Mais uma semana no país do passado

Estou me sentindo meio Regina Duarte, o que é horrível. Não, na verdade não é bem Regina Duarte. Porque ela tinha tantas coisas bonitas para falar. E eu não tenho. Ou até tenho. Começou a primavera e não foi sem alegria que percebi que a Terra, mesmo plana, continua girando e as flores entendem que uma estação nova começou. A luz do sol incidiu no gramado, um passarinho veio procurar o resto do meu lanche, uma árvore cujo nome desconheço amanheceu com a copa roxa e eu vi beleza em tudo isso. Vi. Eu juro. E até suspirei. Vi meu filho desligar a tela e andar de bicicleta. Suspirei também. E quase chorei.

Mas tudo isso não basta. Não tem bastado. As mortes ainda são muitas. Milhares. Teve o sete de setembro e o vírus CDF nem ligou para o feriado e foi trabalhar, que coisa! E nem só de COVID se morre nesse país. Os jovens negros nas periferias, por exemplo, continuam morrendo. A última estatística que temos é de 1 morte a cada 23 minutos. Não escrevi errado. Mi-nu-tos. E teve onça pintada nos olhando pelas telas com o olhar de quem morre aos poucos e sem amparo. Porque é assim que se morre no Brasil. Teve céu amarelo de tanto fogo. E aldeias queimadas e indígenas sem ter para onde ir (do pouco que já lhes resta) e parece que essas mortes vão grudando na pele e me pesando e me impedindo o sono e o descanso e a paz e a higiene e a vontade de sair da cama de manhã. Tudo tão seco que nem chorar mais tenho conseguido.

A internet por aqui também continua funcionando, ou melhor, quase sempre, o que é uma coisa boa também em época de isolamento, não? Apesar de que essa semana liguei quase chorando para o suporte da escola das crianças. Porque teve hacker-hater invadindo a aula das crianças. Sim, teve. E tivemos que mudar todos os acessos das crianças e na minha cabeça já não entra mais informação nova e sobrou para o rapaz do suporte que não sabia se me orientava ou me consolava.

E soube de mais invasões em congressos e aulas e seminários e palestras. Xingam as feministas. Xingam quem fala contra o racismo. Xingam quem se preocupa com a situação das pessoas encarceradas. Xingam quem luta contra a violência contra a mulher. Ah, é. Porque isso também não só continua acontecendo como também piorou. Mas xinga-se. Não basta não se preocupar com essas causas. Não basta querer que tudo continue como está ou sempre foi. É preciso ainda impedir que se lute contra toda essa violência. E impedir com mais violência. E não há ficção que resolva porque a boa ficção é boa justamente porque não é alienante. Por isso também o medo dela. Xinga-se quem defende o direito à leitura de literatura. Acaba-se com os programas existentes. Houve até reescrita de histórias para crianças. Porque agora tudo deve ser edificante na literatura. O país, que já era um grande cemitério, tornou-se também um crematório. Mas a literatura, veja bem, não pode mostrar as maldades. Somos tratados como grandes estúpidos incapazes de associar fome com bolacha.

É… eu até queria falar de coisas bonitas. Quem não queria, não é, Regina? Mas se os olhos estão abertos e se há ainda alguma ética, não dá para silenciar. Posso ser ficcionista, mas não sou uma mentirosa ardilosa, o que também teve esta semana.

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