até grosseiros de um lado, e outros tentando explicar, que digamos, é inexplicável, mostrou a que veio a arte. Arte é reflexão e não enfeite de parede combinando com móveis e tapetes.

Acho que pessoas que jamais se interessaram por arte, são as que mais postam comentários exacerbados, condenando as performances, quadros e idéias de anos e até séculos atrás. Podem não gostar, não entender,condenar – isso é um direito – mas não precisa ofender.

E o interessante são os argumentos, dos dois lados, de quem acusa e de quem defende, palavras duras, levadas para o lado pessoal, criando até inimizades e ligando os defensores ao esquerdismo. Ainda não encontrei esse ponto de encontro.

E penso que, apesar de algumas exposições terem se encerrado em função da pressão dos internautas e deputados que propõem tortura, o sentimento e as ideias do artista eternizadas na tela atingiram camadas que, por mais indignados que estejam, não podem deixar de refletir, lá no âmago: que negócio estranho é esse?

Parece que ninguém nunca viu ou ouviu falar nas esculturas que enfeitam praças e obeliscos pelo mundo afora, os registros de figuras nas cavernas e abrigos pré-históricos. Elas estão nos livros, nas páginas de história e não me lembro de ver questionada a liberdade de criá-las a não ser nos regimes fascistas, o que é melhor esquecer.

Estamos discutindo arte, conversando, o que é quase inédito num país que pouco preserva sua história e vivia em silêncio antes do espaço aberto pelas redes sociais. A conversa foi parar nos programas de televisão, no face, no Twitter, no Whats,  virou pauta, e isso me parece bom, pois nos dá a oportunidade de ouvir, comparar, concordar, discordar, aceitar, ou repelir.  Apesar do clima muitas vezes desconfortável, estamos falando de arte, essa desconhecida por muitos, e que agora, ainda que de forma estranha, começa a fazer parte de nosso olhar.

E assim, vamos conhecendo melhor o mundo como ele é – cheio de diversidades, opiniões, sentimentos – e não como gostaríamos que fosse, um mundinho particular, só nosso, cultivado entre as paredes de casa.

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Quando as pessoas eram mais iguais

BLANCHE AMÂNCIO *

Nasci numa cidadezinha que amei – e amor não acaba. Pelo menos não deveria. Auriflama era um lugar onde todo mundo conhecia todo mundo, e disso já se conclui que, como seres humanos que somos, aquilo parecia uma grande família italiana.

Nos anos 1950 minha mãe bebedourense tinha concluído o Magistério e sonhava com uma classe lotada de alunos. Na época, onde o Estado tivesse aula disponível as professorinhas abraçavam com boa vontade. E foi assim que ela atravessou o interior paulista para parar na região da Vila Áurea. Chegava a atravessar rio a cavalo para lecionar nas fazendas.

A família do meu pai era de Araçatuba e tinha a Fábrica de Colchões Silva, a Fábrica de Ladrilhos Silva e meu tio Lázaro Silva foi o primeiro prefeito de Auriflama, em 1965. Mas isso é outra história. Fui criada lá.

As classes tinham aquelas carteiras pesadas de madeira e ferro e os alunos sentavam-se sempre em dupla. Era o filho do prefeito com o filho do coveiro, o filho do juiz com o da professora. Isso nunca mais vai acontecer!

Apelido? Não havia o maldito bullying, então a criatividade corria solta: Burralê para Alexandre, Pimentinha e, se até o final desta minha escrita me ocorrer outros, citarei.

Fora das classes, a simplicidade não incomodava os novos deuses. Eu entrava na sala do juiz, de chinelos e pedia para ele assinar minha autorização de viagem – pois viajava 3 horas aos sábados para estudar piano em outra cidade. “Minha filha, você precisa pedir para seu pai assinar este documento”. “Sim, senhor, só um minuto porque meu pai está lá fora”, eu respondia. No corredor, eu mesma fazia a assinatura e entrava na sala de novo, desta vez com o documento corretamente preenchido.

Não havia restaurantes. Só um para viajantes. No açougue, na venda, na quitanda, uma cadernetinha bastava. Na volta da escola, o dono da padaria dava bala para as crianças. Os estudantes mais ousados entravam na casa da professora e olhavam as perguntas da prova que seria aplicada no dia seguinte.


“Eu entrava na sala do juiz, de chinelos e pedia para ele assinar minha autorização
de viagem – pois viajava 3 horas aos sábados para estudar piano em outra cidade”


Por muito tempo, na Rua Feliciano Salles Cunha, uma das principais, os boiadeiros passavam com suas boiadas e seguiam embora. A vizinha, de vez em quando, fazia um terço que, para criança, não acabava mais. As eleições pegavam fogo! Ai de quem fosse contrário a alguém. De qualquer forma, você sempre levava paulada.

Os passeios eram nas cachoeiras. Nos anos 1970, você pedia um telefonema interurbano para a telefonista, na central telefônica – diga-se de passagem, uma casinha superapertada que só cabia mesmo a telefonista, o telefone e o cliente. Lá pelas tantas, a mulher avisava a família que tinha conseguido completar a ligação. A mãe descia em bloco, correndo pela rua, com os filhos atrás, para falar com um parente distante.

Coitado de quem fosse o alvo da frase “me espera na saída”. As festas das escolas atraíam toda a cidade – quermesses, desfile da fanfarra e outras comemorações cívicas. O padre pressionava as crianças encapetadas para se confessarem: “matei aula”, “joguei ovo no colega da classe”. Eram pecados gravíssimos.

Certo dia chegou o primeiro bandido na cidade – muito amador, por sinal. A molecada, eu inclusive, ficava na esquina da delegacia espiando e esperando para ver a cara desse bandido, certamente um ladrão de galinhas. Os encapetados subiam nos muros dos vizinhos e simplesmente cortavam o varal – lembrando que lençol naquela época era de algodão e olhe que tinha os de linho, e tudo branco, os quintais de terra, quando muito, grama. Daí que se conclui que isso sim era quase terrorismo.

Nem tudo era tanta pureza, mas as pessoas eram mais iguais. Não havia digital influencer. Eu nunca entrei de salto na sala do juiz. Todo mundo jogava queimada. Professor era respeitado. Autoridade não era Deus. Amizade era para sempre. Tal qual hoje.

 

* Blanche Amancio
Jornalista e empresária na Texto & Cia. Comunicação, coralista de
orquestra e ‘mãe’ da gata Velminha


 

Toda semana, às quartas, o blog traz a crônica de um(a) ‘palavreiro(a)’ convidado(a). O convite é extensivo a todos que gostam de palavrear a vida em forma de crônicas.

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Quer Dançar Comigo?

O bailinho estava animado. Um daqueles bailinhos de estudantes, quando ainda não nos dávamos conta de que a ditadura iria nos engolir. Adolescentes, éramos nós. Daquela vez o arrasta-pé foi na quadra de esportes de uma faculdade. Fui com algumas amigas e estávamos naquela fase bonita do despertar para o amor, o romantismo, o toque, o contato com o sexo oposto. Bem, havia também quem quisesse contato com o mesmo sexo – isso não muda, mas não era esse o caso.

Eu usava vestido tubinho acima do joelho, scarpin, rabo de cavalo e franja. Estava me achando. Os rapazes ficavam de um lado e as garotas, de outro da pista. Então, nós, as meninas, esperávamos um sinal do bonitão e íamos ao encontro, ou ele chegava mais perto. Só sei que era bom: twist, rock e músicas lentas para momentos mais aconchegantes.

Costumávamos dançar até às onze da noite e íamos para casa comentando sobre tudo o que aconteceu: o mais bonito, o mais atrevidinho, roupas, cabelo, etc. Alguém sempre voltava acompanhada, e o casal caminhava na calçada oposta, um pouco mais atrás para preservar a intimidade de alguns beijos inocentes.

Segurar na mão era o máximo, mão no ombro, então!!

Bem, voltemos ao bailinho. Já disse que estava eu me achando o máximo naquele vestido tubinho e de batom rosa-chá. Então, um lindo, mas muito lindo rapaz fez o esperado sinal. Não hesitei nenhum segundo e caminhei segura em direção à pista.

Mas, ele passou direto. O sinal era para outra garota que estava logo atrás de mim.

A vergonha!

Fiquei parada no meio da pista, sem saber se voltava ou se continuava, disfarçando, como se eu estivesse apenas atravessando de um lado para o outro.

Resultado: fui direto para o banheiro, onde permaneci um longo tempo até criar coragem e sair de fininho, rezando para ninguém me ver.

Nunca mais voltei lá. Bobagem, podem estar pensando? É, pode ser. Mas vai dizer isso para uma adolescente!!

 

 


A jornalista e escritora Matilde Leone publica sua crônica na seção “Delírios de Matilde” sempre às sextas-feiras.

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O amor incondicional dos ipês e outras árvores

ELIVANETE ZUPOLLINI BARBI *

Embevecida pelos ipês amarelos, brancos, rosas que, neste ano, atraíram nossos olhares e provocaram uma competição extraoficial de fotos e selfies nas redes sociais, também fui assaltada pela intensidade da natureza que continua desafiando os homens e mostrando seu indomável poder – para o bem e para o mal.

Dias desses, a caminho do trabalho, numa rua comum, com buracos, matos e lixo, dois ipês rosa empinhocados desafiavam os postes de cimento, cabos e fios que fazem das ruas brasileiras um emaranhado feio como a política nacional. Explodiam, sem pudor, dezenas de buquês, centenas, talvez milhares, de pequenas flores capazes de emocionar corações moles, arrancar suspiros profundos e pendurar pontos de interrogação em mentes que só fazem pensar.

Além da genética, da botânica, das condições climático-ambientais, o que são os ipês? Por que florescem tanto nessa Ribeirão marrom e seca? Nasceram com a missão de nos ensinar a dar o melhor, incondicionalmente? Para além de Darwin, qual o mistério criador e evolutivo que reuniu neste planetinha Terra – uma insignificante poeira nas galáxias infinitas – tanta beleza, generosidade, esplendor, perfeição?

Não se trata aqui de uma reflexão teológica, filosófica, nem mesmo existencial, pois me falta competência. Nem mesmo armas de poetas tenho eu para, num tecido “palavreiro”, denunciar as reais intenções dos ipês. Mas, que há intenções ali, há. E são divinas!


‘É uma beleza deusa que se veste com seda, projeta
sua maestria, executa a mais sublime sinfonia’


É uma beleza deusa que se veste com seda, projeta sua maestria, executa a mais sublime sinfonia. A mesma deusa simplesmente dá. No seu tempo. Não espera. Segue seu instinto, seu ritmo. Ama sem moeda de troca. Num movimento constante, cresce, se renova, perde folhas, brota novos galhos. Floresce. E nos dá a sensação de que, ao passarmos sob aquela tenda rosa de flores, estamos abençoados. Eis a natureza deusa cumprindo sua missão.

Diante da natureza dos ipês, botânicos, ambientalistas, poetas, garis e jardineiros têm diferentes definições. Para mim, eles são deuses, por definição de meu pai. Aliás, árvores, em geral, são verdadeiras entidades. Daquelas bem xamânicas ou iorubás, que fazem a ponte entre a terra e o céu com uma facilidade estonteante. Nem se importam se estão no cerrado ou na floresta. Estão. Não perguntam de onde vieram, para onde vão, se têm mérito, se são o povo escolhido. Não sentem culpa por suas raízes arrebentarem as calçadas. Não questionam se são amadas ou cuidadas. Amam. E se dão. Inteiras.

 

* Elivanete Zuppolini Barbi
Jornalista, professora universitária, palavreira
modesta e amiga querida

 


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O Café da Dona Aurora

Dona Aurora era uma senhora bem idosa, de cabelos branquinhos como algodão, que morava com o filho na casa ao lado da minha. Como o filho trabalhava, ela passava o dia todo cuidando da casa e fazendo crochê com uma agulha muito fininha.

Eu era criança, e uma das coisas que eu mais gostava era olhar as flores do jardim de dona Aurora. Os pezinhos de violeta eram minha paixão, as pequenas flores ficavam embaixo das folhas e exalavam um perfume inesquecível, inebriante.

Dona Aurora era espanhola e eu adorava o sotaque dela.

Todos os dias, depois de voltar da escola e fazer a tarefa que ninguém conferia, eu batia palma no portão de Dona Aurora e ela sempre amável me convidava para entrar. Então, eu passava um bom tempo sentada numa poltrona na sala, perto dela, vendo-a e admirando como ela fazia crochê com uma agulha tão fina. Um pontinho minúsculo atrás do outro e ela ia fazendo as toalhinhas delicadas.

Mas outras coisas me encantavam naquela casa. Eu gostava de perambular até a cozinha só para ver a tigela de vidro cheia de água com os legumes descascados e picados todos do mesmo tamanho, em cima da pia. Ela dizia que era para fazer a sopa quando o filho voltasse do trabalho.

Então, quando chegava a hora do café da tarde, ela preparava leite condensado com café e me dava uma xícara. Para mim, era um deleite, pois em minha casa não havia leite condensado.

Um belo dia, fiz propaganda do leite condensado , e meu irmão – também criança – quis ir comigo. Sentamos os dois na sala e esperamos o café. Muito amável, ela fez uma xícara para cada um.

Daí pra frente, todos os dias, eu e ele com a maior sem cerimônia, chegávamos e ficávamos sentados, os pés balançando mal tocando o chão – esperando a hora do café.


‘Então, quando chegava a hora do café da tarde, ela preparava leite
condensado com café e me dava uma xícara. Para mim, era um deleite’


Não sei o que ela pensava ou sentia. Criança não se importa muito com essas coisas, nunca imaginam estar incomodando. No nosso caso, queríamos apenas beber aquele café delicioso cheio de leite condensado.

Um belo dia, minha mãe saiu de casa e resolvemos fazer um agrado a dona Aurora, uma retribuição pelo café. Pegamos dois mamões verdes no quintal e fizemos um doce, na verdade uma gororoba, uma sopa de mamão. Arrumamos a mesa com pratos e talheres e chamamos dona Aurora para comer. Ela foi. Sentou-se à mesa com requinte, como convidada de honra.

Meu irmão encheu um prato para ela com a sopa de mamão e ficamos os dois em pé, como dois soldados, de frente para ela, esperando o resultado. Devia estar péssimo, porque de vez em quando ela parecia estar engolindo um pedaço de sabão. Mas comeu tudo, sorriu, agradeceu e foi para casa cambaleando, apoiada na bengala.

Não sei se passou mal, teve dor de barriga ou o quê. Só sei que nós dois ficamos muito felizes por ter retribuído os tantos cafés com leite condensado que ela nos dava.

Lavamos os pratos, deixamos tudo como estava e tivemos de jogar fora o que sobrou da gororoba para não deixar nenhum vestígio. Minha mãe nunca soube disso. Mas eu lembro sempre, quando tomo café e quando vou fazer pudim.

 

 


A jornalista e escritora Matilde Leone publica sua crônica na seção “Delírios de Matilde” sempre às sextas-feiras.

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O Silêncio da Madrugada

CAROLINA S. PEGORINI *

“É estranho pensar no quanto a gente muda com o passar dos anos”, ela refletia, enquanto fitava as estrelas.

Sejam grandes mudanças na personalidade ou singelas mudanças de atitude no cotidiano, fato é que quase ninguém passa pela vida sem se modificar num ou noutro aspecto, em maior ou menor grau.

Por exemplo, quem diria que ela, que gostava de chegar em casa com o nascer do sol e costumava considerar que um final de semana sem sair à noite era um final de semana perdido, desperdiçado, não vivido, viria a tornar-se caseira, introspectiva e quase sem vontade de ver outras pessoas?

Não, ela não havia envelhecido, tampouco sabia dizer com precisão o instante e o motivo exatos em que essa transformação ocorreu. Só sabia que, aos poucos, foi aborrecendo-se e perdendo a vontade de cumprir aquele ritual clássico das sextas e sábados de equilibrar-se num salto fino, entrar num lugar lotado, ouvir música alta, socializar com os mesmos de sempre e procurar afinidades em quem acabara de conhecer.

Cansou-se dessa rotina. O interesse pelas noitadas na rua havia se dissipado sem maiores explicações. “Acho que foi um processo gradual. Aquelas noites em claro eram cheias de ruído… ruídos vazios e ensurdecedores, na maioria das vezes”, ela pensava.

Entretanto, uma coisa permanecia inalterada: seu encanto pela madrugada. Ficar em casa não significava ficar dormindo. Debruçada na janela do quarto, contemplava o céu noturno, as estrelas e a luz do luar que clareava a exuberante natureza ao redor. De vez em quando descia as escadas e rumava ao jardim, deitava-se no gramado e admirava a beleza do firmamento. Os únicos sons audíveis eram o farfalhar das folhas das árvores sacudidas pela brisa, o cricrilar dos grilos e um ocasional bater de asas de algum morcego errante. Por vezes, os pingos de chuva que batiam no telhado, nas vidraças e nos canteiros compunham uma melodia agradável e propícia ao sossego de sua mente.

Mas o que mais reinava nessas horas era o silêncio, o sagrado e limpo silêncio imaculado, não poluído pelos incômodos barulhos urbanos presentes nas horas do dia. O silêncio era um companheiro invisível que apresentava momentos perfeitos para a reflexão e a autoanálise. Isso só era possível devido à quietude que apenas as madrugadas proporcionam. Estando em casa ou na rua, ela era notívaga convicta, acreditava que esta característica era imutável e que a acompanharia até o fim.


‘Debruçada na janela do quarto, contemplava o céu noturno, as
estrelas e a luz do luar que clareava a exuberante natureza ao redor’


Porém, quando era um pouco mais jovem e sua alma ainda fervilhava diante das incontáveis atrações que o mundo lhe oferecia, não queria saber do silêncio. Considerava-o enfadonho e desinteressante, coisa de gente insossa, que não buscava novidades e se conformava com o tédio. Pouco compreendia quem pensava de outro modo; na verdade, sequer fazia questão disso. Sua ânsia de viver intensamente combinava com volume alto, com velocidade, com múltiplos estímulos que a cercavam sem deixar espaço para o discernimento.

Conforme o tempo passou e sobrevieram as lições preciosas que a vida ensina na marra àqueles que não aprendem por bem, ela finalmente percebeu que precisava pensar. Pensando, compreendeu que seria prudente afastar-se. Afastando-se, constatou que necessitava de uma pausa. E então notou que o mar de ruído em que estava imersa vinha, há muito, impelindo-a a voltar-se somente para o exterior. Sua cabeça confusa e exausta lastimava, pedindo uma mudança. Resolvida, buscou o silêncio e encontrou na madrugada o seu refúgio amigo.

Agora, anos depois, ela está em paz. Meditou, redescobriu-se, reconheceu-se. Passou a apreciar a própria companhia. Continua tendo a rotina de trabalho-estudo-família-lazer, como manda o figurino, mas seu olhar está diferente. Mudou o foco, e, por isso, achou bom mudar também de endereço. Valorizou a simplicidade. Aprendeu que nem tudo o que reluz é ouro, e que não precisava de muito para sentir-se feliz. Também aprendeu a falar menos e ouvir mais. Os hábitos tão arraigados foram perdidos sem muito esforço, como uma roupa que já não serve e da qual ela nem sente falta. As antigas dúvidas foram respondidas e deram lugar a novas perguntas, no ciclo infinito de busca que move adiante a humanidade.

Ao cair da tarde, ela volta para casa e tira os sapatos. Troca o apertado traje social por um vestido leve e confortável. Desliga o celular. Solta o cabelo e senta-se no sofá da varanda, apreciando o pôr do sol. Fecha os olhos ao aspirar o perfume das flores de bergamoteira e ouve o gorjeio dos pássaros que se empoleiram nos galhos, despedindo-se da luz do dia. O vento suave embala suas reflexões e, vencida pelo cansaço da semana, ela adormece sem perceber. Quando desperta, vê o luar banhando o jardim: as horas se passaram e a lua nasceu, por trás da casa, tingindo o cenário de branco azulado. Ela se levanta e desce os degraus, caminhando descalça pelo gramado. O único som que pode ser ouvido é o de sua respiração; até o vento cessou. Ela sorri. O silêncio chegou.

 

* Carolina S. L. Pegorini
Palavreira e leitora de bom gosto, apreciadora de toda forma de arte e,
como muitas de nós, nascida por engano com um ou dois séculos de atraso

 


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Que número sou eu?

Sou várias pessoas, pois muitos números me identificam. Tenho pensado nisso. Se vou ao médico, sou aquela de cartão número tal, que está com ar desanimado por causa da dor. Assim sou vista pela recepcionista e pelo médico que, aliás, só vai tomar conhecimento mesmo do meu joelho ou do meu estômago.

Já, no banco – aí são muitos números – sou a mulher que retira dinheiro para fazer compras, um pouco mais animada que a anterior. Aí chego ao posto de vacinação, carteira número tal, sou aquela mulher que ama a vida e, por isso, quer prevenir doenças. Então, o guarda de trânsito me para na rua e pede vários números: carteira de habilitação, documento do carro. Sou a mulher ágil e independente que não depende de ninguém para levá-la para lá e para cá.

Então, assisto a um filme no on demand e sei que meus números estão quase todos lá na provedora: celular, CPF, endereço, telefone fixo, Rg, sou a mulher ligada em cultura, documentários, arte.. Chegam as eleições. Outros números no título de eleitor: sou a mulher que cumpre seus deveres cívicos na esperança de um país melhor

Ah, o meu passaporte! Bem vestida, fazendo o check in, mulher que ama viagens e sempre aberta a conhecer outras culturas. E têm as senhas: do banco, do Face, do e-mail, do site de notícias e de qualquer outro lugar em que me cadastrei. É isso: sou uma pessoa cadastrada também na pizzaria, na lanchonete, na livraria, na farmácia, no supermercado, na lojinha de roupa, no posto de gasolina, na lista telefônica e em todas as páginas que eu abro para procurar um simples perfume, um aspirador de pó ou um liquidificador. E tem a placa do carro.

É a matemática comandando a vida. Todos sabem tudo a meu respeito através dos números. Quando foi que isso aconteceu?

Se tudo é número, eu também devo ser um. Procurei a numerologia e descobri: sou número três.

Isso é bom? Bem, alguns pontos muito positivos, interessantes, e outros nem tanto e prefiro pular essa parte. Mas, um dia fui número cinco. E isso ficou gravado em mim. E é isso que quero contar.

Eu estava na escola ( ginásio na época) e pode parecer estranho, mas eu era número cinco, quando deveria ser um número maior por uma questão de ordem alfabética, Acho que era pelo lugar que ocupava. Havia cinco fileiras de carteiras e eu sentava na primeira carteira da quinta. Daí, número cinco. Ficou marcado porque o professor de matemática – vejam só, matemática outra vez- me odiava. Era nítido. Todas as perguntas que ele fazia eram para mim.

– Número cinco, responda.

Resolver exercício na lousa?

– Número cinco, lousa!

Eu ia mal em matemática apesar de me interessar pelo mistério dos números. Ia mal por causa da implicância do professor.

Bem, o tempo passou e muitos, mas muitos anos depois, um belo dia, entrei em uma mercearia e, pouco depois, percebi que um homem me olhava como se tentasse me reconhecer. De repente, em meio a várias pessoas, ele perguntou – em voz alta e apontando o dedo para mim:

– Você não é o número cinco? Foi o mesmo que dizer:

– Você não é aquela que ia mal em matemática?

 


A jornalista e escritora Matilde Leone publica sua crônica na seção “Delírios de Matilde” sempre às sextas-feiras.

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Efêmera

ELY VIEITEZ LISBOA *

O Criador chega perto de suas criaturas no pátio do Limbo. Estão sonolentas, enoveladas, em latência, à espera do vir-a-ser. Toca com indicador em Efêmera. Ela se abre em flor, espreguiça-se, bela, nua, pura. Os olhos azuis veem o Criador.

– Que quereis de mim?

– Tu vais ao mundo lá embaixo, em missão especial. Tens um dia para te tornares adulta, sábia, encontrares um parceiro, ficares grávida, deixar lá teu filho e voltar.

– Um dia?!

– Não te preocupes; é no meu calendário. Lá, os homens marcam o tempo de maneira complicada e não muito eficiente, com minutos, horas, dias, semanas, meses, anos.

Efêmera cobre os pequenos seios claros, firmes, os mamilos róseos. Depois as mãos longas descansam no colo, como folhas justapostas. Vira-se para o Criador. Os cabelos muito claros reluzem, trespassados de sol.

– Quando devo partir?

O Criador nada responde; com um simples aceno de mão dá a silenciosa ordem.

Efêmera, aureolada por uma energia azul, vai desaparecendo. Surge lá embaixo, na terra dos Homens, em um trigal, pintalgado de papoulas. Ama a cor do trigo, que se mistura com o dourado de seus cabelos. Acaricia as pétalas das papoulas magriças, equilibrando-se sobre os caules frágeis. Efêmera caminha entre os trigais, passa por um regato límpido. Para, encantada: a água é prata líquida, escorrendo sobre as pedras limosas. É belo o mundo dos Homens! Pouco adiante, a macieira pejada de frutos mata-lhe a fome, o caldo doce, de gosto bom, descendo-lhe pela garganta. Efêmera procura as grandes estradas que a levarão aos Homens, onde está o seu destino, a missão. À noitinha, cansada, repousa perto de um caramanchão de buganvílias coloridas, que se esparramam sobre um grande muro de pedra. Do outro lado estão os Homens.


“Efêmera, aureolada por uma energia azul, vai desaparecendo. Surge lá embaixo,
na terra dos Homens, em um trigal, pintalgado de papoulas. Ama a cor do trigo”


Quando entra na Vila, todos se espantam com o insólito de sua nudez, o exagero da beleza, o translúcido de pela alva. Ela caminha vagarosamente e vai sentar-se sob uma figueira centenária. A vida na pequena aldeia muda. Todos vão lá para vê-la, os homens a desejam, as mulheres a odeiam. Só as crianças e os cães a recebem normalmente, com carinho, e estão sempre aos seus pés. O chefe da Comunidade presenteia Efêmera com um manto azulado, quase tão belo quanto seus olhos, manda-lhe joias, manjares finos. Ela aceita o manto. Para se alimentar, prefere figos e amoras sumarentas que as crianças lhe trazem.

Como tudo na vida, o povo acostuma-se à presença de Efêmera. Ela espera, calma, porque sabe. A hora certa de realizar sua missão está próxima.

É ao entardecer do sétimo dia, no calendário dos Homens, que Sore chega. Vem das montanhas. Entra na aldeia, belo, alto, o largo peito nu, os ombros cobertos de peles. Os cabelos vão até os ombros e são escuros como seus olhos grandes. As mãos enormes seguram o bastão real; ele é o sucessor, o príncipe. Seus pés o levam até a figueira. Olha para Efêmera com o deslumbramento das surpresas únicas, o coração batendo acelerado. Ela, ereta, sorri, atraindo-o como um ímã. Deixa cair aos pés o manto. Estende-lhe a mão. Sore encontra sua companheira, ele, o guerreiro mais cobiçado por todas as mulheres.

Envolve-a com os braços, misturam-se os cabelos, os dois corpos se juntam. Deitam-se. Sore cobre-a com a doçura das brisas e rega seu ventre com o néctar da vida. Efêmera sabe. Uma criatura dorme no seu útero, túrgido de futuro: Ele, o Salvador. Será um guerreiro belo e forte como o pai e terá o céu nos olhos, como Efêmera. No dia certo ela se deita e espera. O filho sai-lhe do ventre. Ela o envolve com o manto real. Beija-o e parte.

Muitos anos depois, ainda contam que no dia em que encontraram a criança, uma luz azulada envolvia a figueira. Sore viera, tomara o filho nos braços e o levara para cumprir o seu destino.

Lá no alto, no calendário eterno, havia se passado mais um dia. E tudo se cumprira como se deve, nas sábias leis do Criador.

 

* Ely Vieitez Lisboa
escritora com 14 livros publicados, autora do romance epistolar “Cartas a Cassandra”, tem uma coluna dominical nos jornais A Cidade e Metrópolis, de Ribeirão Preto, no jornal Sudoeste, de São Sebastião do Paraíso, e escreve eventualmente no Linguagem viva, de São Paulo.

 


Toda semana, às quartas, o blog traz a crônica de um(a) ‘palavreiro(a)’ convidado(a). O convite é extensivo a todos que gostam de palavrear a vida em forma de crônicas.

VEM PALAVREAR COM A GENTE!

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Pedras no caminho

Agora sei. Somos pedras. Viemos dela. Um estudo da NASA mostra que a primeira receita de DNA está contida em meteoritos. Mas gosto de pensar que cada um se originou de uma pedra preciosa.

Há quem afirme que viemos do pó e ao pó retornaremos. É bíblico, e outras teorias nos confundem como: somos fruto de geração espontânea – e também que nosso berço é a África: todo o DNA presente nos humanos é derivado da Eva mitocondrial, conforme dizem alguns cientistas.

Bem, pensando em minha mãe como uma pedra, imagino que ela tenha sido um diamante. Faz sentido: ela amava jóias, principalmente com brilhantes. Algumas pessoas me lembram uma esmeralda, outras, rubi, safira, água marinha….

Parece uma discussão boba, e é boba mesmo. Temos tanta coisa para fazer, e saber como foi o começo e como será o fim não muda nada, e estamos sempre no meio – agora de um lamaçal – nem passado, nem futuro – e ninguém bate o martelo, muito menos o Papa.

O que penso que sei é que a evolução tem fases e não pode ser que acabe aqui, em nós, assim sem mais nem menos, só para dar serviço para o IBGE.

Tudo isso para falar de pessoas que pensam ser o topo da evolução humana. Que não precisam aprender mais nada, ou melhor, ninguém tem nada para ensinar nem algo a se descobrir já que a presença delas na Terra é um favor para os outros. Existem pessoas assim? Já vi algumas. E uma delas conheci – infelizmente – numa reportagem para um jornal de São Paulo, quando eu morava lá.


Bem, pensando em minha mãe como uma pedra, imagino
que ela tenha sido um diamante.  Algumas pessoas me
lembram uma esmeralda, outras, rubi, safira, água marinha….


Precisava entrevistar famosos sobre uma viagem que fora muito especial, um marco na vida deles. Não vou citar os nomes. É desagradável. Não é ético. Todas foram muito elegantes, colaborativas, e os casos contados, bons também. Menos uma.

Um publicitário de renome ( palavra mais pernóstica) parecia ter engolido o rei. Aconteceu assim: sou míope, uso óculos, então não enxergo a uma certa distância. Naquele dia, muito calor e sol, eu estava de óculos escuros (de grau) e quando cheguei à agência do rei na barriga, vi que havia esquecido meus óculos de lentes claras em casa. Acontece.

Depois de uma longa espera – acho que estava em um processo de criação muito importante – ele me atendeu. Ele de um lado e eu do outro de uma mesa enorme, bem larga. Tirei os óculos escuros porque é muito deselegante e sem sentido falar com alguém sem poder olhar nos olhos, ver o gestual. E me dei conta que àquela distância eu não poderia, digamos, interagir: ele se tornou uma imagem borrada. Então, com educação – sou educada – expliquei que esquecera meus óculos e sugeri sentarmos mais próximos um do outro. Ele me pareceu indignado e com ar meio enojado, respondeu:

– Não, não!! Está muito bom assim.

Minha vontade foi de ir embora sem dizer nada. Apenas dar as costas. Mas, sabem… é trabalho, precisava do dinheiro. Então não tive dúvida: coloquei os óculos escuros e falei com ele. Aliás, só pra encerrar: uma entrevista pífia, uma historinha sem graça. Como ele. Há pouco tempo, li uma declaração dele na imprensa afora, que enfureceu muitas mulheres. Pensei: não mudou nada. Qual pedra ele poderia teria sido?

 

 


A jornalista e escritora Matilde Leone publica sua crônica na seção “Delírios de Matilde” sempre às sextas-feiras.

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Um fusca, um húngaro e sua aldeia tropical

JANICE KISS *

Éramos uma família simples, iguais a tantas outras que viviam na cidade que ainda não havia delimitado suas fronteiras entre o urbano e o rural. Ter fazendas a curtas distâncias da casa, criar sua galinha, plantar sua própria verdura era cena comum de uma Ribeirão Preto dos anos 1970. Hoje tem até nome pomposo para isso, “locavore” – movimento que prega o consumo de alimentos cultivados localmente. Éramos vanguarda e sequer desconfiávamos.

Mas esse nosso quintal diversificado e produtivo não era nada perto do que vi tantas vezes no preferido passeio dos domingos. Quando o Fusca azul, 66, do meu pai pegava a estrada rural que levava (ainda leva?) a Santa Cruz das Posses, distrito de Sertãozinho, eu sabia que nossa hortinha era um nada e que minha criação imaginária de porquinhos era puro devaneio de menina perto da aldeia de Joseph Kiss, o tio Zé, ou o Zé hungarês, como a pequena cidade achou por bem chamá-lo.

Não sei dizer ao certo como tio Zé, um húngaro de cabelos e olhos escuros, foi parar em Santa Cruz. Ele veio da Hungria com sua extensa família antes da Segunda Guerra porque o pai, que havia passado por toda a Primeira Guerra, anteviu que épocas sombrias se aproximavam. Muito tempo depois, conclui que de certo modo ele nunca abandonou a sua aldeia do leste europeu. Apenas adaptou-a aos trópicos, onde certamente produzia boa parte do que necessitava.


‘minha criação imaginária de porquinhos era puro devaneio de
menina perto da aldeia de Joseph Kiss, o tio Zé, ou o Zé hungarês’


Tio Zé tinha um quintal gigantesco, talvez hoje classificado como chácara ou pequeno sítio. Ali havia uma vaca (pois é, húngaros não sabem brincar), um paiol para guardar milho, galinhas com vida digna (em contraponto com a criação de escala industrial de hoje), chiqueiro com porcos (os dele eram de verdade), horta e uma infinidade de frutíferas. Na farta mesa do café, tinha pão, manteiga, queijo e sei lá quantas coisas mais produzidas pela família ou trocadas com vizinhos e amigos – e há quem tenha descoberto o conceito de economia colaborativa apenas agora…

Mas Joseph Kiss jamais se sentava para conversar com os seus. Parava na mesa, tomava uma xicrinha de café e ia debulhar o milho. Voltava, comia um pedaço de queijo e ia ver a água e o sal da vaca. Para conversar com ele, só mesmo o acompanhando na expedição pelo seu universo rural, tentando compreender seu português arranhado. Coisa que apenas gente adulta fazia, como meu pai ou meu avô Alexandre (irmão de José).

Ao modo de uma criança, eu observava atentamente o silêncio dele e o admirava por ser incansável. Muitas décadas depois, essa forma de prestar atenção foi essencial para o meu ofício, muito ligado à agricultura, onde a urgência tem outro tempo e há que se ter uma prosa cuidadosa e sem presa para encontrar o que procura.

Quando o Fusca 66 rumava de volta para casa, havia sempre uma parada na beira dos canaviais (às vezes isso acontecia na ida). Meu pai cortava pedaços de cana para chuparmos ao longo do caminho. Nesse percurso foram sendo construídas histórias e memórias, das quais me afastei por muito tempo e hoje volto para elas, na esperança de um dia ter minha própria aldeia tropical. Será que Joseph, que há muito tempo vive em algum lugar desse universo, vai me visitar?

 

* Janice Kiss
Jornalista ligada à agricultura, meio ambiente e ao valor histórico dos alimentos. É ribeirão-pretana, vive em São Paulo e já andou muito por aí escutando e contando histórias

 


Toda semana, às quartas, o blog traz a crônica de um(a) ‘palavreiro(a)’ convidado(a). O convite é extensivo a todos que gostam de palavrear a vida em forma de crônicas.

VEM PALAVREAR COM A GENTE!

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