À altura da História!

Estou escrevendo aqui e ainda não parei de chorar… e de arrepiar… relendo as frases com que parentes de cada um dos 10.627 mortos oficiais por covid-19 (até ontem) os descrevem no memorial virtual que o jornal O Globo publicou hoje.

“Ele dava nos filhos um abraço-casa, carinho que aquecia o coração” (Claudio Leal de Almeida, 76)

“Gatinha, eu te amo muito, declarava ele à sua esposa” (Anderson Estevão, 54)

Uma boa amiga, que amava gatos” (Ágatha Santos, 25 anos)

“A Esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar” (Aldyr Blanc)

“Todos os dias ia à casa de sua mãe para tomar sua benção” (Dalva Maria Portilho da Mara, 59) – e choro pensando em como deve estar se sentindo essa mãe sem filha neste Dia das Mães!

Imagino como eu conseguiria descrever meu marido… ou minha mãe, ou meu pai ou qualquer uma das minhas irmãs ou sobrinhos… em uma só frase se fosse algum deles ali (não… não conseguiria!) e choro de novo. – e arrepio de novo. – e me sinto dentro daquela poesia do Fernando Pessoa, me “extraviando de tanto sentir*… e de admirar a fortaleza desses parentes que carregam seu luto por aí, sobrevivendo a ele.

O momento que estamos passando vai ficar marcado na história da humanidade e a capa de O Globo de hoje fez um jornalismo à altura dele. Ao mesmo tempo que homenageia nossos mortos (são nossos, de todos nós!), responde da forma jornalística mais linda – especialmente a um presidente que desfila sua cruel indiferença a bordo de jet skis e piadas de mau gosto – que essas vidas importam SIM!

E quem é “bicho de redação” (como eu) sabe o esforço hercúleo que deve ter sido captar 10.627 (!!!) frases para lembrar essas vidas. Não se trata só do tempo e do trabalho que consumiu, mas de como abordar outro ser humano em um momento vulnerável de dor. Também é doloroso – e constrangedor – para o jornalista (sim… também temos coração).

Parabéns a todos os colegas que participaram disso (é orgulho alheio que fala?!).

Obrigada, O Globo, por ter tirado esse choro de dentro de mim… por mostrar que o jornalismo ainda é capaz de ser humano e grandioso!

Obrigada!


(*)
“Quando olho para mim não me percebo
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo”
in “Três Sonetos – I” Álvaro de Campos – Livro de Versos . Fernando Pessoa. 1915

 

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