Categoria: Íntimo & Pessoal

Testemunhais

Estamos todos bem

Querido Nando,

Hoje faz um ano que você partiu.

O dia não está diferente. O céu não está nublado. Faz só um friozinho bom à sombra, que valoriza o beijo do sol em nossas peles nos pedaços desabrigados das calçadas.

Estamos todos bem.

Márcio tem cuidado com extremo carinho e atenção da mãe de vocês. A idade tem cobrado dela algumas faturas, mas nada com que ela não saiba lidar com a força e – invejo ao dizer – o humor jovial de sempre.

Ela nos dá lições de resiliência todos os dias.

Confesso que não sou das melhores alunas. Márcio sim.

Ele sente muito sua falta. Manda dizer que você está sempre em seus pensamentos e que encontrou seu pai outro dia, em um sonho. Seo Dema estava bem. Descontraído, sorriu um riso velhaco de quem é pego numa traquinagem e depois se foi, tranquilo.

Sua mãe sonhou outro dia com pessoas de branco entrando em sua casa e sentando-se ao sofá da sala, indiferentes aos questionamentos que ela fazia a um e outro. Tenho para mim que são os anjos que sempre a rodearam e agora sentiram ser hora de dar testemunhos de suas presenças.

É que ela precisou ser internada outro dia, por conta de uma infecção urinária e um quadro de desidratação e anemia – tem comido como um passarinho e, como é praxe em sua idade, já não sente tanta sede.

Você pode imaginar o susto que o Márcio deve ter levado ao deparar-se com o diagnóstico da infecção que desencadeou todo o processo da sua partida.

Mas ele herdou de sua mãe a fé (a calma apaziguadora é dele mesmo!). Assumiu que o susto só ocorreu para que os médicos pedissem os exames que acabaram constatando o problema maior, que, silencioso, poderia sequestrá-la de nós sem aviso: um aneurisma da aorta que requer procedimento urgente.

Márcio já providenciou tudo: exames, consultas, dieta reforçada, solicitações ao convênio…

Você se orgulharia de ver como ele tem lidado com tudo sem revolta – só uma tristezinha aqui e ali, como lembrança das saudades de vocês.

Você e seu pai estão sempre em nossas orações, ao lado de minha família. Por falar nela, minha mãezinha tem convivido com dores diárias de sua artrose, também com a resignação exemplar de sempre. Papí segue com qualidade de vida melhor, embora desconfortável com a bolsa de ileostomia que tornou-se sua companheira.

Já eu vou como Deus quer e minhas ansiedades permitem. Também sigo toureando saudades de vivos e desencarnados, ligando meu barco de viver diariamente na carga extra, enquanto ele não aprende a velejar sozinho, com vento próprio.

Espero em Deus que você esteja mesmo bem, Nando. Márcio tem certeza de que está. Diz que lembra de você sempre com muita gratidão. Por tudo – por ajudá-lo, apoiá-lo, lhe dar rumo na vida, por ter sido seu segundo pai… – e que tenta, todos os dias, ser o ser humano “do bem” que você sempre foi. Sou prova de que tem conseguido.

Obrigada por tudo. Fique com Deus e todo nosso amor!

Até mais…

 

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Uma Leonina Chamada Jô

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Amor de turma

Uma vez, assistindo na TV a um encontro de bandas brasileiras de rock dos anos 1980, ouvi de Paula Toller (ex-Kid Abelha) a expressão “amor de turma”, referindo-se ao sentimento que unia todos os músicos ali. Nunca mais esqueci, até porque ela volta à minha memória toda vez que me reencontro com um repertório de rock daquela época.

No último 4 de agosto a expressão me voltou enquanto eu ouvia a banda 33, de Ribeirão Preto, e depois o Ira! (com os remanescentes Nasi e Scandurra), no Invicta Nocaute Festival, evento de fábrica de cerveja artesanal de minha cidade.

Nasi continua desafinado e Scandurra arrasando na guitarra, que ele ainda toca invertida, porque canhoto (feríssima!).

Ainda é o Ira! E o “amor de turma” estava lá.

Gordo (que é bem magro, por sinal…rs) à direita na foto

Mas os melhores momentos foram com a banda 33, do “Gordo” (que é bem magro, na verdade…rs), baixista da minha época de faculdade, que eu não assistia há uns 20 anos, pelo menos. Ele já curtia rock naqueles tempos. Pelo repertório da sua 33, ainda curte os mesmos de então… os mesmos que eu, que todos nós naqueles anos de poetas jovens, bem letrados e idealistas, do quilate de Renato Russo, Herbert Vianna, Cazuza…

“Disciplina é liberdade / Compaixão é fortaleza / Ter bondade é ter coragem”

“We will… we will rock you!”

“Se eu tô alegre eu ponho os óculos e vejo tudo bem…”

“See the stone set in your eyes / See the thorn twist in your side / I’ ll wait for you…”

“Migalhas dormidas do teu pão / raspas e restos me interessam”

Gordo é irmão do “Véio” (Evandro Navarro), também músico, mas mais da MPB. Família abençoada deve ser esta, de gente que faz música com competência e brilho nos olhos.

Que bonito ver pessoas que não deixaram o tempo e as demandas da sobrevivência traírem suas vocações, que fazem de uma paixão seu projeto de vida!

Bom demais ver que o Gordo, grisalho (cinquentão?), ainda se arrepia cantando músicas de nossa época! Na “saideira”, com o público todo cantando à capela “Pais & Filhos”, do Legião, mostrou tatuagens nos dois braços. Entendi que deviam ser os nomes dos filhos (acertei, Véio?).

“Você culpa seu pais por tudo / Isso é absurdo / são crianças como você / o que você vai ser quando você crescer…

Ave, música!

Valeu, Gordo!

Beijo, Véio!

“É nóis”!

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Junhos!

Nunca pensei muito sobre o porquê das festas juninas e quermesses me despertarem bons e mágicos sentimentos todo inverno, mas ultimamente tenho rememorado lembranças de deliciosos junhos na avenida de terra na qual cresci, em Ribeirão Preto.

As festas do mês mobilizavam-nos em preparativos para grandes fogueiras à beira do ribeirão. Nós, crianças, saíamos a buscar pelos matos qualquer resto de madeira enjeitada para montar a estrutura gigante, que ultrapassa a altura de qualquer adulto das redondezas.

As crianças banhavam-se correndo após a tarde de brincadeiras para não perderem nenhum detalhe do ritual de acender a fogueira. Começava com a distribuição de pequenos pedaços de jornal pela grande pilha, que eram acesos com fósforos. Mas era preciso também bisnagar álcool pela madeira para incentivar o fogo rápido do papel a espalhar-se.

Era emocionante para nós testemunhar o fogo erguer-se altíssimo, iluminando a noite à beira do rio… a ausência de postes de luz multiplicando o número de estrelas à vista no céu.

Tão lindo!

As mães conformavam-se com o assalto às suas embalagens de Bombril, já que a sensação da noite era improvisar espetáculos de luzes com esponjas de aço em chamas. Acendíamos a pontinha delas na fogueira e as rodávamos com movimentos circulares dos braços, formando espirais de fogo lindíssimas os nossos olhos de crianças.

Os vizinhos dispunham suas cadeiras de cozinha a uma distância segura da fogueira para acompanhar com vigilante aprovação a farra dos mais jovens… e deitavam conversa sobre suas vidas para levar.

Algum adulto sempre chegava com bules enormes de alumínio – daqueles que hoje só se vê no Museu do Café – para servir quentão em copos americanos. Leves, eram liberados até mesmo para crianças… o gosto do gengibre descrevendo um caminho de fogo por nossas gargantas. Até hoje nutro um amor infantil pela raiz, que descobri recentemente ser contraindicada a hipertensos (desgosto dos desgostos!).

As fogueiras aqueciam o frio genuíno daqueles junhos pré-El Niños, mas o fogo consumia rapidamente o “gigante”. No dia seguinte era apenas um amontoado de cinzas espalhadas pelo vento livre da beira do rio, que liberava-nos de qualquer trabalho de limpeza.

Não precisávamos de quadrilhas, trilha sonora sertaneja, correio-elegante, camisas xadrezes ou jeans puídos para legitimar nossas modestas e pouco planejadas festas juninas. Éramos “caipiras” legítimos da cidade em nossa “avenida rural” cercada de asfalto em seus limites.

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Novo ano, velha saudade

O ano começou pra mim requentando saudade antiga de perdidos dezembros.

Mora dentro de mim desde a primeira infância, nascida de lembranças que até hoje me vêm como as mais felizes de todas, porque de uma felicidade genuína e plena, como só as crianças conseguem sentir.

Sobraram delas apenas flashes de imagens, mas a lembrança do sentimento está intacta, como se eu o tivesse sentido ontem.

Começavam sempre em dezembros essas lembranças, quando ouvíamos uma buzina alucinada à porta de nossa casa, na avenida de terra à beira de um ribeirão Preto margeado de mato.

Ainda enxergo na tela da memória meu tio Silvio (a quem devo meu nome) à direção de sua Belina, que chegava lotada com minha tia, primas e – nas últimas visitas de que me lembro – também de meu primo temporão, Silvinho.

Marlene, Silvinho, Márcia, tia Célia, tio Silvio e Margareth agachadinha: morro de saudades!

Chegavam sem avisar (era um tempo em que telefone em casa era coisa pra ricos) e não enxergávamos o menor problema ou indelicadeza nisso. Ao contrário, celebrávamos extasiados a surpresa, que sempre inundava os ânimos de minha família de um clima de festa, celebração, alegria.

A criança que fui respirava dentro desses dias como se dentro de um sonho bom, desses de que a gente nunca quer acordar.

As noites terminavam tarde e a hora de dormir transformava os chãos dos quartos e sala em um mar de colchões forrados com toda a roupa de cama que houvesse na casa.

Ainda me fecha a garganta a saudade de tardes de cantoria ao violão… a imagem de meu pai arranhando as cordas com seus poucos conhecimentos de acordes… o tio improvisando percussões e a filharada espalhada pelo chão acarpetado. A mãe e a tia ouviam tudo da cozinha, mobilizadas nos afazeres das refeições.

Às vezes o tio colocava a criançada mais nova no carro e saía a passear pelas ruas do bairro, àquela época muito tranquilo, meio esquecido até pelos carros, pois que suas ruas morriam todas no rio sem pontes.

Vez ou outra ocorria de rolar um sorvete, mas era raro. Não éramos famílias para ter dinheiro fácil para pequenos prazeres. Mas não lamentávamos porque, na verdade, não se sente falta do que não se permite desejar.

O tio sempre me cobria de mimos, abraços… chamegos que brotavam naturais, sem maldades, do mais puro amor.

As primas, muito mais velhas que eu, me mimavam.

Eram visitas em que eu me sentia envolvida em muito amor e alegria.

Cessaram de repente, por volta de minha puberdade, nunca entendi direito o porquê, e eu passei a cozinhar saudades silenciosas todo dezembro.

As famílias se distanciaram. Primas e primos casaram-se e tiveram filhos sem se avisar.

Enfim… a vida aconteceu nas distâncias, com cada um tangendo a sua sem pensar ou lembrar que um dia as pessoas se vão sem volta.

Nos últimos anos eu e minhas irmãs retomamos contatos via rede social com os primos, principalmente Silvinho que, prodígio desde criança, tornou-se pedagogo, enólogo por hobby, marido e pai amoroso, como o fora meu tio até o fim.

Tio Silvio morreu no último dezembro (logo neste mês).

Meu pai não pode despedir-se, pois recuperava-se no hospital de três cirurgias intestinais, que nos surpreenderam quando ainda lidávamos com um infarto sofrido por mamãe.

Não contamos logo. O médico aconselhou esperar ele ficar mais forte. Quando soube (fui eu a contar), chorou muito. “Ele não foi um irmão, foi um pai. Ajudou a me criar  e os outros irmãos”, justificava entre soluços.

Não chorei, pois o sabia sofrendo de um câncer avançado.

Evoquei o amor que ainda mora dentro de mim nas orações que lhe dediquei e agradeci a Deus por ele e por todo o amor que me fez sentir.

Descanse em paz meu amado tio!

Fica com Deus.

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Necrológio

Para fazer um necrológio de 2017, que agoniza, tenho a dizer que foi o melhor “pior ano” de minha vida.

Pior porque passei o primeiro semestre dele recuperando-me de um acidente grave e o segundo tentando administrar acontecimentos difíceis: uma readaptação complicada à rotina de trabalho; um AVC e um infarto de minha mãe; dois meses de hospitalização de meu pai por conta de três cirurgias de intestino; o desencarne em circunstâncias tristes de pessoas queridas – meu cunhado-irmão Nando, meu amado tio Silvio Pereira (a quem devo meu nome), o amigo Lau.

Mas também foi o melhor ano porque o termino feliz e serena como em nenhuma outra virada antes, graças a um abençoado mecanismo psicológico que começou a funcionar dentro de mim… um que me fez olhar de outra forma para coisas e pessoas que já tinha antes de cada acontecimento ruim e que me fez perceber quanta sorte tenho por cada uma delas.

O resultado desse mecanismo é um sentimento cujo nome foi campeão de citações nas redes sociais este ano, tendo merecido até matéria em televisão: gratidão.

Eu sei que nem sempre esta hashtag é usada com sinceridade nas redes, mas meu recém-desperto otimismo (outro sentimento que estou aprendendo a exercitar) me leva a acreditar que esta palavra não virou modismo à toa.

Talvez todos os fatos ruins que vêm ocorrendo em nível mundial estejam despertando este mesmo mecanismo em milhares de outras pessoas mundo afora.

Talvez essas milhares de pessoas estejam aprendendo, a  partir do sofrimento, a valorizar o que lhes resta de bom em vez de só chorar pelo que sofrem.

Talvez a nova era que místicos e espiritualistas prometeram para este milênio esteja sendo construída a partir desse sentimento-alicerce.

Muitos “talvez”, eu sei, mas depende de cada um de nós transformá-los em certezas.

Tentarei fazer minha parte. É minha promessa de Ano Novo!

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Despedidas

Hoje não tenho palavras

Não jorra palavreira do meu luto

Não transborda alma na forma escrita.

Hoje só brotam despedidas de meus dedos

Oro

Que partam em paz todas as minhas perdas

Que vivam melhor na próxima vida

Que amem tanto ou mais

Que vivam para sempre

Virem estrelas

Sejam para sempre luz!

Perdemos o LAU BAPTISTA

Vai em paz, meu amigo!

Os anjos te guardem.

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Herança

Meus pais sempre foram lindos.

Não é uma metáfora. A genética foi mesmo generosa com eles, preservando em suas aparências o melhor de vários mundos presentes em suas genealogias.

Não conheço meus antepassados anteriores aos meus avós, mas sei que mamãe ficou com os olhos verdes, a pele alva e os traços angulosos de meu avô lituano, mais o corpo curvilíneo de minha avó interiorana.

Meu pai manteve a altura e a magreza atlética de meu avô afro-brasileiro, neto de escravos (muito bem aproveitados em sua breve carreira no futebol). Mas a morenice café-com-leite e o cabelo mais liso-ondulado que crespo ele deve aos genes de sua mãe, descendente de índios.

Quando criança, eu costumava me orgulhar ao levar colegas de escola à minha casa pela primeira vez: “Como sua mãe é linda!”; “Que homão que é seu pai!”, era certo de ouvir.

Na adolescência, o alto grau de surpresa de tais exclamações chegava a me incomodar um pouco: “por que você mesma não é bonita assim?”, ouvia eu nas entrelinhas.

Vi em minhas irmãs desde sempre as belezas e feminices de mamãe, mas demorei a deixar de ver em mim só a herança de papí (as três filhas o chamam assim), que me valeu uma aparência andrógina até a puberdade. “Ei, menino…”, chamavam-me no ônibus, na rua.

Os hormônios só começaram a desenhar em mim as curvas de mamãe no início da fase adulta.

Talvez, de tanto ter pedido a Deus naquela época, hoje tenho de todos da família um pouco (tá… faltaram-me os seios maiores que minha irmã do meio herdou de nossa avó materna, mas não se pode ter tudo).

Ainda me assusto quando, às vezes, olho no espelho e penso estar vendo minha irmã mais velha. Ou quando me ouço pigarrear o refluxo da garganta como ouvi mamãe fazer a vida toda – uma família inteira com hérnia de hiato. Não gosto de chocolates e de desordem, como minha irmã do meio, e minhas pernas têm o desenho reto e pouco feminino das de meu pai, embora (que raiva!) tenham copiado os culotes de minha mãe.

Acompanhando papí no hospital, onde ele se recupera de cirurgias no intestino delgado, descobri uma nova semelhança. Cortando suas unhas, parei a admirar suas mãos ainda enormes, mesmo estando ele tão magrinho. Mãos de meu avô negro, de dedos retos, unhas largas e palmas claríssimas. Minha mão esquerda pareceu uma versão infantil da sua quando sobrepus à dele.
Como nunca percebi antes que as mãos que eu sempre quis finas e de unhas estreitas e alongadas como as de mamãe eram, ao contrário, cópias menores das mãos de goleiro de meu pai?

Hoje observo ambos velhinhos e entendo estar olhando para um espelho precoce, que devolve o reflexo de um futuro possível.

Não me assusto.

A juventude deixou suas aparências e seus corpos, mas eles ainda são lindos. Os cabelos ondulados de mamãe agora são de um branco laminado e seu sorriso ainda é o mesmo, de dentes grandes, que se projetam pra além dos lábios, como se mal coubessem dentro deles.

Papi quase não tem rugas no rosto ainda bonito, a despeito das olheiras fundas de agora.

Não tenho pressa de descobrir com qual dos dois me parecerei quando tiver a idade deles, mas tenho medo da falta que sentirei de me procurar neles quando não estiverem mais por aqui.

“Tempo, tempo, tempo, tempo…”

 

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Pandora

Escrevo esta crônica sob encomenda, de homenagem pedida e com gratidão cerzida numa oração.

Meu amor pede homenagem a dois seres que se amaram muito na Terra e devem estar brincando juntos agora no céu.

Pandora, nossa Pan… minha “sobrinha” labradora linda, amada e amável até o fim foi encontrar nosso Nando em outro lar.

Já andava numa tristeza de lastimar, sem entender pra onde tinha ido um de seus “pais”, que partiu de repente, sem aviso e preparação nenhuma pra nossos corações.

Vi a Pan chegar filhotinha a nossas vidas, com certificado de pedigree e tudo e já com uma displasia que parecia desconjuntar seu quadril quando andava.

Mas quem disse que isso lhe freava a hiperatividade? Não andava, corria. Não abraçava, derrubava-nos pulando com as duas patas em nosso peito pra cobrir de lambidas nossos rostos e de cheiros nervosos nosso cangote.

Quando estava pra chegar de visita à casa de minha sogra, onde me hospedo em Jaú, Marcio vinha avisar: “Põe sua roupa de guerra”. E lá ia eu rolar com a Pan pelo quintal amplo deixando minha roupa da cor do chão.

Por esse quintal ela corria numa alegria de dar gosto atrás das bolinhas que jogávamos de um pro outro para exercitá-la – três marmanjos se lambuzando daquele amor delicioso que as crianças e os PETs conseguem despertar.

A brincadeira sempre acabava com o Nando enchendo uma bacia grande de água pra ela se jogar dentro extasiada de prazer.

Como boa labradora, amava água. Cumpria feliz o compromisso semanal de exercitar-se em um aparelho fisioterápico – espécie de esteira montada dentro de um tanque d’água – no consultório de uma veterinária, para tratar a displasia. Nadava com desenvoltura e prazer genuíno com o Nando na piscina de sua casa.

Dava gosto ver como amava esse “pai”. Deu dor em nossos corações saber que ela mergulhou numa tristeza só depois que ele se foi (ainda agora me fecha a garganta lembrar).

Mas não há mais pelo que chorar. Deus sabe o que faz. Chamou a Pan pra junto do Nando ontem de manhãzinha e agora eles devem estar correndo juntos pelos campos do Senhor (nosso amor com eles).

Amém!

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Sobre Anjos – parte II

Subo as escadas sentindo uma dorzinha nova no tornozelo direito, vinda não sei de onde, não sei por que raios! Passa das 23h30 quando viro a chave para entrar no apartamento vazio já sentindo a falta de Márcio, de quem me despedi na hora do almoço para mais uma separação de 15 dias (longa história).

Estou cansada e ainda é só quarta-feira!

Levo um susto ao encontrar a sala iluminada – tenho certeza de que não deixei a luz acesa – ao mesmo tempo em que um cheiro surpreendente de comida bem temperada me assalta o olfato – sequer cozinhei nos últimos dias!

(medo)

Avanço taquicárdica até a cozinha, onde encontro sobre o fogão uma panela com arroz novo, outra com feijão recém-temperado, uma assadeira com torta de frango sobre o microondas, a salvo dos gatos.

Abro a geladeira sentindo-me o pequeno Charlie entrando no jardim feito de doces da Fantástica Fábrica de Chocolate de Willy Wonka. Encontro, já acondicionados em vidros, filés de frango assados, purê de batatas e uma carne moída refogada com legumes.

Desconfio, antes de ouvir um certo recado de áudio deixado no WhatsApp, a identidade de minha fada-madrinha… no caso, faxineira-madrinha.

Kelly fazia faxinas para mim já há dois anos quando sofri o acidente de moto que me quebrou as duas pernas. Acompanhou discretamente meus esforços de recuperação e, quando ocorreu a última tragédia de nossa vida – a morte de meu cunhado e a consequente “mudança” de meu marido de volta à casa de sua mãe, em Jaú –, revelou-se sua inestimável solidariedade. Ante minha locomoção ainda limitada, ofereceu-se para cozinhar para mim nos dias de faxina sem cobrar nada a mais.

Claro que acrescentei um adicional ao valor de sua diária, mas o que ela passou a fazer por mim não tem preço. A cada dia de faxina, preocupa-se em cozinhar uma quantidade de comida variada que dure a semana toda – tudo separadinho em vidros que podem ser congelados e descongelados individualmente.

Nesta semana, avisou que não poderia vir na quarta, como de hábito, pois tinha algum compromisso. Viria na quinta. Mas apareceu sem avisar  no fim da tarde da quarta (tem sua própria chave da porta) e fez toda essa adorável comida.

Não resisti ao carinho… digo, ao cheirinho… e jantei àquela hora mesmo.

Quase meia noite, eu “batendo” um prato de arroz com feijão novos – muito mais feijão que arroz – e um generoso pedaço de torta de frango, quando percebo um novo aviso de mensagem no Whatsapp.

O áudio de minha irmã mais velha avisa que nossa mãe acaba de sofrer um infarto e aguarda vaga em algum hospital do SUS para internação.

Esqueço a comida.

Em uma conversa rápida e nervosa ao telefone descubro que mamãe começou a sentir dores à tarde e foi levada para a UPA de Araraquara pela amiga que lhe fazia companhia – graças a Deus! -, mas ainda carecia de cuidados e tratamento. Minha irmã passa o celular para ela, que faz uma voz calma, com a qual tenta me tranquilizar (ELA… A MIM!).

Tento disfarçar os sintomas de pânico que costumam disparar meu coração e acionar reações desmedidas aos mais variados acontecimentos. Desligo e ligo chorosa para o Márcio, que me acalma e lembra das coisas que tenho de agradecer antes de me desesperar.

De fato, Deus, ou seja lá qual força governe essa cadeia de causalidades que chamamos destino, achou um jeito de colocar justo nesse dia – de despedida do Márcio, de trabalho corrido, de dor nova – uma anja-faxineira-fada-madrinha para me lembrar de que sou cuidada (assim como colocou anjos-enfermeiros em meu caminho durante minha estada no hospital e em vários outros momentos). Há de colocar anjos em torno de minha mãezinha também, que tem muitíssimos mais méritos que eu nesta vida! E provavelmente em outras…

Termino meu prato de comida, tomo uma cerveja pra chamar o sono e espero por ele lendo mais um capítulo de “Todo Mundo Tem Um Anjo da Guarda” (Pedro Siqueira), que outra anja me recomendou. Antes dele chegar, vou rezar para o anjo-da-guarda de minha querida.

Parafraseando mamãe, que “seja tudo como Deus quiser!”

 

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Os Olhos de Bob

Seus olhos eram o que primeiro me ganhavam a atenção quando o via. Amarelados, contornados de preto, incisivos e insistentes, continuavam a encarar mesmo após desistirmos de encará-lo de volta.

O gato a quem chamei Bob – como em “Um Gato de Rua Chamado Bob” – foi minha relação mais curta, mas talvez tenha sido a mais emocionalmente intensa.

Ele viveu apenas seis dias em minha casa, sendo cuidado como uma criança doente. Dei-lhe banho, remédios, alimentei, troquei fraldas, levei quase todos os dias fazer exames…

Dócil, deixava-se manipular por mim. Guerreiro, até o terceiro dia arrastava-se em duas patas para tomar água, comer e tentar – sem sucesso – usar a caixinha de areia que lhe preparei.

Mas no quarto dia desistiu de tudo… comer, beber, deixar-se trocar…. Ficava só deitado no fundo da caixa que lhe comprei, perdido em tremores. Ficou agressivo, mordeu a veterinária na última consulta e começou a sibilar quando eu tentava limpá-lo e trocá-lo.

Quando a profissional disse que, mesmo fazendo cirurgia para retirada de seu tumor na bexiga, ele continuaria piorando – o exame deu positivo para Felv (leucemia felina) -, busquei segunda e terceira opiniões. Todas resultaram parecidas e decidi pela eutanásia com um profundo sentimento de inutilidade – no final das contas, de pouca ajuda fui pra mudar seu destino.

No sexto dia, eu o levei para morrer. Fiquei a seu lado até o último instante, mesmo após ele ter me mordido ao colocá-lo sobre a mesa da clínica – será que adivinhava?

“É muita dor que ele está sentindo”, consolou-me a querida Iara (Deus a abençoe!), amiga gateira e fisioterapeuta que cancelou todos os seus compromissos daquela manhã para me acompanhar à eutanásia. Chorou comigo durante todo o processo.

Porque as pupilas de Bob seguiam todos os meus movimentos pelo consultório, não consegui desviar meus olhos dos dele. Na primeira injeção de anestésico, apenas relaxou o formato deles; na segunda, vi suas pupilas dilatarem-se gradualmente. Na injeção derradeira, foram ficando vítreas… duas bolas de gude enormes devolvendo meu próprio reflexo embaçado pelo choro.

Não fechou os olhos nem no último suspiro.

Aqueles olhos voltariam a me visitar em sonho. Acordada também.

Agora mesmo, enquanto aguardo uma sorologia entrar-me veias adentro – estou tendo que tomar vacinas e soros antirrábicos e antitetânicos -, a lembrança deles me vem de novo.

Pergunto-me para onde devem ir os espíritos dos animais quando deixam a carne. Será que têm acolhida em um lar só pra eles no céu? Será que chegam lá sãos e sem dores? Será que reencarnam perto de nós?

Uma amiga médium – e psicóloga amadora nas horas vagas – disse-me que o Bob apareceu em minha vida, neste momento, porque eu precisava cuidar de alguém e entender que nem sempre podemos evitar o sofrimento alheio, mas que amar basta (tomara!).

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