Categoria: Íntimo & Pessoal

Testemunhais

Déjà vu (ou ‘Quem sabe isso quer dizer amor… 2 – A Missão’)

Oitavo domingo de quarentena.

Acordo dentro da memória brumosa e morna do “Encontro de porta” com nossos mais novos melhores amigos. Grata pela noite, por olhar do lado e checar o sono fungador do Ma, sentir nossos filhos-gatos esparramados entre nossos pés e pernas, lembrar que é dia de escola Aprendizes do Evangelho e – mais gratificante que tudo – não ter sido acordada pelas dores musculares do meu bruxismo (já disse que a vida sem dor é maravilhosa?).

Obrigo-me a fazer os exercícios passados pelo fisioterapeuta e a comer ao menos uma banana antes de engolir os comprimidos da pressão e de colágeno (já disse como odeio comer e ter que fazer “dever de casa” logo ao acordar?). Minha natureza pede um despertar lento, feito de descanso dos músculos fatigados do bruxismo, pés pra cima na poltrona da sala e cérebro despertando devagar através do olhos, que caçam no celular as primeiras mensagens e manchetes jornalísticas do dia. Mas a virginiana em mim não sabe ignorar um “dever”, sob pena de ficar arrastando uma bola de ferro cheia de culpa pelo resto do dia. Por isso dou meu suspiro de resignação e inicio as primeiras séries na cama mesmo. “Primeiro  o dever, depois o prazer”, disse Daniel Boone em um dos episódios do seriado que assisti na infância – nunca mais esqueci o dito e o levei pra vida (quer mais virginianismo que isso?).

Sento ao computador pra preparar nova postagem no blog, checo mensagens, respondo… e imerjo em meu hiperfoco, que ignora tudo o que é mundo fora da minha cabeça. Registro só com uma parte do cérebro o Ma ligar a TV pra assistir no Youtube as últimas lives de músicos preferidos – outra região dentro da minha mente registrando, satisfeita, a emoção dele ouvindo e vendo seus ídolos musicarem seu domingo. E novamente fico grata.

Termino o trabalho no computador, vou pra cozinha fazer a receita nova de risoto prometida e, de repente, ouço um dedilhar de violão que não soava há  tempos em casa se aproximando pelo corredor. Me invade um déjà vu de todas as vezes em que o Ma sacou do violão pra cantar comigo e pra mim, eu preparando nossa comida, uma tulipa de cerveja dele esquentando em cima de algum móvel e uma taça de vinho minha se esvaziando mais rápido que o recomendado, em meio a legumes e carnes que corto desajeitadamente, com minha coordenação motora de jegue. E, de novo, tudo no mundo parece estar exatamente no lugar que deveria estar.

Pra entender o valor desse déjà vu é preciso saber que o Ma não pegava o violão dentro de casa pra se acompanhar cantando há…  ? … nem sei quanto tempo! Foi parando mais ou menos quando começaram seus lutos – pela morte do pai em 2016, do irmão em 2017, da mãe em 2018 -, cada um jogando dentro dele umas saudades doídas de ver. Ele não falava muito disso – eu respeitava – mas tenho pra mim que rolava um constrangimento inconsciente por ele ainda estar neste mundo, apto a continuar desfrutando de um dos grandes prazeres de sua vida, quando os seres que mais amava já não estavam.

A felicidade fez eu gravar o momento em vídeo, com o celular amoitado no balcão e comigo parecendo uma “Amélia arrependida”, com faixa segurando o cabelo oleoso de cozinheira mal ajambrada. Compartilhei depois nos grupos dos amigos de cantoria e dos vizinhos de porta, brincando que “se eu soubesse que bastava variar o cardápio do almoço pro Ma voltar a fazer serenata na minha cozinha, eu teria começado antes da quarentena”, e rezando pra ele não ralhar comigo.

Não ralhou. Até respondeu com bom humor às brincadeiras surgidas nos grupos. Quis ouvir a gravação mesmo com aquele som de caixa de fósforo do celular, sem saber que dentro do meu peito o coração dava pinotes de felicidade, feito os gatos quando entram no “MODO GREMLIN” aqui em casa.

Meu risoto ficou MARA! O Ma garantiu minha caipirinha e, com a promessa de cuidar da louça suja depois de sua sesta domingo (eu cozinho – ele lava!), foi deitar sem saber que pra mim aquele domingo de quarentena transformou-se no melhor dos últimos quatro anos.

Vou ter que evocar o Lô [Borges] de novo: “’Quem sabe isso quer dizer amor’ 2 – A Missão (de inventar de vez em quando um novo cardápio pra ver se o Ma volta a fazer serenata de cozinha pra mim!)”.

 

LEIA TAMBÉM: Quem sabe isso quer dizer amor (Relatos de uma quarentena)  / Encontro de porta

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‘Quem sabe isso quer dizer amor…’ (relato de uma quarentena)

Quase tenho culpa por me sentir tão confortável em isolamento, neste momento grave de ameaça civil. É que pela primeira vez na vida minha tendência natural ao encasulamento está sendo visto como algo desejável e não como um grave defeito.

Explico-me: cresci levando pitos de familiares e amigos por “viver no mundo da lua”. Na adolescência, levava descomposturas de amigas por ser antissocial a ponto de não saber manter as chamadas “small talk”. Era capaz de me refugiar em meus próprios pensamentos mesmo integrando uma roda de conversa, fosse numa festa cheia de gente ou em rodinhas de amigos. Claro que isso me tornava esquisita demais, engraçada de menos e zero interessante! Por isso minha presença chegava a ser expressamente proibida por anfitriões de eventos e programas legais para os quais minhas melhores amigas eram convidadas – coitadas, depois se contorciam em desculpas para justificar seus sumiços e o porquê de não terem me chamado.

Adulta, descobri que tenho déficit de atenção e me esforcei muito para melhorar a partir das lições que as rejeições sociais me ensinaram. Melhorei, sim, mas… quando me mudei de minha cidade natal para trabalhar em outra, ainda era capaz de passar finais de semana inteiros sem colocar o pé fora da porta de casa – minhas horas sozinha eram preenchidas com leituras, sessões de filmes e playlists de músicas favoritas embalando a limpeza da casa ou a preparação da minha comida.

Para mim, não era solidão! Ao contrário, eu me sentia conectada ao mundo através dos noticiários (que nunca deixei de acompanhar) e também a todos os personagens das ficções que eu lia em livros ou assistia em filmes e séries. Ainda gozava uma alegria genuína cantarolando junto músicas que me falam ao coração.

Não por acaso veio a tornar-se meu marido um certo estudante de engenharia – também um talentoso cantor e violonista – que, dias após me conhecer em uma sessão de cantoria, fez-me uma visita surpresa bem no meio de um desses meus fins-de-semana de imersão. Sua “invasão” não me incomodou. Ao contrário, porque ele compartilhou meus prazeres e os tornou ainda mais interessantes.

Dez anos após nos tornarmos um casal, vivemos um período de separação. Voltei à minha antiga tendência de me encasular em casa, entregue a meus passatempos, o que fez uma amiga em comum me dar outro pito: “sai pro mundo, pelo-amor-de-Deus!”. De novo, forcei-me contra minha própria natureza e saí.

A separação durou só dois meses e desde então eu e Márcio seguimos juntos. Tivemos nossos períodos de crise conjugal, mas o advento do coronavírus nos pegou em um momento de perfeito entendimento e sincronia. Não tivemos filhos (infelizmente!), por isso nossa rotina tem bem menos estresse do que a de casais que são pais, mas por isso mesmo é menos diversificada e interessante (digamos assim).

Durante a quarentena imposta pela pandemia, compartilhamos os medos de toda a população, principalmente por meus pais idosos, mas dividimos sem crises as tarefas domésticas e curtimos juntos, em casa, nossos hobbies preferidos e sabemos nos separar para o trabalho. Tudo somado, seguimos muito bem, obrigada, sem sermos invadidos por ansiedade ou tédio. Bem ao contrário.

Como cantou Lô Borges, “quem sabe isso quer dizer amor…”.

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Diários do SUS: dia 3

Em seu terceiro dia de espera por internação, na sala de Observação da Santa Casa de Ribeirão Preto, mamãe mantém a candura de sempre. A expressão é de cansaço, e o humor, deprimido, por mais que ela tente disfarçar. Mas ela nunca reclama de nada e se interessa genuinamente por todos os outros pacientes à sua volta.

Quando cheguei para mais uma jornada de 12 horas como sua acompanhante, havia mais uma maca com paciente na mesma baia que a dela – aliás, como em todas as outras, que deveriam abrigar apenas uma cama.

Aprendi nesses dias que vagas estão entre as inúmeras carências do serviço público de saúde ribeirão-pretano. Falta de tudo. De itens básicos, como roupas de cama e banho para todos, até os mais macro – aparelhamento tecnológico, insumos, mão-de-obra com e sem qualificação, etc. Eles existem, mas não o suficiente

Em meus 28 anos como jornalista, fiz e editei muitas reportagens sobre as agruras por que passam os usuários do SUS, mas nada como senti-las na pele. 

Não cabem nos espaços e tempos limitados dos jornais impressos e televisivos todos os detalhes denotativos do abandono que essas carências nos fazem sentir. Por exemplo, no primeiro dia de mamãe por aqui, levou horas para eu conseguir o primeiro lençol para cobri-la; mais 1h para ela herdar um cobertor de um leito liberado e dois dias para lhe sobrar um travesseiro.

Fraldas geriátricas, toalha, medicamentos usuais e sabonete só trazendo de casa, e melhor não esperar por um enfermeiro que ajude a trocar fralda, dar banho ou levar seu paciente ao banheiro. Pode levar horas ou nem acontecer.

Melhor também ficar atenta à chegada dos médicos para, se for caso, educadamente lembrá-lo de ver seu paciente, pois são tantos, em tão pouco espaço, que às vezes algum “passa batido “. O mesmo para o pessoal da Enfermagem, que precisa auscultar e fazer medições regulares dos pacientes. Às vezes, simplesmente não dá tempo de fazê-lo em todos dentro de um mesmo turno.

Mais importante de tudo é lembrar que nada é culpa de qualquer profissional dali. Todos fazem o que podem. De verdade. Por isso tento não gritar com alguém quando uma dessas tantas carências eleva minha revolta a níveis  insuportáveis. Até porque a vida e o “conforto” de mamãe estão nas mãos desses profissionais.

Em última análise, somos todos – acompanhantes, pacientes, médicos e enfermeiros – humanos, portanto suscetíveis a reações emocionais como qualquer outro. Mas ninguém quer um profissional de saúde de má vontade ou extremamente estressado cuidando de sua própria mãe.

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Minha mãe tem fome!

Minha mãe tem fome. Não só de comida.

São 9h da manhã de um domingo de abril. Eu a acompanho na sala de observação da Santa Casa de Ribeirão Preto desde as 8h, quando rendi minha irmã, que passou a madrugada toda com ela. Antes, das 18h às 23h de sábado, foi minha outra irmã quem a acompanhou na longa espera por atendimento na UPA, que de Pronto Atendimento – como reza sua sigla – não tem nada.

Mamãe chegou à unidade pouco antes das 19h do sábado sentindo sintomas que acreditamos ser de um novo AVC (já teve três, conhece bem). Na Triagem, foi colocada como atendimento prioritário e mesmo assim só foi chamada 3h30 depois.

Uma jovem e educada médica desconfia de um micro derrame e dá encaminhamento para o hospital, onde uma investigação mais apurada deve ser conduzida. O Serviço de Regulação (que administra as vagas em hospitais) informa que um leito de SUS só vagaria no dia seguinte e mamãe passa a noite numa maca da UPA, com minha irmã insone ao lado.

Quatorze horas depois, mamãe só se queixa de fome. Não pode comer antes de o neurologista do plantão avaliá-la… e ele não chega! Ela está medicada só para as dores – de cabeça e musculares, pelas quatro quedas sofridas – e sequer temos a confirmação de seu diagnóstico.

Em minha cabeça ecoa, como uma sirene, tudo o que já li sobre o custo da espera pelo devido socorro a um paciente de AVC. Desde ontem mamãe não sente o lado esquerdo inteiro de seu corpo. Já tinha a perna e braço direitos “bobos” – sequela de dois AVC anteriores, sofridos dois anos atrás, em um mesmo dia (o primeiro, há dez, foi isquêmico, sem danos permanentes). Ainda tem que lidar com o jejum prolongado – sua última alimentação foi um lanche de pão com frios que levei à UPA 13 horas antes.

Minha mãe tem fome de comida e de cuidados. Meu impulso é gritar, cobrar médico, fazer escândalo, mas a sala cheia de outros pacientes na mesma situação me contém – eu só os incomodaria, e estressaria as equipes de enfermagem, que não têm culpa da falta de estrutura com que trabalham. 

Mamãe tem frio. Só um edredom fino que minha irmã trouxe de casa a cobre. Preciso pedir que um enfermeiro cace um lençol limpo. Mais um cobertor só quando vagar algum leito (1h depois surge um). Uma enfermeira me instrui a comprar fraldas geriátricas para ela, pois o hospital não fornece.

Obtenho permissão para mamãe  ingerir  uma banana que trago na bolsa. Às 10h30, a Copa serve uma sopinha a todos os pacientes, mas não para ela (sem médico, sem comida), que sofre calada sentindo o cheirinho de comida no ar. 

Reflito que a fome é só mais uma privação com a qual ela tem tido que lidar em sua velhice, que pode ficar ainda mais abandonada com a Reforma da Previdência que vem por aí – discute-se diminuir (mais!) o valor do benefício mínimo dos aposentados mais pobres e suspender o adicional para beneficiários que comprovadamente demandam cuidados em tempo integral.

Mamãe e meu pai – que trata um câncer de próstata com metástases – já não conseguem pagar todos os remédios de que precisam com suas aposentadorias. Mesmo separados, têm que viver na mesma casa com minha irmã mais velha para economizar gastos, inclusive com cuidadores – um deve “olhar” o outro enquanto as filhas trabalham e, eventualmente, soar o alarme para uma de nós acudir em caso de ocorrência de saúde.

A cada dia ambos ficam mais debilitados e temo que o momento de necessitarem cuidados mais intensivos tenha chegado antes de termos um plano B. O medo do que virá faz a gastrite acordar em meu estômago e, na falta de calmante melhor, aciono minha principal válvula de escape: a escrita.

10h43 e nada de médico.

12h: minha mãe começa a chorar, me desintegrando toda por dentro. Não é só de fome… “É de abandono, filha”.

Não tem jeito… Vou ter que gritar com alguém… 

A SAGA CONTINUA…

Após questionamentos indignados, seguidos de uma crise de choro, consigo que localizem o neuro do plantão para avaliar minha mãe. Um médico “menino”, de seus 20 e poucos anos, gasta seu sotaque mineiro justificando-se pra mim, que, soluçante, devo formar um quadro assustador. “Não se preocupe comigo, dr. Só avalie minha mãe, por favor!”.

Ele avalia. Diz que pedirá uma tomografia, por isso o jejum precisa continuar. Pede mais uns 40 minutos de paciência.

Só 1h30 depois o enfermeiro vem buscar minha mãe para o exame, mas desiste ao saber que, antes, ela precisa ter a fralda trocada. Promete voltar para fazê-lo e passa outra paciente à frente dela na fila do exame.

Às 16h30 eu desisto de esperar e decido eu mesma trocar a fralda de mamãe, que a esta altura deita sobre lençóis molhados. Um enfermeiro vem ajudar. Questiono a demora em levá-la pra fazer a tomografia e descubro que ela não foi ainda por falta de maca.

17h: a maca aparece. Eu a acompanho à tomografia. Agora dependemos de o médico ter tempo de avaliar o exame para autorizar que ela se alimente, o que só ocorre mais de 1h depois – perto de completar 24h de jejum quase completo.

18h: O resultado sai. É AVC mesmo, diz o médico, que recomenda uma ressonância para investigar o tamanho do dano. Ele explica que só será possível fazê-la com internação, e para internar tem que haver leito vago em algum quarto. Esperamos.

23h: ela pede pra ir ao banheiro. Eu a levo sozinha, colocando-a e tirando-a da cadeira de banho – desisto de esperar por um enfermeiro.

Percebo que vaza sangue de seu equipo (peça do equipamento que injeta soro pela veia) e peço que investiguem. “Está com defeito. Vieram vários com defeito”, diz uma enfermeira, que desliga o soro e promete mandar alguém substituir a peça. Ninguém aparece por TRÊS HORAS, apesar d’eu cobrar a cada 30 minutos.

Mamãe continua com frio, mas não tem mais um cobertor. O vazamento do equipo pintassilga sangue por seus lençol e camisola, que não podem ser trocados. “Não tem”, é a resposta padrão para tudo por aqui.

3h da madrugada de segunda-feira: finalmente um enfermeiro de meia idade – muito gentil por sinal – troca o equipo de mamãe, fazendo o soro voltar a correr por suas veias. Também encontra uma nova camisola e ajuda a ajustar a cama de uma forma que a deixe mais confortável e segura (Deus o abençoe!).

4h: mamãe dorme (graças a Deus e ao Zolpidem), mas continuamos sem quarto, sem internação, sem ressonância e sem previsão de nada até de manhã.

A saga vai continuar…

 

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Crônica pra consolar gente grande

Balanço os músculos doridos de biribol abrigada numa rede à beira de uma piscina. Após meses (anos?) de perdas e lutos eu e Márcio nos soltamos, gratos, à rede invisível de novos afetos…

Leio ao celular notícias do mundo lá fora… a tristeza de notícias sobre governantes obtusos, o ódio vexatório destilado sobre a memória de um anjo chorado pelo avô encarcerado…

Mas a esperança também me alcança pelas letras de sambas-enredos cantados na maior folia do mundo.
Cantam Marielles, Dandaras, bodes expiatórios e todo o bom-senso.

Vendeu-se o Brasil num palanque da praça
E ao homem serviu ferro, lodo e mordaça
Vendeu-se o Brasil do sertão até o mangue
E o homem servil verteu lágrimas de sangue”

Penso, afinal, que existe esperança no mundo porque, mais uma vez, os gritos de alerta sobre o absurdo das coisas vêm pela Cultura, que o novo governo quer tanto sufocar.

As histórias “pra ninar gente grande” evocam “a história que a história não conta” nos versos verde-e-rosa de Mangueira, cantados na passarela carioca do samba.

É a manifestação do povo que sustenta a maior festa do mundo… uma porção do povo que convive com exclusões de todos os níveis, imprensada entre fuzis de criminosos (com e sem farda) entregue a poderes paralelos, milícias sem lei…

Há esperança afinal.

E ela também se entranha em mim daqui de nosso oásis rural, com nomes de Márcia, Paula, Adriano, Silvana, Beto, Luís, Tati, Tânia, João Paulo, Mateuses… ecoando amores de mães, pais, irmãos, santos, deuses, Jesus e tudo o mais que rima com afeto.

Penso que enquanto houver voz, amor e amigos sempre haverá esperança.

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Questões do luto

Há várias definições para luto no dicionário. Nenhuma descreve ou prepara para os sentimentos pós morte-velório-sepultamento.

Após testemunhar três perdas consecutivas de meu parceiro de vida – seu pai de câncer, em 2016; o irmão, de septicemia decorrente de diabetes, em 2017; e a mãe, também de sepse pós-cirurgia, no apagar das luzes de 2018 – sei alguma coisa sobre isso.

Quando a vida deve retomar seu curso é que a maior tristeza instala-se com todo o seu peso sobre o enlutado. É preciso remexer os pertences, percorrer os lugares e afetos repletos da “presença” de quem se foi. As lembranças e histórias que cada objeto, local ou pessoa evocam… até então ternas, felizes, acolhedoras… tornam-se opressoras. Parecem gritar a nova ausência.

As três perdas de Márcio foram doloridas, mas a do pai foi amortecida pelo luto solidário do irmão e a consciência de que era preciso cuidar da mãe. Logo em seguida, meu acidente de moto meio que o distraiu das tristezas (com ambas as pernas fraturadas, fiquei meses dependente dele para tudo).

A perda do irmão foi, de longe, a mais difícil. Repentina, implacável, trazendo no bojo muita culpa por não termos notado o quão necessitado de atenção estava o Nando. Mas a força espiritual de dona Jovelina, a mãe, também amorteceu as tristezas. E a evidência de que, mais do que nunca, ela demandaria companhia e atenção constantes distraiu-lhe, mais uma vez, das grandes dores. Ele deixava para chorar comigo, não só para poupar a mãe, mas para não envergonhar-se ante sua grande força.

Agora dona Jovelina também se foi. Os primos, tios e amigos acolhem-no com carinho e afeto incondicionais, mas sempre chega a hora de retomar o tal “curso da vida” para todo mundo – aliás, como deve ser.

É quando o enlutado sente-se separado do resto do mundo por uma divisória invisível. Já escrevi sobre isso: por mais que os afetos vivos entendam e já tenham passado pelo mesmo, é solitária a dor do luto em cada um.

Daí que, mesmo juntos, vivemos, eu e Márcio, lutos diferentes. O meu é temperado de impotência e compaixão. O dele pesado de saudades irremediáveis. Não há palavra que minore, abraço que atenue, afeto que substitua a dor de ausências inexoráveis.

Na casa de dona Jô, cada parede reclama sua “presença/ausência”. É dolorido encarar a grande interrogação que cada objeto e cômodo parece nos esfregar na cara. Para mim é difícil manusear os utensílios domésticos impecavelmente limpos e ariados, que ela não deixava ninguém mais orquestrar (para sua noção muito particular de hospitalidade, era impensável deixar uma visita ter qualquer trabalho em sua casa, mesmo tratando-se da companheira de 21 anos do filho).

Pergunto-me como ela aguentava o calor de fornalha da cozinha mal arejada. Aliás, faltam correntes de ar por toda a grande e velha casa, o que parece intensificar a sensação de sufocamento que vai no íntimo de Márcio.

De sua tristeza emergem, agora, muitas e novas perguntas: Por que a partida dos três tão perto? O que explica este plano de Deus? Estariam todos juntos? Estão todos bem?

Atrás de alguma resposta ou consolo, fomos assistir a palestra em um Centro Espírita. Foi melhor para mim do que para ele, pois as questões de seu luto permanecem. Também fazem parte desta fase pós-morte-velório-sepultamento.

Opino que o melhor remédio é “sair para o mundo”, esforçarmo-nos para retomarmos também o curso de nossas vidas, atualmente em um limbo cinza por conta do desemprego de ambos (mais esta!). Ele aquiesce.

Hoje arrumou-se, penteou o escasso cabelo recém-cortado e perfumou-se. Vestiu o sorriso de sempre – para todos os efeitos e aparências, é um exemplo de resignação – e saiu tratar de providências práticas: certidões, inventário, possibilidade de renda…

Amanhã começamos a remexer guarda-roupas e armários.

Que Deus nos ajude!

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Que tudo passe…

Avisos de múltiplas mensagens de Boas Festas ao celular e na cabeça o verso insistente do samba de Nelson Cavaquinho:

“tire seu sorriso do caminho
que eu quero passar com a minha dor”. 

Habilito o silêncio no dispositivo, mas a decoração ascética na recepção da UTI deixa os olhos voltarem sempre aos alertas visuais de fotos e vídeos de Natal, mensagens efusivas de Ano Novo, manifestações de alegria, felicidade…

Tem sido assim pelos últimos 14 dias de nossa vigília por minha sogra, em luta contra três infecções neste hospital. O clima natalino reina fora, mas dentro de nós os corações solavancam a cada informe dos médicos… cada minuto parecendo muitos entre uma notícia e outra de pequenas melhoras e grandes pioras.

As emoções em gangorra nos deixam sem saber qual alívio esperar… Vida aprisionada ou descanso? Qual notícia desejar? Qual sofrimento escolher?  

Os votos de Boas Festas continuam nos celulares e as mesmas histórias edificantes de Natal brotam, com novos sujeitos, de TVs e internet. Nas ruas, o burburinho frenético de carros e pessoas denunciam providências para as celebrações que se aproximam.

No começo, revoltava tanta alegria aviltando nossa tristeza. Agora o cansaço pavimenta a aceitação da alegria no outro como confirmação de nossa solidão.

É como se uma divisória transparente e maciça nos separasse de tudo e todos, mesmo havendo amigos a enviar recados carinhosos e parentes a testemunharem solidariedade.

As celebrações continuam e já começamos a sentir vergonha de estarmos tristes. Márcio faz voz boa para o primo preocupado ao telefone. Desliga e funga sob o espasmo de um soluço afogado. 

Escondo-me no silêncio.

Quero que passe… que tudo passe… o Natal, as festas, tudo…

“Tire seu sorriso do caminho
que eu quero passar com a minha dor”

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A luta de Jô

Ela perdeu o marido no mesmo ano em que a nora – esta que vos escreve – acidentou-se gravemente, exigindo cuidados integrais de seu caçula.

No ano seguinte, sepultou o filho mais velho um dia antes de seu aniversário de 81 anos.

Neste fim de ano, enquanto todos preparam-se para celebrar as festas de Natal e Ano Novo, é a leonina Jô quem luta, novamente como uma leoa, pela própria vida.

Suportou uma cirurgia delicada de 7 horas para receber a prótese feita sob medida para seu aneurisma da aorta.

Saiu da mesa de operações sem sensibilidade nas pernas, com os rins parados, dores constantes nas costas e enjoando ante qualquer comida. 

Suportou hemodiálises e quedas de pressão sem queixas. 

No dia em que receberia alta, veio o exame que acusou infecções por duas bactérias e a volta para a UTI.

Ainda assim continuou forçando-se a se alimentar e a tentar fazer cara boa para seu caçula, que não faz outra coisa nos últimos dias senão cuidar dela, velar seu sono, animá-la em seu despertar.

Foi ele quem primeiro notou sua respiração acelerada durante uma soneca. Alertados, os enfermeiros auscultaram e confirmaram a taquicardia (140 batimentos por minuto).

Depois vieram a confusão mental, mais quedas de pressão, tentativas dela de livrar-se das agulhas que invadem as veias frágeis para conduzir medicamentos…

Foi amarrada à cama “para seu próprio bem”.

A visão dela frágil, confusa, tentando livrar-se das amarras – lutando sempre! – foi demais para a fé de Márcio. Pela primeira vez, desde o início de suas perdas, questionou Deus. Desafiou-O, entre soluços, a transferir todo aquele sofrimento para si.

E eu, impotente, pedindo que seu sofrimento seja o meu…

É como sabemos que amamos alguém… quando a imagem da dor no outro é tão grande que a queremos nossa… só nossa.

Detectada uma terceira infecção, foi preciso entubá-la.

As chances dela sobreviver são pequenas, mas nos agarramos, novamente, à fé e oramos, oramos, oramos.

Enquanto isso, leoa, a leonina Jô segue lutando.

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Paz! (Coexistir é preciso)

“O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro”.

Sempre achei esta frase de Saramago sábia e me pautei por ela em pleitos anteriores. Ultimamente, porém, ante o crescimento de discursos de intolerância e preconceitos, apavorei-me! Passei a me manifestar publicamente achando que era meu dever cidadão.

Que pretensão a minha!

Não mudei a opinião de ninguém e perdi amigos… pessoas que, mesmo tendo pontos de vista diferentes, querem o mesmo que eu (ainda que algumas o desejem só para seu grupo quando deveriam desejar para todos): uma boa vida… melhor, ao menos, que a que temos hoje.

Se eu ou elas estamos errados sobre como conseguir isso é a história que vai dizer, não eu… ou elas. Aliás, se queremos as mesmas coisas nem deveria existir essa distância – nós… eles.

Então, faço um mea culpa: eu deveria estar desde o começo me manifestando a favor da paz e não contra a guerra. Estar falando de boas propostas e não criticando as ruins. E, lembrando que ninguém tem a verdade absoluta sobre o que é bom ou ruim, volto à antiga isenção.

Nossos destinos serão como a maioria decidir, como convém numa democracia (que continuemos vivendo em uma!). E tentemos coexistir!

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Para a Lu, em seu aniversário

Intensa e cheia de vida

Por volta da época em que o ônibus espacial Challenger, da NASA, explodiu, e em que reportagens do Jornal Nacional incensavam os “fiscais do Sarney”, encontrei neste mundo minha irmã do coração.

Em um dos primeiros dias de aula no 2º colegial F, numa escola estadual de Ribeirão Preto (SP), eu já estava instalada numa carteira próxima ao fundão quando a vi entrar. Tinha o cabelo de um tom castanho aloirado incomum entre nós, a pele branquíssima e olhos verdes. A calça de abrigo cinza clara revelava uma magreza sem curvas, quase como a de um menino, não fossem os seios fartos, mal disfarçados pela camiseta larga. Chamou primeiro minha atenção a expressão de seu rosto: um misto de desafio e indiferença.

Sentou-se justo atrás de mim e logo puxou conversa. Fiquei levemente surpresa e muito grata – as pessoas não puxavam conversa comigo.

Não demorou a se mostrar uma pessoa cheia de atitude, opiniões e ideias originais – totalmente “fora da caixa”, pra usar uma expressão de hoje. Sua desenvoltura em se comunicar, usando expressões e gírias exatas, de um humor inteligente, encantou a todos. Em poucos meses, já era uma figura popular e querida.

Eu, que vinha de um longo histórico de impopularidade, curtia enquanto podia sua companhia, esperando a hora em que seria expulsa também do “Clube da Lu” – estava acostumada a ser excluída dos grupos tão logo detectavam minha inabilidade social.

Mas nunca aconteceu.

Esta é uma das coisas lindas na Luciana e a razão de nossa amizade durar mais de 30 anos: sempre teve um coração disponível e amoroso. Tem afeto para dar e vender e absolutamente nenhum tipo de preconceito. Nasceu aceitando todo tipo de diferença.

Já naquela época tinha muita facilidade de se apaixonar… por garotos, amizades, músicas, filmes, causas…

Também decepcionava-se e sofria com a mesma intensidade – nunca foi de meios termos.

Irmãs

Cativante, conquistou nossa família inteira sem esforço, apenas sendo! Morou em nossa casa duas vezes, antes e depois de ir encontrar a mãe em Maceió, pois havia fugido, apenas poucos meses após nos conhecermos, da casa do pai, com quem foi morar após o divórcio deles.

Trocou um quarto só seu em um apartamento grande e confortável para dormir no chão de meu quartículo, em um cubículo de Cohab modesto. Comeu nossa humilde comida e usou nosso apertado banheiro como se sempre tivesse sido uma de nós.

Até hoje a Lu chama minha mãe de “tia” e meu pai de “papi”, e eles a ela de “filha”. Em minha colação de grau em Jornalismo, ela estava com minha família na plateia, na merecida posição de “irmã do coração”.

Quando me separei de meu marido, uma vez, cercou-me de atenções e carinho mesmo de longe, gastando ligações de celular (não sei se tem ideia do quanto isso foi importante).

Achei que nossa amizade esfriaria com o tempo e a distância.

Também nunca aconteceu… graças a ela.

Em um tempo sem computadores e e-mails, escrevia cartas periodicamente, nos surpreendia vez ou outra com uma ligação interurbana e nunca esquecia datas e eventos importantes. Chegava a me dar broncas homéricas (merecidas) quando era eu quem passava muito tempo sem dar notícias.

Estilosa!

Não sei se ela sabe que sua amizade sempre me encheu de orgulho e alguma vaidade (admito!), pois sempre a achei – diferente de mim – linda, interessante, engraçada, muito estilosa e cheia de vida, coragem e histórias. Acumula um monte delas viajando para diferentes partes do mundo (inveja!), sempre em busca de conexões… com a natureza e pessoas de verdade (fotos aí embaixo pra provar).

E é tão talentosa! Tudo o que se propõe a fazer, faz bem – fotos, planos de marketing, design de interiores, look de moda…

Temos em comum o signo de Virgem e uma tendência a nos deprimir quando a vida se torna real demais – apesar do elemento Terra, nossas cabeças sempre estiveram no ar, dicotomia que nos exige, às vezes, uma flexibilidade emocional além de nossas forças.

Por falar em signo, hoje é seu aniversário e, em vez de fazer o tradicional telefonema de congratulações, decidi colocar no “papel” os motivos pelos quais ela consta na lista de “coisas pelas quais ser grata em minha vida”, encomendada por meu terapeuta.

Tive que resumir, pois não caberia nem mesmo no espaço infinito da internet o tamanho de minha gratidão pela Lu existir e ter me eleito, contra todas as probabilidades, entre seus afetos.

Feliz aniversário minha irmã do coração!

Gratidão eterna!

 

 “Cheia de vida e histórias. Acumula um monte delas viajando para diferentes partes do mundo, sempre em busca de conexões… com a natureza e pessoas de verdade”


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