Silvia Pereira

Jornalista com 30 anos de experiência em redações jornalísticas e blogueira de cinema, séries e literatura desde 2008. Apaixonada por histórias, adora lê-las, assisti-las e ouvi-las, mas, principalmente, contá-las.

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COMPORTAMENTO: Brancos sem crise

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Geração Ageless – Revide Ancienne

Mulheres nas casas dos 40 e 50 anos que recusam o rótulo de meia-idade.


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ENTREVISTA: Melhem Adas

Matéria de capa para o 1º número da revista Revide Ancienne, voltada para o público 60+.


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‘Parasita’ surpreende com alegorias sociais

Em biologia, o termo parasita identifica “um organismo que vive dentro de outro, dele obtendo alimento e, não raro, causando-lhe dano”. Apropriado, então, o título escolhido pelo diretor John Bong-Ho para seu filme sobre uma família de desempregados que “invade” a vida de outra família burguesa.

Mas nada é tão simples assim em “Parasita” (2019), surpreendente produção sul-coreana que vem colecionando indicações e boas críticas mundo afora.

À guisa de metáfora, o filme pode ser comparado a uma “caixinha de surpresas”, pois começa despretensioso, parecendo uma comédia leve, como algumas das nossas produções nacionais que desagravam o “jeitinho brasileiro” por meio do humor. Mas, à medida que o roteiro vai nos brindando com  surpresas, o filme evolui para um thriller de humor negro e termina como um drama surpreendente.

O conjunto todo resulta em uma alegoria social desses tempos de inconsciência coletiva, em que vivemos dirigidos pelo automatismo de nossos egos.

E é no automatismo do “modo sobrevivência” que vive a família Kim, formada pelo pai, Ki-Taek, a mãe, Chung-Sook, o filho estudioso, Ki-Woo, e a filha expert em informática, Ki-Jung – só isso explica como conseguem manter o humor vivendo em um porão calorento com vista para uma lixeira comunitária, e alimentando-se com o pouco dinheiro que conseguem levantar com biscates.

Os Kim veem uma oportunidade de mudança quando Ki-Woo consegue um emprego como tutor da filha adolescente dos Park, família abastada que vive em uma espaçosa casa de arquitetura contemporânea. Logo colocam em prática um plano para se infiltrarem, os quatro, como empregados dos ricaços.

No começo, nossa compaixão fica toda com a jovem mãe e esposa Yeo-Jeong, que cai nas histórias engenhosamente arquitetadas pelos ex-desempregados. Nossos próprios vieses burgueses chegam a se escandalizar, por exemplo, com a imagem da família pobre se banqueteando na casa dos patrões ausentes.

Mas, repito: nada é tão simples assim. Quando descobrem outros “parasitas” sobrevivendo da opulência dos Park, os Kim são confrontados com situações inusitadas que, aos poucos, operam neles uma espécie de despertar de consciência. Quando uma mesma chuva impacta de formas diferentes as vidas das famílias, por exemplo, a ficha de Ki-Taek finalmente cai: o que parecia ignorância, revela-se descaso, e o que soava ingenuidade, genuína indiferença.

Os invasores começam a enxergar a própria invisibilidade dentro do organismo que acreditavam possível conquistar. Descobrem-se, na verdade, prisioneiros de uma realidade que não os considera e reconhece. Ante a cegueira social dos que acreditávamos “invadidos”, desenha-se o colapso.

A narrativa fornece muito o que pensar sobre se todos nós não nos deixamos contaminar pela cegueira de em relação ao outro, endêmica nesses tempos de individualismo exacerbado. É um risco a que nossos vieses inconscientes nos expõem todos os dias, na luta pela sobrevivência e sucesso em um mundo cada vez mais competitivo e desigual.

 

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Com ‘Dois Papas’, Meirelles ensina a construir pontes

O brasileiro Fernando Meirelles dirige Jonathan Price e Anthony Hopkins em ‘Dois Papas’

Filmes baseados em fatos reais costumam despertar questionamentos sobre quanto de verdade foi preservada na criação de seus roteiros e quanto de ficção foi usada para tornar suas narrativas mais palatáveis ao espectador. No caso de “Dois Papas”, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”), essas questões certamente surgirão, mas meu conselho é que você as esqueça completamente para se concentrar no melhor motivo para saborear este belíssimo libelo sobre diálogo, redenção e fé.

Até porque fica muito clara a intenção de Meirelles com esta adaptação cinematográfica para o livro de Anthony McCarten – que também assina o roteiro: mostrar, nestes tempos de intolerância e radicalismos políticos, como o diálogo entre correntes de pensamento opostas é possível quando conduzido com respeito, empatia e, principalmente, disposição para ouvir. O registro biográfico fica em segundo plano.

Os dois papas da ficção (à esq.) e os da vida real (dir.).

No caso de “Dois Papas” temos, de um lado, o religioso alemão Joseph Ratzigner, cujo pontificado como Bento XVI foi marcado por uma defesa ferrenha dos dogmas seculares da Igreja Católica (proclamações solenes que devem ser consideradas definitivas, infalíveis, imutáveis e inquestionáveis pelos fiéis). De outro, está o então cardeal argentino Jorge Bergoglio – que viria a se tornar o papa Francisco -, de formação jesuíta (ordem conhecida pelo trabalho missionário e educacional, que presta voto de pobreza) e com ideias próprias e pouco ortodoxas sobre tais dogmas.

Os protagonistas são interpretados, respectivamente, pelo veteranos Anthony Hopkins e Jonathan Price, atores ingleses que nos premiam com atuações “exatas” e irretocáveis. Cabe a eles – principalmente ao carismático Price – parte do mérito pelo filme não ter resultado massante, mesmo sendo quase todo alicerçado em diálogos e limitado a poucos cenários. Mas a maior parte cabe mesmo a Meirelles, que demonstra, mais uma vez, sua maestria na direção de atores e muita sensibilidade na orquestração das cenas. A montagem também é muitíssimo bem amarrada.

 

Esgrima dialética

A química entre os protagonistas começa quando Bergoglio é convocado a Roma por Bento XVI, em um dia qualquer de 2012. O argentino vai encontrá-lo em Castel Gandolfo – residência de verão do papa – com a intenção de pedir a assinatura dele em seu pedido de aposentadoria. Entre negativas veladas de um e divertidas investidas do outro, o que se segue, ao longo de três encontros, são diálogos que tecem uma espécie de esgrima dialética entre os padres. Começa com discordâncias sobre temas comezinhos do sacerdócio, como o celibato dos padres, homossexualidade e a consagração da comunhão a divorciados. Evolui para discussões filosóficas, como a natureza (i)mutável de Deus, que seguem temperadas por sutis pitadas de humor. O que é melhor: sem nenhum hermetismo. A linguagem é simples, mas nem por isso raso o conteúdo.

Não por acaso, o roteiro faz ao menos três menções a “muros” e “pontes” como metáforas das defesas que a Igreja sempre ergueu em torno de si para proteger-se de mudanças (os muros), em oposição aos caminhos abertos para o diálogo (as pontes) que Bergoglio propõe para reconectá-la a seus fiéis. “Construímos muros ao nosso redor o tempo todo enquanto o real perigo estava dentro, conosco”, dispara o argentino, antes de introduzir uma crítica clara à postura da Igreja ante as denúncias de abusos de crianças por padres.

Mas é quando a conversa deságua em confissões pessoais que a narrativa realmente atinge seu clímax! Numa Capela Sistina deserta, ambos os sacerdotes se despem de seus papeis para apresentarem-se um ao outro como humanos falíveis, tão pecadores quanto quaisquer outros. É tocante a forma como os até então antagonistas acabam se acolhendo, se amparando e lembrando um ao outro o mecanismo do perdão.

É como atravessam, juntos e finalmente irmanados, a ponte que construíram ao longo de 2 horas (tudo somado) de diálogo honesto e respeitoso. Um exemplo que, certamente, todos nós poderíamos aproveitar muito bem.

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‘Coringa’ e nossa embaraçosa catarse

Que atire a primeira pipoca o espectador de “Coringa” (Joker, 2019) que não empatizou com seu protagonista a ponto de, lá no fundinho, achar “bem feito” os crimes que ele acaba por cometer.

Um palhaço infeliz, que não controla o riso em situações de estresse

Esta é a grande armadilha do filme dirigido e co-roteirizado por Todd Phillips (pausa pra me chocar com o fato deste produtor, diretor e roteirista ter se especializado, antes, mais em besteiróis do nível de ‘Se Beber, Não Case’). Ele e o co-roteirista Scott Silver (“O Vencedor”) nos levam de tal forma a nos compadecer do dócil e maltratado Arthur Fleck – palhaço de rua triste que não controla o riso compulsivo em situações de estresse – que, sem nos darmos conta, continuamos a torcer por ele quando passa a assumir sua natureza psicopata.

Fez eu me lembrar do filme “A Onda” (The Wave, EUA, 1981; e Die Welle, Alemanha, 2008), que retrata a história verídica de um experimento realizado por um professor de História com seus alunos, a fim de provar, na prática, como uma sociedade inteira é levada a apoiar um regime racista, capaz de genocídio em massa – caso do Nazismo na Segunda Guerra Mundial. Mal comparando, é mais ou menos como milhões de pessoas acabam elegendo um líder que prega o machismo, a misoginia e a violência: fazendo nos identificar com histórias que busquem, lá em nosso subconsciente, nossos maiores medos e fraquezas e nos convençam de que “tudo bem” aniquilarmos quem este líder nos aponta como responsáveis por fazerem vibrar essas cordas. Dá uma sensação acolhedora de pertencimento nos ver representados por alguém que prometa se vingar por nós, né?

Está aí a armadilha!

E catarse é o nome dado pela psicanálise a este sentimento de “evacuação” de emoções internas (represadas em prol da civilidade) por meio de uma experiência fora de nós. É o que nos faz vibrar quando assistimos ao palhaço alquebrado finalmente defender-se de uma agressão gratuita, ainda que desproporcionalmente.

Se você não cedeu a esta embaraçosa catarse, parabéns! Pode se considerar um primor de civilidade, além de uma “pedra de gelo”, à prova de obras de arte que cumpram, para além do entretenimento, seu papel original: nos colocar um espelho nas fuças, para que nos reconheçamos nele e possamos extravasar nossos instintos primitivos apenas no terreno da ficção.

Por alcançar este intento de forma magistral é que “Coringa” entra para o rol das grandes obras-primas do cinema contemporâneo, ao lado de outras produções do gênero que bebem na fonte das histórias em quadrinhos – todos os “Batman” de Christopher Nolan entre eles.

Os Coringas de Heath Ledger e Joaquim Phoenix: interpretações de grandezas distintas

Aliás, não por acaso está na trilogia de Nolan a outra interpretação impecável do mesmo personagem, que elevou a atuação do saudoso Heath Ledger ao altar das mais memoráveis do cinema. Não há comparação possível entre seu Coringa e o de Joaquin Phoenix, porém. São duas grandezas distintas, nenhuma maior ou menor que a outra, até porque o mesmo personagem ganha tintas diferentes em uma e outra produção.

O Coringa de Ledger carrega o mesmo signo do caos do de Phoenix, herdado de seu original da HQ, mas nos arrebata mais pelo talento de sua interpretação. Não chegamos a torcer por ele, por mais que nos dê prazer cada uma de suas aparições magnetizantes na tela. Já o de Phoenix nos mantém o tempo todo suspensos pelo anzol da empatia. Por exemplo [alerta de spoiler!], desminta-me se você também não ficou sem saber se sentia repulsa ou compaixão por ele na cena em que, com o rosto branco ainda respingado de sangue, despede-se do amigo anão com um beijo na testa e palavras de gratidão e amizade ditas em um inconfundível tom de ternura (que interpretação, senhoras e senhores!).

Demorei alguns quartos de hora pra me tocar do absurdo de simpatizar com um assassino e enxergar o que diz sobre nós a cena em que ele dança em cima de uma viatura, aplaudido pela multidão: que todos temos dentro as mesmas sombras que a condição psiquiátrica de Coringa faz aflorarem à superfície de seu consciente; e que, devidamente incentivados, também somos capazes de aplaudir a barbárie. Ou não seriam tantos os que, entre nós, aprovam jargões como “bandido bom é bandido morto”.

Lamentável é que alguns de nós levem esta necessidade de catarse para a vida, aplaudindo e incentivando o ódio contra o diferente, que sempre vai nos ameaçar (culpa de nossos vieses inconscientes).

Phoenix arrasando como Coringa na cena de dança que viralizou nas redes, ao som de ‘Rock’n Roll’, de Gary Glitter

Seria bom se todos nos lembrássemos que as periferias pobres do mundo estão cheias de “coringas em potencial”, a sofrerem humilhações, violências e injustiças sociais, às vezes cometidas por quem deveria lhes proteger – governo e polícia. Mas nossa percepção vai só até o ódio primitivo que nos aflora quando somos assaltados por eles, por exemplo. Porque pra nós, ditos “civilizados”, sentir empatia por excluídos que ameaçam a segurança e a ordem sociais… só no cinema mesmo, né?

 

P.S. O QUE É AQUELE ROCKÃO DO CREAM – “White Room”,1968 – EMBALANDO UMA DAS CENAS DE DANÇA DO CORINGA?!?! (a que viralizou nas redes, ao som de “Rock’in Roll” de Gary Glitter, também empolga… mas sou mais Clapton!).

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