‘Cranford’: adorável como as melhores obras de época

Adoro o modo como as produções de época da BBC reproduzem o clima e as mensagens dos textos que as inspiram. As séries “Cranford” (2007) e “Retorno a Cranford” (2009) – a primeira dividida em cinco episódios de 1h cada e a segunda em dois de 1h30 – são exemplos deliciosos da sutileza com que seus diretores transformam um amontoado de descrições literárias em imagens narrativas.

A primeira, “Cranford”, é uma minissérie em cinco capítulos produzida pela BBC com base em livro homônimo de Elisabeth Gaskell, mostra a vida no pequeno povoado inglês que dá nome à obra, extremamente regrada e conduzida com base em regras rígidas de conduta social.

No começo assistimos com olhar crítico à repetição de costumes tão arraigados naquela sociedade dominada por matronas. Todas as ações são vigiadas e interpretadas segundo regras tácitas de comportamento, que acabam metendo forasteiros como o novo médico do povoado em muitas armadilhas e induzem solteironas mal afeitas a hábitos de outras terras a enganos. Mas à medida que esses enganos e armadilhas vão colocando em apuros seus próprios habitantes, a solidariedade, a generosidade e o espírito de corpo vão se sobrepondo à rigidez dos costumes, revelando uma humanidade até então insuspeita por baixo daquele verniz social.

É um produto leve, bucólico, romântico, ao gosto de quem, como eu, aprecia leituras como as de Jane Austen.

Já em “Retorno a Cranford” (2009) vai na mesma linha e tocou-me, particularmente, com a sequência em que a idosa Miss Mathis aguarda pacientemente, ao lado da afilhada Mary e do empreiteiro Mr. Brown, a chegada de alguns dos mais antigos moradores do vilarejo para uma pequena excursão de locomotiva. Todos são refratários à ideia da ferrovia, que promete mudar o traçado da localidade e – pecado dos pecados! – trazer mudanças àquela sociedade de costumes seculares e inflexíveis.

As cenas da excursão são um primor de simbolismo do que significou para aquela bondosa senhora – e para toda a época e sociedade que ela representa na história – abrir-se para o novo, a mudança.

Por toda a série os moradores do vilarejo são confrontados com questões que opõem tradição e bom senso, convenções e sentimentos, emoção e razão, cada episódio mostrando o quanto a boa vontade e o cuidado para com o outro é capaz de contornar o mais espinhoso problema ou questão social.

Adorável!

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