Os 250 anos de minha autora favorita!

Dia 16 de dezembro próximo marca o ápice das celebrações pelos 250 anos de nascimento da escritora inglesa Jane Austen, mundialmente conhecida por romances como “Orgulho e Preconceito”, “Razão e Sensibilidade” e “Emma”, adaptados por indústrias audiovisuais mundo afora. Em Ribeirão Preto, a Biblioteca Sinhá Junqueira (BSJ) adere às comemorações com a exposição “Thank You Jane!”, elaborada pela professora universitária Natália Corrêa Fadel Barcellos, que fica até 30 de novembro no espaço.

Graduada em Letras com habilitação em alemão, inglês e português; mestrado, doutorado e especialização em língua e literatura alemãs – que leciona na Unesp (Universidade Estadual Paulista) Araraquara –, Natália também é uma apaixonada pela literatura inglesa de época de autoria feminina, que inclui, além de Austen, as irmãs Brontë – Charlotte, Emily e Anne –, Mary Shelley, entre outras contemporâneas delas. Tanto que já ministrou, na Unesp, oficinas imersivas que incluíram vivências das obras e de fazeres femininos da época em que tais autoras viveram.

Nas oficinas e palestras sobre Jane Austen, a professora gosta de propor um exercício: a leitura da famosa primeira frase de “Orgulho e Preconceito” (veja destaques), seu mais famoso título, em exemplares diferentes, que variam conforme a editora. Consegue assim exemplificar como as traduções para o português de uma mesma obra podem diferir entre si.


“É UMA VERDADE UNIVERSALMENTE RECONHECIDA QUE UM HOMEM SOLTEIRO, POSSUIDOR DE UMA GRANDE FORTUNA, DEVE ESTAR EM BUSCA DE UMA ESPOSA.”

Primeiro parágrafo de “Orgulho e Preconceito” em edição da Landmark Editora


Não por acaso Natália atribui à profusão de traduções “ruins” dos livros da inglesa a fama de “romances açucarados”, que considera reducionista. Para ela – e esta que escreve – quem aprecia literatura, especialmente de época, saboreia na obra de Austen uma afiada crítica social e de costumes e um sarcasmo disfarçado em meio à sua prosa inteligente, sofisticada e bem escrita. São camadas, porém, que podem se perder com uma tradução malcuidada.


“UM HOMEM SOLTEIRO E RICO PRECISA DE UMA ESPOSA”

Mesmo parágrafo e mesma obra em edição da editora Pé da Letra


Natália Barcellos e eu na exposição organizada por ela, na BSJ

“Se há 20 anos existia uma euforia a respeito das adaptações, para atrair o público jovem, hoje há uma preocupação enorme por estarmos vendo que estão levando a um entendimento muito enviesado a respeito da obra dela”, diz a catedrática. Por isso, segundo Natália, os 250 anos de Jane Austen estão sendo celebrados pela comunidade acadêmica com a preocupação de colocar o legado da escritora no lugar em que deve e merece estar: de uma literatura clássica universal de grande qualidade. “Por que se diz que uma literatura é de caráter universal? Porque ainda nos diz muitas coisas, hoje, mesmo tendo sido escrita há muito tempo, e porque temos como ler e não tomar aquilo como uma verdade, mas um convite para fazermos nossas próprias reflexões. E Austen é fundamental para isso nesse caminho de autoria feminina”, explica.

 

Adaptações levam à leitura

O fato de as obras da escritora inglesa da era georgiana serem de domínio público – significa que podem ser reproduzidas, distribuídas ou adaptadas por qualquer um, sem autorização ou pagamento de direitos autorais – tem facilitado a vida de editoras interessadas em lucrar com sua popularidade. “Aí fazem todo um marketing: colocam um papel bonito, capa dura, mas, de um modo geral, infelizmente, essas novas traduções são ruins”, lamenta Natália Barcellos.

As adaptações dos livros de Austen para TV e cinema, nas últimas décadas, são as grandes responsáveis por sua popularização e muitas vezes contribuem para aquela fama “açucarada” ao fecharem o foco apenas no romance – que é, sim, o gênero condutor de suas histórias, mas não seu aspecto mais interessante. Por outro lado, têm o mérito de funcionarem como eficientes chamarizes para as obras literárias que as inspiram. Já se o espectador-leitor terá a melhor experiência neste caso, dependerá da tradução a lhe cair nas mãos.

Entre o diminuto público que compareceu à palestra de abertura da exposição “Thank You Jane!”, com Natália, no último sábado (8), estavam leitores de sorte: as três pessoas ouvidas pela reportagem tiveram acesso a traduções que as fizeram acessar os melhores atributos da prosa Austeniana, que que aprenderam a amar! A psicóloga e empreendedora cultural e social Luciana Cosentino Rocha conta tê-la por volta dos 20 anos, graças a uma amiga que amava literatura inglesa e americana e fazia intercâmbio nos Estados Unidos. Lembro d’ela falar: ‘gente, como eu nunca fiquei sabendo dessa Jane Austen antes?’ Aí eu comecei a ler ‘Orgulho e Preconceito’ e depois busquei o outros. Eu amo o jeito dela escrever, com aquela ironia, aquela coisa meio engraçada e crítica, mas com leveza, que vai levando a gente.”, comenta.

Branca Miranda chegou à sua primeira leitura da autora através da filha, que, por sua vez, havia ouvido/visto falar de suas obras em um dos muitos grupos de literatura dos quais participa na internet. “O que mais gostei na escrita dela foi perceber um feminismo ali presente, que faz refletir sobre as mulheres na sociedade da época… como eram impostas coisas que nem sempre eram legais para elas, como casamento, a maneira desse casamento acontecer e a questão de não terem direito a receberem herança, de terem que se casar para isso”, diz a pedagoga Maria Carolina Miranda.

Todas aprenderam, na palestra, que Jane Austen esteve longe do perfil “bela, recatada e do lar” prevalescente em sua época, tinha opiniões fortes sobre si e o mundo ao seu redor e sabia embuti-las em sua escrita, com maestria e muita graça.

Retrato de Jane Austen feito com base em ilustração de sua irmã, publicada em “A Memoir of Jane Austen”, de 1870

 

A professora universitária Natália Barcellos: preocupação com legado da escritora, nascida há 250 anos

 

Branca e Maria Carolina Miranda: mãe e filha compareceram à abertura da exposição “Thank You Jane!”, da Biblioteca Sinhá Junqueira