O Café da Dona Aurora

Dona Aurora era uma senhora bem idosa, de cabelos branquinhos como algodão, que morava com o filho na casa ao lado da minha. Como o filho trabalhava, ela passava o dia todo cuidando da casa e fazendo crochê com uma agulha muito fininha.

Eu era criança, e uma das coisas que eu mais gostava era olhar as flores do jardim de dona Aurora. Os pezinhos de violeta eram minha paixão, as pequenas flores ficavam embaixo das folhas e exalavam um perfume inesquecível, inebriante.

Dona Aurora era espanhola e eu adorava o sotaque dela.

Todos os dias, depois de voltar da escola e fazer a tarefa que ninguém conferia, eu batia palma no portão de Dona Aurora e ela sempre amável me convidava para entrar. Então, eu passava um bom tempo sentada numa poltrona na sala, perto dela, vendo-a e admirando como ela fazia crochê com uma agulha tão fina. Um pontinho minúsculo atrás do outro e ela ia fazendo as toalhinhas delicadas.

Mas outras coisas me encantavam naquela casa. Eu gostava de perambular até a cozinha só para ver a tigela de vidro cheia de água com os legumes descascados e picados todos do mesmo tamanho, em cima da pia. Ela dizia que era para fazer a sopa quando o filho voltasse do trabalho.

Então, quando chegava a hora do café da tarde, ela preparava leite condensado com café e me dava uma xícara. Para mim, era um deleite, pois em minha casa não havia leite condensado.

Um belo dia, fiz propaganda do leite condensado , e meu irmão – também criança – quis ir comigo. Sentamos os dois na sala e esperamos o café. Muito amável, ela fez uma xícara para cada um.

Daí pra frente, todos os dias, eu e ele com a maior sem cerimônia, chegávamos e ficávamos sentados, os pés balançando mal tocando o chão – esperando a hora do café.


‘Então, quando chegava a hora do café da tarde, ela preparava leite
condensado com café e me dava uma xícara. Para mim, era um deleite’


Não sei o que ela pensava ou sentia. Criança não se importa muito com essas coisas, nunca imaginam estar incomodando. No nosso caso, queríamos apenas beber aquele café delicioso cheio de leite condensado.

Um belo dia, minha mãe saiu de casa e resolvemos fazer um agrado a dona Aurora, uma retribuição pelo café. Pegamos dois mamões verdes no quintal e fizemos um doce, na verdade uma gororoba, uma sopa de mamão. Arrumamos a mesa com pratos e talheres e chamamos dona Aurora para comer. Ela foi. Sentou-se à mesa com requinte, como convidada de honra.

Meu irmão encheu um prato para ela com a sopa de mamão e ficamos os dois em pé, como dois soldados, de frente para ela, esperando o resultado. Devia estar péssimo, porque de vez em quando ela parecia estar engolindo um pedaço de sabão. Mas comeu tudo, sorriu, agradeceu e foi para casa cambaleando, apoiada na bengala.

Não sei se passou mal, teve dor de barriga ou o quê. Só sei que nós dois ficamos muito felizes por ter retribuído os tantos cafés com leite condensado que ela nos dava.

Lavamos os pratos, deixamos tudo como estava e tivemos de jogar fora o que sobrou da gororoba para não deixar nenhum vestígio. Minha mãe nunca soube disso. Mas eu lembro sempre, quando tomo café e quando vou fazer pudim.

 

 


A jornalista e escritora Matilde Leone publica sua crônica na seção “Delírios de Matilde” sempre às sextas-feiras.

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