Saiu.
Foi assim, sem aviso ou despedida, que ela não mais voltou.
Antes, havia revelado para poucos que estava muito doente. Sofria de ódio. Disse que era uma dor infame que lhe aplacava todos os dias e que não sabia se começava nela ou se era algo que vinha no ar.
Na memória vinham cenas de momentos em que havia se sentido depreciada e diminuída, excluída e desamparada. Disse que essa dor foi, e é, terrível e que gerava nela algumas reações (não era bonito).
Contou ainda outros episódios em que suspeita onde pode ter ocorrido a contaminação. Mensagens. Foram muitas mensagens e posts.
Às vezes, contou ela, “podia perceber algo diferente em meu corpo ao ler. Meus olhos abriam mais do que o necessário, sentia um aperto no peito e o estômago ardendo. Travava os dentes e notava as narinas com abas mais abertas.”
Mas achou que não era nada. Com o tempo foi perdendo alguns movimentos. Ir e vir já não era tão fácil. Se sentia um tanto acuada. A voz começou a se tornar mais fraca. A garganta doía, a cabeça pesava e seu grito ficou mudo.
Perdeu coisas, como pessoas que chamava de amigos. Outras que chamava, parentes. Gente que não se importou com as dores que lhe causavam.
Confusa, não sabia se o que sentia vinha de fora ou de dentro. No primeiro momento, estava certa de que a contaminação havia lhe tomado inadvertidamente. Ela se sabia saudável e tinha todos os exames em dia.
Ingênua, não havia notado que o vírus do ódio é algo que vem programado em todos e que é sistêmico. Atinge fortemente, nesse momento, todo o país, quiçá o planeta, e faz parte de uma faceta humana.
Depois de algum tempo, ela se deu conta de que a doença que tomava como sua já era uma epidemia e os jornais falavam sobre vários casos de morte. Todos os dias as notícias traziam situações de ataques e contaminações.
A dor foi se ampliando e, aos poucos, se tornando insuportável.
Num domingo de sol, já torpe e surda, veio a decisão inadiável. Rompeu com os grilhões do medo de não fazer parte do sistema e saiu.
Determinada, decretou: Vou ser feliz!
P.S. 1: Pensou em si mesma. No entanto, a decisão agravou os sintomas de alguns. Episódios de inveja aguda foram relatados ao ouvirem-na cantar suas raízes: “Quem é que sobe a ladeira, do curuzu? […] Não me pegue não, não, não / Me deixe à vontade / Não me pegue não, não, não / Me deixe à vontade / Deixe eu curtir o Ilê / O charme da liberdade / Como é que é? / Deixe eu curtir o Ilê / O charme da liberdade.”
P.S. 2: Terminou dizendo: “Fui. Beijo, me liga”.
Évanes Pache é jornalista e especialista em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz

Crônica da seção Palavreiros, do blog, que traz colaborações de convidados com temas livres. O convite é extensivo a todos que gostam de “palavrear” a vida na forma escrita.
Bad news!
Évanes Pache é jornalista e especialista em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz
Pois um psicólogo norte-americano, Daniel Gilbert, desconstrói alguns dogmas e derruba barreiras seculares para elaborar um plano de felicidade que não requer habilidades especiais nem grandes posses materiais. Gilbert, além de tudo um exímio argumentador, não se baseia em suposições, mas em minuciosos estudos de comportamento que tornaram as conclusões de suas pesquisas um conjunto de observações com alicerces na Ciência e não em pirotecnias impalpáveis.
Gilbert não faz suposições nem análises subjetivas. Seus levantamentos são diretos, atingem os alvos sem muito trololó, como a pesquisa com cinco mil pessoas de todas as idades e classes sociais que respondiam coisas como “o que faria você feliz neste exato momento?”, após um telefonema de surpresa – no trabalho, de madrugada, durante as férias. Para o cientista, não se trata de desprezar o que já foi feito por grandes cérebros da história. Ele preza demais, por exemplo, as distintas correntes hedonistas, que basicamente defendem a “felicidade que é simples”, a realização do indivíduo com as coisas básicas a seu alcance e sem nenhum malabarismo financeiro. Mas pondera que os estudos acadêmicos do mundo moderno, individualista e tecnológico, foram revelando, nem sempre para o bem, as atitudes de pessoas de todas as idades, crenças e situações sociais.
“O quê? Não gosta de futebol, pois hoje tem Come-Fogo e você vai comigo ver o que é um time de verdade”, afirmou.
Consta que não há clima de Copa nas ruas do Brasil. É um dos poucos pontos em que coincidem tanto a minúscula mídia que presta quanto a gigantesca mídia que não presta. Me fio mais nas pessoas que circulam por São Paulo muito mais do que circulei por toda a vida e que são testemunhas de que há mesmo uma indiferença enorme de P. a P. e de J.A. a J.A., de Pirituba ao Pari, do Jardim América ao Jardim Ângela. No Rio, então, nem sinal de Neymar e companhia, muito populares no Twitter e no Instagram, mas sem praticamente empatia com a vida real. No Brasil inteiro, nada de vendas em massa de telas planas, nada de camisas amarelas bombando, quase nada de calçadas e paredes pintadas.
Nessa onda de apocalipse zumbi dos caminhoneiros (a quem eu apoiei até apoiarem a Ditadura Militar), ando preocupado com a batata da papinha da minha filha e com as batatas que a mãe dela precisa para se transformar em leite. Ponto. No mais, me viro. Se precisar ir a pé, tô de boa. Se precisar fazer dieta, tô precisando. Mas, claro, também aproveito para cuidar da vida dos outros…
Era preta e branca e depois ganhou esse laranjão vivo. Moderno.
Um amor de amoreira. E mangueiras, limoeiros e tantas árvores frutíferas naquele pomar enorme que circundava nosso mundo. Cavalos de vassoura “Aiô Silver”, o cinema paradiso, a praça da Igreja, os bancos marcados com nomes das famílias.
que gosta de números, palavras e pessoas
Hum, e agora?
encantadoramente modesta
Se houvesse um anjo da justiça. Se ele propusesse trazer justiça ao planeta Terra, ele desembainharia sua espada afiada de JUSTIÇA e atravessaria impiedosamente a alegria e a felicidade de toda a Terra. E a começar pelos banquetes extravagantes dos bilionários, passando de puteiro em puteiro, de desfile de moda a desfile de Carnaval, viraria todas as mesas de todos os botecos do mundo, atravessando goela abaixo com sua espada de justiça a felicidade excêntrica do ser humano até restar apenas luto sobre luto, lágrima sobre lágrima. Degolaria impiedosamente a felicidade de cada ser humano da Terra até que este pudesse compreender a gravidade da injustiça, da fome e da miséria do mundo e deixasse de apontar seus dedos alienados para cima se furtando convenientemente à verdade absoluta dos fatos e da realidade da injustiça impiedosa humana em toda a Terra. Traria fome e miséria para toda a Terra de maneira democrática e contundente até que o último poderoso; presidente ou banqueiro, astro ou ídolo, bonequinho e bonequinha fútil de vaidade chorassem de fome como uma criança miserável africana. Até que este monte de carne e osso desalmado que se auto-denomina humano descobrisse o valor da vida acima do ultraje fútil e escandaloso que é vestido de ego, orgulho, arrogância e diversão. Talvez, como no Êxodo, trouxesse consigo o anjo da morte para levar todos os primogênitos de todos os bilionários e multimilionários do mundo para que estes aprendessem na realidade o que é a dor de perder um filho de fome e sede. Certamente este anjo da justiça iria com grande fúria a acabar com toda a indústria fútil do entretenimento do mundo e de todo tipo de cultura inútil para ensinar ao ser humano o que é a vida além da festa, além do comercial, além do ócio e além da diversão. Assim apresentaria ao mundo o quanto trabalho duro é preciso para manter um planeta vivo e equilibrado e assim traria, enfim, JUSTIÇA a todos os animais. Até que o ser humano apavorado e assombrado reduzisse o valor que dá em sua pulsão e desejo, cobiça e vaidade a pó. E assim, quando o mundo inteiro estivesse de luto ao mesmo tempo, na mesma miséria, na mesma fome, na mesma sede insuportável, na mesma hora, no mesmo dia, haveria o retorno de alguma consciência do valor da vida, da razão da vida e da JUSTIÇA na Terra. E assim sacrificando impiedosamente a alegria, a felicidade e a euforia do ser humano, apresentaria a este desumano o que ele tanto clama: “JUSTIÇA”. E ao colocar enfim sua espada de JUSTIÇA de volta à bainha, ao colocar a balança da JUSTIÇA definitiva na Terra, não sobraria sequer um só inocente.
de Lucas Arantes, do Espaço