Categoria: Palavreiros

Seção com crônicas de convidados do blog

Sobre peixes e poesia *

** SHEILA GUIMARÃES

A poesia falava de amor companheiro, encantado com oportunidades improváveis de desfrutar dos prazeres divididos. Descrevia, poeticamente, a satisfação em limpar peixes pescados pelo marido, numa cozinha compartilhada a dois, com cotovelos se esbarrando e narrativas de pescador interpretadas pelo olhar poético de uma mulher.

Olhar encantado de quem escreve, refletido na admiração de quem lê. A leitura em voz alta teve intencional propósito de contagiar o amado de amor poético. Mas eis que a narrativa apaixonada esbarrou em ouvidos preenchidos de realidades experientes, daquele que um dia fora um tenro pescador conhecedor do ofício e sabedor de cada detalhe da arte de pescar. A cada verso reverberado em seus ouvidos, tentava disfarçar seu questionamento silencioso sobre “onde estava a beleza em escamar, abrir e eviscerar peixes”, descrita nas estrofes da poesia.

Sua alma de pequeno pescador, de tão transparente, desconsolada e descrente, causou na interlocutora uma imediata “descompreensão”: “como assim, não existe beleza na limpeza poética de um peixe?!”  O desconsolo desmanchou-se em sincera gargalhada, deixando sua amada tão paralisada, que tratou logo de iniciar suas justificadas explicações advindas da sua vasta vivência de menino, filho de pai pescador.

Contou que a sua frequente desventura infantil começava em um pequeno barco, onde perdia boa parte do seu sangue ao ser violentamente atacado por vampiros e assassinos pernilongos advindos das águas navegadas. Memória viva de infância, que vem à tona para narrar sua experiência de outrora, como se o tempo decorrido não existisse.


“como assim, não existe beleza na limpeza poética de um peixe?!”


Descreveu as contrariedades de uma pescaria noturna: da retirada da rede do rio, que quase sempre trazia cobras, ao cheiro insuportável dos peixes jogados num balde ou escapados para o assoalho furado da embarcação, que, por sua vez, desprotegia os seus pés das águas noturnas.

Por fim, chegou ao ponto crucial da sua história, diametralmente oposta à da poeta, deve-se dizer: a fatídica hora da limpeza dos peixes. Conta que saltavam ele, pai, irmão e peixes de dentro do barco, esses últimos no balde cheio d’água, e seguiam rancho adentro para iniciar um precário processo artesanal de limpeza. Em meio ao cheiro, vísceras e escamas, o menino só pensava em acabar logo com aquela insatisfação e pôr fim à pescaria.

Antes de concluir a história, solta uma sonora gargalhada. Recupera-se. Finaliza: peixe fede e o cheiro não sai da gente!

Seu olhar sincero transbordou-se em poesia aos ouvidos de sua amada e sua memória de pescador compartilhada “atravessou o silêncio de quando nos vimos pela primeira vez”.


* inspirada no poema “Casamento”,
da maravilhosa Adélia Prado



** Sheila Guimarães
é jornalista, designer gráfica, professora
e amiga querida

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Por onde começar?

* THAÍS REGINA ISMAIL

Nunca perder tempo. É a regra para mim, uma mãe solitária que vive com os dois filhos. Cuidar dos boletos, da casa, dos meninos, da cachorrinha, da roupa, da comida, das pernas que doem, das costas que queimam… também cuidar da mãe, do trabalho, do relógio que desperta três vezes todos os dias…

Férias! Preciso de férias urgentemente! São elas as sonhadas, esperadas de joelhos… Olhos vidrados contando os segundos… Aí chegam… Silenciosamente… Ufa!

Grito risonho dentro do carro com os filhos! Comemoramos o fim da falta de tempo pro cinema, pra visita, pro passeio, pra viagem, pra leitura, pra descanso puro e simples no cochilo do sofá (puxa… só lembro do sofá nas férias… e o resto do ano? ele é da cachorrinha… só isso? Só).

Tá. E agora? Por onde começar? O que seria mais gostoso fazer: ocupar o tempo todo com atividades ou largar-me no sofá sem relógio ou remorso? Quantas doses de Netflix?

A árvore de Natal… esqueci de desmanchar… Ah, tão linda! Tão rápido! Penso em minha mãe tentando fazer uma ceia para parentes tão queridos… meu pai prometia, mas nunca vinha. Ela chorava baixinho quando todos estavam sonhando felizes com os seus cavalos indomáveis … e anos passaram lívidos.

Aproveito e vou aos médicos. Vários. Limpo gavetas e guarda-roupas, desapego de fotos e pequenas recordações… Separo as roupas, escondo segredinhos antigos entre papeis e poeira cósmica. É bom, vez ou outra, sentir o passado… Pensar o presente… Deixar-se sonhar como adolescente…

Futuro? Ah, quero saber não. Só se for para planejar leituras de Mia Couto… poemas, por favor!

Aproveito e faço as comidinhas preferidas dos meninos. Visito a amiga de infância que amo mais que chocolate. A Pety é minha irmã com mais coração. É minha verdade sem senões. E temos vinho! Fica perfeito!

Este ano não tem viagem, mas algo está melhor. A simples ideia de estar onde eu sempre quis estar: dentro de mim mesma… a liberdade de escrever e ler quando eu bem entender. Isso, para mim, é o valor de férias reais.

A grandiosidade das coisas já me fascina naturalmente. Mas saber quem sou, sentir quem são as pessoas que amo e que estão aqui… Na vida, o amor corre ao meu redor. Por eles, peço a Deus saúde para mais dias assim.

Ah… Manoel de Barros tem um livro intitulado “Meu quintal é maior do que o mundo”… E eu digo que meu mundo já foi um quintal. Depois… acreditei que já fora um coração. Hoje meu mundo são vozes inesquecíveis, presentes e ausentes.

É libertador apenas escolher uma música… ou um poema… e aceitar-me assim e pronto.

Férias sempre funcionam. São borboletas em sorrisos, são suspiros em travesseiros fofinhos… café fumegando na virada da página poética. É soluço interrompendo a lágrima ardida na passagem do tempo… Férias… Vale tanto a pena esperar por elas!

Mas uma pergunta me surpreende: só durante as férias sei ser eu mesma?

Você já viu plaquinhas que colocam nas portas: “não perturbe”, “fechado”, “ aberto”? Pois bem, a plaquinha que escolhi, agora, durante as férias, para a porta do meu coração diz: “Sem planos”. É tão doce…

 

* Thais Regina Ismail  é professora, sonhadora profissional, amiga para todas
as horas e lírica por natureza


 

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Crônica do dia de Ano Novo

* CÁSSIO BIDA

Em uma passeada pelas redes, li de de uma amiga uma história que me tocou bastante. Sobre uma estrela solitária que brilhava enquanto ela caminhava à noite e as sensações dela naquele momento. Nesta virada de ano aconteceu algo parecido comigo.

Saí de casa rumo a uma balada. A ideia era festejar, celebrar a virada de mais um ano e curtir a noite o máximo possível. Como se tornou hábito nos últimos cinco anos, a celebração da passagem de ano é um evento meu comigo mesmo. Guardo várias histórias dessas viradas. Mas esta, talvez, seja a a mais interessante.

Peguei a condução. Estava lá somente o motorista, eu e mais um passageiro. Como de costume, sentei mais ao fundo e esperei o ponto certo para descer. Agradeci ao motorista e desejei a ele e ao outro passageiro Boas Entradas, Feliz Ano Novo.

Havia ainda algumas nuvens no céu. A lua, teimosa, brilhava por entre as nuvens que, horas antes, haviam despejado uma chuva inclemente.

Para uns, a tristeza de um ano espetacular que se despedia. Para tantos outros, aquela que veio lavar a alma e levar tudo o que ainda restava de ruim no ano que se encerraria em, no máximo, uma hora.

Após alguns minutos de fila, consegui entrar no lugar. Uma casa pequena onde estava tocando sucessos do rock e pop nacional.

Peguei uma água. Sim, uma água. Afinal, não estava querendo encher a cara. Principalmente de estômago vazio.

E sóbrio, além de me divertir mais, conseguia observar o ambiente com mais propriedade.

Muita gente de branco. Alguns de amarelo. Outros com cores bem diferentes do usual. Todos com algum copo de bebida para brindar. Tantas presenças e, ao mesmo tempo, todos, de certo modo, ausentes.

Ninguém se animava.

Tentei puxar palmas, dançar, me agitar. Até mesmo o único abraço que troquei com alguém naquele bar pareceu frio. Embora a moça precisasse mesmo de um abraço.

Ela chamava a atenção pelo visual. Estava em um vestido tubinho branco. Curto, extremamente apertado. Não sei se ela estava à vontade no traje. Mas quando cheguei oferecendo um abraço o desconforto dela com o meu gesto, esse sim, foi nítido.

A moça foi bastante rude de início. Até grossa. Tinha acabado de chorar. Sem nenhuma maldade perguntei o que houve, se estava tudo bem. Ela disse que sentia saudades de alguém, por isso a tristeza.

Senti que não poderia me demorar muito. Logo, abri os braços. Precisava dividir com alguém a chegada de um novo ano. Com certa relutância, a moça aceitou e agradeceu a minha gentileza por perguntar o que havia acontecido. Depois disso, saí, voltei ao meu canto, dancei mais um pouco e, com cerca de 15 minutos de ano, fui embora.

Senti que minha missão ali estava cumprida.

Enquanto olhava o Uber para chamar um carro e voltar para casa, eis que, no alto da Iguaçu, surge o ônibus. Como era a última viagem dele, corri feito um maluco para chegar ao ponto. Me senti o legítimo Forrest Gump enquanto tentava, com alguma dificuldade, alcançar o ponto de embarque. O motorista, o mesmo da ida, me reconheceu e buzinou para que eu parasse a corrida. Ao entrar, logicamente, agradeci a gentileza e seguimos viagem.

Fomos papeando. Diferente da frieza curitibana no bar, o matogrossense que dirigia o Vila Rosinha era bom de prosa.

Essa troca sim foi autêntica, gostosa, sincera. Naqueles poucos minutos até em casa houve presença na conversa.

Quando desci do ônibus vi uma estrela solitária. Brilhando firme no alto apesar dos fogos que ainda estouravam de forma mais tímida. Ela estava ali para lembrar que não estamos sozinhos. E que, mesmo sozinhos, não precisamos ser solidão.

Naquela noite pude ceder um pouco de brilho a alguém.

Que em 2018 não nos deixemos intimidar por qualquer escuridão. Trovoadas e nuvens carregadas vão surgir, sim. É da vida. Faz parte! O segredo é a lição que tiramos de cada tempestade. Assim, vamos nos fortalecendo.

Um 2018 iluminado para todos nós!

 

(*) Cássio Bida
Jornalista curitibano e funcionário público, gosta de criar escrever histórias nas horas vagas.

É autor do PodCast Cartas Faladas  que desenvolveu para espalhar amor em meio à dureza do mundo.


 

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Lar é onde mora o coração!

* MARCELLA MOREIRA

Minha namorada e eu estávamos à mesa tomando um café da manhã preguiçoso de domingo – aquele a cada 15 dias em minha folga do trabalho e a doídos 200 km de distância – quando comecei a chorar…

Nossa gatinha esparramada no tapete vermelho da sala fazia a manha corriqueira, enquanto o sol entrava pela persiana, riscando parte do sofá.

Nada de especial, a não ser o cheirinho do café moído na hora, o fumegar do líquido preto subindo da cafeteira italiana e o riso suave de quem sabe estar vivendo um momento de milagre.

Não temos luxo quase nenhum, mas muitíssimo mais que a falta de possibilidades da maioria que vive em nosso País. A maior riqueza é, dentro daquelas quatro paredes, não sentir medo, seja pela falta, pela incompreensão, pelo desrespeito, pela injustiça, pelo desamor e de tudo mais.

“O mundo está desabando lá fora. Chega a faltar vontade de continuar. Mas daí chego em casa e é tão bom saber que ela é um paraíso”, falei, na certeza de que minha companheira poderia receber minhas palavras como uma grande declaração de amor.

Casa é a mesa redonda de vidro que ela herdou da avó, que lutou bravamente contra o câncer por quase uma década. É aquela minha mesinha de pés palito recoberta de marchetaria, que (infelizmente!) carrega marcas das nossas taças de vinho. Também é o banheirinho da nossa filha peluda, necessário, indispensável e que tentamos fazer com quem componha o ambiente da maneira menos traumática possível.

Enquanto para algumas pessoas é bacana a assinatura do designer e até o preço investido num móvel, pra nós, porém, vale mais a história e o afeto que as coisas carregam.

Pra gente, casa tem que ser lar, aquele lugar onde mora o coração.

 

(*) Marcella Moreira é jornalista freelancer, mineirinha, “mãe de gata” e palavreira sensível


 

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Quando o amor desbota

* RAUL OTUZI

Somados aos treze copos americanos de pilsen
vertidos com ânsia e sede,
os duzentos e doze mililitros de cerveja estilo american IPA
(fabricada artesanalmente por um colega de trabalho)
foram suficientes para deflagrarem uma súbita coragem
que estava recôndita nele desde os tempos
em que acertara um pontapé em Miltinho,
o centroavante dos campinhos de futebol
em que jogava quando era criança.

Então primeiro a esmo, do nada
e depois com a metralhadora bem empunhada,
ele mirou caprichosamente para onde ela estava
e disparou palavrões que desconhecia que sabia.

Ficou sem fôlego,
mas esforçou-se para terminar com um raivoso,
“você não presta, entendeu?, some da minha vida, puta”.

Era mais de uma e meia da madrugada
e ela estava dormindo de bruços.
Ele ficou ainda mais ensandecido por não ter percebido
e pela infertilidade de tantos impropérios dirigidos.

No dia seguinte, acordou cedo e foi trabalhar.
Antes, porém deu um beijinho na testa dela,
que continuava sonhando,
talvez com um mundo onde não houvesse rompimentos
e tensões etílicas gratuitas.

Porra! Que preguiçosa ruminante; pensou,
com irrefreável ironia, mas suave ternura,
quase arrependido.

Quando ele voltou para a casa,
pós expediente, exausto pelos sapos engolidos
e vislumbrando álcool e sexo reconciliatório,
encontrou somente um bilhete escrito
com letras miúdas e extremamente pontiagudas:
“sim, meu sono é pesado,
mas minha vida, agora sem você,
nunca foi tão leve”.

 

(*) Raul Otuzi é  professor, publicitário e palavreiro ousado


 

 

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Joana, que é como Patrícia, que fez como Ana

* DANIELA ANTUNES

Patrícia conheceu Josivaldo aos 13 anos. Aos 14, pegou barriga. Josivaldo era mais velho, sabia o que era criar um filho, coisa de boneca para a menina – poderia ter brincado mais de mamãe e filhinha antes de pular para o papai e mamãe.

Ela ficou sozinha. Para a família, sabia muito bem o que estava fazendo. Deixou a escola e passou a cuidar a seu modo da criança, a quem deu o nome de Joana.

Agora, é Joana quem tem 14 anos. Já não mora com a mãe e os três irmãos que nasceram depois dela. Aliás, nenhum deles mora com Patrícia, que vai parir pela quinta vez sem nunca ter dado conta nem da primeira cria. Esta, a Joana, saiu de casa faz tempo. Vive com o marido de 49 anos.

Patrícia mora de favor, na casa de uma amiga de sua mãe, a Valdete.

Valdete vive com sua companheira (e Patrícia, grávida, como hóspede). Bate no peito e diz orgulhosa que tem a guarda definitiva de uma das crianças que Patrícia colocou no mundo em 15 anos de gestações bem-sucedidas e não-planejadas.

O menino, “tudo para mim”, ela garante, mora com a mãe de Valdete, em uma pequena cidade da região. O moleque, garante, é a “vida” dela, uma paixão mesmo. Valdete mira agora no novo bebê de Patrícia. Está providenciando a papelada da guarda. Ela e a companheira querem a criança a todo custo. Está feliz, emprenhada em construir família.

E então, discursa:

“Eu acho que para colocar criança no mundo a pessoa tem que ter estrutura. Eu, por exemplo, tenho meu carro, meu serviço, minha casa, que é alugada, mas eu pago, então é minha. Eu vou ver laqueadura para ela [a Patrícia] porque não pode ficar botando filho assim no mundo não”.

A plateia encostada no balcão, assente com a cabeça, esperando o próximo ato.

“E você e sua companheira concordam nessa questão da adoção, de constituir família?” – pergunta alguém da assistência.

Valdete mata no peito: “Agora vou ver esse negócio da criança [a guarda]. Eu e a minha companheira queremos muito. Primeiro vou organizar isso. Meu sonho é ser mãe, eu sempre quis. Então tenho o moleque, vou pegar esse outro e já estou fazendo um orçamento para ver quanto custa a inseminação, porque eu quero ter um meu”.

A plateia assentiu. Atônita, mas encerrou a prosa.

PS1: Joana também está grávida do primeiro filho. A plateia protestou, falou que era estupro presumido. Valdete franziu a testa, afrouxou o lábio, baixou o queixo e botou a mão na cintura: “ah, é nada, ela sabe o que ela quer, ela que quis, não tem nada de estupro ali não”.

PS 2: A mãe de Patrícia também teve o primeiro filho aos 15 anos.

PS 3: Os nomes são fictícios, os fatos são reais. Reais até demais.

 

(*) Daniela Antunes é jornalista, exímia assessora de imprensa e uma das pessoas
mais espirituosas que conheço


 

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As Sensações de Inhotim

MARIANGELA GUMERATO *

Depois de me surpreender com a estrutura de primeiro mundo do Instituto Inhotim, veio um banho de água fria com a notícia do desvio do dinheiro doado para o empreendimento que se transformou no maior museu de arte contemporânea a céu aberto do mundo. Segundo o Ministério Público, um fundo estrangeiro fez uma doação milionária, de 95 milhões de dólares, que teriam sido usados em outras empresas do setor de metalurgia que pertenciam ao fundador de Inhotim.

O público que visita esse patrimônio cultural no município de Brumadinho, perto de Belo Horizonte, fica encantado com a arte no meio de imensos jardins cercados de lagos e plantas de inúmeras espécies.

Quem conhece museus fora do país sabe que Inhotim é de nível incomparável até com os maiores museus de arte contemporânea. O fato de ter dezenas de galerias espalhadas entre 110 hectares de uma antiga fazenda faz de Inhotim um lugar único e que orgulha seus frequentadores.

Grandes nomes da arte contemporânea nacional e internacional ganharam espaço para mostrar suas elocubrações, e quem está aberto às reflexões entra na viagem da proposta artística.

Um curador de museus da Itália conheceu Inhotim, recentemente, e teria achado o espaço o resultado de muita ostentação. Como um lugar tão maravilhoso, bem cuidado, no meio da natureza exuberante, sobrevive num país tão miserável como o Brasil?

Vermelho ou verde para Bernardo Paz, o criador de Inhotim?

Como em uma das instalações do parque, o vermelho é a cor preferida do artista que fez a casa da cor do sangue. E hoje, nela, jorram lágrimas no cômodo obscuro.

A beleza que comove contrasta com o pisar literalmente em cacos de vidro, a obra do artista da grande bola de plástico num campo de concentração.

Melhor se jogar na rede colorida ouvindo Jimi Hendrix e se alienar em uma das salas do prédio de Hélio Oiticica, que procurou reproduzir o efeito da cocaína na mente.

O visitante entra em um conto de fadas, passa por um jardim de ervas em forma de mandala, pelo vandário de orquídeas e, no meio da floresta, encontra um banquete de velas acesas na grande mesa.

Dentro do prédio moderno com espelho de água se depara com a parede de azulejo quebrado com as vísceras expostas como se tivessem sido cortadas na própria pele.

Outro paradoxo é o trator de rodas gigantes enlameadas dentro de um domo geodésico, carregando uma árvore branca. Seria um pedido de paz pelo desmatamento?

No alto do morro um artista ousou fincar estacas de ferro numa poço de concreto, que dá um clima de Blader Runner.

O som da terra se transformou numa inusitada instalação no ponto mais alto, a 1300 m de altitude – uma sensação extrasensorial que lembra o Om, o primeiro som do universo. Silêncio total na redoma de vidro para deixar o clamor ecoar.

O carrinho elétrico percorre as alamedas de um ponto ao outro, mas é preciso caminhar, descobrir as outras surpresas que mexem com todos os sentidos.

São mais de 500 obras. Não dá para descrever cada uma delas e o que elas provocam no expectador.

Apesar da denúncia de desvio de verbas, tão corriqueiro no Brasil, parece que Inhotim vai continuar aberto. Quem ainda não viu esse paraíso, não deixe de ir. Inhotim devia estar no livro “Mil lugares para conhecer antes de morrer”.

 

(*) Mariangela Gumerato é jornalista, entusiasta cultural, amiga
querida e palavreira destemida


 

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Vício inerente

REGIS MARTINS

Chet Baker was a gifted trumpeter and jazz icon.

Estava eu pensando sobre o que escrever para os leitores do Palavreira, quando dia desses assisti a um filme baseado na vida do trumpetista Chet Baker (1929-1988), com o Ethan Hawke no papel principal. O título é muito bom – “Born to Be Blue” – nome de uma das canções mais famosas do jazzista, mas o longa em si não tem nada de excepcional. Apenas correto.

O fato é que Chet era um talento raro e, galã, foi considerado o James Dean do jazz. Tinha o mundo aos seus pés, porém, era um junkie inveterado e deixou um rastro de destruição por causa do vício.

Todo mundo tenta ajudar o cara, mas é um caso perdido. Na verdade, o que me chama a atenção nisso tudo, e até me assusta, é o tipo de autoconsciência de certos viciados.

São pessoas carismáticas e inteligentes que, conhecendo bem sua natureza, sabem que não vão sobreviver sem a droga. E vão se autodestruindo lentamente, numa grande valsa do adeus.

No começo do filme, sua namorada quer saber o motivo de um cara como ele se tornar um viciado. “Problema com os pais?”, ela pergunta.

“Não, nada disso”, responde Chet/Hawke e emenda: “É porque eu gosto de ficar doidão”.

Bom, essa é basicamente a resposta para um grande enigma do universo. As pessoas se drogam/fumam/bebem/comem/apostam em excessos porque gostam. A compulsão é uma velha amiga nossa.

A questão é: qual o limite?

Nos filmes “Ninfomaníaca 1 e 2” do dinamarquês Lars Von Trier, o diretor usa o sexo para tratar desse tema espinhoso que é o vício. Em dado momento, a personagem principal, Joe, vai participar de uma terapia em grupo e, de repente, se dá conta de que aquilo tudo não vai ajudá-la em nada. Simplesmente porque o vício faz parte de sua natureza. A busca pela cura era como uma negação de si própria. No final das contas, Joe aceita sua situação, a “fratura” que compõe sua alma, consciente de suas consequências.

Chet tinha consciência também, e pagou caro por isso. Devastado pelas drogas, morreu sozinho em Amsterdã, aos 58 anos, depois de “despencar” da janela de seu apartamento.

Reconhecer nossos demônios é um grande passo. Sobreviver a eles são outros quinhentos. E segue o barco!

 

(*) Regis Martins
Jornalista, músico, pai da Marina, avô da Helena e ‘palavreiro’
cultural de mão cheia


 

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Velho telefone mudo

LUÍS FERNANDO LARANJEIRA *

Há muito aquela casa já não era mais minha, apesar da herança. Foi lá que nasci, cresci e dela saí com o firme propósito de nunca mais voltar. Durante muitos anos fui “visita” naquele imóvel construído com tanto sacrifício por meu pai, resultado de todas as suas economias, primeiro pra comprar o terreno, depois pra levantar quarto e sala e ir aumentando conforme minha irmã e eu crescíamos.

Um quarto pra ela que, mais velha, não gostou nada de dividi-lo comigo quando eu, ainda pequeno, não tinha mais espaço no berço que herdei dela própria. Um quarto pra mim quando comecei a crescer e já não dava mais pra dividir com uma menina. Tempos depois, minha mãe quis aumentar a cozinha e desfrutar de uma copa. Ruim pra mim que perdi uma parte do quintal onde, tantas vezes, sozinho, minha imaginação criou um campo de futebol, pista de atletismo, florestas, desertos, onde montava o forte apache – os índios sempre ganhavam as batalhas. Ali, vivi inúmeras aventuras na minha então cabeça tão criativa.

Hoje, um cinquentão, meio jornalista, meio professor e desejando ser artista, sinto falta de tamanha imaginação e capacidade de criar ambientes que, na minha cabeça sonhadora de moleque pobre do interior, criava num pequeno espaço cimentado cercado pelos muros das casas do seu Otacílio e do seu Jurandir e a parede da casa do seu Waldemar. Ali era meu mundo. Um mundo povoado também pelo Céca ou Séca, um vira-latas que eu levava pra passear todas as tardes e foi um inseparável companheiro na infância; e, posteriormente, pelos gatos Simone, Nego, Zacarias, Menina, Bola.

Fora de meu território, havia as brincadeiras na rua com os moleques da vizinhança. Bicicleta, gol a caixão, bolinha de gude, bafo, bets, soldado e ladrão, pipa, carrinho de rolimã, mana mula, jogo de botão, horas e horas de conversas jogadas fora sob a sombra da árvore em frente à casa de seu Otacílio. Isso sem contar que todos os terrenos próximos eram impecavelmente roçados e limpos para nossos jogos de futebol.

Mais tarde, passei a ocupar também um canto da sala, junto à sonata. Ali, eu fazia a programação musical e noticiosa de minha emissora de rádio imaginária. Meu pai gostava de ler o Diário da Noite ou a Folha da Tarde e era desses jornais que eu tirava a pauta do meu programa jornalístico, sempre mesclado com muita música e até uns efeitos sonoros. Eu era pauteiro, contrarregra, âncora, repórter, redator e editor ao mesmo tempo. E fazia também rádio escuta com o ouvido colado no radinho de pilha que meu pai utilizava pra ouvir os jogos da Ferroviária e do Corinthians.

A chegada, finalmente, do telefone coincidiu com minha entrada na adolescência. As prioridades e interesses foram mudando. Novas amizades, as primeiras paixões, novas fantasias. Horas trancado no banheiro. E o telefone passou a ser item obrigatório, de primeira necessidade. A expectativa pelo toque, esperando pra um papo-cabeça com algum amigo ou as palavras doces da namoradinha de então.

Está lá até hoje o telefone, no mesmo lugar. O mesmo aparelho, feio, pesado, daqueles de discar, de cor gelo desgastada pelo tempo. Quantas recordações. Quantas conversas. Quantas articulações e mobilização pela revolução, quantas declarações de amor. Até brigas.

Agora, tantos anos depois, no retorno àquela casa que tão pouco mudou, carregando uns cabides, caixas de sapato e de livros e CDs, me pego observando o que restou do quintal, as velhas portas, o corredor que já me pareceu imenso, o antigo quarto; e sofro por não conseguir me lembrar de tantos outros momentos, tantas outras coisas e acontecimentos que foram marcantes, alegres. Alguns tristes também. Quantos sonhos, planos, decepções. Aos poucos, volto a me sentir bem nesta casa.

Me pego caminhando a esmo pelos aposentos tão conhecidos. Paro, observo as maçanetas já um tanto enferrujadas, as velhas torneiras, antigos móveis, os cantos onde me aninhava ou gostava de ficar sonhando ou escrevendo minhas primeiras mal traçadas linhas ou ouvindo velhos discos. A cozinha me traz de volta minha mãe preparando a comida e me dando dicas de como fazer esse ou aquele prato; alguns, até me arrisco a fazer hoje e chego a receber elogios pelo sabor, tempero ou textura.

Vejo-me envolto em recordações e fazendo novos planos. Às vezes, baixa em mim o garoto sonhador que, como Cazuza, queria mudar o mundo ou viajar sem rumo, apenas pra conhecer novos lugares e pessoas, ouvir histórias e contar as minhas. São boas tais recordações, me trazem sentimentos e emoções há muitos esquecidos, que pensava até já ter perdido. Em determinados momentos, a sensação é de estar flutuando nessa velha casa, flanando descompromissado. Mas também sonho e tento projetar o que pode vir a ser o futuro.

Só o que me entristece é que aquele velho telefone que já foi tão importante, tão cheio de significados, não toca mais. Está mudo.

 

(*) Luís Fernando Laranjeira
Jornalista, professor, piadista, anfitrião caloroso, pai do Vitor e do Thiago e
“companheiro de trincheiras”


 

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Fora da Caixa (*para a Rosana)

CARMEN CAGNO **

Íamos os três apertados no banco da frente do Gordine. Eu no meio, meu amor dirigindo e o amigo poeta do outro lado. Abraçados, cantávamos alguma coisa do João Gilberto. E mais uma vez transgredíamos. Minha família proibira aquele namoro fora da caixa. Afinal, ele era músico e nem de longe se assemelhava a um dos inúmeros “bons moços” indicados para uma adolescente burguesinha.

Eu devia ter 16, 17 anos e desde que me lembrava sempre estivera fora da caixa.

O que não dava pra explicar aos que estavam do lado de dentro era a felicidade, a liberdade daqueles dias. Amávamos intensamente, descobríamos o desejo a cada minuto, nos perdíamos em poesia, encontros musicais e corríamos num raro fio de sensibilidade e encantamento.

Eu escrevia versos nos guardanapos de papel em cada um dos barzinhos que frequentávamos religiosamente, inaugurando a sagrada devoção à boemia. Noites inteiras de papo, música, trocas, laços cada vez mais apertados.

Esses eram nossos rituais sagrados. Desistira da religião havia alguns anos, desde que minha avozinha querida e profundamente crente não conseguira me explicar por que eu devia me enfiar num confessionário semanalmente para falar de pecados que não tinha. Por que não podia me entender diretamente com aquele Deus tão onipresente.

Compor músicas, entregar-me sem culpa ao desejo que pulsava, cultivar com carinho cada pequeno pedaço de afeto. Tínhamos uma alma limpinha e ainda não havíamos experimentado as dores de sermos tão humanos.

Isso foi antes da política, da ida pra cidade grande, do fecundo percurso profissional, da independência, da formação intelectual, da repressão política, das passeatas aos gritos de liberdade, dos amigos mortos e torturados, do mergulho em outros amores, da vida que continuaria pulsando e me entregando presentes cada vez mais valiosos – para o bem e para o mal.

O caminho tortuoso, cheio de surpresas e descobertas, foi uma escolha natural, orgânica, sem a segurança previsível dos que seguiam pela estrada principal – aquela asfaltada, reta, certeira, povoada  de setas e avisos, com destino conhecido. Mergulhar para dentro da vida sem paraquedas era criar asas cada vez mais poderosas; era o frio na barriga e, às vezes, um tombo cheio de arranhões e cicatrizes. Mas nada nesse mundo valia a emoção  do voo. Nada descrevia a sensação de planar e descobrir paisagens.

Hoje eu olho pra trás e abençoo essa narrativa que tem contado minha vida. Na maioria dos capítulos continuo a construir uma história meio na contramão. E agradeço diariamente por esse privilégio quando olho pra minha filha e me orgulho do que vejo; quando abraço meus amigos que percorreram esses caminhos; quando me entrego a um amor com a inocência e a inteireza que sentia no banco da frente do Gordine, há mil anos atrás.

 

Carmen Cagno
Jornalista, escritora, professora brilhante, palavreira incomparável
e amiga querida da vida toda


 

Toda semana, às quartas, o blog traz a crônica de um(a) ‘palavreiro(a)’ convidado(a). O convite é extensivo a todos que gostam de palavrear a vida em forma de crônicas.

VEM PALAVREAR COM A GENTE!’

 

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