Encontro de porta

Já escrevi que a quarentena imposta pela pandemia de Covid-19 não tem sido exatamente uma tortura para mim, que cresci com um defeitinho de sociabilidade – cortesia de um Déficit de Atenção responsável por uma tendência de nascença à introspecção. Dito isso, assumo parte da responsabilidade por ter demorado bem uns seis anos para trocar mais do que os comprimentos eventuais à escada com os vizinhos de porta que temos no pequeno condomínio de apartamentos em que vivemos, há quase oito.

Até há um ano e meio atrás, eu sabia de minha vizinha Ana Lígia só que era jornalista como eu, mas estava afastada há algum tempo do metier; e do Matheus, seu marido, que trabalhava com audiovisual e estava no segundo mandato de síndico desde que nos mudamos; além de serem super educados e aparentarem ser “muito boa gente”, etc, etc.

Quando o desemprego chegou para mim, em 2018, Ana já andava às voltas com o desafiador ofício de “mãe de primeira viagem” e uma vontade latente de voltar ao jornalismo fazendo algo que lhe permitisse trabalhar home office. Como o mercado me encaminhasse também para esta opção, passamos a conversar esporadicamente sobre nossas dúvidas e ideias a respeito, mas sempre en passant, quando nos topávamos na escada ou às portas de nosso apartamento. Da mesma forma, nossos maridos, que sempre simpatizaram de cara um com outro, só batiam papos rápidos quando algum assunto do condomínio forçava um encontro.

Nossas amizades foram crescendo assim, indolentemente alimentadas por conversas rápidas à escada, recados concisos no Whatsapp e raras chamadas de voz para aqueles pedidos tradicionais de vizinhos – “tem uma caixa de amido de milho pra me arrumar, vizinha?”. Nunca pensamos em propor um programa de lazer compartilhado, como um jantar no apê de um ou outro casal e era improvável que isso ocorresse em plena quarentena do coronavírus.

Mas a Ana Lígia surpreendeu, com a encantadora sugestão de compartilharmos algumas horas de isolamento em comum – cada casal na sua porta, com sua cerveja e petisco. Pensamos, eu e Márcio: “Por que não?”. E colocamos as cadeiras nas portas e um carrinho de bebidas no meio do hall de entrada, delimitando a distância mínima de 1 metro de cada lado.

Que HORAS DELICIOSAS de bate-papo tivemos!

Comparamos histórias de vida, confirmamos similaridade de ideias e visões de mundo, trocamos memórias. Sem perceber, liberamos a maior parte do peso de nossos humores, envenenados que vinham pela triste realidade dos noticiários nesses tempos de coronavírus e pelas comunicações violentas praticadas nas redes sociais.

Eu maldisse ali minha introspecção, que adiou por tanto tempo uma interação tão abençoada.

Ao final da noite, quando os papais de primeira viagem se lembraram de que precisavam dormir para acordar junto com o filho madrugador, ainda nos perguntávamos por que foi preciso uma pandemia para nos fazer interagir com tempo e atenção apropriados. Ainda não temos esta resposta, embora vergonhosas hipóteses rondem meu pensamento (preguiça? Individualismo? Indiferença?).

Só sei que fomos dormir mais felizes do que acordamos naquela Sexta-Feira da Paixão e que um novo programa já está pré-marcado para esta semana.

Mas o importante é que “abrimos a porteira”!

Que venham muitas outras confraternizações, ainda que com distância física controlada. A proximidade mais importante é outra.

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