Silvia Pereira

Jornalista com 30 anos de experiência em redações e blogueira de cinema, séries e literatura; Silvia Pereira adora ouvir, ler, assistir e - principalmente - escrever histórias.

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Encontro de porta

Já escrevi que a quarentena imposta pela pandemia de Covid-19 não tem sido exatamente uma tortura para mim, que cresci com um defeitinho de sociabilidade – cortesia de um Déficit de Atenção responsável por uma tendência de nascença à introspecção. Dito isso, assumo parte da responsabilidade por ter demorado bem uns seis anos para trocar mais do que os comprimentos eventuais à escada com os vizinhos de porta que temos no pequeno condomínio de apartamentos em que vivemos, há quase oito.

Até há um ano e meio atrás, eu sabia de minha vizinha Ana Lígia só que era jornalista como eu, mas estava afastada há algum tempo do metier; e do Matheus, seu marido, que trabalhava com audiovisual e estava no segundo mandato de síndico desde que nos mudamos; além de serem super educados e aparentarem ser “muito boa gente”, etc, etc.

Quando o desemprego chegou para mim, em 2018, Ana já andava às voltas com o desafiador ofício de “mãe de primeira viagem” e uma vontade crescente de voltar ao jornalismo fazendo algo que lhe permitisse trabalhar home office. Como o mercado me encaminhasse também para esta opção, passamos a conversar esporadicamente sobre nossas dúvidas e ideias a respeito, mas sempre en passant, quando nos topávamos na escada ou às portas de nosso apartamento. Da mesma forma, nossos maridos, que sempre simpatizaramum com outro, só batiam papos rápidos quando algum assunto do condomínio forçava um encontro.

Nossas amizades foram crescendo assim, indolentemente alimentadas por conversas rápidas à escada, recados concisos no Whatsapp e raras chamadas de voz para aqueles pedidos tradicionais de vizinhos – “tem uma caixa de Amizade pra me arrumar?”. Nunca pensamos em propor um programa de lazer compartilhado, como um jantar no apê de um ou outro casal e era improvável que isso ocorresse em plena quarentena do coronavírus.

Mas a Ana Lígia surpreendeu, com a encantadora sugestão de compartilharmos algumas horas de isolamento em comum – cada casal na sua porta, com sua cerveja e petisco. Pensamos, eu e Márcio: “Por que não?”. E colocamos as cadeiras nas portas e um carrinho de bebidas no meio do hall de entrada, delimitando a distância mínima de 1 metro de cada lado.

Que HORAS DELICIOSAS de bate-papo tivemos!

Comparamos histórias de vida, confirmamos similaridade de ideias e visões de mundo, trocamos memórias. Sem perceber, liberamos a maior parte do peso de nossos humores, envenenados que vinham pela triste realidade dos noticiários nesses tempos de coronavírus e pelas comunicações violentas praticadas nas redes sociais.

Eu maldisse ali minha introspecção, que adiou por tanto tempo uma interação tão abençoada.

Ao final da noite, quando os papais de primeira viagem se lembraram de que precisavam dormir para acordar junto com o filho madrugador, ainda nos perguntávamos por que foi preciso uma pandemia para nos fazer interagir com tempo e atenção apropriados. Ainda não temos esta resposta, embora vergonhosas hipóteses rondem meu pensamento (preguiça? Individualismo? Indiferença?).

Só sei que fomos dormir mais felizes do que acordamos naquela Sexta-Feira da Paixão e que um novo programa já está pré-marcado para esta semana.

Mas o importante é que “abrimos a porteira”!

Que venham muitas outras confraternizações, ainda que com distância física controlada. A proximidade mais importante é outra.

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‘Quem sabe isso quer dizer amor…’ (relato de uma quarentena)

Quase tenho culpa por me sentir tão confortável em isolamento, neste momento grave de ameaça civil. É que pela primeira vez na vida minha tendência natural ao encasulamento está sendo visto como algo desejável e não como um grave defeito.

Explico-me: cresci levando pitos de familiares e amigos por “viver no mundo da lua”. Na adolescência, levava descomposturas de amigas por ser antissocial a ponto de não saber manter as chamadas “small talk”. Era capaz de me refugiar em meus próprios pensamentos mesmo integrando uma roda de conversa, fosse numa festa cheia de gente ou em rodinhas de amigos. Claro que isso me tornava esquisita demais, engraçada de menos e zero interessante! Por isso minha presença chegava a ser expressamente proibida por anfitriões de eventos e programas legais para os quais minhas melhores amigas eram convidadas – coitadas, depois se contorciam em desculpas para justificar seus sumiços e o porquê de não terem me chamado.

Adulta, descobri que tenho déficit de atenção e me esforcei muito para melhorar a partir das lições que as rejeições sociais me ensinaram. Melhorei, sim, mas… quando me mudei de minha cidade natal para trabalhar em outra, ainda era capaz de passar finais de semana inteiros sem colocar o pé fora da porta de casa – minhas horas sozinha eram preenchidas com leituras, sessões de filmes e playlists de músicas favoritas embalando a limpeza da casa ou a preparação da minha comida.

Para mim, não era solidão! Ao contrário, eu me sentia conectada ao mundo através dos noticiários (que nunca deixei de acompanhar) e também a todos os personagens das ficções que eu lia em livros ou assistia em filmes e séries. Ainda gozava uma alegria genuína cantarolando junto músicas que me falam ao coração.

Não por acaso veio a tornar-se meu marido um certo estudante de engenharia – também um talentoso cantor e violonista – que, dias após me conhecer em uma sessão de cantoria, fez-me uma visita surpresa bem no meio de um desses meus fins-de-semana de imersão. Sua “invasão” não me incomodou. Ao contrário, porque ele compartilhou meus prazeres e os tornou ainda mais interessantes.

Dez anos após nos tornarmos um casal, vivemos um período de separação. Voltei à minha antiga tendência de me encasular em casa, entregue a meus passatempos, o que fez uma amiga em comum me dar outro pito: “sai pro mundo, pelo-amor-de-Deus!”. De novo, forcei-me contra minha própria natureza e saí.

A separação durou só dois meses e desde então eu e Márcio seguimos juntos. Tivemos nossos períodos de crise conjugal, mas o advento do coronavírus nos pegou em um momento de perfeito entendimento e sincronia. Não tivemos filhos (infelizmente!), por isso nossa rotina tem bem menos estresse do que a de casais que são pais, mas por isso mesmo é menos diversificada e interessante (digamos assim).

Durante a quarentena imposta pela pandemia, compartilhamos os medos de toda a população, principalmente por meus pais idosos, mas dividimos sem crises as tarefas domésticas e curtimos juntos, em casa, nossos hobbies preferidos e sabemos nos separar para o trabalho. Tudo somado, seguimos muito bem, obrigada, sem sermos invadidos por ansiedade ou tédio. Bem ao contrário.

Como cantou Lô Borges, “quem sabe isso quer dizer amor…”.

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Os ‘sabe-tudo’ contra o coronavírus

Olha, eu já vinha mais ou menos conformada em ignorar a intransigência e agressividade dos haters e a acolher com bom humor a inconsistência dos terraplanistas, mas não estava preparada para me confrontar com o mesmo modus operandi deles na negação da ameaça mundial representada pela pandemia de coronavírus.

Foram dois episódios na mesma quarta-feira: o primeiro na casa de meus pais, para quem estou servindo de leva-e-traz de farmácia-mercado-e-afins para mantê-los abastecidos sem que precisem deixar o confinamento doméstico. Minha tia chega da rua para visitar e vai direto dar um beijo no rosto de minha mãe, sem que eu tivesse tempo de impedir.

“Que é isso, tia? Não sabe que tem que cumprimentar de longe agora?” – questiono.

Ela dá de ombros: “bobagem, filha. Se tiver que pegar a doença, pega, e se tiver que morrer, morre. Deus é quem decide”.

Respeito minha tia e sua religiosidade. Sei que duvida mais por ingenuidade do que por arrogância, influenciada por outros, por isso não me alonguei muito na ladainha ensaiada. Mas recusei seu beijo e, quando estava sozinha com meus pais, decretei: “Se a tia aparecer de novo,  vocês recusem beijo e abraço, hein!?”.

E fui para a Farmácia Especializada do Hospital das Clínicas, onde me aguardava uma longa fila na calçada só para pegar a senha de outra fila: a de retirada de medicamentos – no caso, para tratamento de um câncer em meu pai. Eu já padecia de desconforto sob um sol de 38 graus há uns 15 minutos quando ouvi esta pérola do homem atrás de mim:

“Uma bobagem esse pânico todo disseminado pela imprensa por causa do coronavírus. Aonde já se viu fechar tudo, mandar as pessoas pararem de fazer suas coisas? Querem ferrar com a economia de vez? Eu não paro mesmo. Se pegar, peguei. E aí? É uma gripe, gente!”.

Não me contive.

“Desculpe, meu senhor, mas não é só uma gripe, e esta doença pode matar a parcela mais frágil da população…” – ele nem me deixou continuar.

“Mata nada! Quem morreu até agora já estava doente, podia ter morrido de dengue ou qualquer outra coisa”, retrucou, já elevando o tom de voz e dando-se ares arrogantes.

“Não é possível. O senhor não lê jornais? Não assiste TV? Não deve ter pais idosos…”

“Assisto sim, mas acho tudo uma mentirada, um exagero dessa imprensa vendida. E meus pais vão muito bem, obrigada” – respondeu, me interrompendo de novo.

“E qual é a fonte de informações do senhor? Porque eu sou jornalista e posso garantir que não tem como a imprensa mentir nesta escala…”.

A esta altura ele já está falando sem parar, por cima da minha fala, para não me deixar ser ouvida: “Não preciso de fonte pra saber que isso tudo é uma palhaçada…”.

“E que interesse qualquer um teria em mentir sobre isso? Não faz sentido…” – eu já falo alto também.

“É tudo uma palhaçada! Quero que me mostrem o obituário do coronavírus…” – e eleva o dedo no ar, aponta pra minha cara… o que me enfurece!

“Então o senhor está me dizendo que, irresponsavelmente, não está se prevenindo e pode estar, neste momento, me contaminando e a todos à sua volta? – eu também já não controlava o volume da minha voz e da minha indignação.

“Ah, estou infectando você sim, tô infectando todo mundo aqui” – continuou, rindo em tom de chacota, como se a palhaça fosse eu.

“O senhor é um irresponsável!”.

Ele fica vermelho, faz cara de ódio, chama o segurança:

“Esta mulher está me incomodando!” – grita para o pobre, que olha para um, olha para outro, e pede calma baixinho, como se tivesse medo de apanhar.

“Irresponsável! Chama a polícia. Vamos ver pra quem eles vão dar razão.” – desafio.

E, inexplicavelmente (ou não), ele fica quieto.

Olho em torno para me desculpar e recebo olhares de sobrancelhas levantadas em rostos mascarados e sorrisinhos cúmplices de outros rostos sem máscara. Todos parecem dizer: “fazer o quê, minha filha?”

É… fazer o quê com pessoas que escolhem desacreditar informações de procedência comprovada e se baseiam em “absolutamente nada” para criar e disseminar teorias da conspiração que servem a seus próprios propósitos? E eu pensando que eleger um presidente ruim e defender que a terra é plana era o que de pior esse tipo de gente podia fazer! Mas, como diz uma grande amiga, “pra pior não tem limite”, e o pior da vez é ignorar, por pura opinião (!), a prevenção contra um vírus que pode matar a parcela mais indefesa da população.

Esses “sabe-tudo” ainda vão  colocar o mundo todo a perder.

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‘Parasita’ surpreende com alegorias sociais

Em biologia, o termo parasita identifica “um organismo que vive dentro de outro, dele obtendo alimento e, não raro, causando-lhe dano”. Apropriado, então, o título escolhido pelo diretor John Bong-Ho para seu filme sobre uma família de desempregados que “invade” a vida de outra família burguesa.

Mas nada é tão simples assim em “Parasita” (2019), surpreendente produção sul-coreana que vem colecionando indicações e boas críticas mundo afora.

À guisa de metáfora, o filme pode ser comparado a uma “caixinha de surpresas”, pois começa despretensioso, parecendo uma comédia leve, como algumas das nossas produções nacionais que desagravam o “jeitinho brasileiro” por meio do humor. Mas, à medida que o roteiro vai nos brindando com  surpresas, o filme evolui para um thriller de humor negro e termina como um drama surpreendente.

O conjunto todo resulta em uma alegoria social desses tempos de inconsciência coletiva, em que vivemos dirigidos pelo automatismo de nossos egos.

E é no automatismo do “modo sobrevivência” que vive a família Kim, formada pelo pai, Ki-Taek, a mãe, Chung-Sook, o filho estudioso, Ki-Woo, e a filha expert em informática, Ki-Jung – só isso explica como conseguem manter o humor vivendo em um porão calorento com vista para uma lixeira comunitária, e alimentando-se com o pouco dinheiro que conseguem levantar com biscates.

Os Kim veem uma oportunidade de mudança quando Ki-Woo consegue um emprego como tutor da filha adolescente dos Park, família abastada que vive em uma espaçosa casa de arquitetura contemporânea. Logo colocam em prática um plano para se infiltrarem, os quatro, como empregados dos ricaços.

No começo, nossa compaixão fica toda com a jovem mãe e esposa Yeo-Jeong, que cai nas histórias engenhosamente arquitetadas pelos ex-desempregados. Nossos próprios vieses burgueses chegam a se escandalizar, por exemplo, com a imagem da família pobre se banqueteando na casa dos patrões ausentes.

Mas, repito: nada é tão simples assim. Quando descobrem outros “parasitas” sobrevivendo da opulência dos Park, os Kim são confrontados com situações inusitadas que, aos poucos, operam neles uma espécie de despertar de consciência. Quando uma mesma chuva impacta de formas diferentes as vidas das famílias, por exemplo, a ficha de Ki-Taek finalmente cai: o que parecia ignorância, revela-se descaso, e o que soava ingenuidade, genuína indiferença.

Os invasores começam a enxergar a própria invisibilidade dentro do organismo que acreditavam possível conquistar. Descobrem-se, na verdade, prisioneiros de uma realidade que não os considera e reconhece. Ante a cegueira social dos que acreditávamos “invadidos”, desenha-se o colapso.

A narrativa fornece muito o que pensar sobre se todos nós não nos deixamos contaminar pela cegueira de em relação ao outro, endêmica nesses tempos de individualismo exacerbado. É um risco a que nossos vieses inconscientes nos expõem todos os dias, na luta pela sobrevivência e sucesso em um mundo cada vez mais competitivo e desigual.

 

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‘Dois Papas’: Meirelles ensina a construir pontes

O brasileiro Fernando Meirelles dirige Jonathan Price e Anthony Hopkins em ‘Dois Papas’

Filmes baseados em fatos reais costumam despertar questionamentos sobre quanto de verdade foi preservada na criação de seus roteiros e quanto de ficção foi usada para tornar suas narrativas mais palatáveis ao espectador. No caso de “Dois Papas”, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”), essas questões certamente surgirão, mas meu conselho é que você as esqueça completamente para se concentrar no melhor motivo para saborear este belíssimo libelo sobre diálogo, redenção e fé.

Até porque fica muito clara a intenção de Meirelles com esta adaptação cinematográfica para o livro de Anthony McCarten – que também assina o roteiro: mostrar, nestes tempos de intolerância e radicalismos políticos, como o diálogo entre correntes de pensamento opostas é possível quando conduzido com respeito, empatia e, principalmente, disposição para ouvir. O registro biográfico fica em segundo plano.

Os dois papas da ficção (à esq.) e os da vida real (dir.).

No caso de “Dois Papas” temos, de um lado, o religioso alemão Joseph Ratzigner, cujo pontificado como Bento XVI foi marcado por uma defesa ferrenha dos dogmas seculares da Igreja Católica (proclamações solenes que devem ser consideradas definitivas, infalíveis, imutáveis e inquestionáveis pelos fiéis). De outro, está o então cardeal argentino Jorge Bergoglio – que viria a se tornar o papa Francisco -, de formação jesuíta (ordem conhecida pelo trabalho missionário e educacional, que presta voto de pobreza) e com ideias próprias e pouco ortodoxas sobre tais dogmas.

Os protagonistas são interpretados, respectivamente, pelo veteranos Anthony Hopkins e Jonathan Price, atores ingleses que nos premiam com atuações “exatas” e irretocáveis. Cabe a eles – principalmente ao carismático Price – parte do mérito pelo filme não ter resultado massante, mesmo sendo quase todo alicerçado em diálogos e limitado a poucos cenários. Mas a maior parte cabe mesmo a Meirelles, que demonstra, mais uma vez, sua maestria na direção de atores e muita sensibilidade na orquestração das cenas. A montagem também é muitíssimo bem amarrada.

 

Esgrima dialética

A química entre os protagonistas começa quando Bergoglio é convocado a Roma por Bento XVI, em um dia qualquer de 2012. O argentino vai encontrá-lo em Castel Gandolfo – residência de verão do papa – com a intenção de pedir a assinatura dele em seu pedido de aposentadoria. Entre negativas veladas de um e divertidas investidas do outro, o que se segue, ao longo de três encontros, são diálogos que tecem uma espécie de esgrima dialética entre os padres. Começa com discordâncias sobre temas comezinhos do sacerdócio, como o celibato dos padres, homossexualidade e a consagração da comunhão a divorciados. Evolui para discussões filosóficas, como a natureza (i)mutável de Deus, que seguem temperadas por sutis pitadas de humor. O que é melhor: sem nenhum hermetismo. A linguagem é simples, mas nem por isso raso o conteúdo.

Não por acaso, o roteiro faz ao menos três menções a “muros” e “pontes” como metáforas das defesas que a Igreja sempre ergueu em torno de si para proteger-se de mudanças (os muros), em oposição aos caminhos abertos para o diálogo (as pontes) que Bergoglio propõe para reconectá-la a seus fiéis. “Construímos muros ao nosso redor o tempo todo enquanto o real perigo estava dentro, conosco”, dispara o argentino, antes de introduzir uma crítica clara à postura da Igreja ante as denúncias de abusos de crianças por padres.

Mas é quando a conversa deságua em confissões pessoais que a narrativa realmente atinge seu clímax! Numa Capela Sistina deserta, ambos os sacerdotes se despem de seus papeis para apresentarem-se um ao outro como humanos falíveis, tão pecadores quanto quaisquer outros. É tocante a forma como os até então antagonistas acabam se acolhendo, se amparando e lembrando um ao outro o mecanismo do perdão.

É como atravessam, juntos e finalmente irmanados, a ponte que construíram ao longo de 2 horas (tudo somado) de diálogo honesto e respeitoso. Um exemplo que, certamente, todos nós poderíamos aproveitar muito bem.

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‘Coringa’ e nossa embaraçosa catarse

Que atire a primeira pipoca o espectador de “Coringa” (Joker, 2019) que não empatizou com seu protagonista a ponto de, lá no fundinho, achar “bem feito” os crimes que ele acaba por cometer.

Um palhaço infeliz, que não controla o riso em situações de estresse

Esta é a grande armadilha do filme dirigido e co-roteirizado por Todd Phillips (pausa pra me chocar com o fato deste produtor, diretor e roteirista ter se especializado, antes, mais em besteiróis do nível de ‘Se Beber, Não Case’). Ele e o co-roteirista Scott Silver (“O Vencedor”) nos levam de tal forma a nos compadecer do dócil e maltratado Arthur Fleck – palhaço de rua triste que não controla o riso compulsivo em situações de estresse – que, sem nos darmos conta, continuamos a torcer por ele quando passa a assumir sua natureza psicopata.

Fez eu me lembrar do filme “A Onda” (The Wave, EUA, 1981; e Die Welle, Alemanha, 2008), que retrata a história verídica de um experimento realizado por um professor de História com seus alunos, a fim de provar, na prática, como uma sociedade inteira é levada a apoiar um regime racista, capaz de genocídio em massa – caso do Nazismo na Segunda Guerra Mundial. Mal comparando, é mais ou menos como milhões de pessoas acabam elegendo um líder que prega o machismo, a misoginia e a violência: fazendo nos identificar com histórias que busquem, lá em nosso subconsciente, nossos maiores medos e fraquezas e nos convençam de que “tudo bem” aniquilarmos quem este líder nos aponta como responsáveis por fazerem vibrar essas cordas. Dá uma sensação acolhedora de pertencimento nos ver representados por alguém que prometa se vingar por nós, né?

Está aí a armadilha!

E catarse é o nome dado pela psicanálise a este sentimento de “evacuação” de emoções internas (represadas em prol da civilidade) por meio de uma experiência fora de nós. É o que nos faz vibrar quando assistimos ao palhaço alquebrado finalmente defender-se de uma agressão gratuita, ainda que desproporcionalmente.

Se você não cedeu a esta embaraçosa catarse, parabéns! Pode se considerar um primor de civilidade, além de uma “pedra de gelo”, à prova de obras de arte que cumpram, para além do entretenimento, seu papel original: nos colocar um espelho nas fuças, para que nos reconheçamos nele e possamos extravasar nossos instintos primitivos apenas no terreno da ficção.

Por alcançar este intento de forma magistral é que “Coringa” entra para o rol das grandes obras-primas do cinema contemporâneo, ao lado de outras produções do gênero que bebem na fonte das histórias em quadrinhos – todos os “Batman” de Christopher Nolan entre eles.

Os Coringas de Heath Ledger e Joaquim Phoenix: interpretações de grandezas distintas

Aliás, não por acaso está na trilogia de Nolan a outra interpretação impecável do mesmo personagem, que elevou a atuação do saudoso Heath Ledger ao altar das mais memoráveis do cinema. Não há comparação possível entre seu Coringa e o de Joaquin Phoenix, porém. São duas grandezas distintas, nenhuma maior ou menor que a outra, até porque o mesmo personagem ganha tintas diferentes em uma e outra produção.

O Coringa de Ledger carrega o mesmo signo do caos do de Phoenix, herdado de seu original da HQ, mas nos arrebata mais pelo talento de sua interpretação. Não chegamos a torcer por ele, por mais que nos dê prazer cada uma de suas aparições magnetizantes na tela. Já o de Phoenix nos mantém o tempo todo suspensos pelo anzol da empatia. Por exemplo [alerta de spoiler!], desminta-me se você também não ficou sem saber se sentia repulsa ou compaixão por ele na cena em que, com o rosto branco ainda respingado de sangue, despede-se do amigo anão com um beijo na testa e palavras de gratidão e amizade ditas em um inconfundível tom de ternura (que interpretação, senhoras e senhores!).

Demorei alguns quartos de hora pra me tocar do absurdo de simpatizar com um assassino e enxergar o que diz sobre nós a cena em que ele dança em cima de uma viatura, aplaudido pela multidão: que todos temos dentro as mesmas sombras que a condição psiquiátrica de Coringa faz aflorarem à superfície de seu consciente; e que, devidamente incentivados, também somos capazes de aplaudir a barbárie. Ou não seriam tantos os que, entre nós, aprovam jargões como “bandido bom é bandido morto”.

Lamentável é que alguns de nós levem esta necessidade de catarse para a vida, aplaudindo e incentivando o ódio contra o diferente, que sempre vai nos ameaçar (culpa de nossos vieses inconscientes).

Phoenix arrasando como Coringa na cena de dança que viralizou nas redes, ao som de ‘Rock’n Roll’, de Gary Glitter

Seria bom se todos nos lembrássemos que as periferias pobres do mundo estão cheias de “coringas em potencial”, a sofrerem humilhações, violências e injustiças sociais, às vezes cometidas por quem deveria lhes proteger – governo e polícia. Mas nossa percepção vai só até o ódio primitivo que nos aflora quando somos assaltados por eles, por exemplo. Porque pra nós, ditos “civilizados”, sentir empatia por excluídos que ameaçam a segurança e a ordem sociais… só no cinema mesmo, né?

 

P.S. O QUE É AQUELE ROCKÃO DO CREAM – “White Room”,1968 – EMBALANDO UMA DAS CENAS DE DANÇA DO CORINGA?!?! (a que viralizou nas redes, ao som de “Rock’in Roll” de Gary Glitter, também empolga… mas sou mais Clapton!).

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‘Dor e Glória’: o ocaso de um cineasta

O cineasta Pedro Almodóvar e o ator Antonio Banderas no set de ‘Dor e Glória’

Já faz alguns filmes que não encontro palavras para descrever os sentimentos que a narrativa de Pedro Almodóvar me despertam – digamos que as cordas tocadas por suas últimas obras dramáticas em meu instrumento de sentir são, algumas vezes, novidades até para mim. Mas vou tentar escrever sobre a mais recente produção a receber a sua assinatura no roteiro e direção: “Dor e Glória” (Dolor Y Gloria, Espanha, 2019).

O encantamento começa já nos letreiros iniciais, emoldurados por verdadeiras obras de arte, pródigas em cores vivas – uma característica do cinema do espanhol presente também nos cenários e figurinos, embora de forma bem menos explosiva neste trabalho do que em seus primeiros.

Nesta produção, o diretor espanhol se reencontra com o ídolo de seus primeiros sucessos de público e crítica: o ator Antonio Banderas, que incorpora uma espécie de seu alter ego. Na pele do cineasta Salvador Mallo, um Banderas envelhecido revisita memórias de infância, antigos afetos e reconcilia-se com ao menos um desafeto. Tudo isso enquanto convive – às custas de coquetéis medicamentosos e, eventualmente, drogas – com dores físicas que o incapacitam para o trabalho e deprimem seu humor.

Mas não se enganem. Não se trata de um drama pesado. Nostálgico, sim. Sensível, idem! Mas nem um pouco depressivo.

E pode parecer difícil de acreditar – principalmente para quem costuma reduzir a obra de Almodóvar àquele cinema feérico que o lançou para o sucesso mundial, na década de 1980 -, mas desde “A Flor do Meu Segredo” (1995) ele vem preferindo a sutileza ao exagero quando se trata de evocar lugares e histórias caros à sua memória afetiva.

É o caso numa das primeiras cenas de “Dor e Glória”, que nos brinda com o canto à capela do bolero flamenco “A Tu Vera”, entoado por quatro lavadeiras, à margem de um riacho onde lavam roupas. Poesia para os sentidos!

O cenário é a região de Paterna, na província espanhola de Valência, onde Salvador passou a infância. Uma das lavadeiras é sua mãe, interpretada na versão mais jovem pela atriz Penelope Cruz – que, aliás, já soltou a voz em outras películas do diretor (“Volver”, de 2006, por exemplo).

Uma curiosidade: mais novo fenômeno da música mundial gestado pela Espanha, a cantora Rosalía faz sua primeira ponta no cinema como outra das lavadeiras (a de vermelho na foto acima).

Esta e outras cenas, como a do monólogo teatral que o ex-desafeto encena a partir de um texto confessional do diretor, é que tocam as tais cordinhas emocionais a que me refiro no início deste texto. É como se existissem camadas de narrativa não-verbais escondidas por baixo da construção de cada cena ou diálogo. Assim é que o telão em branco no cenário do monólogo não é só um artifício cênico. A depender do espectador, pode soar como uma metáfora da vida a acontecer, da juventude, ou do vazio que Salvador tenta expurgar através do texto autobiográfico.

Subtextos prescindem de palavras, por isso só o coração (ou seja lá como chamemos o tal instrumento de sentir dentro de nosso cérebro) consegue alcançar.

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Esperança

Hoje, ante o caos social, moral e político instalado no Brasil, tento encontrar algum consolo na esperança de que, no futuro, a história passará a limpo este período; de que escritores e cineastas o retratarão como realmente está acontecendo, como outros livros e filmes já retrataram, antes, os horrores do nazismo e das ditaduras mais sangrentas.

Quando – E SE – isso acontecer, espero que quem aplaude o atual estado de coisas tenha coragem de dizer a seus netos e bisnetos de que lado estavam. Não porque acredite que as novas gerações aprendam com os erros das anteriores – fosse assim, não estaríamos assistindo tanta gente aplaudir o ódio, a xenofobia e a destruição ambiental após inúmeras obras históricas documentarem seus malefícios -, mas porque acredito em redenção. E a desejo para todos que hoje compactuam com o que causa sofrimento a outros.

Espero que os redimidos tenham coragem de explicar a seus entes queridos que padecerem de câncer porque foi errado apoiarem dirigentes que liberavam agrotóxicos em favor de ganhos econômicos para uma minoria; que os desastres ambientais que arrasarem as conquistas de uma vida inteira deve-se à indiferença de sua geração com a questão ambiental; e que contribuíram para o aumento da violência apoiando medidas que intensificam a desigualdade social, fabricante de excluídos – muitos dos quais escolhem tornar-se criminosos por não se importarem em fazer mal a uma sociedade que os ignora e tanto faz morrerem de tiro, fome ou doença que o Poder Público não trata direito, ou irem para uma prisão que não é muito diferente da vida que têm em suas comunidades pobres.

Como meu sábio marido diz, “a evolução é pessoal”. Precisa ser, pois se fosse resultado de processo coletivo, não seria fruto de reflexão e vontade próprias e, assim, não seria consciente – consequentemente nem legítima ou duradoura.

Lanço então minha esperança ao universo, junto com o meu desejo de que algum ensinamento nasça desse caos em que vivemos hoje.

Boa esperança para todos, hoje e sempre (e que ninguém solte a mão de ninguém)!

Amém.

 

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No espelho, com minha idade

Antes de assumir meus cabelos grisalhos em definitivo, tentei por duas vezes deixá-los crescer sem tintura. Desistia sempre que o espelho me mostrava o inevitável: os fios brancos me envelhecem, sim!… por mais que o corte seja sofisticado, que eu use os xampus certos, que cuide para nunca amarelarem ou ficarem opacos e cinzas.

Só consegui após um acontecimento que mudou minha forma de me enxergar e ao mundo: um acidente de moto que me tirou de circulação por um ano inteiro – quebrei as duas pernas. Claro que não era uma prioridade sair para pintar o cabelo ou chamar alguém para fazê-lo em casa, quando apenas ser transferida da cama para a cadeira de rodas ou passar muito tempo sentada era torturante.

Durante o período de recuperação física, encontrei a coragem para me aceitar em frente ao espelho com a idade que tenho. É verdade que também ajudou a sensação de liberdade por não ter mais que me preocupar com retoques de raízes, reservar aquela grana para pagar a tintura no salão preferido (confiar no cabeleireiro é tu-do!) e uma hidratação caprichada nos fios ressentidos pelos maus-tratos da química.

Mas não me entendam mal: não sou, absolutamente, contra a tintura. Até porque eu mesma brinquei com as cores em minhas madeixas por 30 anos – comecei antes de aparecer o primeiro fio branco em minha cabeleira escura de neta de afro-brasileiro com índia (tenho um avô lituano também, mas suas características caucasianas ficaram todas para as minhas irmãs). Já as tive preto-azuladas, castanhas acobreadas, bicolores (vermelho na metade de baixo e preto na de cima), com mechas prateadas só em torno do rosto, luzes vermelhas no cabelo todo, californianas caramelo nas pontas… Enfim, nunca fui muito ortodoxa sobre isso e sempre encontrei cabeleireiros loucos o bastante para executarem minhas ideias.

Por incrível que possa parecer, porém, cultivei secretamente a vontade de assumir meus brancos por muito tempo, inspirada em minha mãe. Sempre achei lindos seus grisalhos ondulados, que quando longos caíam em cachos volumosos sobre seus ombros.

Mas se foi preciso coragem para enfrentar o espelho, vocês não imaginam o que foi encarar a “patrulha social”, exercida, inclusive, por pessoas queridas – às quais, aliás, dou a maior abertura para opinar e criticar qualquer coisa em mim, desde que eu não tenha que concordar sempre com elas.

Entre os questionamentos que ouvi de uma delas estava este, apresentado com voz e postura de indignação: “você, entre todas nós (da turma de faculdade) é a que ainda não tem rugas e pode passar por mais jovem de cabelos tingidos. Por que está optando por parecer mais velha? Se fosse ideologia, eu até entendia, mas por preguiça de pintar!”.

Foi quando me despertou a reflexão que proponho aqui, atiçada pelas seguintes questões: qual o problema de ostentar a idade que se tem? Juventude é um requisito indispensável à boa aparência? Por que principalmente nós, mulheres, temos vergonha de informar a idade? Mais: por que é deselegante perguntar a idade de uma mulher?

Ok. Tem a história do preconceito contra os mais velhos, que são tratados desde com indiferença até com desrespeito em muitos lugares, mas, primeiro: os errados são quem os destrata; segundo: fosse este o motivo, por que nos homens o grisalho é considerado charmosíssimo?

Não sou adepta do bordão “nunca me arrependo de nada” – fosse assim não teria aprendido com metade dos erros que cometi na vida -, mas não tenho vergonha de minha trajetória. Por que deveria ter do tempo que ela me custou?

Importante esclarecer também que não estou desistindo de minha vaidade. Quero, sim, sempre me sentir bonita e, na medida do possível, tornar-me uma idosa tão linda quanto acho minha mãe até hoje. E tanto não tenho preguiça de salão que agora comecei a brincar com os meus brancos. Acabo de tonalizá-los na cor azul (sai em cinco lavadas, mas é divertido enquanto dura!).

Ainda não recebi muitas avaliações sobre isso, mas pelo menos uma pessoa está amando a brincadeira: EU!

Por ora, é suficiente.

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Diários do SUS: dia 3

Em seu terceiro dia de espera por internação, na sala de Observação da Santa Casa de Ribeirão Preto, mamãe mantém a candura de sempre. A expressão é de cansaço, e o humor, deprimido, por mais que ela tente disfarçar. Mas ela nunca reclama de nada e se interessa genuinamente por todos os outros pacientes à sua volta.

Quando cheguei para mais uma jornada de 12 horas como sua acompanhante, havia mais uma maca com paciente na mesma baia que a dela – aliás, como em todas as outras, que deveriam abrigar apenas uma cama.

Aprendi nesses dias que vagas estão entre as inúmeras carências do serviço público de saúde ribeirão-pretano. Falta de tudo. De itens básicos, como roupas de cama e banho para todos, até os mais macro – aparelhamento tecnológico, insumos, mão-de-obra com e sem qualificação, etc. Eles existem, mas não o suficiente

Em meus 28 anos como jornalista, fiz e editei muitas reportagens sobre as agruras por que passam os usuários do SUS, mas nada como senti-las na pele. 

Não cabem nos espaços e tempos limitados dos jornais impressos e televisivos todos os detalhes denotativos do abandono que essas carências nos fazem sentir. Por exemplo, no primeiro dia de mamãe por aqui, levou horas para eu conseguir o primeiro lençol para cobri-la; mais 1h para ela herdar um cobertor de um leito liberado e dois dias para lhe sobrar um travesseiro.

Fraldas geriátricas, toalha, medicamentos usuais e sabonete só trazendo de casa, e melhor não esperar por um enfermeiro que ajude a trocar fralda, dar banho ou levar seu paciente ao banheiro. Pode levar horas ou nem acontecer.

Melhor também ficar atenta à chegada dos médicos para, se for caso, educadamente lembrá-lo de ver seu paciente, pois são tantos, em tão pouco espaço, que às vezes algum “passa batido “. O mesmo para o pessoal da Enfermagem, que precisa auscultar e fazer medições regulares dos pacientes. Às vezes, simplesmente não dá tempo de fazê-lo em todos dentro de um mesmo turno.

Mais importante de tudo é lembrar que nada é culpa de qualquer profissional dali. Todos fazem o que podem. De verdade. Por isso tento não gritar com alguém quando uma dessas tantas carências eleva minha revolta a níveis  insuportáveis. Até porque a vida e o “conforto” de mamãe estão nas mãos desses profissionais.

Em última análise, somos todos – acompanhantes, pacientes, médicos e enfermeiros – humanos, portanto suscetíveis a reações emocionais como qualquer outro. Mas ninguém quer um profissional de saúde de má vontade ou extremamente estressado cuidando de sua própria mãe.

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