Categoria: PUBLICAÇÕES NA IMPRENSA

Textos da autora publicados anteriormente em veículos de comunicação de grande circulação.

Esperança

Hoje, ante o caos social, moral e político instalado no Brasil, tento encontrar algum consolo na esperança de que, no futuro, a história passará a limpo este período; de que escritores e cineastas o retratarão como realmente está acontecendo, como outros livros e filmes já retrataram, antes, os horrores do nazismo e das ditaduras mais sangrentas.

Quando – E SE – isso acontecer, espero que quem aplaude o atual estado de coisas tenha coragem de dizer a seus netos e bisnetos de que lado estavam. Não porque acredite que as novas gerações aprendam com os erros das anteriores – fosse assim, não estaríamos assistindo tanta gente aplaudir o ódio, a xenofobia e a destruição ambiental após inúmeras obras históricas documentarem seus malefícios -, mas porque acredito em redenção. E a desejo para todos que hoje compactuam com o que causa sofrimento a outros.

Espero que os redimidos tenham coragem de explicar a seus entes queridos que padecerem de câncer porque foi errado apoiarem dirigentes que liberavam agrotóxicos em favor de ganhos econômicos para uma minoria; que os desastres ambientais que arrasarem as conquistas de uma vida inteira deve-se à indiferença de sua geração com a questão ambiental; e que contribuíram para o aumento da violência apoiando medidas que intensificam a desigualdade social, fabricante de excluídos – muitos dos quais escolhem tornar-se criminosos por não se importarem em fazer mal a uma sociedade que os ignora e tanto faz morrerem de tiro, fome ou doença que o Poder Público não trata direito, ou irem para uma prisão que não é muito diferente da vida que têm em suas comunidades pobres.

Como meu sábio marido diz, “a evolução é pessoal”. Precisa ser, pois se fosse resultado de processo coletivo, não seria fruto de reflexão e vontade próprias e, assim, não seria consciente – consequentemente nem legítima ou duradoura.

Lanço então minha esperança ao universo, junto com o meu desejo de que algum ensinamento nasça desse caos em que vivemos hoje.

Boa esperança para todos, hoje e sempre (e que ninguém solte a mão de ninguém)!

Amém.

 

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Escuridéo

“Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz”
‘A Via Láctea’, Renato Russo

 

Na rua pobre onde cresci, as crianças não tinham muitos brinquedos, mas os adultos não precisavam se preocupar em prover nosso lazer. Éramos livres para brincar na rua ou em casas de vizinhos. Quando cansávamos das brincadeiras tradicionais, inventávamos novas contando só com nossa imaginação.

Se não me engano, foi a Elaine Reche, vizinha de infância, quem inventou uma a que demos o nome de “Escuridéo” – espécie de “Cabra Cega” adaptada para dentro de casa. Consistia em entrarmos todas (eu, Silvana Thomas e Jenifer Rodrigues) em um quarto escuríssimo pra nos esconder da escolhida para procurar pelas outras no escuro, de olhos vendados. Quem era procurado ficava livre para ir se esquivando da “cegueta”.

Para não sermos pegas, era importante fazer silêncio, pois todos os outros sentidos da vendada se aguçavam com a ausência de visão – audição principalmente.

Marcou-me a dificuldade que tínhamos para vedar a entrada de qualquer luz em um cômodo na preparação para a brincadeira. Não adiantava apenas fecharmos portas e janelas. Era preciso vedar frestas, cobrir luzinhas de rádios-relógios, espelhos…

Ainda assim, logo nossos olhos se adaptavam ao escuro, com a dilatação das pupilas ativada pela ausência de luz, e passávamos a divisar vultos de móveis e companheiras cada vez com mais detalhes.

Chegamos à conclusão de que a escuridão total é praticamente impossível durante o dia.

Os raios de Sol atravessam milhões de quilômetros para nos iluminar e possibilitar a vida na Terra. Mesmo quando estamos abrigados dentro de casa, não conseguimos impedir que sua luz se insinue por qualquer frestinha. Quem só consegue dormir no escuro total sabe como é difícil driblá-la quando amanhece.

No espaço, as luzes de astros e estrelas viajam milhões de anos-luz, fazendo-se ver em nosso céu noturno mesmo estando a muitas vidas humanas de distância.

A luz sempre vence o breu.

Um anjo deve ter me soprado hoje esta lembrança de “Escuridéo” enquanto eu refletia, desesperançosa e amedrontada, sobre nosso momento atual, não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Pessoas se agarram à raiva, ao ressentimento, ao ódio, fechando os olhos à luz dos ensinamentos deixados por Jesus, Buda, Maomé (sim!), Ghandi…

Fecham os olhos também à luz do conhecimento registrado pelos que viveram momentos políticos semelhantes antes de nós. Saber é luz por desvendar o desconhecido, que tememos por impulso e odiamos por extensão, pois nos faz sentir vulneráveis.

Pergunto-me o que Jesus diria se descesse à Terra no presente, vendo usarem o nome de nosso Pai por quem defende a segregação de minorias (ele, que defendeu Maria Madalena); o revide à violência com armamento de civis (ele, que deixou-se acusar para não insuflar a guerra) e a tortura (e foi tão torturado)?

Pelo andar dos ódios, percebo que a escuridão nos engolfará por um tempo, seja qual for o resultado das eleições brasileiras, pois há muitos recusando-se a olhar para a luz de ambos os lados.

Mas o  anjo me conforta com a memória de nossa brincadeira, com certeza para lembrar-me que, por mais que vendemos nossos olhos, tapemos frestas e fechemos portas, a luz sempre vence a escuridão no devido tempo.

Que assim seja então.

Deus e nossos anjos seguirão nos iluminando na longa noite que se aproxima. Que saibamos deixar suas luzes entrarem (é uma decisão interna).

#ódionão

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Infância de verdade

Por muito tempo a memória mais forte de acontecimentos ruins da infância me impediram de perceber como foi livre, e em muitos aspectos saudável, meu crescimento numa avenida de terra à margem do ribeirão Preto.

Ainda se chamava Jerônimo Gonçalves quando nasci, mas mudou para Álvaro de Lima na década de 1970 – nunca soube por que, já que seu traçado sempre foi uma continuação da Jerônimo, mas desconfio que para descolar sua imagem pobre e ainda muito rural da outra, desde sempre um cartão postal da cidade.

Nossas casas humildes ficavam na pista sentido bairro, que àquela época tinha mão dupla, pois a do outro lado era quase totalmente tomada pelo mato – sem acesso possível por carro, só pedestres usavam sua pequena trilha pisada. Por ali víamos cabras pastando, cavalos amarrados a árvores, galinhas e pintinhos vagando soltos.

Pelos quatro longos quarteirões de terra, havia casas em que os moradores cultivavam hortas, onde íamos buscar verduras frescas por míseros centavos de cruzeiros. Os quintais espaçosos sempre tinham caldeirões sobre fogões de lenha improvisados para ferver roupas, que depois eram “quaradas” ao sol, sobre plásticos dispostos no chão.

As portas das casas ficavam abertas o dia todo. Vizinhos visitavam-se a qualquer hora, entrando sem bater (campainha? … um luxo desnecessário). As crianças entravam e saíam quando bem entendiam, bastando um grito para a mãe avisando – às vezes nem isso…

A rua ficava praticamente livre para as brincadeiras das crianças, que sempre implicavam intensa atividade física – corda, corrida, pega-pega, pique-esconde, bobinho, guerra… Contávamos nos dedos de uma mão as vezes, no dia, em que tínhamos de recolher as latas de óleo “Liza” da marcação do jogo de Bets para dar passagem a algum carro.

Nem sempre fui feliz naquela rua pobre. Mas fui criança de verdade! E isso não é pouco.

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Maior que o mundo

Du, Clara e eu em Granada: felicidade pura

Meu mundo cresceu!

Depois de ter encolhido ao tamanho de cinco centímetros de um salto fino de mulher, como explicado em crônica anterior, ele se ampliou para além de um oceano.

Foi graças a Du e Clara, aqueles mesmos, que desmontaram a vida no Brasil para viver na Espanha, lembram? Mais que inspiração para enfrentar os medos que me encolhiam, eles foram suporte carinhoso na realização de um sonho que eu sequer imaginava ao meu alcance: conhecer o Velho Mundo.

Até o início de minhas férias, em abril deste ano, eu e a amiga Marcinha – outra querida, citada por ter me feito o convite para o Chile – tínhamos feito planos para uma viagem por cidades de Minas Gerais. Mas sua tia adoeceu e ela reconsiderou.

Após uma consulta “hipotética” ao Du, pelo WhatsApp, fui convencida (ele é muito bom nisso) a me lançar na aventura além-mar. Daí que, entre decidir que ia, comprar passagens – em um processo dificílimo que consumiu um dia inteiro do querido Du na internet – e preparar bagagem, foram menos de TRÊS (!!!) dias.

Puerta del Sol, em Madri

Embarquei na madrugada de um domingo rumo a São Paulo e, depois, Madri, onde Du e Clara já me aguardavam com outro de seus impagáveis carinhos: um apartamento alugado via Air Bnb para nos hospedar por três dias na capital espanhola.

Lá eles me guiaram por um tour maravilhoso, que incluiu belezas arquitetônicas e delícias gastronômicas. No restante dos dez dias de minha viagem, só fizeram ser meus guias por Granada, a linda e adorável cidade da Andaluzia – Sul da Espanha – que escolheram para viver.

E eu, que mal andava meio quarteirão, encarei 10 km por dia de passeios – gastei tempo e alguns euros em curativos e escalda-pés para acalmar inchaços e bolhas, mas valeu a pena!

Descobri que os andaluzos são os brasileiros da Espanha; que Paella valenciana se come junto, em torno de um mesmo tacho; que vinhos maravilhosos podem ser comprados por 4 euros em um mercado de esquina e que a Andaluzia tem azeites tão deliciosos que eu tomaria de caneca se não temesse as calorias.

Márcio, meu marido, que não pôde me acompanhar na viagem, ainda encomendou-me o contato com um parente espanhol que só conhecia por Facebook. Pepe Pelegrina, que nem me conhecia até então, provou sua hospitalidade andaluz levando-me para conhecer a neve na estação de esqui de Sierra Nevada.

Eu com Clara, Du e Pepe em Granada

Detalhes sobre os maravilhosos passeios deixo para a matéria de turismo que estou preparando. Este texto é para falar sobre como a amizade, esse “amor” sem posse tão gostoso de sentir, tem o poder de ampliar mundos e transbordar o coração de felicidade.

E eu que não sabia que as minhas transcendem oceanos… e me fazem sentir maior que o mundo.

 

 

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Sofrer ensina… aos dispostos

O sofrimento ensina aos dispostos.

Só a eles…

Cheguei a esta conclusão refletindo sobre a espiral de violência que acomete nosso país e, em menor grau – mas não menos preocupante -, os Estados Unidos, com seus episódios de chacina de inocentes por atiradores civis.

A violência se retroalimenta quando as pessoas tentam sobreviver à dor devolvendo à sociedade o mesmo ódio de que são vítimas – adolescentes deslocados atiram em seus bullyers, policiais disparam a esmo em favelas onde seus colegas foram assassinados, criminosos pilham e exterminam a sociedade que os exclui…

De outro lado, mães como Lucinha Araújo e a ribeirão-pretana Marília Castelo Branco semeiam o bem entre outras famílias marcadas pelo sofrimento – a primeira criou a fundação Viva Cazuza, dedicada a atender crianças com a doença que matou seu filho, e a segunda a Síndrome do Amor, para dar suporte a famílias com casos de doenças raras, como a que ceifou a vida de seu Thales.

São exemplos de pessoas dispostas a refletir e a aprender com as próprias dores. Como recompensa, colhem gratidão e amor (o que sentem e o que recebem de volta), que lhes servem como apoios “mágicos”- chamemos assim por ora – para seguirem em frente.

Quem perde entes queridos ou enfrenta algum dos males deste século (depressão, pânico e afins) sabe como é difícil viver com essas dores. Mal comparando, é como tentar caminhar carregando nas costas um fardo mais pesado que o próprio peso.

Sobreviver a elas usando o ódio como apoio é a decisão instintiva, inerente a todas as espécies, por isso mais fácil. No entanto, torna o sofrimento inútil e fatal para a raça humana, pois o multiplica e espalha a dor, como uma epidemia a destruir vidas e desnortear famílias, instalando o caos.

Usar como apoio o amor ao próximo contraria este impulso primitivo, por isso demanda disposição e esforço.

O sofrimento só ensina quando aceitamos a oportunidade que ele abre à reflexão e ao aprendizado através do amor. Ouso dizer que é para aprender isso que vivemos neste mundo tão desigual e cheio de injustiças e ódio. Infelizmente, poucos de nós consegue.

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Feiura exposta

A cada crise que enfrentamos no Brasil, ouço e vejo pessoas vociferando contra o governo – a maioria das vezes com muita razão -, mas o que mais me chama a atenção é a “feiura” que situações-limite como as provocadas pela greve dos caminhoneiros deixa exposta em indivíduos de toda a sociedade.

Sinto uma vergonha misturada com desesperança ver empresários aproveitando-se do desabastecimento iminente para praticar preços abusivos de combustíveis e alimentos, pessoas furando filas nos postos de gasolina, outras estocando só para a própria família provisões que fatalmente farão falta a outras.

Testemunhar esses comportamentos sempre me traz de volta à memória imagens de uma reportagem feita no Japão logo após o tsunami de 2011: cidadãos organizando-se voluntariamente em filas para comprar provisões, respeitando o limite de compras e dividindo o que têm de mais com quaisquer pessoas que tenham de menos.

E sinto inveja!

Ao mesmo tempo me vem um entendimento amargo do porquê sofremos as consequências funestas de redes de corrupção entranhadas por todas as instâncias dos Poderes que nos governam. Na raiz desses comportamentos estão os mesmos sentimentos que motivam os corruptos e corruptores demonizados nos discursos de ódio tão em voga atualmente: um profundo egoísmo e descaso com a sorte do outro.

O pior é que, se aproximarmos uma lente de aumento de pessoas flagradas comportando-se tão egoistamente, descobriremos, quase sempre, cidadãos que se acreditam tementes a Deus e cristãos… que (teoricamente) seguem os ensinamentos de um certo Jesus Cristo, que pregava o contrário do egoísmo.

Não adianta ir para as redes sociais xingar governantes se você não hesita em furar um sinal vermelho ou qualquer fila. Você ajuda a alimentar este efeito dominó da corrupção,  causa de todas as misérias que o cercam. Parabéns!

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