Estou em reforma, desculpe a bagunça

Passei em frente à TV ligada e vi uma cena de novela, como acontece desde que me entendo por gente. Atores brancos e atrizes brancas. Foi só isso que consegui enxergar. E é só nisso que tenho pensado. Onde está população negra do meu país, população que, aliás, é a maior parte dele? Estudei em escolas particulares a minha vida toda. Na primeira, entrei com menos de um ano e saí com quatorze. Tive uma colega negra nesse tempo todo. Sim, eu me perguntava por que só ela. Sim, eu me enfureci quando um menino a chamou de café. “Não passa a bola para a café!” Corri atrás do moleque, chamando-o de leite. “Se ela é café, você é leite, e daí?” Eu devia ter menos de nove anos, foi como consegui agir. Eu não entendia bem o que estava acontecendo, mas sentia que era muito injusto. E me enfureci de novo quando vi que fui a única a me manifestar. “Você ouviu o que ele falou?”, mas a bola já estava em campo de novo, ninguém para dividir comigo a indignação. Tinha algo muito errado e quanto mais comecei a falar, mais comecei a ser vista como uma pessoa que cria problemas.

A mãe de uma amiga uma vez abaixou o vidro do carro para gritar para um menino negro que corria pela calçada. “Pega ladrão, pega ladrão!” Sim, era uma adulta que se deu a esse trabalho. Por pura diversão. Perguntei, de dentro do carro do qual ela tanto se orgulhava (coitada, só teria mesmo coisas materiais para se orgulhar), o que ela estava fazendo, ao que ela me respondeu: “você não sabe? Preto quando corre é porque está fugindo da polícia”. De novo, eu tinha menos de dez anos, e só consegui dizer algo como “credo, não é nada disso.” Ela insistiu, disse que eu ainda não sabia como eram as coisas. Hoje fico feliz em ver que até agora não aprendi como são as coisas do ponto de vista dela. Aliás, quero mais que ela me odeie. Essa visão de mundo não me interessa. Nunca me interessou e passou a me interessar menos ainda depois que me tornei mãe.

E mesmo com todo esse senso de justiça que costuma me guiar (de novo, posso não saber bem o que se passa, mas sinto que não deveria ser assim), não foi sem susto e tristeza que entendi que sou racista. Eu entendi que não tem como ter crescido no Brasil e não ser racista. Sou racista quando me omito, sou racista quando sinto mais medo ao cruzar com um negro do que com um branco numa rua deserta, sou racista quando sou atravessada por pensamentos como “nossa, um juiz negro!; nossa, uma médica negra!”, sendo que nunca ouço uma voz interna dizendo “nossa, um juiz branco!; nossa, uma médica branca!”.  Sim, o racismo está lá, na minha estrutura, no meu inconsciente. É muito mais perverso do que eu podia imaginar.

“Mas, Luciana”, outro dia alguém me falou, sempre em tom de consolo quando me assumo racista, consolo que não busco e que justamente confirma o racismo estrutural, “você trata os negros tão bem, nunca fez nada contra eles”. “Pois é”, respondi, “tratar bem uma pessoa é só questão de educação. Não fazer mal a alguém é só questão de humanidade. A não ser que alguém não considere uma pessoa negra, pessoa. Não é?” Pareceu que não para aquela pessoa, que insistiu, dizendo que ela até abraça e beija a faxineira. E eu olhando para aquela cena na TV, brancos e brancas brancos e brancas brancos e brancas. É só isso que enxergo agora. Como é viver em um lugar onde pessoas com a sua cor de pele são a maioria e nunca são vistas em lugares de poder e destaque? Restaurantes? Qual a cor da pele de quem está comendo e de quem está servindo? Como meus pais nunca me chamaram a atenção para isso? Nas capas de revistas, sejam elas de moda ou de negócios, qual a cor da pele das pessoas destacadas? Nas escolas, qual a cor da pele de quem dirige, de quem ensina e de quem limpa? E assim fui abrindo os olhos e não conseguindo mais fechá-los, a ponto de às vezes perder o sono.

Repasso as escolas onde estudei, os lugares em que trabalhei, os lugares onde estou hoje e exerço alguma influência. Alguma coisa está errada. Muito errada. Aquele silêncio todo da minha infância, como se o racismo não existisse, como se o fato de não escravizarmos mais as pessoas tivesse resolvido a questão, como se abraçarmos as empregadas domésticas bastasse, como se não maltratar alguém só por causa da cor da pele já fosse até mais do que suficiente, e não se fala mais no assunto, não pergunte, não me incomode, não me faça refletir sobre as razões de eu, branco, estar só entre iguais em lugares de poder e destaque, está tudo bem, tudo resolvido, não posso correr o risco de sair desse lugar tão confortável em que estou. E a frase de Angela Davis martelando na cabeça, “não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”, e meu pensamento todo tomado por essa missão.

Preciso desaprender para aprender tudo de novo. Amigas e colegas negras com uma paciência infinita para me ensinar. Não sei como não cortam a minha cabeça branca. Se fossem os brancos, penso, já teriam cortado. E a literatura (a literatura sempre) escrita por negras e negros, me ajudando na desconstrução (salve Cidinha da Silva, minha guia dessa semana). Que das ruínas eu seja capaz de me construir um ser humano melhor. Do jeito que está, já deu.

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1 comentário

    • adriana calabró em 31 de julho de 2020 às 16:18
    • Responder

    Muito verdadeiro e triste. Reconheço a minha história na sua. Obrigada por lembrar da importância de desaprender o tempo todo. De ser antirracista o tempo todo. E de ler…muito…sempre…

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