Que dia é hoje?

Escrevo às quintas para o texto ser publicado às sextas. Quando entrego o texto já penso no próximo. Às vezes escrevo um na segunda, mudo na terça, escrevo outro na quarta e na quinta tudo o que escrevi não serviu de nada. Sempre sai um texto novo. E hoje, enquanto escrevo, é quinta, mas passei o dia, até este momento, na quarta. Acordei na quarta, tomei café na quarta, trabalhei na quarta, almocei na quarta e estou quase indo dormir… na quinta. Porque é quinta. E é julho. E já passou da metade de julho e da metade do ano e nessa semana mesmo eu me peguei pensando qual estação viria depois do verão, como se eu estivesse no verão. Porque foi no verão que nos trancamos em casa. E essa semana assisti a uma aula sobre tempo e espaço na literatura.

Passei a semana pensando na G.H., criação de Clarice Lispector. E assisti ao filme “Nostalgia da Luz” (obrigada, Luana Chnaiderman). O presente não existe, de acordo com os astrônomos. Estamos sempre no passado. Viu? Já passou. Devo ter ficado tão impregnada desta ideia que resolvi passar o hoje no ontem. Confesso que estou me sentindo uma criança desgarrada da mãe no meio de um shopping center.

Já faz algumas semanas que vivo com a sensação de ter perdido algum compromisso importante. Checo os e-mails, o Whatsapp, o Facebook, o Instagram, nenhum recado. Se perdi, certamente não era importante, mas a partir dessa sensação ganhei uma neurose nova: checo os e-mails e o Whatsapp freneticamente, com medo de ter deixado passar alguma informação que não poderia ter passado. Checo mensagens com mais frequência do que passo álcool gel. Tenho escrito mais lembretes para mim mesma. E mesmo assim passei hoje no ontem. Estou sugestionada pelas férias escolares das crianças? Precisarei me deixar bilhetes me lembrando de checar o dia da semana? Eu, já tão cheia de agendas e de alarmes, não terei me dado hoje, na verdade, de presente? Será que deixei de pagar alguma conta? Qual neurose nova ganharei amanhã?

Amanhã é sexta, acaba de me ocorrer, o que não tinha me ocorrido nesta manhã, por exemplo, e descobrir que amanhã é sexta é sempre uma alegria, ainda que eu vá continuar no exato lugar em que estou agora. Mas sexta parece que sempre vai ser sexta, ao mesmo tempo em que ficar alegre porque é sexta só me faz pensar na mediocridade que é viver uma vida pautada pelo trabalho. Essa divisão horrorosa entre dias úteis e não úteis, quando a vida acontece mesmo é dentro da gente. E o dentro da gente, como acabei de viver, é muito maior que qualquer tentativa de classificação burocrática. Em meio a tantas tristezas, perder-se no tempo pode ser uma pequena alegria.

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