Pensar com os pés e olhar as estrelas

SHEILA CRISTINA GUIMARÃES *

Quando criança olhava para o céu, contemplava as estrelas e pensava no porquê de ter nascido onde nasci, na casa onde morava, na família que tinha, na cidade onde vivia.

A minha dimensão do mundo naquela fase da vida era bem diminuta, não ía muito além desse universo cotidiano e dos poucos quilômetros percorridos entre uma visita familiar e outra. Ainda assim, ficava curiosa em saber como viviam as pessoas em lugares diferentes do meu.

Pessoas curiosas ou com ideias fixas não têm muito jeito, seguem vida afora com essa forma de buscar a vida e os porquês.

Do alto dos meus crescidos anos, numa palestra que assisti uma vez, ouvi do Frei Beto uma frase que fez todo sentido para mim: “pensamos de acordo com o lugar onde pisamos”. E a luzinha do olhar que contemplava as estrelas se acendeu imediatamente naquele momento. Daí a encontrar uma forma de descobrir por mim mesma as respostas que buscava levou alguns anos de andanças pelo cotidiano da vida.

E foi justamente nas andanças que descobri o universo da peregrinação. O Caminho de Santiago foi a minha estreia na modalidade de percorrer caminhos a pé levando uma mochila nas costas. Um verdadeiro experimento de vida, tudo novo para mim: país, pessoas, comidas, lugares, carregar peso nas costas, percorrer estradas e cidades à velocidade dos pés. Foram 30 dias repensando a minha existência, pesando significados e traçando novas rotas para a minha vivência neste mundo.

Desde então, outros Caminhos foram percorridos e muitas histórias entraram para o repertório da minha alma. A peregrinação virou paixão associada à curiosidade infantil inicial, abrindo um vasto caminho de aprendizados e inúmeros amigos de diversos lugares do mundo invadindo o espaço do meu coração. Mais do que tentar entender como vivem as pessoas em suas geografias, pisar no mesmo solo que elas, olhar as estrelas e compartilhar momentos de vida, numa troca de “humanidades”, preenche de sentido as lacunas dos meus questionamentos.

 

* Sheila Guimarães
Jornalista, designer gráfica, mãe da Marina,
avó da Helena e “peregrina mundo afora


 

 

Toda semana o blog traz a crônica de um(a) ‘palavreiro'(a) convidado(a). O convite é extensivo a todos que gostam de palavrear a vida em forma de crônicas.

“VEM PALAVREAR COM A GENTE!”

 

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6 comentários

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    • Francisleine Galesco em 16 de agosto de 2017 às 18:57
    • Responder

    Emocionante, Sheila!
    Tenho grande admiração pelos peregrinos. O desapego, entrega e amor os fazem ainda mais admiráveis .
    Parabéns !!!
    Beijão .

    • Sandra em 6 de agosto de 2017 às 20:05
    • Responder

    Adorei!!! É mais do que o caminhar…É se reencontrar consigo mesma! Texto excelente!!!

    • Kele Morais em 4 de agosto de 2017 às 21:15
    • Responder

    Enquanto peregrina mundo afora, transforma o seu mundo e o mundo de muitas pessoas que cruzam seu caminho.

    1. …uma troca quase mágica de “humanidades”. Gratidão!

    • Márcia Intrabartollo em 4 de agosto de 2017 às 13:54
    • Responder

    Escrito com emoção, com o coração

    1. Lembrei da Cora Coralina
      “Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas”

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